domingo, 19 de fevereiro de 2012

ERA UMA VEZ UM BATACLÃ



Graduação concluída e ela resolvera continuar seus estudos na área de Genética Animal que muito lhe agradava. Os momentos dedicados às pesquisas eram especiais e curtia muito “por a mão na massa” como dizia.
Enquanto os estudos teóricos eram feitos na Universidade em São Paulo, a parte prática era desenvolvida num pequeno laboratório localizando no então chamado Horto Florestal de sua cidade.
Passava horas numa sala fechada e com temperatura controlada, mexendo, remexendo e observando seu material de pesquisa - as pequenas drosófilas mais conhecidas como moscas das bananas. 
Vidros, algodão, equipamentos de esterilização, lupas e material para meio de cultura completavam o cenário daquela sala escurecida com papéis pretos nas janelas evitando-se assim a visita do Sol e sua interferência nos estudos ali desenvolvidos.
Com cronômetro em punho lá ficava ela analisando e anotando o tempo e estratégias de corte que o macho fazia à fêmea como também quantos minutos duravam os acasalamentos dos bichinhos. A cada semana novas linhagens eram obtidas e novos dados enriqueciam a pesquisa.
Em pouco tempo sua sala passou a ser chamada de Bataclã devido às semelhanças de atividades que ocorriam nela e na famosa casa noturna descrita por Jorge Amado em seu romance Gabriela, Cravo e Canela.  Pensando bem talvez faltasse uma certa luz vermelha para a semelhança ser maior.
As pequenas drosófilas passaram a fazer parte de seus dias, o mesmo ocorrendo com sua amiga desde os tempos de colégio que também optara por continuar seus estudos em Genética.
Diferente dela porém, sua companheira desenvolvia um trabalho de campo. Semanalmente se dirigia para o mato entre plantações de eucaliptos e pinheiros para coletar e depois analisar as diferentes espécies dessas mosquinhas encontradas na região, atraídas que eram para esses locais por iscas lá deixadas no dia anterior.
Certa feita a amiga necessitando fazer a tal coleta e receando entrar sozinha no mato, solicitou à companheira que fosse junto no que foi prontamente atendida. Lá foram ambas, vidros e puçá em mãos se enfiarem entre arbustos e árvores.
Preocupou-se em levar junto um grande facão para alguma eventualidade mas ao contrário da amiga, descuidou-se com algumas pequenas medidas de segurança como, por exemplo, calçar botas de cano alto. É bom lembrar que naquelas priscas eras, a moda ditava calças compridas com pernas bem largas.
Em meio à coleta enquanto a amiga entusiasmava-se com a quantidade de mosquinhas, ela sentiu a princípio o que seriam leves cócegas em sua perna direita logo abaixo do joelho.  Não deu muita atenção, mas a sensação de cócegas começou a subir até chegar à coxa.
De repente um arrepio gelado percorreu sua espinha de cima abaixo. 
Com certeza um animal havia entrado por dentro de suas calças e agora passeava tranquilamente sobre sua coxa direita. 
Apavorada deu um grito sem saber se deveria apertar ou não por cima da roupa mesmo, aquele animal que andava em seu corpo.
Se fosse um escorpião ou aranha o risco de levar uma picada seria ainda maior.
A amiga veio em seu auxílio pedindo que tirasse as calças rapidamente.
Como assim???   Abaixar as calças ali no mato??? 
Já era conhecida como a dona do Bataclã e agora isso, virar uma stripper a céu aberto??  
Lembrou que nas proximidades outros professores também costumavam fazer suas coletas. Enquanto olhava para ver se havia mais alguém por perto, sua amiga tomada pelo pânico arriou suas calças em segundos.
Foi com cara de abestada diante daquela cena insólita e inesperada que ela viu um saltitante gafanhoto sair todo lampeiro de dentro de sua roupa, sumindo mato adentro.
Respirou aliviada e por instantes até se esqueceu de sua situação no mínimo vexatória. Agradecendo a presteza da amiga vestiu novamente as calças e tratou de voltar rapidinho ao aconchego de sua sala.
Com certeza era bem mais seguro administrar seu Bataclã!

Santos, 19 de fevereiro de 2012  




Para Vera, amiga de tantos anos e companheira de muitas façanhas.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

APEGOS E DESAPEGOS

        Recentemente lendo um blog encontrei um poema que falava sobre um coração partido em mil pedaços.
      Parei de ler por alguns instantes.
      Quantas vezes não ouvimos esse lamento de alguém ou mais ainda, quem de nós já não sentiu isso ao menos uma vez na vida?
      Diversos motivos como mágoas, perdas, despedidas, decepções, provocam aquela sensação de aperto no peito desencadeando uma dor que chega a ser física, que rompe por dentro dando a exata sensação de coração partido em mil pedaços.
      A sequência da leitura do texto trouxe uma surpresa.
      A autora não lamenta o fato, ao contrário, posiciona-se de tal forma que essa quebra dolorida, passa a ser reconfortante e gratificante. Não se preocupa com reparos e consertos. Esclarece que assim partido em tantos pedaços, seu coração poderá se espalhar pelo mundo inteiro.
      Parei novamente a leitura.
      A imaginação abriu asas, levantou voo e partiu para o infinito levando um coração para distribuir em cada cantinho do mundo. Uma sensação gostosa e reconfortante me invadiu ao pensar que um pedaço de mim, mesmo pequenino, pudesse estar presente na vida de muita gente, trocando emoções, alegrias, tristezas, doando e recebendo amor. Um coração que assim partido não liberaria fel ou lágrimas fechando-se num peito apertado.  Diferente disso se espalharia pelo mundo sem apegos, sem sentimentos de posse.
     Utopia?
      Olhos novamente voltados ao poema que confessava tanto desapego e logo encontrei uma frase que de imediato resumiu toda mistura de sentimentos - "...amar em milhões de pedaços um inteiro...".
      Finalizando a leitura observei que os últimos quatro versos foram escritos por outra pessoa que provavelmente levada pela emoção das palavras lidas, deu vazão a seu lirismo e sensibilidade.
      Utopia?
      Sim, pura utopia que continuará soberana enquanto o horizonte limítrofe do EU não for rompido pela importância e necessidade do NÓS!


Santos, 12 de fevereiro de 2012  




CORAÇÃO PARTIDO
Eu tinha um coração partido
Para falar a verdade ainda o tenho
E não faço questão alguma de consertá-lo
Prefiro quebrá-lo novamente em mil pedaços
Assim posso deixá-lo pelo mundo inteiro
E amar o que em cada pedaço cabe
E amar em milhões de pedaços um inteiro
Amando sem medo, amando de verdade
Amando o amor que é a liberdade.


Débora Vasconcelos e Ricardo Rossi
Blog: Extremos de Mim 
http://extremosdemim.blogspot.com

domingo, 29 de janeiro de 2012

APUROS SOB O MAR


A expectativa era grande afinal iriam atravessar o Canal da Mancha sob a água, dentro de um trem numa velocidade em torno de 300 Km/h.
Será que daria para observar o momento da submersão?
Será que daria alguma sensação claustrofóbica?
Será que lá embaixo seria bem silencioso?
Será...será..será...???
Muitos “serás” passavam por suas cabeças enquanto aguardavam o embarque na bela estação ferroviária londrina St. Pancras.
Chegado o momento tão aguardado o grupo todo, sempre arrastando suas malas, procura o número do vagão para a viagem com duração de 2 horas e quinze minutos.  Os horários são cumpridos à risca por lá.
Poltronas localizadas malas devidamente guardadas e todos a postos para a viagem ansiosamente aguardada.
Seguindo o horário programado, o trem de alta velocidade partira levando centenas de passageiros para Paris.
Em meio a toda essa empolgação ela começara a sentir certo desconforto abdominal logo após o embarque. Entretida com tanta novidade não dera muita importância para aquilo.
A paisagem londrina se distanciava e antes que todos percebessem, já estavam trafegando pelo túnel ferroviário submarino subterrâneo com seus 50,5 Km de extensão.
As acomodações, o atendimento e o conforto não permitiam que a viagem se tornasse cansativa e a despeito de não haver nenhuma paisagem desfilando pelas janelas do trem, só a ideia de se estar sob o mar já causava uma emoção à parte.
Foi aí que ela começara a ficar preocupada.
O desconforto que a princípio era abdominal passara a ser desconforto...intestinal.
A princípio ficara surpresa já que muito raramente passava por esse tipo de problema fora de casa ou de locais onde estivesse hospedada.  Tentara distrair-se com joguinhos no computador, mas sentindo que a situação só piorava, concluíra que o melhor a fazer era se deslocar até o banheiro do vagão e foi o que fez.
             Com o problema orgânico resolvido ela deparara-se com outro contratempo, mas agora de ordem técnica.  No pequeno espaço do banheiro apertava e mexia nos botões, válvulas e alavancas que via na tentativa de provocar a descarga no vaso sanitário. Tudo em vão.
Trancafiada no pequeno espaço há algum tempo e após várias tentativas, abrira a porta e aproveitando que um rapaz de seu grupo estava ali perto, pediu-lhe ajuda. Novas tentativas sem sucesso até que ele dera o caso por perdido e concluindo que a descarga deveria estar quebrada, voltara a sentar-se em seu lugar.
Ela ainda ficara mais um tempinho tentando resolver o problema até que também se dera por vencida e decidira sair do banheiro.
Foi quando topou de cara com três homens muito bem apessoados, já fazendo uma mini fila na porta do banheiro.  O primeiro dava até uns passinhos de dança e talvez cantasse mentalmente... ”ai, ai...assim você me mata” ...mesmo porque tal música era ouvida com constância por lá.
E agora, o que fazer?
Sair na maior tranquilidade e deixar que eles fossem digamos, surpreendidos???  
Ou evitar um grande constrangimento já que ela era a última a ter usado tal local???
Ainda segurando a maçaneta da porta para evitar que alguém entrasse, pensou rapidamente como se expressaria em inglês para avisar do problema técnico na descarga.  Claro que seu “rico” vocabulário shakespeariano não ajudou em nada e como a situação exigisse rapidez de comunicação, optara pela mímica onomatopaica, se é que isso existe.
Apontando o interior do banheiro pronunciara um sonoro CHUÁÁÁÁÁÁ ao mesmo tempo em que fazia um sinal de negativo com o polegar da mão direita.
Bingo!
Nem precisara repetir os gestos. A expressão de desespero no rosto do primeiro da fila, aquele que já dançava, indicava que havia entendido muito bem o que se passava e antes mesmo que ela soltasse a porta, partiu em desabalada carreira vagão adentro com certeza procurando outro banheiro para usar.
Os outros dois homens o seguiam, mas não com tanta pressa.
Antes que nova fila se formasse a sua frente correra também para sua poltrona, lá permanecendo quietinha.  No final da viagem veio, a saber, por outra pessoa do grupo que o problema estava resolvido.
Lembrando-se que acabara de atravessar o Canal da Mancha ela riu sozinha já que de certa forma havia contribuído para aumentar a tal mancha!!!!

Santos, 29 de janeiro de 2012. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

MICO ABENÇOADO

O planejamento para a viagem no final do ano começara há um bom tempo.
Documentos, roupas, malas, cartões pré-pagos e uma boa dose de ousadia já que o domínio das línguas estrangeiras não era lá essas coisas.
Claro que no final sempre acaba dando certo, mas às vezes, até chegar-se a esse ponto, alguns tropeços e muitas risadas sempre acontecem.
Já na primeira conexão em terras portuguesas houve o primeiro apuro.
O tempo entre o desembarque e embarque na nova aeronave era razoável mas sem grandes folgas. Seguindo as indicações constantes nas placas que encontravam pela frente, o grupo foi se deslocando por um corredor imenso, interminável e ficando cada vez mais desconfiado que algo estivesse errado.
Dito e feito!
No final do corredor, após terem arrastado malas seguramente por quase um quilômetro, perceberam que o portão de embarque que procuravam havia ficado para trás.  Mas onde estava a placa com o tal número do portão já que ninguém a vira?
Surpresa! 
Ao retornarem pelo mesmo caminho, novamente arrastando malas e carregando mochilas e casacos (a essas alturas já havia até dado calor), viram que num certo momento o corredor tinha uma bifurcação e a indicação do portão desejado estava lá, já na curva do corredor, ou seja, colocada fora do campo de visão de quem havia desembarcado e iria fazer conexão.  Quem sabe se tivessem olhos nas costas, não teriam passado reto por ela e nem fariam o primeiro “Cooper” da viagem?
Chegando ao destino final o que se previa que pudesse causar transtornos ocorreu na maior normalidade. Provavelmente o serviço de imigração olhando para aquela turma concluiu que não tinham a menor pretensão de se estabelecerem em terras inglesas, mesmo tendo percebido que boa parte do grupo conseguia falar fluentemente the book is on the table.
O roteiro programado foi sendo cumprido trazendo belos e inesquecíveis momentos. Museus, prédios de arquitetura gótica, obras de arte, palácios famosos, castelos, igrejas antiquíssimas, cidades medievais e séculos de História acumulados em cada lugar visitado do velho continente. Tudo muito surpreendente.
Paralelamente a toda essa maravilha há que se ressaltar um detalhe.
Durante os deslocamentos de uma cidade à outra um barulho começou a perturbar (isto para não dizer traumatizar) o grupo todo.  Era o ruído provocado pelas rodinhas das malas deslizando pelo calçamento nos trajetos até as ferroviárias.  Levando-se em conta que em vários locais havia uma escadaria a ser verdadeiramente escalada e que o peso das malas aumentara ao longo dos dias, o tal ruído das rodinhas chegava a causar arrepios.  Creio que o faça até hoje.
Como soi acontecer, momentos de reflexão, de lazer e de pura cultura por vezes eram interrompidos por alguma trapalhada. Restaurantes foram palcos de vários micos, assim como o metrô de Viena onde por conta de um casaco caído nos trilhos os trens foram paralisados, luzes vermelhas começaram a piscar enquanto alarmes disparavam diante de preocupados olhares austríacos querendo saber o que se passava. Somente os quatro turistas parados na plataforma faziam a maior cara de paisagem.
Para finalizar, até uma catedral gótica construída no século XII e que sobreviveu a muitas guerras, não passou incólume diante da visita do grupo e acabou servindo de palco para o que podemos chamar de um mico abençoado.  
Ao entrar em seu interior, em sinal de respeito, ele tirou o gorro de couro e pele que trazia na cabeça. Por alguns instantes o segurou nas mãos, mas diante da beleza do lugar resolveu fazer algumas fotos.  Olhou para os lados e viu o que para ele seria uma mesa de pedra, local ideal para apoiar o tal gorro e assim manter as mãos livres para dar seus cliques profissionais. Mal havia focado o teto do templo quando notou com o canto do olho, que seu gorro deslizava altaneiro sobre a mesa. 
Olhou intrigado e somente nesse momento notou que na verdade o que ele julgara ser uma mesa era um tipo de bacia cheia de água benta sobre a qual o gorro peludo, triunfante, navegava tal qual um perfeito navio viking partindo para mais uma conquista.
Rapidamente recolheu seu pertence dando-lhe umas batidas para escoar a água, não sem antes dar aquela clássica e constrangida olhada para os lados para ver quantos haviam notado o mico e riam de sua situação.
Saiu da igreja feliz.
Agora trazia na cabeça um chapéu que além de aquecê-lo, estava abençoado.

Santos, 22 de janeiro de 2012   

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

UMA DÚZIA

Uma dúzia!
Exatamente no sábado, dia 21, fará uma dúzia de anos que você chegou. Olhos arregalados, claros, cabelos loiros encaracolados e já marcando presença pela graça e beleza. 
Por não lhe ver com frequência, em cada encontro sempre havia novidade: seu desenvolvimento, suas primeiras palavras ou algo que aprendera a fazer. Lembro que me preocupava quando você se aborrecia, pois punha literalmente a boca no trombone para quem quisesse ou não quisesse ouvir.
Primeira visita a Santos, primeiras brincadeiras no mar: no início com certo receio, mas depois até ousada demais a bordo de uma prancha. 
Chegou o tempo da bicicleta com rodinhas laterais. Lá chegavam vocês com a bike toda presa na parte traseira do carro.  Pedalando e tentando equilíbrio que demorou um pouco, mas veio com certeza, lá sumia você atrás dos arbustos mais crescidos desse jardim que olho nesse momento. 
Quando passou para a bicicleta um pouco maior e já sem apoios laterais, era comum perder-lhe de vista por alguns instantes e quando a preocupação já começava a chegar, lá longe apontava uma cabeleira loira brincando no vento.
Nos caminhos entre os canteiros do jardim já patinava com tanta desenvoltura que cheguei a achar fácil tal esporte. Bastou colocar um único pé de patins para sentir que não fui feita para andar sobre pequenas rodinhas. Capenguei um pouco patinando num só pé (lembra?) para matar a vontade, mas não me atrevi a fazer mais do que isso.
E assim, ano após ano, as brincadeiras foram se alterando seguindo novos gostos e opções.
Não demorou muito para ultrapassar-me em altura mesmo porque, convenhamos isso não é assim tão difícil. Entretanto uma vantagem consegui manter: ainda sou maior na largura....rs
Mais um tempo se passou e agora uma mistura de escolhas se observa em seu dia-a-dia. Brinquedos passam por suas mãos intercalando-se com livros, muitos livros.  Não mais aqueles coloridos, com mais imagens e pouco texto, mas sim romances dirigidos ao público jovem e até adulto. Você se apaixonou pelos livros!
Em 12 anos muita coisa aconteceu!
Quantas mudanças físicas, emocionais, comportamentais e quantas ainda estão por vir!  
Que sejam mudanças altamente positivas, que suavizem seu caminho e lhe tragam muita, mas MUITA FELICIDADE nas muitas dúzias de anos que lhe aguardam.
É o que lhe desejo de coração!
Parabéns Luíza e um grande beijo pelo SEU DIA!

Santos, 19 de janeiro de 2012 






Obs: “Mauricete”, já to com saudades...rss

sábado, 31 de dezembro de 2011

E O METRÔ DE VIENA PAROU

O bom humor é um elemento essencial que deve constar na bagagem de qualquer viajante, principalmente se o destino for algum país onde não conheça a língua.
Cada passeio, o uso de transporte público, cada refeição e até uma simples ida ao banheiro, podem se converter num mico homérico.
            No restaurante uma tática que surtiu um bom efeito foi olhar o prato do vizinho de mesa. Se o aspecto agradou, disfarçadamente chamar o garçom e apontando para o vizinho, indicar que se deseja exatamente a mesma coisa.  Claro que há de se ter o cuidado de não ser observado pelo proprietário do citado prato. Mesmo assim, ainda há uma margem de erro, pois às vezes a quantidade é astronômica e o jeito é dar conta de tudo aquilo.
Numa dessas situações por exemplo, um pig (porco em inglês) acabou sendo confundido com um big (grande) e aí, quando o prato chegou, a cara de espanto de todos foi impagável.
Na bilheteria do teatro houve um momento que chegamos a desconfiar que fosse um índio tentando se comunicar com um alemão, usando a linguagem tupi-guarani. Saiu algo assim:  
- Eu pagar ticket internet.    
Como não houve compreensão nova tentativa foi feita e essa acarretou boas risadas de quem estava por perto:
          - I buy  tickets internet.
          Entretanto o termo buy que significa comprar em inglês, foi pronunciado exatamente como se escreve e não bai que  é a forma correta de se dizer.
A gargalhada de quem conhece o idioma denunciou que algo estava errado, mas finalmente o alemão entendeu o que estava sendo falado.
No último dia do ano claro que o mico tinha que ser caprichado, e o foi com certeza. 
Conseguiu-se literalmente parar o metrô de Viena.
Na pressa em entrar no vagão e carregando malas e mochilas  já com um respeitável peso, uma sacola contendo um casacão preto caríssimo cometeu o atrevimento de cair justamente no vão entre a plataforma e o degrau do vagão.
Um grito de alerta foi dado e na indecisão sobre o que fazer no momento já que o sinal de partida do trem tocara, o grupo todo arrastando novamente as malas e mochilas, saiu correndo para fora do vagão de maneira toda atrapalhada, nada discreta, acertando as cabeças dos austríacos sempre tão bem comportados.
O trem partiu e na plataforma vazia ficaram os quatro turistas olhando a sacola caída no meio dos trilhos.  
E agora, o que fazer? O casacão era emprestado.
A ideia de descer nos trilhos foi logo descartada pois os trens circulam com pouco intervalo entre um e outro.
A saída foi acionar o SOS da estação contando para isso com a ajuda de uma alemã caridosa.  Em pouco tempo dois funcionários chegaram, desligaram a energia da linha e ligaram uma sirene  com várias luzes vermelhas piscantes. Um deles desceu para resgatar o casaco suicida.
Diante do semblante totalmente carrancudo dos funcionários o quarteto de turistas brasileiros resolveu ficar silente, sem esboçar nenhum riso embora fosse enorme a vontade de gargalhar por terem parado a circulação do metrô em plena Viena.
Trabalho concluído e os trens voltaram a circular em poucos minutos.
Depois dessa o jeito foi partir para Veneza, pois por mais um pouco o grupo estaria na manchete em todos os jornais televisivos de Viena.

Viena, 31 de dezembro de 2011 

  Conto escrito a quatro mãos - Ligia e Luíza Cerri

Nota: para Luís Fernando cujo finíssimo casaco resolveu fugir e causar um problemão em Viena.

domingo, 25 de dezembro de 2011

E O CUCO VOOU.........


               Viajar por lugares diferentes cujos idiomas nos são desconhecidos, é uma aventura interessante.
            Nessas situações o contato verbal passa ao segundo plano e a mímica acaba auxiliando e muito a comunicação.
            Exemplos claros e reais disso constatamos ao comprar um simples  remédio para resfriado.  O jeito foi simular alguns espirros para que o farmacêutico entendesse o que se desejava. Nos restaurantes ao deparar-se com um filé quase sangrando em seu prato,  bastou um efeito onomatopéico como tchiiiiiiiiiiiiii prolongado e pronunciado várias vezes ao mesmo tempo em que se virava a palma da mão para cima e para baixo, para que o garçom entendesse que se desejava uma carne bem passada.
            Confiante nessa linguagem gestual, ela resolveu fazer compras num local onde o idioma alemão era predominante.
            A parede cheia de pequenos objetos coloridos chamou sua atenção.
            Eram pequenos relógios cucos que estavam expostos para venda em uma relojoaria.  O rapaz a seu lado, já sabedor de suas constantes trapalhadas, alertou-a sobre o risco de esbarrar em outros objetos, pois o espaço era minúsculo.  O alerta foi em vão. 
            Encantada pelo colorido e pelo movimento dos relógios, ela se empolgou e se pôs a escolher um que lhe agradasse mais.
            Mexe aqui, mexe acolá e o que era previsível aconteceu.  De repente o vozerio alemão que se escutava na pequena loja foi suplantado pelo barulho forte de algo caindo e quebrando no chão. 
            Um passarinho cuco conseguira pela primeira vez, realmente alçar vôo livre mesmo que tenha sido em direção ao chão.  Claro que para isso ele contou com a ajuda de um grande safanão.
            Silêncio total enquanto ela abaixava-se para recolher os pedaços que se soltaram do relógio e entregá-los à proprietária que num piscar de olhos  estava em pé ao seu lado com ares nada amistosos, falando algo que ela não entendia. Com certeza a alemã só não a estava chamando de Nossa Senhora. 
            Após catar os pedaços, fazendo gestos com a mão, avisou que levaria o tal relógio mesmo porque não lhe restava outra opção diante da situação constrangedora. Dirigiu-se para o balcão enquanto tentava remontar as partes quebradas.  
             Para sua surpresa, a proprietária colocou de lado o cuco quebrado e trouxe uma caixa fechada com um novo relógio perfeitinho.
            Era justamente o que ela queria.
         Pagou e saiu da loja satisfeita. Antes de fechar a porta atrás de si ainda olhou para a alemã que tinha cara de poucos amigos e fez um aceno de despedida. Usando seu vasto repertório da língua inglesa pronunciou um despretensioso..... bye bye .
           Saiu feliz com seu mini relógio cuco nas mãos.

Munique, 25 de dezembro de 2011  

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O CAMELO QUE FALAVA EM FRANCÊS

Finalmente chegara o dia combinado com as crianças para irem ao circo.
Há dias que ele estava instalado na cidade e todos comentavam as belezas das apresentações dos mágicos, trapezistas, domadores, palhaços e principalmente o impacto que causava o número do globo da morte.
No final da tarde lá foram os três irmãos mais um primo acompanhados do pai e da tia.  Para que pudessem assistir direitinho todo o espetáculo, as crianças foram acomodadas nas cadeiras próximas ao picadeiro enquanto os adultos ficaram um pouco mais atrás.
A abertura do show com a bandinha de música tocando alto e os palhaços fazendo a maior bagunça, agitou a criançada que batia palmas cantando junto.
Número após número, cada um mais surpreendente que outro, foi desfilando naquele espaço próximo às cadeiras das crianças que não perdiam nenhum movimento dos artistas.
Os palhaços a todo o instante avisavam que logo haveria uma surpresa: um camelo que falava em francês. Depois de vários anúncios, eis que chegou o tão esperado momento.
Por trás das cortinas fechadas ouviu-se um vozeirão gritando:
- Je suis français.
As cortinas então se abriram e um animal grande e todo desengonçado entrou no picadeiro. A entrada foi triunfal e a plateia caiu na gargalhada.
Na verdade era um falso camelo e as crianças logo perceberam que dois homens davam vida ao animal, escondidinhos por baixo daquela fantasia enorme.
Virando-se para o público, o camelo se apresentou:
- Je suis camelê e gostê de comê panzê francê com mortadelê!
O artista que falava pelo bicho não conhecia a língua francesa e propositalmente dizia todos os termos terminando com a vogal e dando-lhe um acento tônico.
As palhaçadas que o animal fazia divertiam a todos: mexia com os músicos da banda, com os palhaços, com os ajudantes do circo, até que finalmente ele resolveu descer para brincar com a plateia.
Os irmãos e o primo que estavam acomodados bem na ponta da terceira fileira das cadeiras, riam muito com a algazarra que o camelo fazia mexendo com as crianças, ora tirando o boné de um, ora pegando a pipoca de outro.  Tão entretidos estavam que não notaram que a irmã caçula, de olhos arregalados, estava na verdade apavorada com o tal camelo francês.
As gargalhadas aumentaram quando o camelo começou a circular entre as fileiras e eis que de repente ele se dirigiu ao local onde estavam os irmãos e primo.
Nesse exato momento a caçula não resistiu mais. Entrou em pânico. Levantou e saiu correndo em disparada entre as cadeiras.  Os irmãos, pegos de surpresa, nada puderam fazer para evitar isso.
Depois de dar a volta toda nas cadeiras da plateia, a garota sempre correndo, se dirigiu ao corredor principal que dava acesso ao picadeiro. Para sua infelicidade, era exatamente esse o trajeto que o camelo faria para voltar ao palco.
O pai da menina na intenção de socorrê-la partiu ao seu encontro, mas acabou se atrapalhando e pôs-se a correr atrás do camelo.
A plateia estourou numa gargalhada só, pois a cena era hilária demais. Parecia ter sido ensaiada: a criança gritando e correndo sendo seguida de perto pelo desengonçado animal e logo atrás dele, o pai da garota.  Os três correndo no corredor central, um atrás do outro.
Quando já estavam próximos ao picadeiro, a tia da menina veio ao seu encontro no sentido contrário e salvou-a daquela situação.
Demorou um pouco para os ânimos se acalmarem, mas o que não demorou foi a enorme bronca que os dois irmãos mais velhos levaram do pai por não terem cuidado da caçula.
Após o encerramento do espetáculo que contou com a brilhante participação, não tão espontânea, dos dois coadjuvantes - pai e filha, todos voltaram para casa.
No caminho as crianças vieram se divertindo à custa da caçula cujo apelido era Dudu. Imitando o camelo francês, diziam:
- Camelê corrê atrás de Duduzê.  Duduzê chorê e quasê se borrê de sustê.
Essa brincadeira durou pouco, pois os irmãos sabiam que o pai não havia gostado nada da fama repentina adquirida na cena, mesmo porque sua performance deixou a desejar. Seu humor não estava lá essas coisas e de repente o castiguê seria imediatê e aí viriam cascudês nas cabecês!

Santos, 14 de dezembro de 2011   

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O GALO COXO

A vida não era fácil para aquela família lá pelo começo dos anos quarenta.
Desde muito cedo os seis filhos do casal já eram direcionados ao trabalho no intuito de ajudarem nas despesas de casa.  Os garotos ainda na adolescência já desempenhavam com certa destreza o ofício de barbeiro; as filhas mais velhas trabalhavam no comércio e as mais jovens auxiliavam a mãe que além dos cuidados com a casa e com a família, lavava roupas para fora como se dizia naquela época em que a máquina de lavar era objeto de sonhos para a maioria da população.
A despeito da vida simples e desprovida de grandes confortos, o casal criava os filhos com muita dignidade e retidão. 
O chefe da família se virava como podia.  Suas atividades iam do ofício de alfaiate a porteiro de cinema, passando inclusive pelos negócios pois atuava também como vendedor de pequenos animais domésticos como aves, cabritos, porcos, que criava no quintal da casa.
Enquanto a mãe era mais séria, de pouco riso, o pai já tinha um comportamento totalmente diverso.  Brincalhão e divertido, gostava de pregar peças nos amigos e conhecidos.
São inúmeras as histórias contadas na família a respeito de suas brincadeiras. Uma das preferidas era colar moedas na calçada próxima à alfaiataria e ficar de longe espiando aqueles que se abaixavam e em vão tentavam recolher as tais moedinhas de pouco valor.  Suas vítimas preferidas eram duas irmãs solteiras, tidas como endinheiradas e sovinas. Elas não resistiam e sempre paravam para pegar as moedas provocando gargalhadas no autor da brincadeira que escondidinho presenciava a cena.
A criação dos animais em casa também dava motivos para muitas histórias.
Certa vez adquiriu um galo de temperamento um tanto agitado. Volta e meia vinha reclamações da vizinha dizendo que ele havia voado para seu quintal e feito estragos nos canteiros de verduras. 
A princípio seu proprietário resolveu cortar as pontinhas das asas do animal na tentativa de retê-lo em seu espaço.  Essa solução logo se mostrou ineficiente já que o irrequieto galo mesmo com um vôo totalmente desastrado e meio sem rumo conseguia chegar até o território vizinho.
Cansado de tantos bate bocas seu criador teve a ideia de amarrar uma pedra  bem pesada na extremidade de uma tira de barbante e com um forte nó prender a outra extremidade numa das pernas da ave. 
Logo que essa estratégia foi colocada em prática, o bicho tentou fazer algumas decolagens mas o peso da pedra não permitia que ele conseguisse sequer sair do solo.  Depois de várias tentativas frustradas resignou-se a simplesmente caminhar em seus domínios, sempre arrastando a perna onde a pedra estava presa. Dava um passo e arrastava a outra perna, outro passo, novo arrasto.
Finalmente havia sido encontrada uma solução para o problema e a política da boa vizinhança voltou a imperar.
O tempo passou e a ave envelheceu.  Já havia perdido todo aquele arroubo de um perfeito galo de briga quando seu dono resolveu tirar de vez a pedra que por anos acompanhara o animal.
O que se observou a seguir foi um misto de espanto, pena e gargalhadas.
Mesmo sem o peso da pedra o galo dava um passo e arrastava a outra perna, outro passo e puxava a perna. Não parava de coxear de um lado para outro.
O galináceo ficara psicologicamente afetado e na impossibilidade de fazer terapia tornou-se um coxo assumido permanecendo assim até o final de seus dias.

Santos, 07 de dezembro de 2011  

Eis o proprietário do galo, Sr. Izidoro Arnold, meu avô materno com o qual pouco convivi mas de quem guardo boas e belas recordações.

domingo, 4 de dezembro de 2011

AGORA É A MINHA VEZ!

O silêncio que imperava na saleta só era quebrado pelo barulho do dado rolando sobre o tabuleiro e pelas expressões dos dois jogadores: Agora é a sua vez!
O menino com seus 11 anos e a irmã com 10, entretidos que estavam com o jogo, nem se deram conta que a tarde terminava e que não haviam ainda atendido ao pedido da avó para que tomassem banho já que a hora do jantar se aproximava.
Sentados no chão, tabuleiro entre ambos, as crianças estavam no primeiro pavimento da casa, próximos à escada da qual estavam separados por uma grade protetora.
Da cozinha ouviam-se de tempos em tempos as ordens para que parassem o jogo, ordens essas que nem chegavam aos ouvidos de ambos tal a concentração dirigida às pecinhas coloridas que pulavam casas em busca da vitória que demorava a chegar.
Como diz o ditado, paciência tem limite e no caso em questão esclareço que o limite era o menor possível.  Vendo que nada interrompia a brincadeira, a avó dirigiu-se silenciosamente para a escada.
Na saleta as vozes infantis continuavam empolgadas, ora ele, ora ela: Agora é a sua vez!
Subindo vagarosamente os degraus, o rosto da avó começou a aparecer através do gradil. As crianças, pernas cruzadas, olhos que passeavam do tabuleiro para o dado, voltando ao tabuleiro, não se deram conta do olhar extremamente zangado que os fixava ali há poucos centímetros de onde estavam.
Quando o dadinho rolou mais uma vez e antes que qualquer dos jogadores pudesse falar algo, ouviu-se uma voz muito brava e direi que até ameaçadora, afirmando:
- Agora é a MINHA vez!
O susto fez os pequenos olharem na direção de onde a voz tinha partido e deram com aquele conhecido par de olhos verdes, muito grandes e arregalados. Era a avó a poucos passos dos dois.
Com uma rapidez e flexibilidade só possíveis quando se é criança, os dois deram um salto que fez voar longe tabuleiro, pecinhas e dado. As canelas giraram.
Num pique só, cada um correu para seu banheiro fechando ruidosamente as portas  já que na pressa não dava para se ter maiores cuidados. Trancaram-se cada um no seu espaço.  Estavam salvos.
A velocidade foi tanta que a avó surpreendeu-se e acabou rindo da cena pois as canelinhas dos dois giraram tão rápido que ela lembrou-se dos desenhos do bip bip fugindo do coiote. Disfarçou um pouco e manteve a voz de comando pois não poderia fraquejar diante dos netos.
Passados alguns segundos, ouviu-se o barulho dos chuveiros denunciando que as ordens foram cumpridas; não demorou muito para que pedidos de ajuda viessem dos dois banheiros.  Na correria, ambos não tiveram tempo para pegarem as toalhas e as roupas limpas para vestirem. 
Em voz bem baixinha, quase um sussurro, e bem cautelosos, os dois bip bip pediram socorro à tia. Abriram uma mínima fresta através das quais uns dedinhos apareceram para recolherem as peças que precisavam.
Queriam ter certeza que quem estava atrás da porta não era a avó reclamando que ainda ERA SUA VEZ!

Santos, 04 de dezembro de 2011