domingo, 2 de julho de 2023

PALAVRAS CERTAS NAS HORAS CERTAS


A conhecida expressão “palavra certa na hora certa”, nem sempre acompanha momentos delicados e muitas vezes preocupantes que vivenciamos no dia a dia.

Muitas vezes profissionais de diferentes áreas acabam derrapando nas palavras, por assim dizer, ao se dirigirem às pessoas às quais estão prestando atendimento.

Talvez isso ocorra por falta de bom senso, falta de ética, falta de respeito ou simplesmente pura falta de educação mesmo.

Quando menos esperamos ouvimos uma afirmação ou simples comentário que nos deixa em estado de alerta sobre o que está acontecendo ou prestes a acontecer.

Assim ocorreu com ele minutos antes de uma cirurgia de catarata ao ouvir do médico uma pergunta que o deixou preocupado.

Já na mesa de cirurgia e prestes a passar pelo procedimento, escutou a seguinte  indagação que lhe causou grande ansiedade:

- É plano de saúde ou particular?

O motivo de tal pergunta naquele exato momento provocou-lhe mal estar de imediato, pois já imaginou, não sem razão, que haveria diferença no atendimento entre uma e outra situação.

Pergunta feita em hora totalmente inadequada.

Durante uma entrevista de emprego, a responsável pelo setor de RH quis saber o que a candidata mais adorava na vida, mas por vergonha e constrangimento nunca havia contado a alguém..

Diante da postura pouco confortável que notou na jovem, ela reforçou a pergunta de maneira insistente.  Acabou por desistir diante da negativa recebida seguida da afirmação que tal pergunta era desnecessária, ofensiva e invasiva demais.

Ainda no campo da oftalmologia, outra situação de total falta de bom senso foi vivenciada pela jovem senhora, ainda na casa de seus 40 e poucos anos, durante uma consulta sobre a possibilidade de uma cirurgia para correção da miopia. 

Foi desaconselhada pelo médico alegando que pela idade dela, logo provavelmente teria problemas de catarata e então não convinha fazer o que ela desejava pois seria trabalho perdido. Entre chocada e decepcionada com o comportamento do profissional, retirou-se incrédula com a falta de tato do mesmo.

É necessário haver cuidado e bom senso com as palavras dirigidas aos que buscam uma solução para seu problema. 

Ao mesmo tempo que elas podem aliviar quem as escuta, se forem mal colocadas podem ocasionar danos maiores que os próprios problemas.

"As palavras voam, e às vezes pousam". Cecília Meirelles


Santos, 02 de julho de 2023.

 

quinta-feira, 8 de junho de 2023

TIO CARLOS

                                                    Estação ferroviária de Rio Claro/SP
         

                                       Sabe aquela pessoa que só ao pensar nela, já ficamos sorrindo?
                                   Assim era tio Carlos, irmão de minha avó paterna.
                                  Sempre muito elegante, não saia sem vestir um terno, colete, gravata, e muitas vezes chapéu e guarda-chuva.
                                  Morava com sua mãe viúva em Jundiaí onde tinha seu trabalho na antiga ferrovia da cidade.
                                 Era uma festa para os sobrinhos-netos quando vinha a Rio Claro na companhia da mãe ou sozinho, visitar a família.
                                 Era risada garantida.
                                 Muito piadista se divertia contando fatos engraçados acontecidos com ele ou com amigos. Às vezes até representava a cena.
                                 Não lembro de tê-lo visto sério ou preocupado. Seu semblante era sempre alegre.
                                 Uma de suas peripécias mais conhecidas ocorria nas viagens de trem de Jundiaí a Rio Claro, quando sua mãe não o acompanhava.
                                 Tinha muita facilidade para dormir e assim que o trem partia, ele literalmente "apagava" como se diz. Dormia a viagem inteira.
                                  Por várias vezes aconteceu dele não acordar quando o trem estava parado na estação de Rio Claro, mas sim, quando o comboio já estava partindo seguindo viagem.
                                    Aí então, assustado, pegava sua malinha e esperava chegar até na porteira da Avenida 8, quando a velocidade do trem ainda não era muita. Ato contínuo jogava a bagagem e dava o que ele chamava de salto mortal.
                                   Caia sempre "catando coquinhos" e terminava a queda completamente de quatro, sobre pedregulhos e terra.
                                    Apesar do susto ainda assim ficava feliz, pois afinal suas irmãs moravam perto desta porteira e isto o poupava de maiores caminhadas. Chegava esfolado, arranhado e com o terno sujo, mas gargalhando do fato.
                                    Certa vez durante umas férias escolares em São Paulo, passei uns poucos dias hospedada no apartamento de seu irmão Antônio, juntamente com minha tia e seu filho.  Tio Antônio, é bom que se esclareça, também era brincalhão e divertido.
                                    Saímos a pé os quatro (eu, tia, primo e tio Carlos) para passearmos pelo centro da cidade, hoje chamado de centro velho. A certa altura do passeio, tio Carlos precisou separar-se do grupo. Combinamos o reencontro às 17h bem na esquina de uma grande loja de departamentos chamada Mappin.
                                    Já nos primeiros anos da década de 1960, a região era movimentadíssima.
                                    Atrasamo-nos um pouco e ao chegarmos ao local combinado, havia tanta gente na calçada que não conseguíamos enxergar tio Carlos, que era de pequena estatura e bem magro.  Chegamos a pensar que São Paulo inteira havia combinado de se encontrar naquela esquina.
                                    Assim que ele nos avistou, tentou se aproximar e se fazer ouvir, mas sem sucesso. Não teve dúvidas: abriu seu enorme guarda-chuva e agitando-o começou a ensaiar uns passos de dança.
                                    No mesmo instante formou-se uma roda de pessoas perto dele e isto nos chamou a atenção, facilitando o reencontro. 
                                    Quando parou a tal dança e fechou seu guarda-chuva, houve quem na improvisada plateia lhe pedisse para continuar, mas ele educadamente declinou.
                                    Em plenos anos 60 tio Carlos, como se diz nos dias atuais, "causou" na famosa esquina do Mappin. 
                                    Infelizmente seus últimos tempos de vida foram de muito sofrimento.
                                    A despeito disso, e já em outra dimensão,  creio que continue a fazer sorrir quem dele se aproximar.  
                                    Tio Carlos, as gerações mais novas não o conheceram, mas saiba que suas histórias estão perpetuadas na família.


Santos, 08 de junho de 2023

A Carlos Ribeiro, recordando sua alegria e espontaneidade.
                                    

sexta-feira, 3 de março de 2023

ANOS DOURADOS DE ESTUDANTE

 


                    Talvez seja sina de professora ou apenas um pouco de saudosismo mesmo, mas o fato é que as lembranças dos tempos escolares vira e mexe surgem nos pensamentos trazendo sempre sorrisos.
                    Uma foto encontrada em rede social, um comentário feito por um nome conhecido mas já há muito tempo sem contato, ou até mesmo um fato corriqueiro, já me remete aos anos dourados de estudante.
                    Nos quatro primeiros anos do hoje chamado Ensino Fundamental praticamente não havia crianças que faziam bagunças em sala de aula.
                    Lembro-me apena de uma que por ser extremamente irrequieta, fez com que certa vez a professora olhando para um crucifixo que havia na parede acima da lousa, dissesse algo que provocou meu imaginário:
                    - Essa aluna tira até Cristo da cruz.
                    Em minha cabeça de 7 anos fiquei o resto da aula olhando a todo momento para a cruz para ver se Cristo ainda continuava lá ou se já havia descido.
                    Já nos anos finais do Ensino Fundamental, o chamado Curso Ginasial, as classes eram mais numerosas e mistas proporcionando momentos hilários provocados por alunos mais espirituosos, expansivos, criativos e até ousados.
                    O Instituto de Educação Estadual "Joaquim Ribeiro" em Rio Claro/SP sempre foi uma escola muito respeitada e procurada. Para ingressar em suas turmas era necessário ser aprovado no chamado Exame de Admissão que fazia uma triagem da clientela, exigindo bastante estudo.
                    A competência dos mestres quer no tocante à bagagem cultural, didática e manejo de sala de aula eram evidentes, a despeito da classe ser mais ou menos agitada.
                    Às vezes quando o volume de vozes se elevava durante a aula, apenas com um estalo de dedos a professora de Português, Ivanira Bohn Prado, conseguia o silêncio novamente e na sequência continuava sua explanação num tom de voz bem calmo.
                    É bem verdade que um ou outro professor mantinha a disciplina através do uso de recursos que causavam preocupações e porque não dizer, medo mesmo nos alunos.
                    Assim era por exemplo nas aulas de História com o professor Barros e suas temidas chamadas orais dissertativas e de improviso.
                    Esse mesmo professor ficou em estado de choque quando em uma classe mais adiantada e em plena aula, um grupo de alunos já famosos por suas "artes" pulou as janelas da sala de aula que davam para a rua 6 e fugiu da escola. Tudo isso diante do olhar perplexo do professor.
                    É bom que se registre que a despeito do que aprontassem, nunca faltaram com respeito aos mestres e colegas. Era simplesmente molecagem pura.
                    Coincidentemente uma parte deste mesmo grupo de arteiros pelo fato de terem sido reprovados, foram matriculados em minha classe no ano seguinte. E obviamente continuaram com suas estripulias.
                    Certa feita na volta do intervalo entre as aulas quando quase todos alunos já estavam em suas carteiras, dois deles decidiram não deixar um outro da turma entrar na classe.
                    Para isso ficaram pressionando a porta pelo lado de dentro enquanto o terceiro a esmurrava.  Como não teve sucesso resolveu dar o que se costuma chamar de uma “voadora” e bateu forte com os dois pés na madeira.
                  Com um forte estrondo a porta foi arrancada do batente e ele, a porta e os dois que a seguravam foram para o chão diante do espanto e depois das gargalhadas do resto dos alunos.
                   Obviamente a suspensão aplicada pelo diretor foi imediata.
                   Em outra ocasião durante a aula de Português com a professora Marili, cada estudante fazia um relato sucinto de um livro que havia lido.
                    De repente sem aviso prévio enquanto o colega comentava sobre Vidas Secas de autoria de Graciliano Ramos, o rapaz sentado à minha frente levantou-se de supetão e sem nada dizer saiu da sala diante dos olhares assustados. Voltou em seguida carregando dois copos cheios de água.
                    Ao sentar explicou para a professora com toda a calma, que só aguentaria ouvir o relato do livro até o final se tivesse água por perto. Risos de todos inclusive da professora.
                    Um fato que muitos ex-alunos devem lembrar ocorreu durante um desfile cívico pelas ruas centrais em comemoração se não me engano, ao aniversário da cidade.
                    A escola se apresentou com quase a totalidade de seus alunos. As meninas formavam os primeiros batalhões e na sequência vinham os rapazes.
                    Todos passaram bem comportados em frente ao palanque das autoridades, mas ao virarem a esquina da rua 4 com avenida 1 os meninos começaram a cantar em alto e bom som enquanto marchavam:
                    - Pise sem dó que a cera é Dominó.
                    Tratava-se de um comercial que havia na TV na época, onde um grupo de crianças marchava e cantava esta trilha sonora pisando num chão bem brilhante.
                    Aquele vozerio só foi aumentando ao longo da avenida 1 sem que ninguém conseguisse conter. Acompanhei de perto pois fazia parte do último batalhão feminino.
                    No dia seguinte a mídia escrita e falada, estupefata, criticou severamente o fato.
                    Um conhecido e admirado locutor da antiga Rádio PRF2 leu uma crônica condenando veementemente os rapazes.Fui lembrada há pouco que o título da crônica foi: RÉDEAS. 
                    Só pelo título já dá para se ter uma ideia do conteúdo escrito pelo saudoso jornalista Ribeiro Mancuso.
                    Como não havia a possibilidade de se identificar quem cantou e quem não cantou, a direção da escola decidiu suspender todos os meninos por 3 dias, e para que as salas de aula não ficassem muito vazias, tal suspensão foi de maneira intercalada entre os números ímpares e pares.
                    Eu particularmente não considerei na época e muito menos agora, o fato tão grave como a imprensa noticiou.  O desfile já estava na fase final, próximo à área de dispersão. Foi uma brincadeira da rapaziada, ousada é verdade, que provocou muito riso em toda a assistência. 
                    Já nos anos finais de estudo no "Ribeiro" durante o curso de Magistério, éramos 40 jovens, todas mulheres, que nos seus 16, 17 anos espalhavam vivacidade, energia e muitos sonhos. A turma foi a mesma nos três anos do curso, fato que tornou ainda mais forte a amizade entre todas.
                    Não me lembro de nada muito fora do normal além de um certo pandeiro que por diversas vezes foi ao chão durante uma aula de Psicologia, fazendo muito barulho.  Por sorte o professor Dr. Rubens, que era bem irônico, às vezes até sarcástico, levou o fato na brincadeira. Lembro que ele se referia a um suéter bem colorido que uma aluna usava com frequência, como blusa psicodélica, termo em moda naqueles anos do movimento hippie.
                    Achávamos esse professor excelente, mas ele nos lembrava fisionomicamente o personagem criado por Péricles, O Amigo da Onça, que era publicado na revista O Cruzeiro.
                    Não havia bagunça propriamente dita, mas sim conversas, muiiiiiitas conversas entre as garotas, principalmente nas proximidades de bailes na cidade quando então aos sábados (naquela época havia aulas aos sábados) qualquer folguinha que houvesse entre as aulas, já era motivo para serviços de manicure, de cabeleireiro, troca de ideias sobre modelos de vestidos, etc.
                    Sem querer comparar já que os tempos são nitidamente outros, mas já comparando, as estripulias que vivemos entre amigos nos tempos escolares, jamais desrespeitaram qualquer pessoa, fosse da administração da escola, professores ou colegas.
                    Eram mesmo puras travessuras que nos fizeram rir e ainda me fazem rir ao lembrá-las.
  

Santos, 2 de março de 2023.

A todos amigos, ex-colegas e professores da época do Grupo Escolar "Marcello Schmidt" e Instituto de Educação Estadual "Joaquim Ribeiro" - 1959 a 1969 - Rio Claro/SP

Foto da década de 1960 na sala dos professores do IEE "Joaquim Ribeiro" - encontrada na internet.  Desconheço a autoria da mesma.                



terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

A CUBA DA PIA


                   Os seres humanos são mesmo muito díspares.

Cada um tem sua personalidade,  costumes, temperamentos e ….…manias.

Há que se ter respeito, empatia e muito jogo de cintura para que a convivência seja tranquila quer seja entre familiares, amigos, ou até mesmo desconhecidos.

Na casa moravam apenas mãe e filho. 

Ela com temperamento bastante autoritário. Ele dependente emocionalmente dela desde a infância.

Uma pessoa da família moradora em outra cidade foi convidada para um churrasco com amigas.  Sendo assim viajou para o interior a fim de participar deste encontro e ao mesmo tempo aproveitar para fazer uma visita na casa onde moravam a mãe e o filho acima citados.

Chegou no meio da manhã e justamente no dia em que a funcionária da casa havia faltado.  Foi então lhe solicitado (talvez o termo certo fosse…ordenado) que providenciasse um almoço rápido à base de ovos. 

Não se furtou a isso  embora não dispusesse de muito tempo, pois considerou a idade da dona da casa.

Feitos os pratos ambos  almoçaram e já na sequência ela começou a lavar as louças, enxugá-las  e guardá-las (era o costume da casa), sempre seguindo as instruções ditadas. Mãe e filho permaneceram sentados perto só observando o serviço. 

Olhando no relógio a visita constatou que já estava bem atrasada para o encontro com as amigas.

Passou o rodinho de pia e a secou com o pano determinado.

Rapidamente correu até o quintal e  pendurou o pano no varal.

Ao voltar para a cozinha ouviu num tom bem reprovador a fala da dona da casa

- Aqui nós secamos a cuba. Você não a secou!

Por um instante a visita pensou em ignorar tal cobrança, mas voltou correndo ao quintal, trouxe o dito cujo pano, secou a dita cuja cuba e voltou a colocá-lo no varal.

Feito isso achou por bem retirar-se antes que outra ordem lhe fosse dada já que estava bem atrasada para seu compromisso.

O mais curioso da história é que esta visita também tem o costume de enxugar a cuba da pia em sua casa, só não o fazendo na ocasião em função da pressa necessária no momento.


“Mania é coisa que a gente tem mas não sabe porquê”*...



Santos, 28 de fevereiro de 2023.


* Música: MANIAS - compositores: Celso Cavalcanti e Flavio Cavalcanti.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

ELA E O UBER


 

        Acreditando ou não em horóscopos, há dias nos quais as coisas ficam tão complicadas que acaba-se dando uma olhada nas previsões do dia.

        Na verdade há criaturas que por si só atraem tanto rolo que acabam por desenvolver estratégias que sempre lhes mostram ao final de toda a confusão, uma saída até benéfica e porque não dizer, honrosa.

        Assim é e sempre tem sido a vida dela.

      Com a mesma facilidade que se vê metida em rolos, ela sempre acha uma saída.
        
        Aproveitando as férias resolveu passar uns dias na praia já que adora o sol, o mar e passear.  
        Ah esqueci: adora comprinhas também. Em outra cidade sempre encontra novidades que de repente se tornam extremamente necessárias a ela e portanto impossível não comprá-las, claro que em suaves parcelinhas no cartão.

            A saúde desta vez a obrigou a dar uma pequena parada nos passeios. 

        Pelos sintomas que se apresentavam, ela até já sabia a provável causa, mas como a cura exigia antibióticos, viu-se obrigada a ir em uma unidade de pronto atendimento a fim de passar por consulta e, de posse da receita, poder adquirir o remédio necessário. 

    Já era noite e a chuva chegou com muita intensidade, alagando rapidamente certos locais da cidade.

        Consulta feita e após ser medicada, de posse da necessária receita, prontamente acionou o UBER para retornar à casa, mas com objetivo de no caminho parar em uma farmácia para já comprar o medicamento necessário.

        A chuva incessante dificultou tal chamado até que um motorista a atendeu. Para complicar um pouco mais a situação, infelizmente havia o aviso que tal pessoa tinha problemas de audição e fala.  

        Em dúvida resolveu cancelar a chamada pois não teria como solicitar a tal parada numa farmácia.  Com certeza não conseguiria se fazer entender.

        Outra ligação para o UBER e novamente o mesmo motorista atendeu. Não teve outra opção a não ser de novo cancelar.

        A estas alturas já estava necessitando ir ao banheiro já que a infecção urinária diagnosticada estava exigindo isso urgentemente.

        Correu para se aliviar e logo em seguida tentou novamente o UBER,  mas sem sucesso já que pela situação de forte chuva poucos carros estavam disponíveis.
        A não ser, ...a não ser novamente o senhor com problemas de audição.

        O jeito foi dar um tempo maior até que finalmente conseguiu que um outro motorista a atendesse.

        Ela e sua acompanhante instalaram-se no veículo, com a corrida já paga.  Foi quando solicitou ao rapaz que passasse em uma farmácia no caminho para que ela rapidamente comprasse o medicamento.  Para mostrar a necessidade urgente de tal fato, relatou inclusive o diagnóstico que o médico lhe deu.

        O motorista atendeu prontamente e parou logo em seguida em uma drogaria, mas para complicar mais ainda, não encontrou ali o remédio necessário.
        Educadamente o UBER deslocou-se então a outra farmácia que ele mesmo escolheu já que ela desconhecia qualquer outro estabelecimento nas redondezas.

        Sua acompanhante ficou no interior do carro enquanto ela desceu  apressadamente.

        Aconteceu porém que por normas internas a balconista teve que digitar seu cadastro e para isso fez muitas perguntas desnecessárias, só faltando perguntar se ela tinha unha encravada.

        Nervosa com a demora, sua acompanhante que na verdade estava atuando como refém,  não sabia o que falar para o motorista já que calculam que a demora foi superior a 20 minutos.   Sentada silenciosa no banco traseiro, olhava preocupadíssima pela janela esperando e torcendo para que tal situação se resolvesse logo, enquanto via aflita que o rapaz deixava de atender uma chamada atrás da outra  perdendo vários passageiros.

        Por muita sorte de ambas e claro, pela gentileza e excelente educação do motorista, ele não se exaltou e nem falou em ir embora deixando-as para trás e muito menos levando uma como refém.

        Finalmente em casa ambas puderam relaxar e contar o sucedido explicando o motivo da confusão e de tanta demora para o retorno.

        Como os passeios ainda continuam, é bem provável que novas situações inusitadas lhe aconteçam, o que não causará espanto algum em quem já a conhece muito bem.

Santos, 12/01/2023

Para Carol e Nanci, com os agradecimentos pelas muitas risadas que nos proporcionaram.

sábado, 19 de novembro de 2022

NÃO COMI E NÃO GOSTEI




Os hábitos alimentares têm sofrido significativas mudanças ao longo do tempo.

Graças às pesquisas, aos estudos detalhados, à tecnologia, constatou-se os malefícios causados pela ingestão de determinados comestíveis como alimentos gordurosos, açúcares, sódio em excesso, etc.

Outro fator que interfere diretamente em tais hábitos é sem dúvida nenhuma o paladar de cada um de nós.

A despeito de saber da importância de certos comestíveis para nossa saúde, mantenho dentro das possibilidades, costumes alimentares bem simples. Meu paladar não é nada sofisticado e nem me preocupo com isso.

Particularmente confesso sem nenhuma crise existencial que pertenço ao grupo dos: Não comi e não gostei.

Se o visual do prato não me agrada, opto por nem experimentar.

Ainda na infância minha mãe tentou em vão me fazer gostar de certas comidas e até forçou a ingestão delas.  Ainda bem que neste ponto sempre tive apoio do meu pai que também não era dado a comidas muito diferentes.

Citando minha mãe me vem à mente o caso dos quiabos.

Aproveitando a ausência de meu pai ela tentou nos forçar (a mim e a meu irmão) a comermos quiabos cozidos.

Colocou uma boa quantidade em nossos pratos e voltou para a cozinha dizendo ameaçadoramente que quando voltasse queria ver os tais pratos vazios.

Entre a copa onde estávamos e a cozinha havia uma grossa cortina que a impedia de nos ver.  

A mesa ficava encostada na parede onde se abria uma grande janela que dava para o corredor lateral da casa.

Nem precisamos combinar nada, só uma troca de olhares e decidimos como nos livrar do problema. Em instantes subimos nas cadeiras e jogamos todos os quiabos pela janela.

Ato contínuo minha mãe retornou à copa e ficou contente em ver os pratos vazios, nos liberando para sairmos.

Era só o que queríamos fazer, ou melhor, precisávamos urgentemente fazer, pois todos os quiabos jaziam no chão do corredor. Corremos para lá pela porta de acesso da sala e assim evitarmos a cozinha.

Separando nosso corredor do prédio vizinho havia um muro não muito alto e lá funcionava uma gráfica. Como ela estivesse fechada naquele dia nem pensamos duas vezes: fizemos a festa dos quiabos voadores que passaram todos por cima do muro.

Jamais minha mãe veio a saber disso.

Não sei meu irmão, mas eu não como quiabos até hoje. Sei que os costumes alimentares dele não divergem muito dos meus.

Mais recentemente numa viagem ao nordeste com amigas, enquanto elas se deliciavam com caldeiradas, frutos do mar, peixes, casquinhas de siris, etc., eu me alimentava de frangos.  Ao final da viagem fiquei seriamente preocupada que começassem a nascer penas em mim de tanto frango que comi.

Não me esqueço de um almoço super elegante onde para o grande espanto dos amigos que comigo estavam, rejeitei o oferecimento de um garçom.  Era caviar. Eu não estava a fim de comer ovas de peixe.

Resultado: fui intimada pelos amigos e pegar tudo que fosse oferecido e caso não gostasse, que repassasse a eles depois. Assim foi feito em meio a muitas risadas.

Agora quando o cardápio é massa, aí não renego nada, nem a descendência italiana.

Uma mudança recente aconteceu: passei a comer peixes.

Então neste caso posso dizer que provei e gostei.....eita!

 

Santos, 19 de novembro de 2022

 

Para Rita pela inspiração ao tema comendo frutos do mar e para Luiz que me animou a comer peixes.

 

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

A TEIA DA VIDA

 

                    

Neste momento recordando Nelson Rodrigues, penso na “vida como ela é”.  Reflito em seus momentos de puro deleite, de explosões, de seus pontos altos e baixos. 

A imagem que me vem à mente é de uma bem elaborada teia de aranha.

A cada volta desta teia-vida vamos nos desvencilhando dos fios formados pelas desilusões, decepções e sonhos desfeitos.

Com dificuldades e certos bloqueios nem sempre saudáveis, vamos caminhando na teia, de fio em fio, até nos enroscarmos na próxima barreira que se apresentar no caminho.

A cada obstáculo superado, a cada vitória obtida, um novo alento vem povoar nossa alma que por sua vez, imediatamente, estimula a mente a não desistir, a seguir em frente em busca da plena satisfação.

Assim, de círculo em círculo da teia-vida, vamos buscando chegar ao centro de nossos desejos e finalmente sentir a sensação de missão cumprida.

Entretanto, assim como na rede real artisticamente elaborada pela aranha, temos que ficar atentos pois a hábil construtora pode estar à espreita de uma presa.  A atenção e dedicação devem estar sempre presentes até o final de nosso percurso, aliadas às motivações e atitudes positivas conosco e com terceiros.

Outro fator importante é a persistência que será avaliada pelas barreiras que superarmos.

Podemos perder oportunidades, mas jamais desistir dos sonhos.

Dê sempre o melhor de si. Acredite no seu potencial. Só saberemos se algo dará certo, se ao menos tentarmos realizá-lo.

Essa é nossa teia da “vida como ela é”! *

Santos, 07 de novembro de 2022

 

“A Vida Como Ela É – série de contos de Nelson Rodrigues.

 

Nota: Para Erika pelo Livro de Recortes.


quinta-feira, 27 de outubro de 2022

A TURMA DA RUA 2




Passeando recentemente pelas calçadas que tantas e tantas vezes andei da infância à fase adulta, fui olhando para as casas do quarteirão, uma a uma, recordando como eram as arquiteturas nos anos 60, relembrando as famílias e mentalmente citando seus nomes um por um. Lembro de todos principalmente das crianças.

Dos moradores de minha época não há mais nenhum ocupando sua antiga casa.  Na verdade, há ainda uma pessoa que não chegou a compartilhar dos folguedos de minha turma, mas brincou com minha irmã caçula. Juliana permanece como representante da Rua 2.

Neste intervalo de quase 6 décadas houve uma mudança incrível no quarteirão e  praticamente nada lembra o cenário de minha infância.

Eram casas simples, outras um pouco mais elaboradas, mas sempre abrigando pessoas que valorizavam a amizade acima de tudo.

Não há como esquecer a residência do pianista Eugênio Benetti. Além do som belíssimo que se fazia ouvir, a família costumava colocar sobre as muretas na frente da casa, lindas e coloridas araras que lá ficavam enfeitando e encantando os olhos da meninada. Nunca cheguei a ver, mas os adultos contavam que Geninho fazia suas serenatas à noite colocando o piano sobre a carroceria de um caminhão e percorrendo as ruas da cidade. Imagino a emoção de quem recebia tais serenatas.

Asfalto ainda não havia chegado e era sobre o calçamento de paralelepípedos que a criançada toda noite se reunia para as brincadeiras de rua.  Eram muitas.

Lembro que quando íamos brincar do que chamávamos de Pai da Latinha (uma variedade de pega pega), colocávamos uma lata bem no cruzamento da rua 2 com a avenida 8 e o dono da lata contava até 10 enquanto a molecada se espalhava pelo pedaço. Ele tinha que alcançar alguém sem deixar que ninguém viesse tocar na dita cuja lata. Se ao menos relasse em alguma criança ambas trocariam de função e ele ficaria livre de tomar conta da latinha.

Só de pensar no local já se conclui o pouco trânsito que havia neste pedaço.

Ainda neste mesmo cruzamento sobre o bueiro que ainda deve estar lá, meu pai acendia fogos de artifício na época das festas juninas.  Colocava o que se chamava vulcão e era lindo ver aquela explosão de cores e luzes subindo bem alto.

Futebol era meio constante. As portas de aço das casas comerciais serviam como gol.

Entretanto o que mais me recordo eram as turmas.

Nós nos identificávamos como a Turma da Rua 2 e outros meninos moradores na rua de baixo, entre as mesmas avenidas (8 e 10), se intitulavam Turma da Rua 3. Como era de se esperar havia rivalidade entre ambas.

Para quem morava na 3, passar pela rua 2 a qualquer hora do dia significava provocação.  O mesmo ocorria quando alguém da 2 ousasse passar pela rua 3.

Lembro-me que toda vez que tinha que ir na antiga Padaria Gaib (esquina da rua 3 com avenida10) eu ia e voltava usando apenas a rua 2 e avenida 10 como percurso. 

De vez em quando uma guerrinha surgia entre as turmas. O campo de batalha era a avenida 8 entre as duas ruas.  Para estas ocasiões fazíamos estoque de munição: tampinhas de refrigerantes amassadas ao meio. Elas eram lançadas com estilingues.

Apesar de serem somente tampinhas doía bastante quando éramos alvejados.

Muitos anos depois em uma consulta com um dermatologista em Rio Claro, ele reconheceu-me. Lembrou-se da infância e em particular das Turmas das Ruas 2 e 3. Éramos inimigos naqueles tempos.

Por um bom período fui a única menina do pedaço já que minha irmã nasceu anos depois. Não tive muita escolha: era entrar nas brincadeiras dos meninos ou ficar de fora olhando. Confesso que morria de medo do carrinho de rolimã (Geórgeres andava como se fosse piloto de Fórmula 1) e também não gostava de ficar no gol pois tinha medo das boladas.

Flávio era o expert em empinar papagaios. Sempre os colocava nas alturas para orgulho do pai Euclides (proprietário da loja Bazar da China).

Até um ringue de luta de box como manda o figurino foi montado certa vez na casa do Beto (Casa da Borracha). Meu primo Francisco foi escolhido para massagista e adaptou uma malinha infantil de viagem com esparadrapos e que tais.  Colou até uma cruz branca na tampa da mala. Lembro que a disputa mais esperada foi Beto x Luiz Ângelo (Cerri). Não me lembro quem ganhou, mas isso nem nos importava. O que valia era a festa que fazíamos nas brincadeiras.

A maior parte dos prédios abriga atualmente casas comerciais. A região central da cidade se expandiu e atingiu nosso reduto infantil.   Novos tempos.

Não se vê mais a criançada em turmas brincando nas calçadas e ruas.  Na cidade como em todas as outras os vizinhos mal se conhecem e se cumprimentam.

São as consequências do mundo moderno que nos trouxe tantos benefícios nas áreas da saúde, tecnologia, educação, etc, mas em contrapartida, abafou de vez a alegria dos gritos infantis que se ouviam nas ruas e esquinas de minha infância.

 

Santos, 27 de outubro de 2022

OBS.: Aos amigos desta época que nos deixou grandes e belas lembranças.


 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

ETIQUETA x ESPONTANEIDADE

 


Etiqueta e finesse há tempos estão cada vez mais esquecidas e em plena decadência. As gerações mais novas pouca ou nenhuma importância dão às normas de conduta com finura de maneiras e protocolos de um modo geral.

Já se foi o tempo em que era uma exigência em muitas famílias, principalmente nas consideradas nobres e elegantes sentar-se à mesa e portar-se com cerimônia sabendo como usar corretamente todos os talheres, como se servir e como manter uma conversa adequada durante uma refeição.

A vida corrida dos tempos atuais quando boa parte das pessoas almoça em horários distintos e até fora de casa, sem oportunidade de reunir a família, aliada à praticidade do mundo moderno, acabou por abolir muitas destas etiquetas.

A despeito disso há ainda sem sombra de dúvidas, maneiras de se portar e se comunicar com as pessoas de forma delicada e elegante, sem beirar ao exagero.

Porém há situações nas quais a espontaneidade da pessoa acaba desencadeando conversas que se tornam hilárias e desprovidas de qualquer finesse.

Foi o que ocorreu recentemente.

Preocupado em avisar a tempo todos os envolvidos sobre a falta de água que ocorreria em minutos no edifício, o responsável pelos recados acabou provocando risos pela maneira apressada e meio atabalhoada de se expressar.

De maneira nenhuma foi falta de educação ou respeito. 

Ao contrário, a pressa, a preocupação e a maneira instintiva e sincera de divulgar o aviso, acarretou em frase hilária, mas perfeitamente entendida pelos ouvintes.

- Senhora, a água vai parar daqui a pouco.  Se tiver que ir ao banheiro, vá já!

Impossível não achar divertido receber tal aviso de maneira tão simplista e que a despeito da importância dele provocou muito riso.

O jeito foi mesmo seguir as instruções e ir ao banheiro, armazenando na sequência dois baldes de água prevendo demora no retorno do precioso líquido.

Pensando mais sobre a frase conclui que ela poderia ter sido mais explícita ainda.

Ainda bem que não chegou a este ponto......kkkkkk

 

Santos, 26 de outubro de 2022


sexta-feira, 9 de setembro de 2022

NOSSAS MEMÓRIAS AFETIVAS

 

                                                                    Óleo sobre tela - Sandra de Pinho


Como é difícil, eu diria até quase impossível, não fazermos comparações entre os tempos atuais e os que vivemos há algumas décadas durante a infância, juventude e início da fase adulta.

Com certeza as mudanças em todos os sentidos sempre ocorreram e sempre ocorrerão; elas são necessárias para não ficarmos estagnados na mesmice.

A despeito de entender perfeitamente isso, confesso que tenho dificuldades em assimilar e simpatizar por exemplo com as músicas tipo funk, trap, rap, sertanejo pop, sertanejo universitário, etc.

O mesmo fato se dá com relação a outras manifestações artísticas como teatro na atualidade (algumas stand-up são lamentáveis) bem como certas pinturas abstratas demais para meu gosto.

Interessante que gosto e curto telas tipo expressionismo abstrato, cubismo e expressões geométricas como as telas de Mondrian. Ressalto aqui inclusive o trabalho muito bonito de uma amiga que foge das telas acadêmicas e consegue colocar em seus trabalhos sua expressividade maior através do jogo de cores e formas. (Sandra de Pinho*).

Foi lendo recentemente um texto de Leandro Karnal** que entendi um pouco esta resistência de minha parte, às mudanças bruscas deste século XXI.

Neste artigo que denominou ESSA EU CONHEÇO, ele cita Proust e recorda que nossas preferências dialogam com nossas memórias afetivas.

Ou seja, um cheiro de um alimento que adorávamos na infância, ao ser sentido, nos remete diretamente a esta fase da vida e a momentos alegres.

Com as artes também ocorrem fatos similares.  É comum ouvirmos (eu mesma falo) que as músicas de meu tempo eram muito mais bonitas que as atuais.  Com toda certeza as que mais aprecio são as que fizeram fundo musical em minha infância, adolescência e juventude. Isto também acontece por conta da memória afetiva de momentos significativos.

Faço, entretanto, uma ressalva sem querer idealizar o passado: não sou musicista e” malemal” brinco no teclado, mas em minha opinião, a poesia e o lirismo que havia nas letras e melodias das músicas “do meu tempo e dos tempos que me antecederam” eram mais elaboradas, mais criativas e envolventes.

Realmente os tempos são outros, o mundo mudou e o jovem tem sua própria identidade que manifesta da maneira como aprecia, como sente a vida, e não como a sentíamos há algumas décadas. Cada um em seu tempo.

Concluo pensamentos com a frase usada por Karnal ao final de seu texto:

“Fico à toa na vida, olhando a banda passar, pensando naquilo que era bom...Esperança para o futuro e alguma melancolia para hoje”. 

 

Santos, 09 de setembro de 2022

 

* Sandra de Pinho - Exposição TODAS AS CORES, em Galeria de Artes Braz Cubas, Centro de Cultura Patrícia Galvão - Santos - 2017. 



**Leandro Karnal – Crônica ESSA EU CONHEÇO, publicada no jornal O Estado de São  Paulo -31 de agosto de 2022.