Há tempos não aconteciam situações embaraçosas em público e isso não era muito normal.
Parecia que ela passara a fazer parte das chamadas pessoas normais para as quais nada acontece de inusitado.
Na verdade o que houve foi somente um pequeno intervalo, um tipo de férias que ela havia dado às famosas gafes.
Sua falta de orientação espacial, velha conhecida por parte da família e amigos, foi justamente a responsável por desencadear alguns momentos de apreensão para não dizer pânico mesmo. Depois de utilizar o banheiro em uma enorme estação ferroviária na Itália, saiu do ambiente para o lado errado do corredor e se perdeu totalmente.
Tentou se localizar andando de um lado para outro, mas foi inútil. Cada escada que subia dava acesso a alguma plataforma de embarque que com certeza não era o local onde havia pessoas lhe esperando.
Pediu ajuda a vários funcionários, mas além de não conseguir se expressar em italiano, também não entendia o retorno que lhe davam.
Assim ficou por alguns minutos lembrando realmente o vaivém de uma barata tonta, sem achar seu destino certo.
Ligou para seus contatos pedindo auxílio, mas não sabia nem explicar em que ponto da estação estava. Caos completo.
Resultado: alguns familiares sairam pelos corredores de vários andares procurando a desorientada. Puseram em funcionamento a operação resgate.
Após um certo tempo foi-lhe dada uma dica de uma lanchonete próxima ao local para onde ela deveria se dirigir e assim, com essa informação, ela conseguiu se reunir ao grupo. Claro que após as broncas vieram as risadas já que tudo havia terminado bem.
Recentemente eis que ela provocou uma nova confusão.
Falando ao celular já há um tempo razoável, não se lembrou de colocar na opção viva voz. Sendo assim, ficou segurando o aparelho próximo à cabeça e quando o braço cansava apenas trocava o telefone de mão e continuava a conversa.
"De repente, não mais que de repente"* como já nos disse o poeta Vinícius, a amiga com quem falava lhe alertou que vários rostos haviam aparecido na tela de seu celular e na sequência ambas começaram a ouvir várias vozes falando sem que entendessem bem o que se dizia.
Na hora concluiram que eram as famosas linhas cruzadas que aconteciam com frequência em tempos antigos.
Resolveram desligar e tentar descobrir o que havia acontecido.
Constatou para seu espanto que constavam 3 chamadas suas para amigas e até para um profissional de saúde convidando a todos para uma conversa em grupo. Já era tarde da noite, próximo das 23h.
Rapidamente mandou mensagens a todos pedindo desculpas e esclarecendo que fora engano.
Ao ler detalhes explicativos no Google sobre esta tal chamada em grupo durante conversa com alguém, verificou que isso pode ser feito convidando até um total de 32 pessoas.
Com certeza ao ficar mudando o aparelho de uma orelha para outra acabou tocando acidentalmente na tela, ou seja, dando literalmente uma orelhada e disparando o comando para essas chamadas todas.
Apesar da vergonha pelo fato de ter incomodado tarde da noite estes seus contatos, ela ficou feliz ao final da história por um motivo bem simples: lembrou-se que o problema poderia ter sido mais grave caso ela possuísse orelhas enormes e provocando a tal ligação para as 32 pessoas que o aparelho permite.
Ainda bem que não é o elefantinho Jumbo! Que alívio!
Aprendeu que em ligações mais demoradas deve-se sempre usar o viva voz.
Vivendo e ainda aprendendo, mesmo com mais de 7 décadas vividas.
Santos, 17 de julho de 2026
* Soneto de Separação - Vinícius de Moraes
Com os agradecimentos à:
- Luíza e Antonio: equipe de resgate na estação ferroviária;
- amiga Maria Lygia, pelo alerta sobre os rostos surgindo na tela de seu celular.

😱😱🤣🤣
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