Apesar
da tristeza que a saudade causa é impossível lembrar de você sem sorrir.
Nossos momentos sempre foram acompanhados de muita alegria pois você era
expert em "tiradas"
espontâneas que às vezes me pegavam desprevenida deixando-mede saia justíssima.
Uma vez por semana tínhamos o que você chamava de Tarde de Madame.
Saíamos para um cafezinho gostoso nas bonitas cafeterias da cidade, sempre num
ambiente alegre e descontraído.
Lembro bem de uma tarde em que combinamos um encontro na frente de uma
loja do shopping. Cheguei antes e enquanto lhe esperava fiquei olhando a
vitrine ao lado de um casal desconhecido.
Você foi chegando e com uma expressão muito séria no rosto falou em alto
e bom som:
- Muito bonito, hein! De sandálias novas e me devendo ainda muita grana.
O casal ao lado me dirigiu um olhar reprovador e acusador.
Fiquei tão aflita na hora que não sabia se lhe desmentia, se dava risada
ou se lhe mandava à merda! ...rs.
Minha expressão devia estar muito cômica entre envergonhada e espantada
e você não se segurou - para meu alívio e rindo muito acabou explicando a brincadeira
ao casal.
Quando atravessávamos a rua na faixa de pedestre e o motorista parava o
carro para nos esperar, enquanto eu dizia simplesmente obrigada, você mostrava
seu melhor sorriso e abanava a mão dizendo baixinho: viado.
O motorista sempre respondia com outro aceno e mais sorrisos. Eu ria
muito mas ficava receosa de que qualquer
dia eles escutassem direitinho a palavra que você pronunciava entre dentes.
Muitas histórias que escrevi foram baseadas em seus casos. A última foi sobre
o dia em que me pediu para matar uma barata que na verdade era um simples
buraco na parede. Como rimos naquela tarde!
Que hoje Vivian, esteja onde estiver, você continue a espalhar alegria!
Recentemente fui convidada a realizar uma atividade
que nunca havia feito e que me envolvia diretamente.
O objetivo era falar algumas palavras a
respeito de uma data comemorativa muito importante de uma unidade escolar onde
estudei e trabalhei, ou seja, a escola "Marcello Schmidt" em Rio
Claro/SP.
A ideia me agradou de imediato pois realmente
tal escola é parte muito importante na história de minha vida pessoal e
profissional.
Pensei rapidamente sobre o que falaria e
iniciei a gravação.
Óbvio que marinheira de primeira viagem já
comecei enroscando e gaguejando. Tudo
bem, erros fazem parte do aprendizado.
Depois de várias tentativas para falar sem
dificuldades e também em um tempo não muito longo para não ficar cansativo, eis
que de repente me vejo a explanar direitinho tudo o que desejava. Já no finalzinho quando mentalmente
comemorava o êxito, aconteceu um imprevisto.
Fui atacada sorrateiramente pela Síndrome do
William Bonner.
Ao encerrar minha explanação falei com toda
ênfase: BOA NOITE A TODOS!
Não sei de onde veio esta bendita Síndrome
mas foi o suficiente para estragar toda gravação. Sei que há meios para se
editar e corrigir estes erros em vídeos mas os desconheço ainda e não quis
incomodar pessoas que pudessem me ensinar.
Finalmente depois de algumas horas consegui
gravar a contento e da maneira que desejava. Creio que está até razoável.
Como o arquivo ficou um pouco grande não
consegui enviar por whatsapp mas felizmente minha sobrinha veio em meu socorro
e usando um editor conservou o vídeo sem cortes mas com tamanho mais reduzido
possibilitando seu encaminhamento para a responsável na escola.
Faço um parênteses aqui para elogiar minha
sobrinha e todos os professores que em 2020 tiveram que, como se diz, "virar
nos trinta" para gravarem suas vídeoaulas sem qualquer orientação maior e sem qualquer
aparelhagem que facilitasse tal serviço. Aprenderam na raça a gravar e editar
vídeos usando recursos próprios. Parabéns a todos.
Trabalho concluído e satisfeita já encaminhei o material para a
escola organizar as comemorações de aniversário.
No dia seguinte à toda esta aventura "gravadorística", quando o Sol ainda
mal surgira no horizonte, um susto grande me fez dar vários tapas no ar
acertando inclusive alguns tabefes no próprio rosto.
Ao olhar para a parede branca vi uma enorme
aranha preta com direito a teia e tudo, vindo bem na direção de meu rosto no
lado esquerdo.
O reflexo imediato foi usar as mãos para
espantá-la mas ela, teimosa que era, continuava a se aproximar. Nestas tentativas de espantar o bicho alguns
tapas acertaram em cheio minha face.
Até que....
Até que percebi que fechando o olho esquerdo
a aranha com sua teia simplesmente desapareciam. Bastava abrir o olho e lá estava ela dançando
e se divertindo às minhas custas.
Já havia ouvido falar de mosquinhas
imaginárias que algumas pessoas enxergam por algum problema de visão, mas aranha
tão grande assim e com direito a teia e tudo nunca ninguém havia comentado.
Pensando nas prováveis causas deste fato lembrei-me
que havia ficado umas 2 a 3 horas usando direto o celular enquanto gravava e
regravava o vídeo. Talvez a exposição excessiva à tela do aparelho tivesse
ocasionado o surgimento da bendita aranha.
Após consulta ao oftalmologista soube que se
trata de fato relativamente comum em pessoas que já tiveram 15 anos há muito
tempo que é o meu caso, e que provavelmente não tem nada a ver com a exposição
ao celular.
Para melhorar mais ainda a situação, a aranha
(com a qual acabei fazendo amizade e me acostumando a ela), já não tem
aparecido com muita frequência.
Entretanto algumas poucas vezes ela ainda aparece
para me desejar bom dia.
Santos, 30 de abril de 2021
Obs:: 1. À Escola "Marcello Schmidt" pelos
110 anos de muito sucesso.
2. Para Carolina com os agradecimentos pelo
socorro prestado!
Não há a menor dúvida no
tocante às diferenças existentes nas maneiras como os pais educavam seus filhos
no século passado e como o fazem atualmente.
Isto é perfeitamente
compreensível, saudável e esperado visto que o mundo está em constantes
mudanças influenciando a tudo e a todos, incluindo claro, o aspecto
comportamental.
Não precisamos retroceder
muitos anos para observarmos tudo isso; basta compararmos nossa infância à
infância vivida por nossos avós e até mesmo pais.
Independente da época, a
educação, o respeito e as atitudes de um modo geral, sempre devem nortear a
preocupação dos pais no preparo de seus filhos para um futuro digno e honesto.
São virtudes que jamais ficarão obsoletas.
Uma das mudanças mais
evidente é com certeza o fato de que as crianças e mesmo adolescentes, deixaram
de ser considerados seres sem direitos à voz e à opinião.
No passado era muito comum
e perfeitamente normal as crianças serem proibidas de participarem de um grupo
de adultos conversando.Eram mandadas
para o quarto ou então para brincarem em outro lugar.
Com o progresso acentuado
e acelerado vieram as preocupações com a segurança e a partir daí as crianças
começaram a permanecer mais tempo dentro de casa e as brincadeiras de rua tão
gostosas foram morrendo aos poucos.
Criança é e sempre foi
muito viva e esperta. Embora nós adultos às vezes as subestimemos, suas
cabecinhas trabalham e captam toda e qualquer mensagem ao seu redor.
Diante disso foi inevitável
que os pequenos começassem a fazer valer sua voz e vez no mundo adulto.Aplaudo isso mas sem descartar em nenhum
momento as virtudes acima citadas: respeito e educação.
Lá pelos meados dos anos
1950 estávamos vivendo o início dessa transição mas com fronteiras ainda bem
fechadas entre adultos e seus filhos em muitas famílias.
Tomando-me como exemplo
tenho claro na memória o dia a dia que observava na casa de algumas amigas
cujos pais eram mais liberais e mentalmente fazia comparações com meu próprio cotidiano.A despeito da atenção e cuidados que sempre
existiram, nossas opiniões pouco ou nada valiam na infância.
Na época essa comparação
mexia muito comigo mas hoje compreendo perfeitamente pois os pais repetiam nos
filhos, a severidade com que foram educados.
Todo este preâmbulo se
justifica para o relato que faço a seguir.
Desde pequenos recebemos
responsabilidades quer na casa comercial que meus pais mantinham, quer em casa
nos afazeres domésticos.Claro que eram
serviços adequados às crianças mas a obrigatoriedade era exigida sempre.
Enquanto meu pai sempre se
controlou e nunca gritou e nem levantou as mãos para os filhos (é bem verdade
que ele mal conversava com as crianças), minha mãe sempre assoberbada com
tarefas domésticas e com o trabalho também na papelaria da família, tinha seus
momentos de nervoso e explosão instantânea principalmente quando fazia as tais
dietas alimentares buscando perder peso.
As crianças já conheciam
quando ela estava nestes momentos (que é bom esclarecer, não eram frequentes), e até os associavam ao picles que ela fazia e
comia muito nestas ocasiões, além de um vestido bonito, de tons cor de bispo
com traços pretos que coincidentemente sempre usava quando estava irritada com
algo.
Nestas ocasiões sabíamos
que todo cuidado era pouco pois a explosão por qualquerresposta atravessada ou serviço deixado de
cumprir, resultava num susto grande e correria.
E foi assim que num dia
após o almoço domingueiro quando cada filho estava desempenhando sua tarefa na
cozinha (enquanto ela lavava a louça, uma secava, outra guardava e ele arrumava
a mesa), que o garoto deve ter dito ou feito algo que a desagradou
terrivelmente.Não me recordo mais qual
foi a falha mas acredito que deva ter sido grande pois a reação dela foiinstantânea.
Da cozinha onde estava
lançou o garfo grande de frituras na direção do menino que estava há uns 8
metros dela.O dito cujo garfo voador
foi direto na direção do rosto.A grande
sorte foi que o reflexo dele estava em dia e no mesmo instante em que se abaixou
a peça colidiu com a porta da geladeira descascando a pintura no local da
batida.
Gritos das meninas ao
verem aquela peça cortando os ares em busca de uma vítima.
Por alguns segundos o
susto paralisou a todos inclusive à mãe, menos ao garoto que neste meio tempo
"pernas para que te quero" evoou sumindo da vista por várias horas.
Claro que o arrependimento
bateu em seguida e ela agradeceu o insucesso do garfo voador, mas a lembrança
do fato está bem nítida em minha memória e na memória dele com certeza.
Aliás é impossível
esquecer o fato pois o garfo ainda me acompanha e está devidamente guardado na gaveta de
talheres de minha cozinha, trazendo seus dentinhos tortos como uma constante
lembrança do dia em que voou mesmo sem ter asas e sem ter brevê.
Santos, 31 de março de 2021
Ao Edo e seu bom reflexo e
ao garfo também, que afinal resistiu ao tempo e ainda presta serviços, mas sem
voar......rssss
Ele
continua lá, às vezes azul, outras mais escuro, normalmente calmo e sereno,
outras vezes mais agitado e revolto.
Sob
um céu azul que invade nossos olhos ele vira e revira a areia com suas ondas
brincalhonas.
Todas
as manhãs fico a admirá-lo à distância. Uma grandeza a perder de vista. Ele me
encanta, sempre me encantou.
A
paz que o mar me traz é indescritível!
Pisar
na areia sentindo seu vaivém molhando os
pés me transporta a um mundo distante onde naquele momento só eu existo. Puro devaneio.
O único som é seu murmurar constante.
A
imaginação voa para longe, para outras terras que nunca conheci e provavelmente
jamais conhecerei. Terras fantásticas, coloridas, alegres, onde a harmonia e amor
reinam absolutos.
Quantos
mistérios o mar esconde! Quantos dramas, quantas alegrias, quantos encontros e
desencontros, quantas aventuras e desventuras ele testemunhou ao longo destes
milhões de anos.
Lembro
de uma novela antiga de meu tempo de adolescência cujo enredo já não tenho mais
na memória -"Se o Mar
Contasse".Curiosa que sou com
certeza farei depois uma busca no Google.
Este
verão com dias tão brilhantes e ensolarados está diferente de todos os outros
que já vivi por aqui. Pisar na areia, curtir a beleza do dia sentindo as águas
sob os pés, sentar e observar a imensidão deste mar, são desejos suspensos no
momento. Até que é possível curtir estas sensações adotando certos cuidados,
mas o receio diante desta pandemia tira todo o brilho e espontaneidade destes
momentos.
Independente
de como seguem nossas vidas ele sempre estará lá a nos encantar dia após dia numa
mistura de cores: azul - unindo-se ao céu no horizonte, róseo - na alvorada, e
alaranjado a dourado no poente, refletindo em suas águas a aquarela do céu. Como
bem disse Manoel de Barros: "Um fim de mar colore os horizontes".
Neste
verão tão diferente e com tantas restrições o consolo é olhar o mar e sonhar
com dias melhores, sonhar um sonho azul, "azul da cor do mar"!*
Aposentadoria se
aproximava e planos entravam em ebulição em sua cabeça.
Decidiu que era
chegado o momento de partir para novas terras já que os familiares mais
próximos moravam em São Paulo e Campinas. Vivia o tal chamado tempo da
travessia, quando sentimos necessidade de trocar os caminhos.
Mudar-se para São
Paulo descartou de imediato. Depois de morar mais de 50 anos em cidade de médio
porte, concluiu que apesar de gostar da capital para passeios não se daria bem
e teria dificuldades principalmente para dirigir por lá. Já se
imaginou saindo no Jornal Nacional em rede, como causadora de confusões no
intenso trânsito paulistano.
Agora aposentada
desejava uma vida mais calma, sem horários, sem correrias.
Foi quando surgiu a
ideia de Santos, cidade que pouco frequentou mas da qual guardava boas
lembranças.
Assim pensou, assim
procedeu.
No meio do ano saiu a
tão esperada aposentadoria mas por causa de compromissos ainda
permaneceu em sua cidade até meados de dezembro. Neste meio tempo
providenciou residência em Santos, aquisição de alguns materiais necessários e
com tudo planejado e organizado, partiu de mudança para novos ares.
Foi num 15 de
dezembro.
Nunca havia se
sentido tão bem! Tudo era novidade!
A cidade a encantou
com a beleza do jardim da praia, com a alegria, com o agito, com as famílias
inteiras passeando pelo calçadão. Era época natalina e as festividades deixavam
tudo mais ainda bonito.
Estranhou no início o
fato de caminhar por tempos sem encontrar nenhum conhecido. Estava acostumada a
sempre topar com amigos, com ex-alunos, ex-colegas de trabalho a cada vez que
saia na rua em sua cidade natal. Em Santos era apenas um rosto
desconhecido no meio do povo e isso lhe dava uma sensação muito boa.
Explorou passeios,
museus, diferentes restaurantes e claro, a praia.
Ainda não sabia se
iria acostumar na nova cidade mas tudo indicava que não voltaria para o
interior apesar de adorar sua Rio Claro.
Dito e feito.
Adaptou-se rapidamente nesta bela cidade que à época de sua mudança,
apresentava inclusive um custo de vida menor. Infelizmente na época
da descoberta do pré-sal a ganância do homem fez os valores subirem, fato que
se mantém até hoje.
Passados os primeiros
meses de euforia e descobertas começou a rondá-la a sensação de inutilidade que
se apossa dos aposentados. Estava acostumada a trabalhar mais de 8
horas/dia e inclusive levar serviço para casa. De repente a
ociosidade começou a incomodar.
Foi quando procurou
uma escola, seu ambiente de trabalho por mais de 30 anos, para colaborar de
alguma forma pois conhecia bem a realidade das escolas públicas.
Teve a sorte de ser
muito bem recebida em uma unidade próxima à sua casa e que justamente
precisava na ocasião de alguém que entendesse de
informática. Começou então a colaborar um pouco na
Coordenação Pedagógica, campo que lhe era bem familiar. Assim passaram-se 14
anos neste voluntariado.
Neste meio tempo
envolveu-se em outras atividades que passaram a ocupar as horas de seu dia,
terminando com aquela sensação horrorosa de inutilidade. Entretanto,
até há pouco tempo por incrível que pareça, ainda não se sentia confortável ao
ir caminhar na praia em plena segunda-feira.
E assim neste ano
deu-se conta que já passaram dezessete dezembros desde que veio a Santos.
A saudade de sua
querida Rio Claro é enorme. Saudade dos amigos, de familiares e de um tempo que
foi bom demais. Volta e meia vai revê-la e embora se entristeça com mudanças
que a modificaram muito, a Cidade Azul jamais sairá de seu coração.
Relembrando a
canção-prece de Cristovão Barros e Aldir Blanc: Resposta ao Tempo.
" Tempo tempo
tempo tempo
Vou te fazer um
pedido
Tempo tempo tempo
tempo".
O tempo voa mas o bom
é que somos o piloto e com as experiências vividas podemos direcioná-lo para o
que nos faz bem.
As
décadas já vividas (fator preponderante), o cansaço provocado pelas compras de
final de ano, a conversa, ou simplesmente a pura e total falta de atenção, já
provocaram acidentes e incidentes nas melhores famílias.
Com
elas não poderia ser diferente.
Em
tempos de pandemia o jeito é programar-se para sair o menos possível de casa e
sempre em horários nos quais é bem menor a probabilidade de encontrar muitas
pessoas.
Pensando
assim elas ainda bem cedo tomaram o rumo do supermercado. Considerando que os preços estão elevados, cada
qual levou sua listinha nas mãos para controle a fim de se evitar gastos
supérfluos.
Compras
feitas, pagas e já colocadas no carro, rumaram para seus apartamentos.
Para
que as sacolas com as mercadorias não se misturassem, uma parte foi colocada no
carrinho do prédio e a outra acondicionada em sacolas de tecidos.
Uma delas reside no 5º andar e outra no 8º andar
do mesmo edifício.
Já
no interior do elevador e um pouco espremidas pelo carrinho e sacolas de pano,
optaram por se deslocarem primeiro ao 8º andar pois as compras eram em menor
quantidade, e na sequência a moradora do 5º desceria com suas aquisições
devidamente acomodadas no carrinho.
E
foi aí que a intervenção de vários fatores, dentre eles as décadas vividas,
alterou todo o esquema.
Assim
que a porta do elevador abriu, a moradora do 8º apressou-se em colocar todas
as sacolas cheias de compras no corredor. Despedidas feitas, porta fechada e o
elevador se deslocou novamente.
Ato
contínuo, ao ocorrer a segunda parada, a moradora do 5º andar fazendo um certo
esforço, conseguiu colocar o carrinho no corredor e se deslocou em direção à
sua casa.
Surpresa
total!
Vários
tapetinhos decoravam as portas dos apartamentos, tapetinhos estes que com
certeza não pertenciam ao andar em questão.
Feita a verificação ela constatou que estava no 8º pavimento.
Voltou rapidamente com o carrinho e com novo esforço o colocou no
elevador, agora com uma dificuldade maior pois ria muito e isso diminuiu suas
forças.
Chegou
finalmente ao 5º e nele
encontrou no chão perto da saída do elevador, as sacolas que deveriam estar no
8º. Nem sinal da dona das mesmas ali por
perto.
Estacionou o carrinho num canto do corredor, recolheu as sacolas e
embarcou novamente para o 8º andar. Ainda sem encontrar a proprietária deixou
todas as sacolas na porta do apartamento e retornou ao seu pavimento.
Outra
surpresa! Cadê o carrinho???
Passado
o espanto inicial, o observou no final do corredor, já vazio, estacionado na
porta de seu apartamento. Ao se
aproximar encontrou a companheira saindo da moradia, onde havia descarregado
toda a compra.
Aí
as gargalhadas foram inevitáveis.
Com certeza apertaram errado os botões do elevador e uma delas nem percebeu que ele subiu quando deveria descer. Total desatino.
Toda
esta lambança de entra e sai de elevador com compras descarregadas em andares
trocados, levou praticamente mais tempo do que a própria ida ao supermercado.
Creio
que num futuro próximo, bem próximo diga-se de passagem, haverá a necessidade
de usarem um GPS para se deslocarem dentro do próprio prédio.
Há
um ano quem de nós imaginaria um 2020 tão desastroso?
Vínhamos
numa roda viva de acontecimentos com mais tragédias que fatos positivos. Basta lembrarmos rapidamente alguns exemplos como
Brumadinho, escola de Suzano, CT do Flamengo, imensas manchas de óleo nas
praias do nordeste, e por aí afora. O Brasil perdeu também pessoas de destaque
como Ricardo Boechat, Gugu Liberato, Beth Carvalho, Lucio Mauro, Rubens Ewald
Filho, João Gilberto, entre tantos.
Em
meio a tantas notícias ruins houve também algumas positivas como a canonização de
Irmã Dulce, a primeira santa brasileira.
Entretanto
fatos tristes predominaram totalmente o ano de 2019.
Era
comum ouvirmos e até mesmo concordarmos com a expressão:
Tomara que este ano acabe logo!
E
eis que 2020 chegou e como dizem alguns, chegou chegando e já nos assustando
logo nos primeiros dias com notícias vindas da Ásia, posteriormente da Europa,
da América do Norte e em março batendo na porta do Brasil.
Sem
que ninguém esperasse nos vimos enclausurados em casa, acompanhando a disseminação de um vírus
mortal de forma acelerada, levando pessoas amigas, familiares, desconhecidos,
enfim, acumulando perdas e mais perdas humanas.
De
repente tivemos que nos afastar de todos, evitarmos qualquer contato físico com
quem quer que seja. Pais separados de filhos, avós separados de netos, irmãos
isolados e amigos também.
Entretanto
o tempo no isolamento do lar permitiu muitos momentos de reflexões sobre nossos
valores. Ficou mais do que claro que acumulamos muitas coisas desnecessárias no
dia a dia. Constatamos que a companhia de familiares, de amigos, assim como os
abraços reais, efetivos, não têm preço mas têm sim, valores inestimáveis.
Passou
a ser arriscado até o simples toque suave de uma mão sobre nosso braço nos
dizendo estou aqui com você, estou lhe apoiando. Imaginem então um abraço
daqueles de urso, quando os corações batem no mesmo compasso! Em tudo isso o
distanciamento colocou um fim de forma abrupta.
Agora,
quando surge uma luz no final do túnel e as tais vacinas estão prestes a
chegar, nossa esperança toda se deposita em 2021.
Será
ainda um ano difícil em todos os campos, principalmente na saúde e economia,
mas desejo e espero que tudo isso que vivemos neste 2020 abra nossa mente para
o que realmente importa nesta vida: o SER
é indiscutivelmente superior ao TER.
Que
tenhamos aprendido que as melhores coisas da vida são gratuitas: abraços,
sorrisos, beijos, família, amigos, amor, risos e boas lembranças. Quem me conhece sabe que curto muito minhas boas lembranças!
Desconheço
a autoria da frase mas concordo com ela:
"A
ciência já provou que não é possível "ganhar frio"; o que acontece é
perda de calor. Isso nos leva a pensar que talvez o ódio não exista, é apenas
falta de amor".
Quem acompanhou na
TV há alguns anos o programa A Praça é Nossa (antigamente era Praça da
Alegria) deve lembrar-se da personagem Velha Surda interpretada por Rony Rios.
Como não
reportar-se de imediato a ela quando por distração ou pura surdez mesmo,
entendemos erradamente a palavra que nos falaram? É a tal vida imitando a arte ou
vice-versa como alguns preferem.
Recordando
rapidamente duas destas situações, me vejo no próprio banco da praça quando em
conversa em família sobre a performance de Sophia Loren, é dito que a atriz
apesar da idade está inteirona.
De
imediato se ouve a pergunta:
- Ela está
morando em Verona?
Na cabeça
de todos a cena com a velha da praça aparece instantaneamente e as risadas são
inevitáveis.
Também dei
minha contribuição (para não chamar de mico) enquanto aguardava a atendente do
plano de saúde anotar meus dados para uma autorização de ultrassonografia.
A uma
distância de 2 metros e com uma grossa máscara a jovem pedia meus dados
pessoais quando, de repente, a ouço perguntar se eu usava lente de contato. Espantada com tal pergunta já que a
visão não tinha nada a ver com o exame, devolvi-lhe a questão querendo saber o
motivo deste tão estranho pedido.Foi quando mal segurando a risada a atendente
em tom bem mais alto me esclareceu que queria um telefone de contato.
Claro que
não somente ela como eu rimos, mas também todos os demais que estavam por
perto.Foi minha mais recente interpretação
da inesquecível Velha Surda.
Lembrando-me
então dos humoristas que se apresentavam na TV até há pouco tempo, não pude
deixar de traçar uma linha comparativa com os atuais programas. Conclui não sem
certa tristeza que já há alguns anos não tenho conseguido acompanhar na TV
nenhum quadro dito de humor.
Às vezes até
me obrigo a assistir algum que ouço comentários positivos, mas logo desisto. Desde
o texto, passando pelascaricaturas, por
interpretações, tudo me soa tão forçado e falso (muitas vezes apelativo) que
não consigo achar graça alguma e chego a sentir até a tal vergonha alheia.
Talvez o
humor que hoje se exibe na TV não se enquadre mais em minhas preferências, ou
então as décadas já vividas tenham me roubado um pouco o senso de humor, fato este
que considero um pouco difícil.
Os valores,
as expressões, as abordagens com certeza sofrem modificações com o passar do
tempo. Alguém já disse que se ficarmos exclusivamente olhando para o passado,
não viveremos o presente e perderemos o futuro. Concordo plenamente.
Mudanças
são bem vindas e necessárias e temos que nos adaptar a elas se quisermos
evoluir. Basta lembrar Darwin e sua Teoria da Seleção Natural para nos conscientizarmos
disso.
O que
porém tem ocorrido de um modo geral é que cada vez mais sinto que as transformações
têm acontecido de maneiras tão descontroladas e aceleradas, que atropelam o
homem e nem sempre nos levam a um progresso, a uma evolução e sim a um
retrocesso.
Por conta
disso ouço com muita frequência a expressão "no meu tempo", expressão essa que de imediato, como já
testemunhei, coloca os mais jovens numa rápida postura de rejeição a todo o
resto da frase.
A ideia
não é desvalorizar o novo pura e simplesmente, mas analisar se realmente tal
mudança trará algo benéfico.
Se sim,
vamos aplaudi-la e adotá-la. Caso contrário é melhor estudar novas maneiras de
implantá-la para que realmente nos leve ao desejado progresso.
Por essas
e mais aquelas continuo a preferir a singeleza e simplicidade da divertida Velha
Surda Bizantina Escatamaquia Pinto com sua música de apresentação: Ó querida, ó
querida, ó queriiiiiiiiiiida Clementina!!!
Santos, 16 de novembro de 2020
Respondendo somente agora sua pergunta Edo, Sophia Loren mora atualmente em Genebra, mas tem imóveis em Nápoles e Roma. Portanto ela não mora em Verona, mas está inteirona...😁😁😁
Após
longos anos de estrada percorrida nesta vida terrena é muito gratificante
pararmos um pouco o relógio do tempo e olharmos, nem que seja por alguns
minutos, todo o caminho já percorrido.
Da
infância à fase adulta passamos por experiências das mais variadas possíveis.
Obviamente
haverá muitas lembranças que nos machucaram, mas aí entra neste instante, nossa
capacidade de sublimarmos tais fatos e nos atermos somente àqueles que fazem
brotar instantaneamente um sorriso na face.
Quando
me proponho a fazer tal exercício meus
pensamentos mais demorados correspondem à segunda infância e juventude. Creio que isto deva se passar também com a
maior parte das pessoas.
É
inegável que a vida nestas faixas etárias, quando estamos ainda de certa forma
descompromissados com nossa função e participação na sociedade como um todo,
tudo se compare à conhecida expressão "mar de rosas". Talvez por isso mesmo permitimos que nossa
alma sonhe, e sonhe alto, dando-nos aquela vontade enorme de abraçar o mundo.
Quem
já não teve ou ainda tem esta vontade?
As
lembranças que trago da infância me são muito caras, a despeito de ainda
crianças, faixa dos 7 e 8 anos, eu e meu irmão já trabalharmos várias horas por
dia na papelaria de meus pais com obrigações e cumprimento de tarefas.
A
memória guarda com muito carinho as brincadeiras com irmão, primos e outras
crianças, tanto nas ruas quando o asfalto ainda não havia sufocado as pedras do
calçamento, como nas dependências do armazém e fábricas de meu avô e tios-avós.
Num
instante me vejo escalando juntamente com mais crianças, sacas e sacas de
açúcar cristal empilhadas num depósito escuro na refinação de açúcar, onde
entrávamos escondidos dos adultos.
Era
uma delícia furarmos os cantinhos do tecido e comermos o açúcar que escorria
pelos buraquinhos feitos. Além de
saborearmos o doce, havia também a emoção da aventura pois fazíamos isso sempre
de olho na porta do depósito com receio que alguém nos flagrasse. Quando isso
acontecia era uma correria só. Cada
criança corria para um lado com o coração aos pulos.
Outra
aventura prazerosa era invadirmos a adega que ficava no quintal no centro da
fábrica de macarrão. Impossível esquecer
a emoção temperada pelo medo e pela curiosidade ao descermos os degraus cheios
de limbo verde, e entrarmos num ambiente na semiobscuridade sentindo teias de
aranhas enroscando nos braços e rosto. A sensação da aventura suplantava
qualquer receio maior.
No
fundo da adega víamos garrafas e mais garrafas de vinhos que eram destinados ao
consumo da família. Nunca mexemos nelas pois sabíamos até onde nosso
atrevimento poderia chegar. Esta
brincadeira teve um final súbito pois numa das invasões fomos vistos por tia
Fiorina, que da janela do salão do sobrado deu o grito de alerta aos
funcionários e aí a correria foi imediata. Lembro-me que ficamos sem aparecer
em casa por algumas horas até que a bronca dos adultos amenizasse.
Não
há como esquecer a delícia que era na fábrica de macarrão, ser colocada sentadinha sobre a prateleira
mais baixa dos carrinhos que possuíam vários andares de varais destinados a
pendurar espaguetes recém preparados. Tais carrinhos tinham rodinhas e eram
levados por funcionários (Gino e Zanardi) até a sala de secagem onde havia um enorme ventilador
que tomava toda a parede do ambiente.
Como eu era a menor da turma e única menina, tinha o privilégio desta
brincadeira. O carrinho era então empurrado em alta velocidade por um longo
corredor que levava até a sala do secador e eu ria muito neste trajeto, sentido
as pontas dos espaguetes úmidos batendo em meu rosto. Óbvio que essa
brincadeira também não chegava aos ouvidos de meu avô e principalmente de meu tio-avô Casemiro (Pipe) que era muito sério e sisudo
nos causando certo receio e distanciamento dele. Creio que fosse amoroso como
meu avô, mas naqueles tempos as crianças não tinham a liberdade que hoje
possuem no meio dos adultos.
Na
esquina da fábrica, bem no canto da avenida 8 com rua 3, meu avô administrava
o armazém da família onde sempre havia encostada à porta, uma caixa de madeira
com bacalhaus secos. Uma de minhas traquinices era ao passar por ali, beliscar
pedações destes peixes e sair curtindo o gostinho de sal na boca, enquanto meu
avô entre bravo e sorridente, me dizia: "Migila,
não estrague o produto!"
Nunca
soube o motivo dele às vezes se referir a mim com este apelido.
Interessante
que depois desta fase passei a não gostar de peixes. Apenas recentemente
comecei a aceitá-los no cardápio.
O
portão da garagem da fábrica era de madeira grossa mas cheia de vãos pelos
quais podíamos ver as pessoas passando pelas duas calçadas da avenida 8.
Isso
era um convite para outra arte! Fazermos
canudinhos de papel na forma de cone, fechados numa extremidade e abertos na
outra. Colocávamos tais canudinhos dentro de talo oco de mamona e ficávamos à
espreita de uma vítima que passasse na calçada mas do outro lado, pois caso contrário
seríamos imediatamente identificados. Tínhamos
portanto que dar um forte sopro. Ao sentir a batida do canudo em seu corpo a
pessoa parava, se apalpava, olhava em volta e nada via, enquanto a criançada
segurava a risada por trás do portão.
Essas
e muitas outras lembranças da infância me fazem sorrir sempre ao revivê-las
como neste momento.
Meus bons tempos de criança!
Sou
obrigada a contrariar Ataulfo Alves: "Eu
era feliz e sabia!"*
Santos, 07 de outubro de
2020
Aos
companheiros destas aventuras da infância na fábrica da família: Edo, Chico,
Benito (in memoriam), Arnaldo e Cláudio Emílio.
Estamos
praticamente há 7 meses evitando o convívio social com familiares, com amigos e
com o mundo de um modo geral.Este
distanciamento físico que a princípio pensávamos ser breve, prolonga-se muito e hoje entramos no mês de outubro sem
grandes perspectivas de liberação maior.
Quem
pertence aos grupos de risco têm maior cuidado nesta exposição pois o vírus que
ainda circula livre por aí, mostra-se nos organismos humanos com uma
agressividade diferenciada e ainda não plenamente compreendida por especialistas,
visto que em algumas pessoas a situação se complica em poucos dias e leva a
óbito e em outras, às vezes até com mais idade, a virulência não se mostra tão
forte.
Como
enfrentar um inimigo invisível e perigoso a não ser nos abstendo de circular
por lugares muito movimentados e fechados?
Esta
situação de isolamento e reclusão em nossas próprias casas deu-nos momentos
para muitas reflexões. Depois das rotinas domésticas, de home office, de aulas
online, de gravações de vídeos e outras
atividades rotineiras, o tempo livre nos permite soltar o pensamento e
analisarmos como tem sido nosso dia a dia mesmo antes de tal pandemia.
É
justamente nestes momentos reflexivos que as diferentes expressões artísticas
vêm nos alegrar, distrair, ensinar e mostrar quão criativo é o ser humano.
Nunca
a arte foi tão útil e necessária na vida de todos nós como neste complicado ano
de 2020!
Creio
que todos conheçam uma ou outra pessoa avessa às obras artísticas seja no campo
da pintura, poesia, escultura, literatura, música, dança e artesanato de um
modo geral.
Não
me cabe analisar estas posições visto que não sou especialista em psique, mas
atrevo-me a pensar que tais posicionamentos são adotados mais para mostrar uma falsa
postura de segurança ou até de autocontrole de sentimentos que equivocadamente
colocariam tais pessoas num patamar superior aos demais reles mortais.
Considerando isto só posso lamentar a opção
de tais seres pois com certeza seus mundos são desprovidos de qualquer toque de
beleza interna que alegre a alma.
A
saúde mental tão prejudicada pelo confinamento é agraciada por estes momentos nos quais paramos para apreciar ou
até mesmo interagir com atividades artísticas.
Este
período de isolamento forçado acabou provocando descobertas de fatos que somos
capazes de executar e apreciar e que nós mesmos não sabíamos até então.
Visitas
on-line a museus, transmissões ao vivo via internet bem estruturadas e sobre
todos os assuntos, aulas virtuais de pintura, de trabalhos manuais entre outras
opções, aumentaram significativamente seu público.
Dentre
estas escolhas acima, a que mais tem chamado minha atenção é a apresentação de
corais on-line.
Tive
oportunidade de assistir a várias delas e encantei-me com a criatividade, com o
trabalho de montagem, com a organização, com o roteiro e com o preparo de todo
o pessoal envolvido, que na segurança de suas casas cantam e nos tocam o
coração com suas performances.
Fico
imaginando quanto tempo foi dedicado a esta atividade toda para obterem
resultados tão perfeitos!
Mais
do que nunca a arte tem sensibilizado nossa alma, tem ajudado a nos libertar de
nós mesmos e a exprimir sentimentos que não conseguimos verbalizar. A arte
perpetua seu autor.
Paralelamente
a todo desconforto e insegurança que tal vírus nos trouxe este ano, estamos
aprendendo e reconhecendo a vital importância das manifestações artísticas.
"É na arte que o
homem se ultrapassa definitivamente"- Simone de Beauvoir