terça-feira, 4 de maio de 2021

HOJE É SEU DIA VIVIAN BRESLAUER

 




Apesar da tristeza que a saudade causa é impossível lembrar de você sem sorrir.

Nossos momentos sempre foram acompanhados de muita alegria pois você era expert em "tiradas" espontâneas que às vezes me pegavam desprevenida deixando-me  de saia justíssima.

Uma vez por semana tínhamos o que você chamava de Tarde de Madame. Saíamos para um cafezinho gostoso nas bonitas cafeterias da cidade, sempre num ambiente alegre e descontraído.

Lembro bem de uma tarde em que combinamos um encontro na frente de uma loja do shopping. Cheguei antes e enquanto lhe esperava fiquei olhando a vitrine ao lado de um casal desconhecido.

Você foi chegando e com uma expressão muito séria no rosto falou em alto e bom som:

- Muito bonito, hein! De sandálias novas e me devendo ainda muita grana.

O casal ao lado me dirigiu um olhar reprovador e acusador.

Fiquei tão aflita na hora que não sabia se lhe desmentia, se dava risada ou se lhe mandava à merda! ...rs.

Minha expressão devia estar muito cômica entre envergonhada e espantada e você não se segurou - para meu alívio e rindo muito acabou explicando a brincadeira ao casal.

Quando atravessávamos a rua na faixa de pedestre e o motorista parava o carro para nos esperar, enquanto eu dizia simplesmente obrigada, você mostrava seu melhor sorriso e abanava a mão dizendo baixinho: viado.

O motorista sempre respondia com outro aceno e mais sorrisos. Eu ria muito mas  ficava receosa de que qualquer dia eles escutassem direitinho a palavra que você pronunciava entre dentes.

Muitas histórias que escrevi foram baseadas em seus casos. A última foi sobre o dia em que me pediu para matar uma barata que na verdade era um simples buraco na parede. Como rimos naquela tarde!

Que hoje Vivian, esteja onde estiver, você continue a espalhar alegria!

Esteja em paz amiga e feliz aniversário!

Santos, 4 de maio de 2021.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

O VÍDEO E A ARANHA


 


Recentemente fui convidada a realizar uma atividade que nunca havia feito e que me envolvia diretamente.

O objetivo era falar algumas palavras a respeito de uma data comemorativa muito importante de uma unidade escolar onde estudei e trabalhei, ou seja, a escola "Marcello Schmidt" em Rio Claro/SP.

A ideia me agradou de imediato pois realmente tal escola é parte muito importante na história de minha vida pessoal e profissional.

Pensei rapidamente sobre o que falaria e iniciei a gravação. 

Óbvio que marinheira de primeira viagem já comecei enroscando e gaguejando.  Tudo bem, erros fazem parte do aprendizado.

Depois de várias tentativas para falar sem dificuldades e também em um tempo não muito longo para não ficar cansativo, eis que de repente me vejo a explanar direitinho tudo o que desejava.  Já no finalzinho quando mentalmente comemorava o êxito, aconteceu um imprevisto.

Fui atacada sorrateiramente pela Síndrome do William Bonner.

Ao encerrar minha explanação falei com toda ênfase: BOA NOITE A TODOS!

Não sei de onde veio esta bendita Síndrome mas foi o suficiente para estragar toda gravação. Sei que há meios para se editar e corrigir estes erros em vídeos mas os desconheço ainda e não quis incomodar pessoas que pudessem me ensinar.

Finalmente depois de algumas horas consegui gravar a contento e da maneira que desejava. Creio que está até razoável.  

Como o arquivo ficou um pouco grande não consegui enviar por whatsapp mas felizmente minha sobrinha veio em meu socorro e usando um editor conservou o vídeo sem cortes mas com tamanho mais reduzido possibilitando seu encaminhamento para a responsável na escola.

Faço um parênteses aqui para elogiar minha sobrinha e todos os professores que em 2020 tiveram que, como se diz, "virar nos trinta" para gravarem suas vídeoaulas  sem qualquer orientação maior e sem qualquer aparelhagem que facilitasse tal serviço. Aprenderam na raça a gravar e editar vídeos usando recursos próprios. Parabéns a todos.

Trabalho concluído e  satisfeita já encaminhei o material para a escola organizar as comemorações de aniversário.

No dia seguinte à toda esta aventura "gravadorística", quando o Sol ainda mal surgira no horizonte, um susto grande me fez dar vários tapas no ar acertando inclusive alguns tabefes no próprio rosto.

Ao olhar para a parede branca vi uma enorme aranha preta com direito a teia e tudo, vindo bem na direção de meu rosto no lado esquerdo.

O reflexo imediato foi usar as mãos para espantá-la mas ela, teimosa que era, continuava a se aproximar.  Nestas tentativas de espantar o bicho alguns tapas acertaram em cheio minha face.

Até que....

Até que percebi que fechando o olho esquerdo a aranha com sua teia simplesmente desapareciam.  Bastava abrir o olho e lá estava ela dançando e se divertindo às minhas custas.

Já havia ouvido falar de mosquinhas imaginárias que algumas pessoas enxergam por algum problema de visão, mas aranha tão grande assim e com direito a teia e tudo nunca ninguém havia comentado.

Pensando nas prováveis causas deste fato lembrei-me que havia ficado umas 2 a 3 horas usando direto o celular enquanto gravava e regravava o vídeo. Talvez a exposição excessiva à tela do aparelho tivesse ocasionado o surgimento da bendita aranha.

Após consulta ao oftalmologista soube que se trata de fato relativamente comum em pessoas que já tiveram 15 anos há muito tempo que é o meu caso, e que provavelmente não tem nada a ver com a exposição ao celular.

Para melhorar mais ainda a situação, a aranha (com a qual acabei fazendo amizade e me acostumando a ela), já não tem aparecido com muita frequência.

Entretanto algumas poucas vezes ela ainda aparece para me desejar bom dia.

 

Santos, 30 de abril de 2021

 

Obs:: 1. À Escola "Marcello Schmidt" pelos 110 anos de muito sucesso.

           2. Para Carolina com os agradecimentos pelo socorro prestado!


quarta-feira, 31 de março de 2021

O VOO DO GARFO


 


Não há a menor dúvida no tocante às diferenças existentes nas maneiras como os pais educavam seus filhos no século passado e como o fazem atualmente.

Isto é perfeitamente compreensível, saudável e esperado visto que o mundo está em constantes mudanças influenciando a tudo e a todos, incluindo claro, o aspecto comportamental.

Não precisamos retroceder muitos anos para observarmos tudo isso; basta compararmos nossa infância à infância vivida por nossos avós e até mesmo pais. 

Independente da época, a educação, o respeito e as atitudes de um modo geral, sempre devem nortear a preocupação dos pais no preparo de seus filhos para um futuro digno e honesto. São virtudes que jamais ficarão obsoletas.

Uma das mudanças mais evidente é com certeza o fato de que as crianças e mesmo adolescentes, deixaram de ser considerados seres sem direitos à voz e à opinião.

No passado era muito comum e perfeitamente normal as crianças serem proibidas de participarem de um grupo de adultos conversando.   Eram mandadas para o quarto ou então para brincarem em outro lugar.

Com o progresso acentuado e acelerado vieram as preocupações com a segurança e a partir daí as crianças começaram a permanecer mais tempo dentro de casa e as brincadeiras de rua tão gostosas foram morrendo aos poucos.

Criança é e sempre foi muito viva e esperta. Embora nós adultos às vezes as subestimemos, suas cabecinhas trabalham e captam toda e qualquer mensagem ao seu redor.

Diante disso foi inevitável que os pequenos começassem a fazer valer sua voz e vez no mundo adulto.  Aplaudo isso mas sem descartar em nenhum momento as virtudes acima citadas: respeito e educação. 

Lá pelos meados dos anos 1950 estávamos vivendo o início dessa transição mas com fronteiras ainda bem fechadas entre adultos e seus filhos em muitas famílias.

Tomando-me como exemplo tenho claro na memória o dia a dia que observava na casa de algumas amigas cujos pais eram mais liberais e mentalmente fazia comparações com meu próprio cotidiano.  A despeito da atenção e cuidados que sempre existiram, nossas opiniões pouco ou nada valiam na infância.

Na época essa comparação mexia muito comigo mas hoje compreendo perfeitamente pois os pais repetiam nos filhos, a severidade com que foram educados.

Todo este preâmbulo se justifica para o relato que faço a seguir.

Desde pequenos recebemos responsabilidades quer na casa comercial que meus pais mantinham, quer em casa nos afazeres domésticos.  Claro que eram serviços adequados às crianças mas a obrigatoriedade era exigida sempre.

Enquanto meu pai sempre se controlou e nunca gritou e nem levantou as mãos para os filhos (é bem verdade que ele mal conversava com as crianças), minha mãe sempre assoberbada com tarefas domésticas e com o trabalho também na papelaria da família, tinha seus momentos de nervoso e explosão instantânea principalmente quando fazia as tais dietas alimentares buscando perder peso.

As crianças já conheciam quando ela estava nestes momentos (que é bom esclarecer, não eram frequentes),  e até os associavam ao picles que ela fazia e comia muito nestas ocasiões, além de um vestido bonito, de tons cor de bispo com traços pretos que coincidentemente sempre usava quando estava irritada com algo.

Nestas ocasiões sabíamos que todo cuidado era pouco pois a explosão por qualquer  resposta atravessada ou serviço deixado de cumprir, resultava num susto grande e correria.

E foi assim que num dia após o almoço domingueiro quando cada filho estava desempenhando sua tarefa na cozinha (enquanto ela lavava a louça, uma secava, outra guardava e ele arrumava a mesa), que o garoto deve ter dito  ou feito algo que a desagradou terrivelmente.  Não me recordo mais qual foi a falha mas acredito que deva ter sido grande pois a reação dela foi  instantânea.

Da cozinha onde estava lançou o garfo grande de frituras na direção do menino que estava há uns 8 metros dela.  O dito cujo garfo voador foi direto na direção do rosto.  A grande sorte foi que o reflexo dele estava em dia e no mesmo instante em que se abaixou a peça colidiu com a porta da geladeira descascando a pintura no local da batida.

Gritos das meninas ao verem aquela peça cortando os ares em busca de uma vítima.

Por alguns segundos o susto paralisou a todos inclusive à mãe, menos ao garoto que neste meio tempo "pernas para que te quero" e  voou sumindo da vista por várias horas.

Claro que o arrependimento bateu em seguida e ela agradeceu o insucesso do garfo voador, mas a lembrança do fato está bem nítida em minha memória e na memória dele com certeza.

Aliás é impossível esquecer o fato pois o garfo ainda me acompanha e está devidamente guardado na gaveta de talheres de minha cozinha, trazendo seus dentinhos tortos como uma constante lembrança do dia em que voou mesmo sem ter asas e sem ter brevê.

 

Santos, 31 de março de 2021

 

Ao Edo e seu bom reflexo e ao garfo também, que afinal resistiu ao tempo e ainda presta serviços, mas sem voar......rssss


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

UM VERÃO DIFERENTE


 





Ele continua lá, às vezes azul, outras mais escuro, normalmente calmo e sereno, outras vezes mais agitado e revolto.

Sob um céu azul que invade nossos olhos ele vira e revira a areia com suas ondas brincalhonas.

Todas as manhãs fico a admirá-lo à distância. Uma grandeza a perder de vista. Ele me encanta, sempre me encantou.

A paz que o mar me traz é indescritível!

Pisar na areia  sentindo seu vaivém molhando os pés me transporta a um mundo distante onde naquele momento só eu existo. Puro devaneio. O único som é seu murmurar constante.

A imaginação voa para longe, para outras terras que nunca conheci e provavelmente jamais conhecerei. Terras fantásticas, coloridas, alegres, onde a harmonia e amor reinam absolutos.

Quantos mistérios o mar esconde! Quantos dramas, quantas alegrias, quantos encontros e desencontros, quantas aventuras e desventuras ele testemunhou ao longo destes milhões de anos.

Lembro de uma novela antiga de meu tempo de adolescência cujo enredo já não tenho mais na memória -  "Se o Mar Contasse".  Curiosa que sou com certeza farei depois uma busca no Google.

Este verão com dias tão brilhantes e ensolarados está diferente de todos os outros que já vivi por aqui. Pisar na areia, curtir a beleza do dia sentindo as águas sob os pés, sentar e observar a imensidão deste mar, são desejos suspensos no momento. Até que é possível curtir estas sensações adotando certos cuidados, mas o receio diante desta pandemia tira todo o brilho e espontaneidade destes momentos.

Independente de como seguem nossas vidas ele sempre estará lá a nos encantar dia após dia numa mistura de cores: azul - unindo-se ao céu no horizonte, róseo - na alvorada, e alaranjado a dourado no poente, refletindo em suas águas a aquarela do céu. Como bem disse Manoel de Barros: "Um fim de mar colore os horizontes".

Neste verão tão diferente e com tantas restrições o consolo é olhar o mar e sonhar com dias melhores, sonhar um sonho azul, "azul da cor do mar"!*

 Santos, 10 de fevereiro de 2021

*  Azul da cor do mar - Tim Maia




sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

DEZESSETE DEZEMBROS





Aposentadoria se aproximava e planos entravam em ebulição em sua cabeça.

Decidiu que era chegado o momento de partir para novas terras já que os familiares mais próximos moravam em São Paulo e Campinas. Vivia o tal chamado tempo da travessia, quando sentimos necessidade de trocar os caminhos.

Mudar-se para São Paulo descartou de imediato. Depois de morar mais de 50 anos em cidade de médio porte, concluiu que apesar de gostar da capital para passeios não se daria bem e teria dificuldades principalmente para dirigir por lá.  Já se imaginou saindo no Jornal Nacional em rede, como causadora de confusões no intenso trânsito paulistano.

Agora aposentada desejava uma vida mais calma, sem horários, sem correrias.

Foi quando surgiu a ideia de Santos, cidade que pouco frequentou mas da qual guardava boas lembranças. 

Assim pensou, assim procedeu.

No meio do ano saiu a tão esperada aposentadoria  mas por causa de compromissos ainda permaneceu em sua cidade até meados de dezembro.  Neste meio tempo providenciou residência em Santos, aquisição de alguns materiais necessários e com tudo planejado e organizado, partiu de mudança para novos ares.

Foi num 15 de dezembro.

Nunca havia se sentido tão bem!  Tudo era novidade! 

A cidade a encantou com a beleza do jardim da praia, com a alegria, com o agito, com as famílias inteiras passeando pelo calçadão. Era época natalina e as festividades deixavam tudo mais ainda bonito.

Estranhou no início o fato de caminhar por tempos sem encontrar nenhum conhecido. Estava acostumada a sempre topar com amigos, com ex-alunos, ex-colegas de trabalho a cada vez que saia na rua em sua cidade natal.  Em Santos era apenas um rosto desconhecido no meio do povo e isso lhe dava uma sensação muito boa.

Explorou passeios, museus, diferentes restaurantes e claro, a praia.

Ainda não sabia se iria acostumar na nova cidade mas tudo indicava que não voltaria para o interior apesar de adorar sua Rio Claro.  

Dito e feito. Adaptou-se rapidamente nesta bela cidade que à época de sua mudança, apresentava inclusive um custo de vida menor.  Infelizmente na época da descoberta do pré-sal a ganância do homem fez os valores subirem, fato que se mantém até hoje.

Passados os primeiros meses de euforia e descobertas começou a rondá-la a sensação de inutilidade que se apossa dos aposentados.  Estava acostumada a trabalhar mais de 8 horas/dia e inclusive levar serviço para casa.  De repente a ociosidade começou a incomodar.

Foi quando procurou uma escola, seu ambiente de trabalho por mais de 30 anos, para colaborar de alguma forma pois conhecia bem a realidade das escolas públicas.

Teve a sorte de ser muito bem recebida em uma unidade próxima à sua casa e que justamente precisava  na ocasião de alguém que entendesse de informática.  Começou então a  colaborar um pouco na Coordenação Pedagógica, campo que lhe era bem familiar. Assim passaram-se 14 anos neste voluntariado.

Neste meio tempo envolveu-se em outras atividades que passaram a ocupar as horas de seu dia, terminando com aquela sensação horrorosa de inutilidade.  Entretanto, até há pouco tempo por incrível que pareça, ainda não se sentia confortável ao ir caminhar na praia em plena segunda-feira. 

E assim neste ano deu-se conta que já passaram dezessete dezembros desde que veio a Santos.

A saudade de sua querida Rio Claro é enorme. Saudade dos amigos, de familiares e de um tempo que foi bom demais. Volta e meia vai revê-la e embora se entristeça com mudanças que a modificaram muito, a Cidade Azul jamais sairá de seu coração.

Relembrando a canção-prece de Cristovão Barros e Aldir Blanc: Resposta ao Tempo.

" Tempo tempo tempo tempo

Vou te fazer um pedido

Tempo tempo tempo tempo".

O tempo voa mas o bom é que somos o piloto e com as experiências vividas podemos direcioná-lo para o que nos faz bem.

Santos, 08 de janeiro de 2021

Nana Caymmi - Resposta ao Tempo

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

UM GPS POR FAVOR!



As décadas já vividas (fator preponderante), o cansaço provocado pelas compras de final de ano, a conversa, ou simplesmente a pura e total falta de atenção, já provocaram acidentes e incidentes nas melhores famílias.

Com elas não poderia ser diferente.

Em tempos de pandemia o jeito é programar-se para sair o menos possível de casa e sempre em horários nos quais é bem menor a probabilidade de encontrar muitas pessoas.

Pensando assim elas ainda bem cedo tomaram o rumo do supermercado.  Considerando que os preços estão elevados, cada qual levou sua listinha nas mãos para controle a fim de se evitar gastos supérfluos.

Compras feitas, pagas e já colocadas no carro, rumaram para seus apartamentos.

Para que as sacolas com as mercadorias não se misturassem, uma parte foi colocada no carrinho do prédio e a outra acondicionada em sacolas de tecidos.

Uma  delas reside no 5º andar e outra no 8º andar do mesmo edifício.

Já no interior do elevador e um pouco espremidas pelo carrinho e sacolas de pano, optaram por se deslocarem primeiro ao 8º andar pois as compras eram em menor quantidade, e na sequência a moradora do 5º desceria com suas aquisições devidamente acomodadas no carrinho.

E foi aí que a intervenção de vários fatores, dentre eles as décadas vividas, alterou todo o esquema.

Assim que a porta do elevador abriu, a moradora do 8º apressou-se em colocar todas as sacolas cheias de compras no corredor. Despedidas feitas, porta fechada e o elevador se deslocou novamente.

Ato contínuo, ao ocorrer a segunda parada, a moradora do 5º andar fazendo um certo esforço, conseguiu colocar o carrinho no corredor e se deslocou em direção à sua casa.

Surpresa total!

Vários tapetinhos decoravam as portas dos apartamentos, tapetinhos estes que com certeza não pertenciam ao andar em questão.  Feita a verificação ela constatou que estava no pavimento.  Voltou rapidamente com o carrinho e com novo esforço o colocou no elevador, agora com uma dificuldade maior pois ria muito e isso diminuiu suas forças.

Chegou finalmente ao 5º e nele encontrou no chão perto da saída do elevador, as sacolas que deveriam estar no 8º.  Nem sinal da dona das mesmas ali por perto.

Estacionou o carrinho num canto do corredor, recolheu as sacolas e embarcou novamente para o 8º andar. Ainda sem encontrar a proprietária deixou todas as sacolas na porta do apartamento e retornou ao seu pavimento.

Outra surpresa! Cadê o carrinho???

Passado o espanto inicial, o observou no final do corredor, já vazio, estacionado na porta de seu apartamento.  Ao se aproximar encontrou a companheira saindo da moradia, onde havia descarregado toda a compra. 

Aí as gargalhadas foram inevitáveis.

Com certeza apertaram errado os botões do elevador e uma delas nem percebeu que ele subiu quando deveria descer. Total desatino.

Toda esta lambança de entra e sai de elevador com compras descarregadas em andares trocados, levou praticamente mais tempo do que a própria ida ao supermercado.

Creio que num futuro próximo, bem próximo diga-se de passagem, haverá a necessidade de usarem um GPS para se deslocarem dentro do próprio prédio.

 

Santos, 21 de dezembro de 2020

Para Tutu, companheira de todo este desatino.


 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

PODEREMOS FESTEJAR 2021?



Há um ano quem de nós imaginaria um 2020 tão desastroso?

Vínhamos numa roda viva de acontecimentos com mais tragédias que fatos positivos.  Basta lembrarmos rapidamente alguns exemplos como Brumadinho, escola de Suzano, CT do Flamengo, imensas manchas de óleo nas praias do nordeste, e por aí afora. O Brasil perdeu também pessoas de destaque como Ricardo Boechat, Gugu Liberato, Beth Carvalho, Lucio Mauro, Rubens Ewald Filho, João Gilberto, entre tantos.

Em meio a tantas notícias ruins houve também algumas positivas como a canonização de Irmã Dulce, a primeira santa brasileira. 

Entretanto fatos tristes predominaram totalmente o ano de 2019.

Era comum ouvirmos e até mesmo concordarmos com a expressão: 

Tomara que este ano acabe logo!

E eis que 2020 chegou e como dizem alguns, chegou chegando e já nos assustando logo nos primeiros dias com notícias vindas da Ásia, posteriormente da Europa, da América do Norte e em março batendo na porta do Brasil.

Sem que ninguém esperasse nos vimos enclausurados em casa,  acompanhando a disseminação de um vírus mortal de forma acelerada, levando pessoas amigas, familiares, desconhecidos, enfim, acumulando perdas e mais perdas humanas.

De repente tivemos que nos afastar de todos, evitarmos qualquer contato físico com quem quer que seja. Pais separados de filhos, avós separados de netos, irmãos isolados e amigos também.

Entretanto o tempo no isolamento do lar permitiu muitos momentos de reflexões sobre nossos valores. Ficou mais do que claro que acumulamos muitas coisas desnecessárias no dia a dia. Constatamos que a companhia de familiares, de amigos, assim como os abraços reais, efetivos, não têm preço mas têm sim, valores inestimáveis.

Passou a ser arriscado até o simples toque suave de uma mão sobre nosso braço nos dizendo estou aqui com você, estou lhe apoiando. Imaginem então um abraço daqueles de urso, quando os corações batem no mesmo compasso! Em tudo isso o distanciamento colocou um fim de forma abrupta.

Agora, quando surge uma luz no final do túnel e as tais vacinas estão prestes a chegar, nossa esperança toda se deposita em 2021.

Será ainda um ano difícil em todos os campos, principalmente na saúde e economia, mas desejo e espero que tudo isso que vivemos neste 2020 abra nossa mente para o que realmente importa nesta vida: o SER é indiscutivelmente superior ao TER.

Que tenhamos aprendido que as melhores coisas da vida são gratuitas: abraços, sorrisos, beijos, família, amigos, amor, risos e boas lembranças. Quem me conhece sabe que curto muito minhas boas lembranças!

Desconheço a autoria da frase mas concordo com ela:

"A ciência já provou que não é possível "ganhar frio"; o que acontece é perda de calor. Isso nos leva a pensar que talvez o ódio não exista, é apenas falta de amor".

Um ano de paz e saúde a todos!

 

Santos, 16 de dezembro de 2020
 

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

HUMOR NA TV: evolução ou involução?


 

Quem acompanhou na TV há alguns anos o programa A Praça é Nossa (antigamente era Praça da Alegria) deve lembrar-se da personagem Velha Surda interpretada por Rony Rios. 

Como não reportar-se de imediato a ela quando por distração ou pura surdez mesmo, entendemos erradamente a palavra que nos falaram? É a tal vida imitando a arte ou vice-versa como alguns preferem.

Recordando rapidamente duas destas situações, me vejo no próprio banco da praça quando em conversa em família sobre a performance de Sophia Loren, é dito que a atriz apesar da idade está inteirona.

De imediato se ouve a pergunta: 

- Ela está morando em Verona?

Na cabeça de todos a cena com a velha da praça aparece instantaneamente e as risadas são inevitáveis.

Também dei minha contribuição (para não chamar de mico) enquanto aguardava a atendente do plano de saúde anotar meus dados para uma autorização de ultrassonografia. 

A uma distância de 2 metros e com uma grossa máscara a jovem pedia meus dados pessoais quando, de repente, a ouço perguntar se eu usava lente de contato. Espantada com tal pergunta já que a visão não tinha nada a ver com o exame, devolvi-lhe a questão querendo saber o motivo deste  tão estranho pedido.  Foi quando mal segurando a risada a atendente em tom bem mais alto me esclareceu que queria um telefone de contato. 

Claro que não somente ela como eu rimos, mas também todos os demais que estavam por perto.   Foi minha mais recente interpretação da inesquecível Velha Surda.

Lembrando-me então dos humoristas que se apresentavam na TV até há pouco tempo, não pude deixar de traçar uma linha comparativa com os atuais programas. Conclui não sem certa tristeza que já há alguns anos não tenho conseguido acompanhar na TV nenhum quadro dito de humor.

Às vezes até me obrigo a assistir algum que ouço comentários positivos, mas logo desisto. Desde o texto, passando pelas  caricaturas, por interpretações, tudo me soa tão forçado e falso (muitas vezes apelativo) que não consigo achar graça alguma e chego a sentir até a tal vergonha alheia.

Talvez o humor que hoje se exibe na TV não se enquadre mais em minhas preferências, ou então as décadas já vividas tenham me roubado um pouco o senso de humor, fato este que considero um pouco difícil.

Os valores, as expressões, as abordagens com certeza sofrem modificações com o passar do tempo. Alguém já disse que se ficarmos exclusivamente olhando para o passado, não viveremos o presente e perderemos o futuro. Concordo plenamente.

Mudanças são bem vindas e necessárias e temos que nos adaptar a elas se quisermos evoluir. Basta lembrar Darwin e sua Teoria da Seleção Natural para nos conscientizarmos disso.

O que porém tem ocorrido de um modo geral é que cada vez mais sinto que as transformações têm acontecido de maneiras tão descontroladas e aceleradas, que atropelam o homem e nem sempre nos levam a um progresso, a uma evolução e sim a um retrocesso.

Por conta disso ouço com muita frequência a expressão "no meu tempo", expressão essa que de imediato, como já testemunhei, coloca os mais jovens numa rápida postura de rejeição a todo o resto da frase.

A ideia não é desvalorizar o novo pura e simplesmente, mas analisar se realmente tal mudança trará algo benéfico.

Se sim, vamos aplaudi-la e adotá-la. Caso contrário é melhor estudar novas maneiras de implantá-la para que realmente nos leve ao desejado progresso.

Por essas e mais aquelas continuo a preferir a singeleza e simplicidade da divertida Velha Surda Bizantina Escatamaquia Pinto com sua música de apresentação: Ó querida, ó querida, ó queriiiiiiiiiiida Clementina!!!




Santos, 16 de novembro de 2020

Respondendo somente agora sua pergunta Edo, Sophia Loren mora atualmente em Genebra, mas tem imóveis em Nápoles e Roma.  Portanto ela não mora em Verona, mas está inteirona...😁😁😁



quarta-feira, 7 de outubro de 2020

TEMPOS DE CRIANÇA


 

Após longos anos de estrada percorrida nesta vida terrena é muito gratificante pararmos um pouco o relógio do tempo e olharmos, nem que seja por alguns minutos, todo o caminho já percorrido.

Da infância à fase adulta passamos por experiências das mais variadas possíveis.

Obviamente haverá muitas lembranças que nos machucaram, mas aí entra neste instante, nossa capacidade de sublimarmos tais fatos e nos atermos somente àqueles que fazem brotar instantaneamente um sorriso na face.

Quando me  proponho a fazer tal exercício meus pensamentos mais demorados correspondem à segunda infância e juventude.  Creio que isto deva se passar também com a maior parte das pessoas.

É inegável que a vida nestas faixas etárias, quando estamos ainda de certa forma descompromissados com nossa função e participação na sociedade como um todo, tudo se compare à conhecida expressão "mar de rosas".  Talvez por isso mesmo permitimos que nossa alma sonhe, e sonhe alto, dando-nos aquela vontade enorme de abraçar o mundo.

Quem já não teve ou ainda tem esta vontade?

As lembranças que trago da infância me são muito caras, a despeito de ainda crianças, faixa dos 7 e 8 anos, eu e meu irmão já trabalharmos várias horas por dia na papelaria de meus pais com obrigações e cumprimento de tarefas.

A memória guarda com muito carinho as brincadeiras com irmão, primos e outras crianças, tanto nas ruas quando o asfalto ainda não havia sufocado as pedras do calçamento, como nas dependências do armazém e fábricas de meu avô e tios-avós. 

Num instante me vejo escalando juntamente com mais crianças, sacas e sacas de açúcar cristal empilhadas num depósito escuro na refinação de açúcar, onde entrávamos escondidos dos adultos.

Era uma delícia furarmos os cantinhos do tecido e comermos o açúcar que escorria pelos buraquinhos feitos.  Além de saborearmos o doce, havia também a emoção da aventura pois fazíamos isso sempre de olho na porta do depósito com receio que alguém nos flagrasse. Quando isso acontecia era uma correria só.  Cada criança corria para um lado com o coração aos pulos.

Outra aventura prazerosa era invadirmos a adega que ficava no quintal no centro da fábrica de macarrão.  Impossível esquecer a emoção temperada pelo medo e pela curiosidade ao descermos os degraus cheios de limbo verde, e entrarmos num ambiente na semiobscuridade sentindo teias de aranhas enroscando nos braços e rosto. A sensação da aventura suplantava qualquer receio maior.

No fundo da adega víamos garrafas e mais garrafas de vinhos que eram destinados ao consumo da família. Nunca mexemos nelas pois sabíamos até onde nosso atrevimento poderia chegar.  Esta brincadeira teve um final súbito pois numa das invasões fomos vistos por tia Fiorina, que da janela do salão do sobrado deu o grito de alerta aos funcionários e aí a correria foi imediata. Lembro-me que ficamos sem aparecer em casa por algumas horas até que a bronca dos adultos amenizasse.

Não há como esquecer a delícia que era na fábrica de macarrão, ser colocada sentadinha sobre a prateleira mais baixa dos carrinhos que possuíam vários andares de varais destinados a pendurar espaguetes recém preparados. Tais carrinhos tinham rodinhas e eram levados por funcionários (Gino e Zanardi) até a sala de secagem onde havia um enorme ventilador que tomava toda a parede do ambiente.  Como eu era a menor da turma e única menina, tinha o privilégio desta brincadeira. O carrinho era então empurrado em alta velocidade por um longo corredor que levava até a sala do secador e eu ria muito neste trajeto, sentido as pontas dos espaguetes úmidos batendo em meu rosto. Óbvio que essa brincadeira também não chegava aos ouvidos de meu avô e principalmente de meu  tio-avô  Casemiro (Pipe) que era muito sério e sisudo nos causando certo receio e distanciamento dele. Creio que fosse amoroso como meu avô, mas naqueles tempos as crianças não tinham a liberdade que hoje possuem no meio dos adultos.

Na esquina da fábrica, bem no canto da avenida 8 com rua 3, meu avô administrava o armazém da família onde sempre havia encostada à porta, uma caixa de madeira com bacalhaus secos. Uma de minhas traquinices era ao passar por ali, beliscar pedações destes peixes e sair curtindo o gostinho de sal na boca, enquanto meu avô entre bravo e sorridente, me dizia:  "Migila, não estrague o produto!"

Nunca soube o motivo dele às vezes se referir a mim com este apelido.

Interessante que depois desta fase passei a não gostar de peixes. Apenas recentemente comecei a aceitá-los no cardápio.

O portão da garagem da fábrica era de madeira grossa mas cheia de vãos pelos quais podíamos ver as pessoas passando pelas duas calçadas da avenida 8.

Isso era um convite para outra arte!  Fazermos canudinhos de papel na forma de cone, fechados numa extremidade e abertos na outra. Colocávamos tais canudinhos dentro de talo oco de mamona e ficávamos à espreita de uma vítima que passasse na calçada mas do outro lado, pois caso contrário seríamos imediatamente identificados.  Tínhamos portanto que dar um forte sopro. Ao sentir a batida do canudo em seu corpo a pessoa parava, se apalpava, olhava em volta e nada via, enquanto a criançada segurava a risada por trás do portão.

Essas e muitas outras lembranças da infância me fazem sorrir sempre ao revivê-las como neste momento.

Meus bons tempos de criança!

Sou obrigada a contrariar Ataulfo Alves: "Eu era feliz e sabia!"*




Santos, 07 de outubro de 2020

Aos companheiros destas aventuras da infância na fábrica da família: Edo, Chico, Benito (in memoriam), Arnaldo e Cláudio Emílio.



* Meus tempos de criança - Ataulfo Alves



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

A ARTE DE VIVER EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


 

Estamos praticamente há 7 meses evitando o convívio social com familiares, com amigos e com o mundo de um modo geral.  Este distanciamento físico que a princípio pensávamos ser breve, prolonga-se  muito e hoje entramos no mês de outubro sem grandes perspectivas de liberação maior.

Quem pertence aos grupos de risco têm maior cuidado nesta exposição pois o vírus que ainda circula livre por aí, mostra-se nos organismos humanos com uma agressividade diferenciada e ainda não plenamente compreendida por especialistas, visto que em algumas pessoas a situação se complica em poucos dias e leva a óbito e em outras, às vezes até com mais idade, a virulência não se mostra tão forte.

Como enfrentar um inimigo invisível e perigoso a não ser nos abstendo de circular por lugares muito movimentados e fechados?

Esta situação de isolamento e reclusão em nossas próprias casas deu-nos momentos para muitas reflexões. Depois das rotinas domésticas, de home office, de aulas online,  de gravações de vídeos e outras atividades rotineiras, o tempo livre nos permite soltar o pensamento e analisarmos como tem sido nosso dia a dia mesmo antes de tal pandemia.

É justamente nestes momentos reflexivos que as diferentes expressões artísticas vêm nos alegrar, distrair, ensinar e mostrar quão criativo é o ser humano.

Nunca a arte foi tão útil e necessária na vida de todos nós como neste complicado ano de 2020!

Creio que todos conheçam uma ou outra pessoa avessa às obras artísticas seja no campo da pintura, poesia, escultura, literatura, música, dança e artesanato de um modo geral.

Não me cabe analisar estas posições visto que não sou especialista em psique, mas atrevo-me a pensar que tais posicionamentos são adotados mais para mostrar uma falsa postura de segurança ou até de autocontrole de sentimentos que equivocadamente colocariam tais pessoas num patamar superior aos demais reles mortais.

  Considerando isto só posso lamentar a opção de tais seres pois com certeza seus mundos são desprovidos de qualquer toque de beleza interna que alegre a alma.

A saúde mental tão prejudicada pelo confinamento é agraciada por estes  momentos nos quais paramos para apreciar ou até mesmo interagir com atividades artísticas. 

Este período de isolamento forçado acabou provocando descobertas de fatos que somos capazes de executar e apreciar e que nós mesmos não sabíamos até então.

Visitas on-line a museus, transmissões ao vivo via internet bem estruturadas e sobre todos os assuntos, aulas virtuais de pintura, de trabalhos manuais entre outras opções, aumentaram significativamente seu público.

Dentre estas escolhas acima, a que mais tem chamado minha atenção é a apresentação de corais on-line.

Tive oportunidade de assistir a várias delas e encantei-me com a criatividade, com o trabalho de montagem, com a organização, com o roteiro e com o preparo de todo o pessoal envolvido, que na segurança de suas casas cantam e nos tocam o coração com suas performances. 

Fico imaginando quanto tempo foi dedicado a esta atividade toda para obterem resultados tão perfeitos!

Mais do que nunca a arte tem sensibilizado nossa alma, tem ajudado a nos libertar de nós mesmos e a exprimir sentimentos que não conseguimos verbalizar. A arte perpetua seu autor.

Paralelamente a todo desconforto e insegurança que tal vírus nos trouxe este ano, estamos aprendendo e reconhecendo a vital importância das manifestações artísticas.

     "É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente"- Simone de Beauvoir


Santos, 01 de outubro de 2020.