quarta-feira, 7 de outubro de 2020

TEMPOS DE CRIANÇA


 

Após longos anos de estrada percorrida nesta vida terrena é muito gratificante pararmos um pouco o relógio do tempo e olharmos, nem que seja por alguns minutos, todo o caminho já percorrido.

Da infância à fase adulta passamos por experiências das mais variadas possíveis.

Obviamente haverá muitas lembranças que nos machucaram, mas aí entra neste instante, nossa capacidade de sublimarmos tais fatos e nos atermos somente àqueles que fazem brotar instantaneamente um sorriso na face.

Quando me  proponho a fazer tal exercício meus pensamentos mais demorados correspondem à segunda infância e juventude.  Creio que isto deva se passar também com a maior parte das pessoas.

É inegável que a vida nestas faixas etárias, quando estamos ainda de certa forma descompromissados com nossa função e participação na sociedade como um todo, tudo se compare à conhecida expressão "mar de rosas".  Talvez por isso mesmo permitimos que nossa alma sonhe, e sonhe alto, dando-nos aquela vontade enorme de abraçar o mundo.

Quem já não teve ou ainda tem esta vontade?

As lembranças que trago da infância me são muito caras, a despeito de ainda crianças, faixa dos 7 e 8 anos, eu e meu irmão já trabalharmos várias horas por dia na papelaria de meus pais com obrigações e cumprimento de tarefas.

A memória guarda com muito carinho as brincadeiras com irmão, primos e outras crianças, tanto nas ruas quando o asfalto ainda não havia sufocado as pedras do calçamento, como nas dependências do armazém e fábricas de meu avô e tios-avós. 

Num instante me vejo escalando juntamente com mais crianças, sacas e sacas de açúcar cristal empilhadas num depósito escuro na refinação de açúcar, onde entrávamos escondidos dos adultos.

Era uma delícia furarmos os cantinhos do tecido e comermos o açúcar que escorria pelos buraquinhos feitos.  Além de saborearmos o doce, havia também a emoção da aventura pois fazíamos isso sempre de olho na porta do depósito com receio que alguém nos flagrasse. Quando isso acontecia era uma correria só.  Cada criança corria para um lado com o coração aos pulos.

Outra aventura prazerosa era invadirmos a adega que ficava no quintal no centro da fábrica de macarrão.  Impossível esquecer a emoção temperada pelo medo e pela curiosidade ao descermos os degraus cheios de limbo verde, e entrarmos num ambiente na semiobscuridade sentindo teias de aranhas enroscando nos braços e rosto. A sensação da aventura suplantava qualquer receio maior.

No fundo da adega víamos garrafas e mais garrafas de vinhos que eram destinados ao consumo da família. Nunca mexemos nelas pois sabíamos até onde nosso atrevimento poderia chegar.  Esta brincadeira teve um final súbito pois numa das invasões fomos vistos por tia Fiorina, que da janela do salão do sobrado deu o grito de alerta aos funcionários e aí a correria foi imediata. Lembro-me que ficamos sem aparecer em casa por algumas horas até que a bronca dos adultos amenizasse.

Não há como esquecer a delícia que era na fábrica de macarrão, ser colocada sentadinha sobre a prateleira mais baixa dos carrinhos que possuíam vários andares de varais destinados a pendurar espaguetes recém preparados. Tais carrinhos tinham rodinhas e eram levados por funcionários (Gino e Zanardi) até a sala de secagem onde havia um enorme ventilador que tomava toda a parede do ambiente.  Como eu era a menor da turma e única menina, tinha o privilégio desta brincadeira. O carrinho era então empurrado em alta velocidade por um longo corredor que levava até a sala do secador e eu ria muito neste trajeto, sentido as pontas dos espaguetes úmidos batendo em meu rosto. Óbvio que essa brincadeira também não chegava aos ouvidos de meu avô e principalmente de meu  tio-avô  Casemiro (Pipe) que era muito sério e sisudo nos causando certo receio e distanciamento dele. Creio que fosse amoroso como meu avô, mas naqueles tempos as crianças não tinham a liberdade que hoje possuem no meio dos adultos.

Na esquina da fábrica, bem no canto da avenida 8 com rua 3, meu avô administrava o armazém da família onde sempre havia encostada à porta, uma caixa de madeira com bacalhaus secos. Uma de minhas traquinices era ao passar por ali, beliscar pedações destes peixes e sair curtindo o gostinho de sal na boca, enquanto meu avô entre bravo e sorridente, me dizia:  "Migila, não estrague o produto!"

Nunca soube o motivo dele às vezes se referir a mim com este apelido.

Interessante que depois desta fase passei a não gostar de peixes. Apenas recentemente comecei a aceitá-los no cardápio.

O portão da garagem da fábrica era de madeira grossa mas cheia de vãos pelos quais podíamos ver as pessoas passando pelas duas calçadas da avenida 8.

Isso era um convite para outra arte!  Fazermos canudinhos de papel na forma de cone, fechados numa extremidade e abertos na outra. Colocávamos tais canudinhos dentro de talo oco de mamona e ficávamos à espreita de uma vítima que passasse na calçada mas do outro lado, pois caso contrário seríamos imediatamente identificados.  Tínhamos portanto que dar um forte sopro. Ao sentir a batida do canudo em seu corpo a pessoa parava, se apalpava, olhava em volta e nada via, enquanto a criançada segurava a risada por trás do portão.

Essas e muitas outras lembranças da infância me fazem sorrir sempre ao revivê-las como neste momento.

Meus bons tempos de criança!

Sou obrigada a contrariar Ataulfo Alves: "Eu era feliz e sabia!"*




Santos, 07 de outubro de 2020

Aos companheiros destas aventuras da infância na fábrica da família: Edo, Chico, Benito (in memoriam), Arnaldo e Cláudio Emílio.



* Meus tempos de criança - Ataulfo Alves



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

A ARTE DE VIVER EM TEMPOS DE CORONAVÍRUS


 

Estamos praticamente há 7 meses evitando o convívio social com familiares, com amigos e com o mundo de um modo geral.  Este distanciamento físico que a princípio pensávamos ser breve, prolonga-se  muito e hoje entramos no mês de outubro sem grandes perspectivas de liberação maior.

Quem pertence aos grupos de risco têm maior cuidado nesta exposição pois o vírus que ainda circula livre por aí, mostra-se nos organismos humanos com uma agressividade diferenciada e ainda não plenamente compreendida por especialistas, visto que em algumas pessoas a situação se complica em poucos dias e leva a óbito e em outras, às vezes até com mais idade, a virulência não se mostra tão forte.

Como enfrentar um inimigo invisível e perigoso a não ser nos abstendo de circular por lugares muito movimentados e fechados?

Esta situação de isolamento e reclusão em nossas próprias casas deu-nos momentos para muitas reflexões. Depois das rotinas domésticas, de home office, de aulas online,  de gravações de vídeos e outras atividades rotineiras, o tempo livre nos permite soltar o pensamento e analisarmos como tem sido nosso dia a dia mesmo antes de tal pandemia.

É justamente nestes momentos reflexivos que as diferentes expressões artísticas vêm nos alegrar, distrair, ensinar e mostrar quão criativo é o ser humano.

Nunca a arte foi tão útil e necessária na vida de todos nós como neste complicado ano de 2020!

Creio que todos conheçam uma ou outra pessoa avessa às obras artísticas seja no campo da pintura, poesia, escultura, literatura, música, dança e artesanato de um modo geral.

Não me cabe analisar estas posições visto que não sou especialista em psique, mas atrevo-me a pensar que tais posicionamentos são adotados mais para mostrar uma falsa postura de segurança ou até de autocontrole de sentimentos que equivocadamente colocariam tais pessoas num patamar superior aos demais reles mortais.

  Considerando isto só posso lamentar a opção de tais seres pois com certeza seus mundos são desprovidos de qualquer toque de beleza interna que alegre a alma.

A saúde mental tão prejudicada pelo confinamento é agraciada por estes  momentos nos quais paramos para apreciar ou até mesmo interagir com atividades artísticas. 

Este período de isolamento forçado acabou provocando descobertas de fatos que somos capazes de executar e apreciar e que nós mesmos não sabíamos até então.

Visitas on-line a museus, transmissões ao vivo via internet bem estruturadas e sobre todos os assuntos, aulas virtuais de pintura, de trabalhos manuais entre outras opções, aumentaram significativamente seu público.

Dentre estas escolhas acima, a que mais tem chamado minha atenção é a apresentação de corais on-line.

Tive oportunidade de assistir a várias delas e encantei-me com a criatividade, com o trabalho de montagem, com a organização, com o roteiro e com o preparo de todo o pessoal envolvido, que na segurança de suas casas cantam e nos tocam o coração com suas performances. 

Fico imaginando quanto tempo foi dedicado a esta atividade toda para obterem resultados tão perfeitos!

Mais do que nunca a arte tem sensibilizado nossa alma, tem ajudado a nos libertar de nós mesmos e a exprimir sentimentos que não conseguimos verbalizar. A arte perpetua seu autor.

Paralelamente a todo desconforto e insegurança que tal vírus nos trouxe este ano, estamos aprendendo e reconhecendo a vital importância das manifestações artísticas.

     "É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente"- Simone de Beauvoir


Santos, 01 de outubro de 2020.


segunda-feira, 1 de junho de 2020

FESTA HOJE NO CÉU!






Ontem ele partiu.
Partiu depois de um breve período de complicações de saúde.
Chegou aos 87 anos!
Não há como lembrar dele sem recordar muitos sorrisos infantis que ele provocou com suas artes no campo da marcenaria.
Despertou nas crianças, hoje jovens e adultos, o prazer de poder brincar com objetos artesanalmente feitos por suas mãos, com muito capricho e perfeição.
Carros, carrinhos, caminhões de vários tipos e modelos (às vezes trazendo o nome da criança pintado nas laterais), ônibus e vários outros objetos que não se encontram para comprar em lugar algum.  Eram exclusivos.
Suas mãos concretizavam sua criatividade. 
Desenhava muito bem e elaborava sua arte com extremo cuidado e carregada de detalhes que impressionavam.
Não teve o tempo todo uma vida de calmaria, muito ao contrário, teve momentos difíceis. A despeito disso sempre seguia em frente, ora construindo um brinquedo, ora inventando alguma novidade doméstica, ora cuidando de horta e plantas e enquanto pôde,  pescando.
Simples e amoroso, era seu jeito de ser.
Foi se despedindo de todos aos poucos, cada dia um pouquinho e agindo assim foi preparando a família para a partida final.
Ontem ele se foi.  Descansou de um grande sofrimento.
Hoje, 01 de junho, é aniversário de sua esposa. Ela já não está entre nós há alguns anos, mas lembro-me bem do carinho com que a tratava.
Andei pensando e concluí que ele premeditou a data de sua partida.
Com certeza quis surpreendê-la e fazer-lhe uma festa de aniversário no céu!
Siga em paz tio Sid e boas festas aí na companhia de tia Daiza.
Um abraço saudoso em ambos!


Santos, 01 de junho de 2020

A Sidnei Zoega, desejando-lhe muita paz!

* foto: abril/2019.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

UM CAFÉ NA QUARENTENA




                     
Sempre aos sábados e ao menos um dia durante a semana, eles se encontravam para um passeio pela cidade e também para saborearem um gostoso cafezinho nas cafeterias preferidas.

Isto acabou tornando-se um hábito gostoso e agradável por anos até que se instalou essa tal de quarentena.

Todo comércio fechou inclusive as cafeterias tão visitadas por eles.

Pertencem ao grupo de risco e este é outro fator que os faz respeitar com responsabilidade todas as orientações sobre os meios de se evitar contaminação.

Saídas somente por perto e para compras necessárias como em supermercados e farmácias. Usar transporte público nem pensar.

Resultado: as gostosas tardes batendo papo, saboreando um leve pedaço de bolo e um gostoso cafezinho foram canceladas.

O receio da contaminação é real e precisa ser respeitado.

O hábito adquirido começou a trazer saudades que vieram reforçar a vontade de repeti-lo, mas como?

Uma fugidinha rápida de carro para uma das duas casas foi a forma encontrada por eles para repetir aqueles momentos.

Claro que em suas casas o aconchego é maior, o conforto também e a conversa flui mais à vontade, propiciando um ambiente extremamente agradável.

Os passeios pelas ruas do bairro fazem falta sim, não há como negar, mas isto não neutralizou o que há de mais importante: o ar romântico de um encontro para um cafezinho, adoçado com carinho,  numa cuidadosa e rápida escapadela em plena quarentena com seus riscos.

É o que podem fazer nestes dias tão conturbados, que logo devem passar, assim eles esperam!


Santos, 21 de maio de 2020

Para Sylvia, pela sugestão!

segunda-feira, 23 de março de 2020

MOMENTOS QUE NÃO ESQUEÇO





Nestes tempos em que ouvimos a palavra vírus centenas de vezes por dia, lembrei-me das aulas de Programas de Saúde que faziam parte do currículo escolar nos cursos técnicos (2º Grau) lá pela década de 70.
Nesta época ainda universitária eu já lecionava em tais cursos em uma escola da cidade. 
Durante as exposições teóricas dos conteúdos sempre tive o costume de entre uma e outra fala provocar a participação dos alunos através de perguntas que fazia aleatoriamente, sem nomear alguém em especial, deixando livre para quem se sentisse seguro da informação pudesse dar a resposta tornando a aula interativa.
Essa dinâmica  espantava o sono tão comum entre alunos trabalhadores que estudavam no período noturno.
Um fato que após mais de 4 décadas ainda está muito presente em minha memória, foi justamente a aula sobre vias de penetração dos micróbios em nosso organismo.
Era uma turma de Química Industrial com 40 alunos, naqueles tempos em que o respeito fazia parte da educação que todos traziam de casa. Era uma turma bem participativa.
Comecei falando da via respiratória e questionei qual seria o local de entrada.  Claro que de imediato muitos responderam o nariz. 
Na sequência perguntei sobre as vias digestivas e os alunos também prontamente disseram que era através da alimentação.
Empolgada com a participação da classe fiz entusiasmada a terceira pergunta:
- E a via de penetração cutânea?
Deparei-me com expressões de espanto e um silêncio geral.
Conclui que tal comportamento havia sido causado pelo desconhecimento do termo cutânea.
Antes que eu pudesse explicar o significado ouvi uma voz carregada de sotaque interiorano vir lá do fundo da sala:
- Dona!!!!!!   Que pergunta é essa???  A gente não pode falar isso!!
Só aí me dei conta do que se passava na cabeça dos alunos e já rindo muito juntamente com todos,  passei rapidamente a mão no braço explicando que se referia à pele que cobre nosso corpo. Lembro até do rosto do aluno que ao me questionar estava vermelho de vergonha.
Se tal fato ocorresse hoje ouviríamos talvez até alguma música tipo funk falando o que a classe pensou e se calou naquela noite.
Em outra ocasião já dando aulas para o Ensino Fundamental e falando sobre higiene corporal, explicava a importância dos banhos diários para remover inclusive resíduos e células mortas da pele.   Estava em pé encostada na mesa da primeira carteira que era ocupada por um aluno muito espirituoso. 
Quando falei sobre a necessidade de levar uma bela chuveirada, ele fez um gesto brusco se encolhendo todo na carteira e colocando os braços sobre a cabeça.
Diante de meu espanto ele esclareceu:
- Professora, estou treinando como vou me proteger para levar uma chuveirada!
Diante da brincadeira dele percebi que minha orientação sobre  levar uma bela chuveirada poderia realmente se tornar muito perigosa....rs.
Em tempos de covid-19, nada como relembrar momentos tão alegres e felizes no magistério.

Santos, 23/03/2020

A todos ex-alunos que fazem parte de minha história e com os quais muito aprendi, e em especial ao Spagnhol e Vivaldo, protagonistas destes fatos.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

HÁ CINCO DÉCADAS





Em pleno salão de baile carnavalesco ela gritava em meio à folia e às marchinhas:
- Guarde uma carteira ao lado da sua no primeiro dia de aula!
Falava com a alegria que sempre a acompanhou e acompanha até nos dias atuais.  Eu ria,  acenava positivamente e assim procedia.
Sentávamos lado a lado nas velhas carteiras modelo Brasil, aquelas cujos tampos eram presos ao encosto da carteira da frente. Assim foram os 3 anos do curso do Ensino Médio que nos anos 60 era chamado de Curso Normal, formando as futuras professoras de 1ª à 4ª séries do Ensino Fundamental, antigo primário.
Esta posição das carteiras facilitava o contato nos dias de prova. Minha letra sempre foi grande mas apesar disso era comum ouvir um sussurro vindo da carteira ao lado dizendo - aumenta a letra, aumenta a letra!
Sorrio só em lembrar! Eram atitudes inocentes e típicas de adolescentes que estavam bem longe de comportamentos como os que geralmente vemos nos tempos atuais, carregados de maldade e total falta de educação.
Nos efervescentes anos de 1967 a 1969  quarenta jovens na faixa de 15 e 16 anos estudavam na mesma classe.  Muitas delas já haviam cursado juntas também os antigos cursos ginasial e primário e aí os laços de amizade só se fortaleceram.
Cada qual com seu temperamento, com sua expectativa diante da vida; algumas expansivas, outras tímidas, algumas sempre alegres, outras mais contidas.
A verdade é que apesar das diferenças entre si todas formavam um grupo coeso de muita amizade e cumplicidade, cuja marca registrada eram a alegria e espontaneidade. Éramos felizes e sabíamos disso.
Era uma turma de boas notas e excelente educação mas que de certa forma desafiava os professores que necessitavam buscar muita bagagem para motivarem suas aulas.
Impossível não lembrar das aulas descontraídas de Psicologia quando o professor usando de fina ironia, brincava com os fatos que ocorriam. Até hoje me lembro da blusa que ele chamava de  psicodélica (era um termo da moda) que era sempre usada por uma das alunas, bem como do dia em que um pandeiro caiu no chão durante sua aula. Ele era doutor em sua área e sabia bem como lidar com aquela classe que transbordava dinamismo.
As aulas de Sociologia já eram mais silenciosas e o professor bem circunspecto. Fizemos a leitura e  interpretação completa do livro de autoria de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo. E não é que estamos vivendo realmente neste admirável mundo?
As temidas chamadas orais de História deixaram marcas em muitas alunas.  As dissertações sobre a História do Brasil e História Geral exigiam excelente memória!
Cada professor procurava se adequar àquela turma irrequieta e ao mesmo tempo curiosa diante do mundo que estava se abrindo à sua frente.
Muitas já namoravam e no sábado (havia aulas neste dia também) a sala mais precisamente o fundão da sala, transformava-se num salão de cabeleireiro.  Qualquer folga, qualquer tempinho, lá estavam algumas pedindo auxilio para as amigas que eram mais jeitosas com os arranjos nos cabelos e com a manicure, afinal era dia de namorar na Praça da Liberdade após as aulas da tarde.
Na semana que antecedia algum baile especial principalmente no clube Ginástico Rioclarense frequentado pela maioria, o alvoroço da moçada era imenso. Modelos de vestidos, escolha de penteados, de sapatos,etc
As saídas para passeios extraclasse eram diversão garantida.  Geralmente o transporte era improvisado e íamos na carroceria do caminhão do pai de uma das alunas.  Momentos que com certeza nenhuma de nós esqueceu e nem esquecerá.
Éramos 40 jovens e trazíamos no olhar muitos sonhos, esperanças e vontade de abraçar o mundo. 
E assim após 3 anos juntas chegamos à formatura, ao momento no qual cada uma já tinha traçado o rumo a seguir.  Algumas foram para a Universidade, outras abraçaram de imediato o magistério e algumas se casaram logo após a formatura e até mudaram de cidade. 
Nas voltas que o mundo deu acabamos nos desencontrando pelas esquinas da vida e ficamos reduzidas a pequeninos grupos.  Vez ou outra nos encontrávamos ao acaso.
A chegada da tecnologia com suas mil possibilidades de comunicação virtual, possibilitou o início  dos contatos. Como rastilho de pólvora as mensagens correram rapidamente em todas as direções e em pouco tempo quase a totalidade das jovens foram localizadas.
Infelizmente 6 já nos deixaram e algumas poucas não puderam ser contatadas.
Neste dezembro de 2019 completamos 50 anos de formatura. E claro, um almoço foi organizado para o reencontro das jovens formandas de 1969.
Na longa mesa que se formou no restaurante era impossível saber quem falava mais.
Na verdade talvez a frase correta seja:  impossível saber quem sorria mais.
O comportamento do grupo reunido era exatamente o mesmo  vivido há 50 anos. A alegria do reencontro, as novidades que cada uma tinha para contar, as lembranças de fatos ocorridos nas aulas. Enfim, uma infinidade de emoções para extrapolar! Risos e lágrimas de alegria ao mesmo tempo.
Realmente somos o que vivemos e posso garantir que nestas poucas horas que passamos juntas, foi como se estivéssemos nos arrumando para a festa de formatura.  
A euforia daquelas jovens no final do curso estava novamente presente, como se cinco décadas não tivessem transcorrido.
Recordando Vinícius de Moraes - "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida" .
Parabéns amigas pelos 50 anos de formatura no Instituto de Educação "Joaquim Ribeiro" - Rio Claro/SP

Santos, 12 de janeiro de 2020

Deixo aqui uma homenagem especial às amigas que já partiram: Cristina Nobreza, Bia Moreira, Marli Pacheco, Cecília Chinelato, Maristela Fernandes e Vanuza Leal.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

BARULHINHO MISTERIOSO






Splasch....splasch.....splasch.....
O inconfundível barulho de sacolinha plástica sendo manuseada sempre me faz recordar uma reunião  de trabalho.
O típico ruído se ouvia a todo instante e estava intrigando a responsável pela reunião que de frente para a plateia  fazia  suas explanações sobre procedimentos administrativos a serem executados.
Compondo a mesa diretiva mais três pessoas também trocavam olhares inquisidores diante do barulho repetitivo.
Quando outra pessoa tomava a palavra o barulhinho curioso não acontecia. Bastava a dirigente reiniciar sua fala e pronto....splasch...splasch...splasch....
Até que identificou-se que tal ruído vinha da primeira fileira da plateia, mais precisamente das mãos de um diretor de escola.  Em seu colo além dos papéis utilizados na reunião, havia um saquinho plástico branco não transparente que era constantemente mexido pelas mãos de seu portador.
A curiosidade foi grande e uma das componentes da mesa diretiva, sem grande alarde, levantou-se e passou a ocupar uma cadeira que até então estava vazia justamente na primeira fila.
Ficou atenta e com os olhos fixos no saquinho branco esperando o momento em que ele fosse novamente tocado.  Não demorou muito pois assim que a dirigente retomou sua fala  o tal splasch se fez ouvir no recinto.
Neste instante o segredo foi desvendado pelo olhos atentos daquela que estava sentada próxima.  
O diretor havia levado de maneira disfarçada dentro do tal saquinho, um mini gravador que era ligado e desligado a todo instante. Foi o recurso que ele encontrou para poder ouvir e estudar novamente as orientações no momento de executar o trabalho. 
Consciente das dificuldades que geralmente ocorriam na elaboração das tarefas administrativas, ele resolvera gravar as explanações para minimizar tais problemas e reduzir as falhas.
Se no dia a dia  havia essa preocupação no tocante à escrituração escolar, em contrapartida contornava as dificuldades  de seu cargo de forma bem satisfatória visto que a escola situava-se num bairro  periférico e naquela época com sérios problemas econômicos e sociais. Creio mesmo que outra pessoa não teria fibra para permanecer tantos anos à frente desta unidade escolar como ele permaneceu.
A despeito destas adversidades procurava manter o bom humor o que de certa forma ajudava a diminuir os ralhos de seus superiores.
Um fato em especial sempre me faz rir ao lembrá-lo. 
Na necessidade de se passar aviso urgente para todas as escolas o recurso disponível na época  era somente o telefone.  A internet não havia ainda se popularizado nem tampouco o celular. É bom que se esclareça que não havia também o tal identificador de ligações.
Em uma dessas ocasiões a funcionária começou a ligar rapidamente para todas as unidades.  Ao telefonar para a escola deste diretor não reconheceu de imediato a voz dele, ao passo que ela sim teve sua voz reconhecida por ele.  Na dúvida e achando que havia ligado para número errado, a funcionária quis saber de onde estava se falando. Num momento de descontração e para zoar um pouco como se diz hoje em dia, ele respondeu de pronto:
- É da Funerária Santa Maria, sua morte nossa alegria!
Assustada com tal resposta a funcionária desligou imediatamente o telefone. Claro que logo a seguir nova ligação desfez a confusão e todos acabaram rindo muito da situação.
Em momentos assim que paramos e pensamos que se há de procurar colher sempre as virtudes das pessoas pois é sabido que falhas todos nós as temos.

Santos, 02/11/2019

Para Mariana que não quis saber de papo com a Funerária Santa Maria....eita!

terça-feira, 23 de julho de 2019

ESSA TAL EMPATIA





Interessante esse sentimento chamado empatia.
Do nada, assim sem aviso prévio, conhecemos alguém que embora ainda seja uma página em branco em nossas vidas, já desperta nossa atenção e transmite um sentimento agradável.
Foi assim que há muitos anos ao iniciar uma experiência nova em termos profissionais, entre tantas pessoas totalmente desconhecidas, um rosto com um sorriso tranquilo e seguro,  transmitiu  a mensagem que eu era bem-vinda. Sabendo de minha total inexperiência naquele campo, colocou-se à minha disposição para os primeiros passos.
Nossa convivência neste período foi curta mas isso não impediu de guardar para sempre na memória,  aquele sorriso doce e tranquilizador.
A dona deste sorriso era você Ivani.
Anos se passaram até que numa viagem de férias a vejo chegar cheia de expectativas e trazendo sua mala. Para minha surpresa você fazia parte do grupo e isso me alegrou bastante.
Convivemos vários dias neste período de viagem e suas atitudes só reforçaram o que eu já sabia:  pessoa  sincera, meiga, sensata e alegre. Trazia na face a expressão que nos faz reconhecer um verdadeiro amigo.
Novamente nossos caminhos se distanciaram e depois de mais de uma década, a reencontrei novamente graças a amigas em comum.
A partir daí as saídas com o grupo tornaram-se mais frequentes: era uma noite de pizza regada a vinho, algumas comemorações,  jantares na casa de alguém  ou simplesmente para conversarmos e rirmos muito. 
Mudei de cidade e a partir daí toda vez que visitava  nossa sempre amada Rio Claro, combinávamos uma saída à noite com toda a turma.  Justamente em várias oportunidades estas noites coincidiram com capítulo final de novela e você, noveleira que era, abria mão de assistir o tal capítulo para poder participar do encontro.
Não esqueço de uma certa manhã de sábado em que passei rapidamente por Rio Claro. Nesta ocasião fiz uma caminhada com amigas nas proximidades do campo de aviação. Você ficou sabendo disso e deu um jeito de aparecer por lá apenas para me dar um abraço.
Até em Santos você veio me visitar com as amigas.  Foram dias de muita alegria e até um senhor banho de chuva tomamos na volta para casa depois de um passeio.
Fui acompanhando sua vida à distância depois que adoeceu  e sempre torcendo e rezando.
Até que...
Até que na semana passada recebi a notícia de sua partida.
Claro que um filme passou em minha mente. Um filme em câmera lenta fazendo uma retrospectiva destes anos todos.  Em cada cena sempre seu sorriso doce se destacava.
Siga em paz amiga Ivani.
Siga em paz e com a certeza que faz parte da história de quem pôde conviver com você.
Deixou-me somente boas e belas lembranças e um sentimento de eterna gratidão.
Parece que estou vendo alguém sorrindo no céu.  Será você?

Santos, 22 de julho de 2019

Para amiga Ivani Aparecida Lombardo (in memorian)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

THELMA





Conhecemo-nos há aproximadamente 5 anos.
Cheguei novata entre as alunas, já antigas frequentadoras das aulas.
De imediato me foi dito que talvez não houvesse  vaga naquela turma, mas sim em outro dia e horário.
Lembro-me bem como foi a reação de algumas alunas e a dela em especial, intervindo na questão e dizendo ao professor que me permitisse frequentar as aulas naquele grupo.
Assim foi feito e comecei a participar daquela turma.
Já no primeiro dia ainda um tanto quieta e tímida, tive a primeira demonstração de seu temperamento  autêntico e forte.  Irritada por conta de uma dificuldade maior em acertar os tons ao  pintar a óleo determinado espaço em sua tela, proferiu algumas palavras que num primeiro momento me pareceram um tanto grosseiras demais. Alguns termos debochados foram citados em alto e bom som.
Antes que me refizesse do susto ouvi sua voz relembrando minha presença na turma, que em sendo novata, poderia me ofender ouvindo determinadas expressões.
Percebendo e compreendendo que aquela situação era mais que rotineira, sorri, a acalmei e esclareci que todos os vocábulos e expressões que ouvira já eram de meu conhecimento e que infelizmente não havia aprendido nada novo.
Foi então a vez dela rir alto ao perceber que eu havia entendido que tais explosões eram costumeiras e serviam apenas como desabafos momentâneos.
Assim era Thelma, explosiva e impetuosa. Escondia por trás de seu comportamento impulsivo, um coração enorme e disposto a ajudar quem dela se aproximasse.
Sua maneira autêntica de ser, apesar de a princípio causar certo receio, fez com que a admirasse mais.  Dizia o que realmente estava pensando, sem bajular, sem eufemismos. Falava com o objetivo de aprimorar ou acrescentar algo que julgasse necessário, sem a menor preocupação em  "dourar a pílula". 
Neste curto espaço de tempo em que convivemos, pude observar embora de forma lenta, o declínio de sua saúde.   Apesar de estar ciente de certas restrições necessárias ao seu bem-estar, ela nunca preocupou-se muito consigo mesma e descumpria com frequência tais restrições, não ouvindo os conselhos de ninguém. 
Nesta semana, após um último ano muito difícil e com os problemas de saúde agravados, Thelma partiu.
Sua presença física não mais será vista mas com certeza seu jeito tão peculiar de ser, tão despojado de não me toques, bem como seu enorme coração, jamais serão esquecidos.
Vá em paz Thelma!
Continue pintando suas obras nesta tela azul e enorme do céu, que daqui debaixo  estaremos  admirando. Siga seu caminho com a certeza que viverá para sempre na memória daqueles que a conheceram.

Santos, 11 de fevereiro de 2019.

Para Thelma Dib.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O VEXAME




Todos temos nossos temores mais ou menos intensos e que vira e mexe nos colocam em situações complicadas.  Fobia de elevador, receio de viajar de avião, medo do escuro e seus fantasmas e por aí afora.
Se pensarmos em um animal em particular, a barata ganha tranquilamente  o troféu de inseto considerado o mais detestável e abominável, e não somente pelas mulheres diga-se de passagem.
Claro que há muitos outros animais bem mais perigosos como os que carregam venenos  em seus corpos, para a própria defesa, mas as baratas são hors concours no quesito terror.   Talvez por serem cosmopolitas  e habitarem ambientes comuns aos humanos, sendo portanto mais facilmente encontradas, elas se destacam com louvor diante de outros animais.
Habitando nosso planeta há aproximadamente mais de 300 milhões de anos, este inseto apresentou poucas adaptações evolutivas ao longo de todo este tempo. O formato achatado e a  cor de seu corpo, bem como a disposição das patas, facilitam  muito suas  rápidas fugas quando descobertas. Tudo isso só colabora para aumentar o pânico que tal bichinho causa quando resolve circular por aí, ou pior ainda, a voar por aí. Alguém já disse com muita propriedade que pior do que ver uma barata, é não vê-la mais!!!
Foi justamente por causa dela que de repente, em plena loja cheia de pessoas, ouviu-se um grito apavorante na fila do caixa, ao mesmo tempo em que num gesto de desespero os pacotes de compras eram lançados para o alto.
Num primeiro momento como num passe de mágica todos pararam onde estavam e sequer ousaram dar um passo.  Apenas as cabeças se mexeram em direção ao lado de onde viera o imenso grito de pavor.  Seria a chegada de um monstro?  Seria o próprio Lúcifer presente na loja?
A autora do escândalo ainda com o pânico estampado no rosto , apontava para uma enorme barata sobre o balcão, bem próxima ao seu corpo.  
A funcionária tão ou mais assustada que a freguesa, ao constatar o motivo de todo aquele escarcéu teve que se conter para não cair na gargalhada, já que a protagonista do show estava visivelmente transtornada.  Com delicadeza pegou o bichinho com as mãos e mostrou que era simplesmente um brinquedo de plástico, isto mesmo, de  plástico,   que ela mesma havia colocado ali para demonstração juntamente com outros artigos especiais usados para se comemorar o Dia das Bruxas.
A estas alturas a clientela toda da loja que já fazia um grande círculo em torno das protagonistas, não se conteve ao ver qual era o monstro horripilante causador de todo aquele tropel. As gargalhadas saíram em alto e bom som.
Depois disso tudo provavelmente por um bom tempo a freguesa evitará por os pés nesta loja, até ter certeza absoluta que seu show foi esquecido.
             Um fato ficou comprovado: a eficácia do brinquedinho para comemorar o Dia das Bruxas.  Podem comprar sem medo, ou melhor, até com o medo mesmo!!!

Santos, 17 de outubro de 2018

Para Tutu por proporcionar um showzinho divertido,  e também em homenagem à barata por sua performance incrível, se passando por uma real.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A SURPRESA TEM MÃO DUPLA










É absolutamente normal  que a pessoa não goste de receber surpresas ruins. Há entretanto quem não goste nem mesmo de boas surpresas. Não aceitam bem tais situações sejam em forma de notícia, de presente, de conhecimento ou mesmo de visita.
Em contrapartida há, e creio que em número bem maior, quem curta uma surpresinha de vez em quando desde que seja positiva, claro!
Eu me enquadro nesta segunda turma. Gosto de surpreender e ser surpreendida  com boas e desejadas notícias, presentes inesperados, atitudes especiais, etc.
Também eles pensando assim puseram em prática um planejamento feito às pressas. Dois se encontravam em São Paulo e o terceiro estava além mar, do outro lado do Oceano Atlântico.
Para que tudo se realizasse a contento, colocaram-se logo a caminho já que havia mais de 8.000 km a serem vencidos até chegarem aos seus destinos.
Ansiosos já se deliciavam imaginando as expressões de espanto e incredulidade, seguidas de boas gargalhadas, descontração, bem como momentos carinhosos e amigos.
E foi assim que em plena noite de um domingo, o whatsapp avisou a chegada de mensagem  no grupo familiar. Uma foto mostrava aquele que seria surpreendido, todo risonho, bem em frente à sua residência em Campinas. 
Espanto geral no grupo. 
Como assim?  Foto antiga? Montagem? Àquela hora e dia, ele deveria estar exatamente a mais de 8.000 Km dali.
O whatsapp endoidou e não parava de apitar já que uma parcela do grupo não entendia o que estava se passando.  
E dá-lhe emojis
                                                    


             
Aproveitando as reações de espanto, ele curtia e se divertia com as hipóteses levantadas pelos demais em busca de explicação para a tal foto. Realmente ele estava em Campinas.
Foi quando outras duas fotos apareceram nas telinhas dos celulares de todos: um casal espantado dentro de um avião, e passagens aéreas para o outro lado do Oceano Atlântico.
Incredulidade ampla, geral e irrestrita.
Como assim? Montagem? Voo doméstico querendo se passar por internacional??? O casal estava mesmo viajando???
Mensagens dispararam novamente no grupo da família!  Santa tecnologia.
   
Até que.....até que após alguns minutos e muitas mensagens e expressões de espanto, a compreensão se fez entre todos.
                          

Por uma incrível coincidência ou brincadeira do destino, pai e filho se desencontraram em pleno espaço aéreo sobre o Atlântico.  Quase se viram e trocaram tchauzinhos pelas janelinhas dos respectivos aviões.
O pai que deveria permanecer em  Portugal por longo tempo, resolveu retornar ao Brasil sigilosamente para surpreender a família, ao mesmo tempo que o casal (seu filho e nora) embarcou para lá no mesmo dia, também de maneira sigilosa, visando surpreendê-lo.
Desencontro total.  Os três queriam surpreender e foram pegos de surpresa. Realmente ela tem mão dupla!
            
A despeito de toda confusão os surpreendidos puderam se encontrar dias mais tarde e tudo acabou bem!
                         

Santos, 03/09/2018

Para Edo, Luis Fernando e Erika - pelo incrível desencontro aéreo.