domingo, 30 de novembro de 2014

ESQUECERAM DE MIM - VERSÃO CAMPINEIRA

          





       Creio que dificilmente haja alguém que nunca tenha assistido, ou ao menos ouvido falar, sobre o filme Esqueceram de Mim, lançado em 1990, com Macaulay Culkin no papel principal como o garoto Kevin.

          Esta época pré-natalina é ocasião propícia para que os canais de TV reprisem este filme pela milionésima vez, bem como os outros que o sucederam: Esqueceram de Mim 2 - Perdido em Nova York e Esqueceram de Mim  3.

         São comédias leves que agradaram ao público e tornaram o ator mirim famoso no mundo todo.

         Estes esquecimentos entretanto, não são tão incomuns e não acontecem somente nas ficções cinematográficas. 

          Pois  bem, aqui em plena terra brasilis também tivemos a versão feminina de Kevin, na antigamente chamada Terra das Andorinhas.

          Embora o fato tenha ocorrido num tempo mais curto e fora da ambientação natalina, poderia também concorrer ao Oscar de trapalhada familiar.

         Como de costume, o casal e filha pequena, após almoçarem no restaurante dirigiram-se ao carro estacionado em local próximo.

         É fato comprovado que a rotina nos leva a fazer coisas como se tivéssemos ligado o chamado piloto automático. Este fato associado à distração, acabou acarretando uma cena inusitada.

          A garota guardou a mochila escolar no porta-malas e o casal entrou no carro que logo em seguida foi posto em movimento deslocando-se rua acima.

         Passados alguns momentos, quando já haviam percorrido uma certa distância, eis que o celular da mãe começou a tocar. 

           Antes de atender ela observou no visor do aparelho, que era a filha chamando-a.

        Julgando ser brincadeira da menina, antes mesmo de atender ao chamado, a mãe indignada virou-se para trás já dando a maior bronca bem no estilo italiano, indo de maledetta até porca la pipparola.

          Surpresa!!!

          O banco traseiro do carro estava vazio, absolutamente vazio.

          Assustada, virou-se para o marido perguntando pela menina.  

          Ele que até então imaginava a filha sentadinha no banco de trás, brecou rapidamente o carro ao mesmo tempo em que a esposa atendia ao chamado do celular.

        Era a menina que muito brava avisava que havia sido deixada para trás. Estava na calçada em frente ao restaurante.

         A princípio ao ver o carro partir, a filha julgou que era brincadeira dos pais e esperou um pouco.

        Entretanto como o veículo já se distanciara muito e não havia a menor menção que iria parar, concluiu que realmente fora esquecida.  

          O jeito foi recorrer ao celular para solicitar seu resgate.

          Ainda bem que nestes tempos modernos puderam contar com a tecnologia. 

        Caso contrário, a menina teria que esperar até os pais chegarem em casa e notarem sua falta.

     A Kevin campineira teve mais sorte que seu correspondente americano - foi resgatada em pouco tempo.

        Resgate efetuado e mais uma trapalhada familiar resolvida.



Santos, 30 de novembro de 2014. 




sábado, 15 de novembro de 2014

O PROFESSOR TEXANO


Os dias eram curtos para darem conta das atividades das quais participavam.
Exerciam o magistério em cidades vizinhas e um dia por semana já era reservado para ida a São Paulo onde cursavam matérias da pós-graduação na USP. Os três períodos do dia e às vezes madrugadas, eram destinados ao trabalho e estudo.
Em um determinado semestre as duas amigas receberam um pedido do professor orientador da pós.  Um geneticista texano viria a São Paulo, convidado que fora, para ministrar uma série de palestras semanais no departamento de Genética Animal da USP.
Ocorreu porém que não houve inscrições na quantidade mínima exigida para que o evento fosse autorizado.  Faltavam exatamente duas inscrições.
Era justamente isso que o orientador desejava: que ambas se inscrevessem para completar o total necessário.
As palestras seriam dadas por este professor texano que não falava absolutamente nada em  português e portanto o evento seria totalmente no idioma inglês, sem tradução simultânea ou posterior.
Este fato por si só já as excluía de imediato como possíveis alunas, pois mal dominavam o idioma estrangeiro para traduções com direito ao uso do dicionário.  Conversação em inglês era algo que estava totalmente fora de cogitação já que não tinham a menor condição para isso.
Entretanto, o tempo exíguo que havia para o término das inscrições e a necessidade premente que o ciclo de palestras ocorresse, já que era importante para algumas pesquisas específicas de outros pós-graduandos, fez com que o orientador lhes assegurasse que assumiria qualquer problema que por ventura viesse a ocorrer por causa das dificuldades com o idioma.
Inscrições feitas e aulas iniciadas, as amigas sempre tinham o cuidado de sentarem mais ao fundo da sala e evitarem qualquer participação maior. Entendiam um termo aqui, outro ali, uma frase inteira acolá, mas não saia muito disso.
O professor texano falava muito rápido e às vezes até os que dominavam seu idioma, pediam-lhe que se expressasse mais pausadamente.
Ao final do semestre quando já estavam na penúltima palestra, as amigas tiveram que faltar por causa de imprevistos particulares.
Não contavam, entretanto, com o fato do professor vir a sentir suas ausências naquele dia. De imediato perguntou sobre elas ao professor orientador. Foi informado que tais alunas eram do interior e viajavam a São Paulo para assistirem suas palestras e que provavelmente haviam tido algum problema com o transporte.
Na semana seguinte, as amigas compareceram alegres e felizes já que era a conclusão do tal ciclo de palestras.
Nem bem chegaram e foram avisadas por colegas, que o texano desejava conversar com ambas, pois se dispunha a acertar uma data para a reposição exclusivamente para elas, da aula que haviam perdido.
Foi o que bastou para ligarem o sinal de alerta e evitarem ao máximo, dar uma oportunidade a ele de vir ao encontro delas.
Creio que naquele dia elas fugiram mais do texano do que o diabo já fugiu da cruz.
Entraram na sala quando a aula já havia iniciado e como sempre, em local discreto. Ao ser anunciado o intervalo, saíram praticamente voando.
Naquele dia ficaram sem o esperado cafezinho saboreado com todos os colegas e professor. Mantiveram-se em local seguro e distante das vistas enquanto durou o intervalo.
Quando calcularam que fosse o momento ideal para voltar à sala, levaram o maior susto. A porta do elevador se abriu e dentro dele estava justamente a pessoa que mais evitaram a manhã inteira. Foi por muito pouco, mas conseguiram disfarçar e se afastar quase correndo. A crise de riso que se seguiu foi inevitável.
Finalmente retornaram para a classe quando a segunda parte da aula já estava em andamento.
Ao encerrar a série de palestras o professor começou a se despedir e ao dizer o primeiro BYE elas saíram quase se atropelando da sala e foram tão rápidas que no segundo BYE que ele pronunciou, já entravam no elevador.
Estava encerrada a série de palestras com tema central que elas conheciam bem, mas cujos conteúdos jamais saberão.

Do you understand English?
Yes, I do.  The book is on the table!

                     E tenho dito!  Ops...And I have said!

Santos, 15 de novembro de 2014 

Para Vera, recordando a cena do elevador e a crise de riso que tivemos em seguida.  I can't believe we did it.




domingo, 9 de novembro de 2014

OS PENETRAS



Há aproximadamente um ano não nos vemos ao vivo e a cores.
Na verdade não nos vemos nem virtualmente, já que entre ela e a tecnologia que a informática oferece, há uma incompatibilidade atroz.  Quando há necessidade de enviar informações a alguém, costuma perguntar se pode mandar por malote, recordando o tempo em que esse meio era usado com frequência.
A despeito deste distanciamento físico, sorrio sempre que me lembro dela.
Trabalhamos na mesma sala por um certo período e nesse tempo pude conviver com uma profissional responsável, competente e com um grande senso de humor.
Dona de uma fina ironia, provocava boas risadas com suas observações feitas na sala de trabalho que ficava justamente ao lado da sala do chefe, famoso por sua seriedade.  Suas frases espirituosas e hilárias conseguiam despertar sorrisos até na face do circunspecto chefe.
Recentemente li uma divulgação sobre a abertura de novo restaurante na cidade.  Tal fato levou minhas lembranças diretamente a ela, provocando risada mesmo após transcorridos tantos anos.
No período em que trabalhamos juntas, houve a inauguração de um belo restaurante na região central da cidade.
Ao ficar sabendo de tal evento, achou uma boa ideia almoçar com a família neste local, já que era um belo sábado de sol.  Todos concordaram com sua até então, brilhante sugestão.
Logo na entrada do restaurante notaram um grande movimento e o atribuíram à curiosidade natural.  Consideraram que todos queriam conhecer e experimentar os serviços do novo local.  
À medida que caminhavam pelo corredor central, observaram que a maior parte das mesas já estava ocupada por pessoas muito bem arrumadas e elegantes, mas que nunca haviam visto. Todas os olhavam com certo ar de surpresa e principalmente curiosidade, já que a família estava em trajes bem esportivos e descontraídos, adequados para uma tarde quente de sábado no clube.
Quando já estavam no meio do corredor à procura de uma mesa vazia, avistaram um conhecido.  Cumprimentos trocados e eis que o amigo diz que desconhecia que haviam sido convidados também.
- Convidados para quê?  ela perguntou já com medo de ouvir a resposta.
O temor tinha razão de ser.
Era um casamento cujos noivos que eles não conheciam, haviam reservado o restaurante todo para receberem os convidados para a festa, diga-se de passagem, uma elegantíssima festa.
Descobriu tarde demais que não havia lido a notícia sobre a abertura do restaurante com atenção e se confundira com os dias.
A inauguração do local para o público em geral, seria no dia seguinte, no domingo.
À família não restou outra opção a não ser virar literalmente nos calcanhares e se retirar sem nem olhar para os lados, mas sentindo todos os olhares em sua direção.
Já na rua ela tentou se justificar mas foi em vão, afinal havia acabado de fazer a família  pagar um grande mico transformando-a em penetra de festa alheia, com direito à entrada triunfal e saída mais triunfal ainda.
Longe de constrangê-la, este fato foi contado e até teatralizado por ela, causando muitas gargalhadas, inclusive do severo chefe.
Com muita propriedade, Caio Fernando Abreu já disse:
“Você percebe que as pessoas são inteligentes quando elas conseguem rir de si mesmas. Gente ignorante só consegue rir dos outros.”
Saudades de você Rosmari!

Santos, 9 de novembro de 2014

Uma homenagem à Rosmari e seu excelente senso de humor.
Qualquer dia conto a história de como saindo na estrada para ir a Ipeúna, você chegou triunfalmente em.........Ajapi...rsss.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

XÔ TRISTEZA!



Creio que isso aconteça com muita gente.
Acordo às vezes sentindo uma tristeza profunda e o que é pior, não sei o motivo.
Esse fato não é comum, mas me incomoda justamente porque passo horas do dia com aquele aperto no peito e pensando no que poderia estar provocando a sensação ruim, que já chegou a durar uns dois ou até três dias seguidos.
Claro que busco me distrair com leituras agradáveis, boas companhias e evito ler ou assistir qualquer fato mais deprimente, mas como se fosse um iceberg, aquela ponta de tristeza vez ou outra, consegue emergir e eis de volta a sensação desagradável.
Sempre fui emotiva e sei também que ficamos mais ainda com a idade (embora eu seja muito jovem...rs), mas nestas ocasiões de tristeza sem causa aparente, me vejo chorando até em propaganda de papel higiênico.
Há alguns dias estive assim, nesta fase um tanto baixo astral.
Embora eu seja totalmente leiga e até um tanto cética em relação à astrologia e signos de um modo geral, cheguei até a pesquisar (dá-lhe Google) sobre o chamado inferno astral, já que estava na semana anterior ao aniversário.
Consulta feita e não cheguei à conclusão nenhuma.
Agora, enquanto fazia pequenos serviços domésticos (depois de aposentada, virei “do lar”) sintonizei o som na estação chamada Radio Saudade FM 100.7 MHZ, aqui de Santos.
Gosto de sua programação.  Acho até que vou pedir um “cachezinho” por esta propaganda.
Assim que sintonizei a rádio, ouço a voz de Maysa cantando um de seus sucessos, Bom dia Tristeza, composta por Vinícius de Moraes e Adoniran Barbosa. 
Aliás, abrindo um parêntese aqui, esta música tem uma história interessante, já que Adoniran e Vinícius nunca se encontraram e naquela época, internet não existia.
Segundo relatos, Vinícius escreveu o poema num guardanapo de papel e entregou-o a Aracy de Almeida, em Paris.  A cantora era amiga de Adoniran. De volta ao Brasil, mostrou-lhe os versos que empolgaram tanto ao sambista que ele resolveu musicá-los.  Assim nasceu a composição Bom Dia Tristeza.
Pois bem, fechando o parêntese, eis que ouço na rádio a bela voz de Maysa. Parei um pouco e fiquei refletindo sobre os versos.  Em seu poema, Vinícius diz que a tristeza vinha do fato de amar.
Até o amor causa tristeza.
Talvez então seja isso.  A gente ama a vida, ama os amigos, ama tantas coisas que infelizmente, por circunstâncias diversas, muitas vão se perdendo ao longo da vida. Em alguns casos, a perda é definitiva. 
Seres que amamos e que partiram antes nos fazem falta, e nosso inconsciente acorda vez ou outra lembrando tais perdas.
Assim como veio, aquela sensação ruim se foi.
Sou e sempre fui mais pela alegria, pela admiração à vida, pela natureza e por momentos simples mas carregados de sentimentos e sensibilidade.  Momentos que passam ao largo de bens materiais, mas que fazem realmente a vida valer a pena.
E relembrando Vinícius em seu Samba da Bênção ... “É melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe”....
Por isso, hoje deixo de lado a bela música na voz de Maysa, e fico mais com Drummond e seu poema sobre felicidade. 

VOCAÇÃO PARA A FELICIDADE
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Não escreverei versos chorosos, cantando tristezas infinitas,
amores impossíveis, saudades dolorosas,
paixões trágicas e não correspondidas.

Tenho a vocação para a felicidade.
Ser feliz não me traz sentimento de culpa.
Não preciso da tristeza para justificar a inutilidade da vida.
Não preciso morrer e ir ao céu para encontrar a felicidade.
Quero-a e tenho-a neste espaço terreno do aqui e do agora.

A felicidade, tal e qual o amor, está dentro de mim
E transborda em ternuras, em melodias,
em carinhos, em alegrias, em cantos e encantos.

Sou feliz e não preciso me justificar.
Sorrio sem ver passarinho verde.
Não tenho medo de ser feliz.

Faço minha estrela brilhar.
Sem receio dos encontros, desencontros,
encantos e desencantos que o amor me diz.

Contrariedades? Eu as tenho.
E quem não as tem na vida secular?
Escassez de dinheiro? Nem é bom falar
Amores não correspondidos? Separações?
Rejeições? Saudades incuráveis?
Carinhos reprimidos, ternuras guardadas,
sem a contra parte do outro?
Eu tenho aos montões.
Sou a rainha das perdas, necessárias ao meu crescimento.

Contudo quem não soube a sombra não sabe a luz.
E num livro de matemática existencial
juntei todos esses problemas insolúveis,
com as respostas nas últimas páginas.
Mas pra que me debruçar
sobre eles, procurando a solução
se a própria vida me conduz
a resposta final?

Sem medo de ser feliz vou por aqui e por ali
por onde os caminhos, as trilhas,
Os atalhos me levarem, traçando meu rumo.
Às vezes com alguma tristeza,
mas quem disse que felicidade
é o contrário de tristeza?
Tristeza é só uma momentânea falta de alegria!

É, amigo, amanhã é sempre um novo dia
E quando a infelicidade passar por aqui,
minhas malas estarão prontas
para eu ir por ali.

..................

Que tal despertarmos em nossa alma, a vocação para a felicidade?


Santos, 5 de novembro de 2014  


terça-feira, 14 de outubro de 2014

O QUE COMEMORAR?


Outro 15 de outubro assinalado no calendário.
Já comemorei esta data incontáveis vezes.
Lembro-me das festinhas feitas na escola “Marcello Schmidt” quando ainda iniciava a vida estudantil.  As comemorações eram feitas no pátio onde todas as classes ficavam reunidas.
Era uma alegria só!
Em uma ocasião, não recordo o motivo, a criançada foi dividida em grupos menores que posteriormente foram encaminhados para as salas onde sempre funcionavam as 4ªs séries do antigo curso primário. 
Esse dia ficou marcado para mim por dois motivos principais. Como estávamos ainda na 2ª série, eu e demais colegas de turma nos sentimos muito importantes entrando no espaço que era destinado aos alunos mais velhos. Tínhamos muita curiosidade em conhecer aquelas classes. Outro fato marcante foi observar que a separação entre as duas salas era feita por uma grande divisória de madeira que para nosso espanto e alegria, foi aberta na nossa frente.  Os dois ambientes foram reduzidos a um único e imenso espaço onde a festa para os professores aconteceu. 
Vi esta divisória ser aberta outra vez somente muitos anos mais tarde quando já estava na direção da escola. Numa noite chuvosa e com muito vento foi necessário abri-la para acomodar melhor os muitos participantes de uma reunião de pais e mestres.
Ao longo dos anos escolares as homenagens aos mestres continuaram sempre com muitas festas. As crianças, adolescentes ou jovens, faziam questão de cumprimentar seus professores.
Claro que sempre houve e sempre haverá aqueles mais queridos, com mais empatia e mais próximos do alunado.  Independente disso todos os mestres tinham o reconhecimento e recebiam homenagens.
Já formada e exercendo a profissão tive a alegria e prazer juntamente com os colegas, de receber muitos cumprimentos por ocasião desta data tão importante para nós.
Ainda tenho guardados muitos cartões, desenhos e bilhetes recebidos de alunos e ex-alunos.  Creio que muitos professores também devem ter este tipo de acervo conservado com muito carinho.
Entretanto ao longo da carreira começamos a sentir uma desvalorização de nosso trabalho através de governos (ou seriam desgovernos?), que pouco a pouco deixaram a educação em segundo plano. O professor depreciado cada vez mais através dos baixos salários viu-se obrigado a correr de uma escola a outra e trabalhar em três turnos diários para ter ao menos, um salário para necessidades básicas.
Nessa curva absurdamente descendente do magistério, houve até autoridade política dizendo em alto e bom som que professora não era mal paga, mas sim, mal casada.  Creio que meus contemporâneos lembrem-se desta famosa frase.
Em função disso tudo começamos a observar de alguns anos para cá um fato que era absolutamente esperado. Os profissionais estão abandonando o magistério e partindo para áreas onde a competência é reconhecida e valorizada.  Em certas regiões o diretor de escola tem até dificuldade em encontrar profissionais habilitados, licenciados, que realmente exerçam o magistério com competência.  
Boa parte dos professores que continuam em sala de aula enfrentam problemas vários que começam com o baixo salário, passam pela ausência de respeito e de educação para consigo, e chegam aos extremos da insegurança pessoal.
Se a despeito disso tudo ainda continuam firmes em seu mister, é porque são movidos pelo idealismo do verdadeiro educador.
Quem sabe num futuro próximo, nossas autoridades educacionais reconheçam a importância e o valor desta profissão e a eleve novamente ao patamar de onde jamais poderia ter caído!
Só espero que não seja tarde demais!
É a esses profissionais idealistas que deixo aqui minha homenagem e o meu respeito.
FELIZ DIA DO PROFESSOR!

Santos, 14 de outubro de 2014.




segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ELA ... A SAUDADE!


Há dias em que o coração amanhece chorando.
De imediato não atinamos com a causa do aperto no peito, da respiração curta e da imensa vontade de chorar.
Recapitulamos os momentos vividos recentemente à procura de um motivo que justifique aquela súbita tristeza que se instalou na alma. 
Nada encontramos.
As horas passam e a rotina acompanha os ponteiros do relógio, mas aquela sensação nos segue a todo instante.
É ela, a saudade que passeou por nossos sonhos e resolveu ficar para nos fazer companhia. Uma saudade de algo que não sabemos exatamente o que seja e que se manifesta agora na forma de tristeza. Creio que todos já sentiram isso.
Sentimentos que até então estavam contidos na alma, transbordam pelos olhos.
Uma palavra, um objeto ou até mesmo um cheiro que nossos sentidos inconscientemente captam, afloram estas sensações e nos fazem reviver fatos que o coração guardou.
Locais, momentos, pessoas desfilam em nossa mente.
Um pranto silencioso é inevitável. Deixamo-nos dominar pelo dolorido sentimento de perda que a saudade traz. Tornamo-nos sua refém.
Saudade é sempre associada à ausência que Drummond tão bem definiu neste belo poema:
Ausência:
Por muito tempo achei que ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba de mim.

                Passados alguns instantes, uma sensação de paz nos invade, suavizando o espírito. Olhos ainda molhados recebem a companhia de um sorriso despertado agora, pelas lembranças de bons momentos vividos.
                A saudade é assim. Fica latente num cantinho especial do coração e vez ou outra se manifesta de maneira intensa, passeando por nossa alma e nos presenteando com lágrimas entremeadas de sorrisos, sorrisos tristes é bem verdade, mas mesmo assim... sorrisos!

Como alguém sabiamente já disse: “Saudade é o amor que fica”.

Santos, 04 de outubro de 2014. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

VALE A PENA


A vida ensina.
Creio que todos já ouviram esta frase muitas vezes.
A vida nos ensina sim e esse aprendizado acontece dia após dia, indefinidamente, até nossa morte.
Quando estamos confiantes, seguros em determinadas situações e algo inesperado acontece e nos surpreende, todo aquele conhecimento e segurança acabam abalados, gerando comportamentos que jamais imaginávamos presenciar em alguém.
Estes desenganos ocorrem em todos os campos, mas em termos de amizade com certeza a frequência é maior.
Analisando melhor isto chega a ser positivo, pois se tudo caminhar sempre nos conformes como se costuma dizer, nossa tendência é a acomodação e como consequência direta, o estabelecimento de uma zona de conforto que atrai e cativa, mas sem sombra de dúvida, também limita e acarreta estagnação dos sentidos, dos anseios, dos objetivos, da vida enfim. Cria-se uma situação de certezas sem surpresas, apagando o brilho dos sonhos.
Por outro lado, e é neste ponto que me apego no momento, quando esta quebra da estabilidade é gerada por uma decepção que nos machuca a alma, acaba reforçando uma postura que também nos é prejudicial. Numa tentativa de autoproteção contra novos desenganos, levantamos consciente ou inconscientemente, um escudo invisível à nossa frente. 
Isso acaba reforçando a máxima de que devemos sempre confiar desconfiando.
Se assim pensarmos, nunca haverá sinceridade total e plena entre as pessoas, tenham elas um grau maior ou menor de amizade.  É penoso e frustrante demais pensar assim.
A essência da amizade não permite dúvidas. Se elas existem, não há amizade no sentido real do termo.
Como deixar fluir e repartir a emoção, os sentimentos, os pensamentos muito nossos, se não houver confiança entre as pessoas?  A meu ver, é uma tarefa impossível.
Amizade é, e deve ser sempre, baseada na confiança, na reciprocidade e na compreensão, independente do que se faça ou diga.
A despeito dos desenganos que todos temos ao longo da vida, a confiança no outro não deve ser suplantada e sufocada pela incredulidade gratuita. Ela move os sonhos que nos permitem viver e por isso vale a pena.
Lembrei-me neste momento de Fernando Pessoa:
 “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

Santos, 30 de setembro de 2014

sábado, 23 de agosto de 2014

COMO PLANTAR BANANEIRA




Outro SARESP chegando neste segundo semestre de 2014.
A sigla significa Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo. São avaliações externas direcionadas a determinados anos e séries escolares, com o objetivo de avaliar o rendimento do aluno e a partir da identificação das principais dificuldades encontradas, propor melhorias no ensino.
Coordenei sua aplicação na então chamada Delegacia de Ensino de Rio Claro, desde o início em 1996 até 2003, quando me aposentei.
Na época, dez municípios faziam parte desta Delegacia totalizando quase 50 escolas estaduais.
No período do SARESP ocorria uma verdadeira aventura estrada afora a fim de se distribuir os materiais, promover reuniões, recolher e conferir todo material e finalmente elaborar um imenso relatório da D.E. a partir dos relatórios de cada unidade escolar.
Ficava tão envolvida com o processo que certa vez, numa reunião em Brotas, uma coordenadora de escola municipal que também participava do evento, esquecendo meu nome, chamou-me de dona SARESP e assim fiquei conhecida por um bom tempo naquele município.
A despeito da importância do processo, para mim é impossível dissociá-lo de um acrobático tombo que finalizou deixando-me numa posição de ioga que jamais consegui fazer em condições normais: plantar bananeira.
O caminhão trazendo todo material a ser usado no SARESP chegou à Delegacia num momento em que eu não estava presente.  Foi solicitado aos carregadores que descarregassem as muitas pesadas caixas numa sala que ficava num local bem reservado e seguro.
Aconteceu, porém, que tais carregadores não tiveram o cuidado de colocar as caixas que iriam para o mesmo município, todas juntas ou ao menos próximas entre si. Na verdade eles promoveram uma verdadeira miscelânea com o material.
Quando vi o ocorrido, resolvi organizar tudo visando facilitar o trabalho no momento da distribuição. 
Como sempre, apressada e elétrica, não esperei que alguém pudesse vir ajudar. Decidida que estava não levei em consideração o tamanho de cada caixa (em torno de 40 cm x 40 cm x 40 cm), o peso das mesmas que deveria ser algo próximo a 30 quilos cada uma e muito menos considerei meu tamanho e minha força.
As caixas estavam empilhadas de três em três, formando colunas com espaços entre elas. Vendo que não conseguia erguer uma sequer, resolvi então empurrar as tais colunas a fim de aproximar as que teriam por destino, o mesmo município.
Nem bem pensei e já entrei em ação; ou melhor, desaceleração!
Com a ponta do pé direito tentei empurrar a caixa de baixo, ao mesmo tempo em que apoiando as mãos na de cima, apliquei a maior força que fui capaz. Julguei inocentemente, que a caixa do meio se deslocaria acompanhando a de baixo.
Na primeira tentativa elas nem se mexeram. Respirei fundo e parti com tudo para uma segunda tentativa e foi aí que o fato se deu.
A caixa que estava no chão, nem ligou para a pressão de meu delicado pezinho. Em compensação, a terceira e última caixa, acabou se deslocando para frente diante do forte empurrão, caindo no chão justamente no vão entre as pilhas.
Porém, contudo, entretanto, todavia, no entanto... a caixa do meio, acompanhando sua vizinha de baixo, nem sem mexeu.
Com pés travados pela primeira caixa, mas com o tronco bem curvado para frente em função da grande força que fiz com os braços, meu corpo acabou acompanhando a terceira caixa e quando dei por mim, estava passando (ou seria voando?) sobre o material. Fiquei alguns poucos segundos plantando bananeira no vão entre as colunas de caixas para finalmente dar uma cambalhota e esparramar-me no chão.
Assim que levantei e ainda atordoada sem saber onde estava, eis que entra na sala a chefe da administração, que felizmente não viu a performance circense completa e nem algunas otras cosas, já que eu usava um vestido curto nesta ocasião.
Mesmo assistindo somente o final da cena, ela ao saber o motivo de eu estar tão branca e um tanto decomposta além de descalça (as sandálias voaram longe durante o malabarismo), soltou sua tão gostosa e contagiante gargalhada.
Nunca mais consegui dar cambalhotas e muito menos plantar bananeiras. Acho que aproveitarei o próximo SARESP para me exercitar novamente.
Este desempenho acrobático não constou do relatório do SARESP daquele ano, apesar de ter sido fenomenal; eu garanto!

Santos, 23 de agosto de 2014.  


Para Zezé Varuzza, recordando sua risada tão gostosa.