quarta-feira, 30 de outubro de 2013

"GENTE SEM MÃO PARA DAR" *



Final de tarde de um sábado qualquer.
Chuva fina e constante escorria pela vidraça, desenhando contornos curiosos.  A natureza lá fora parecia adormecida. Mar calmo, abandonado pelas ondas.
Momento convidativo para ouvir alguns CDs especiais para mim.
Nas músicas, ora lentas, ora aceleradas, a MPB cantava solta através das vozes de Chico, Tom,  Gonzaguinha, Adoniran, Elis, MPB 4, Cartola, Nara, Toquinho e Vinícius entre outros tantos. Músicas feitas há décadas, mas que nunca envelhecerão. São mesmo atemporais.
Mentalmente fui acompanhando as letras, velhas conhecidas.
Sempre me espantou e me encantou a delicadeza das poesias contidas nas belas melodias.
Com certeza alguma magia, algum encanto mesmo, domina a alma dos artistas no momento da criação de suas obras.
O som flutuava no espaço, invadindo a alma.
De repente, um ritmo lento que mais lembrava um lamento, tirou-me de um estado meio que de contemplação.  Já havia ouvido esta música outras vezes, mas nunca atentado para detalhes da letra.
Vinícius falava sobre a morte de um vizinho, Alfredo, que se matou de solidão.  Descreveu a situação em que vivia Alfredo e a certa altura ele cantou:
- Gente sem mão para dar.
Eu particularmente nunca havia pensado desta forma, numa solidão tão dolorida e intensa que a pessoa não tem sequer uma mão para dar.  Pessoa, que como diz a letra, é gente que a gente não vê porque é quase nada”.
Creio que todos nós ao longo da vida, já nos sentimos sozinhos em alguns momentos, já sentimos necessidade daquele abraço apertado que diz – estou aqui!
O que sentirá quem vive constantemente esperando este abraço?  O que sentirá quem vive dia após dia numa solidão total, sem atenção de quem quer que seja?
Com certeza já cruzamos com gente que assim se sente, inclusive pela nossa vizinhança, como foi o caso de Vinícius.
E a música continuou:
- Gente com olhos no chão, sempre pedindo perdão.
Envolvidos em nossos pensamentos, em nossos próprios problemas, ou mais objetivamente, com nosso próprio umbigo, não enxergamos estas situações (ou não queremos enxergá-las), e com certeza tratamos tais pessoas realmente como se nada fossem.
São seres para quem muito provavelmente, receber um simples olhar, um simples sorriso, faria toda diferença.
O que dizer então, de um cumprimento e de “uma mão para dar”?
Quantos Alfredos deixamos constantemente passar por nós como se fossem quase nada?  Quantos ainda deixaremos passar?
Alfredo?
Sim, Alfredo... “mas ninguém sabe de quê”.

Santos, 30 de outubro de 2013 

*   Um Homem Chamado Alfredo
Autores: Toquinho e Vinícius de Moraes








domingo, 27 de outubro de 2013

A FUJONA



Naquela época não havia ainda a possibilidade de implantes dentários.
Uma vez perdidos os dentes permanentes o único recurso para substituí-los era a colocação de uma prótese, a chamada dentadura.
Entretanto, por melhor que fosse o resultado, às vezes um ou outro imprevisto acontecia.
Pois não é que justamente um destes lamentáveis imprevistos, aconteceu com ela? Durante um almoço, uma mordida mais forte em um pedaço de carne dura e pronto, a parte inferior da dentadura quebrou-se em duas.
Consultado o protético veio o alívio: havia condições de se restaurar a peça quebrada.  O único senão é que ela ficaria algumas horas sem os dentes.
Para não se expor nestas condições, solicitou auxílio da filha caçula pedindo que levasse a peça ao dentista e a trouxesse imediatamente após ser reparada.  Neste meio tempo ela ficaria reclusa em casa aguardando o serviço ser realizado.
A garota, na casa de seus 7 anos aproveitou a ocasião para usar uma bolsinha nova de ráfia branca que havia ganhado recentemente.  Era bem pequena mas comportava perfeitamente os dois pedaços da dentadura a serem colados. O fecho era constituído por dois pinos que se cruzavam fechando a boca da bolsa. A alça era feita com uma delicada corrente que fazia todo seu charme.
A caminho do protético a garota resolveu brincar com a tal bolsinha e se pôs a girá-la nos dedos enquanto caminhava pelas ruas. 
Girou, girou e girou.
Girou tanto que sem que ela percebesse os pinos se abriram e a dentadura foi projetada para longe.  A garota só se deu conta disso ao chegar ao dentista e não encontrar mais aqueles dentes sorrindo dentro de sua bolsa nova.
Voltou acabrunhada para casa sem saber o que dizer para mãe, mas já esperando uma homérica bronca.
Dito e feito.  Apesar do sol escaldante na Cidade Azul naquele momento um temporal inesperado caiu pelos lados da rua 2. 
Muito difícil foi conter a vontade de rir que os irmãos mais velhos tiveram ao ouvir as cobras e lagartos que a mãe dizia, já muito nervosa e sem os dentes. As palavras saiam com sons diferentes e intercalados por assobios.  Foi preciso segurar o riso pois realmente como se diz hoje, o bicho estava pegando, embora com certeza naquele instante, não pudesse morder.
Encerrada a bronca, o problema persistiu. 
Por onde andaria a dentadura fujona?
Foi quando os dois filhos mais velhos entraram na história convocados com a urgência que a situação pedia, a refazerem o trajeto pelas ruas procurando em todos os cantos, aqueles dentes que sorriam fora de uma boca.
A operação teve início. A menina andava pelo canto da calçada enquanto o irmão andava próximo à guia, olhando a sarjeta.  Teriam que cumprir a missão de resgate a qualquer preço e por isso vasculhavam todo e qualquer pedacinho suspeito de papel para ver se não escondia a peça perdida.
Finalmente após percorrerem algumas quadras, bem em frente a uma quitanda, o menino deu o alerta. 
Ao lado de um caixote velho de madeira cheio de frutas já passadas do ponto, estava a dentadura que alheia à sujeira e em cima de uma casca de banana sorria toda feliz e satisfeita dando a impressão que havia acabado de engolir a fruta.
Por sorte ela se comportara direitinho e não havia mordido nenhum calcanhar desavisado que por ali passara.
Com a missão cumprida a dupla voltou para casa a fim de apaziguar os ânimos, dar um belo banho de espuma na fujona e novamente levá-la ao protético para a devida colagem.  Desta vez o passeio foi feito sem percalços e com toda segurança possível.
Interessante é que esta história inusitada e hilária da fuga, seguida de busca e apreensão de uma dentadura, não podia ser comentada pelas crianças e quando o faziam era sempre com muita reserva, pois mesmo com o passar do tempo o fato ainda despertava a ira da mãe e isso acarretava risco iminente de um grande temporal, onde os raios caiam em todas as cabeças, com ou sem para-raios. 

domingo, 6 de outubro de 2013

AINDA HÁ ESPERANÇA PARA O MAGISTÉRIO?



Não é novidade que há muitos anos o magistério vem sendo ignorado por nossos governantes e que a baixa remuneração está afastando profissionais de gabarito das salas de aula. São justamente os verdadeiros educadores que partem em busca de outras colocações que valorizem e reconheçam suas capacidades.
Diretores de escola convivem com esta situação todos os dias. É um fato real e alarmante.
Vemos constrangidos que para suprir tais lacunas, muitas vezes há necessidade de se contratar candidatos que a despeito de serem portadores de diplomas universitários (em algumas regiões brasileiras nem isso costuma ocorrer), têm posturas totalmente incompatíveis com uma sala de aula repleta de crianças ou adolescentes.
As disciplinas pedagógicas foram trabalhadas de maneira totalmente equivocadas ou até mesmo, não fizeram parte de suas formações acadêmicas.
Atualmente o candidato a professor, antes de tudo, deseja saber o valor que receberá pelas aulas, para que possa fazer seus cálculos e verificar se não acabará pagando para trabalhar. Isto é perfeitamente compreensível.  Geralmente as escolas distantes e mal localizadas são as mais prejudicadas e estão sempre com o corpo docente incompleto.
Não há como deixar de comparar os tempos atuais com a situação que vivíamos há algumas décadas.  Íamos de trem, ônibus, caronas, a pé, mas todo sacrifício era compensado não somente em termos financeiros, mas também pelo retorno gratificante que recebíamos dos alunos e suas famílias.
Muitos lecionavam em escolas que ficavam em sítios ou fazendas distantes e a chegada do professor era sempre motivo de festa.
O receio que tínhamos naquela época, não era sermos surpreendidos por bandidos e marginais, mas sim, encontrarmos cobras ou outros animais peçonhentos que por ventura atravessassem as trilhas entre os canaviais, durante nosso percurso a pé, até a escola.
Anos mais tarde e já contando com a facilidade de transporte que o carro oferece, fui muitas vezes visitar escolas rurais acompanhando supervisores de ensino. 
Em uma destas visitas, meu senso de orientação espacial que é quase inexistente, deixou a mim e a uma colega, totalmente perdidas entre talhões e talhões (espécie de quarteirões) de cana-de-açúcar. Cada trilha que o velho fusquinha branco seguia, acabava num trecho sem saída. 
A tentativa de voltar ao prédio da escola e pedir ajuda também foi infrutífera já que não lembrávamos mais qual era o caminho. Sem bússola, sem GPS , sem celular e com o final do dia já se aproximando, estávamos quase certas que passaríamos a noite dentro do carro e rodeadas por cana.
Enquanto o carro ia e vinha pelas trilhas à procura de uma saída, minha colega rezava no banco do carona. 
Não sei se foram as rezas ou o destino, mas quando já estava quase noite, eis que um cavaleiro surgiu numa das curvas por trás dos pés de cana.   Não era nenhum príncipe em seu cavalo branco, mas foi saudado por nós como se o fosse. 
Muito atencioso e prestativo, foi cavalgando mansamente na frente do fusquinha até nos deixar na porteira da fazenda que dava acesso a uma estrada de terra que nos levaria até a rodovia principal.
Depois deste episódio, adquiri o hábito de fazer um mapa detalhado de cada trajeto até as escolas rurais, com direito a desenhos, esquemas, quantidade de mata-burros e porteiras a passar, tipos de árvores como referências e por aí afora.
A despeito de todas estas dificuldades, era muito, mas muito gratificante mesmo, ter contato com as crianças destas escolas rurais tão isoladas. Representavam o puro retrato da inocência e pureza e assim como suas famílias, valorizavam o trabalho do professor, fato que a maior parte de nossos políticos não faz nos dias atuais.
Será que o magistério voltará a ter num futuro, o respeito e consideração que merece por parte das autoridades municipais, estaduais ou federais? 
Sou bem cética quanto a isso!

Santos, 06 de outubro de 2013. 


Para Sônia, relembrando essa epopeia pelos lados rurais de Itirapina/SP.

sábado, 24 de agosto de 2013

A ENTRADA NOS "ENTA"




À medida que caminhamos pela vida, adquirimos o hábito de olharmos com mais frequência para trás, quer seja para recordarmos algo bom, quer seja para matarmos alguma saudade ou então para vivenciarmos ao menos em pensamentos, momentos marcados por belas emoções.
Isto é até compreensível já que em certa altura de nossa existência, a estrada que se abre à frente terá com certeza menos quilômetros a serem percorridos, do que o trajeto que deixamos para trás.
Noto, entretanto, que perdemos muito do precioso tempo atual justamente nesta parada, neste pit stop, observando o que ficou em cada curva percorrida.
Não sei se por questão cultural ou mesmo social, quando se entra na conhecida fase dos “enta”, reduzimos erroneamente as expectativas de vivenciarmos grandes mudanças ou  grandes transformações.
Nossos olhares já não buscam um horizonte longínquo; contentam-se com o que enxergam até na esquina mais próxima.
Fazendo uma retrospectiva, lembro-me que ao chegar aos quarenta anos passei a recordar com muita frequência, fatos da infância e da juventude, quando então julgava que o mundo poderia ser conquistado com um simples abraço. Talvez inconscientemente em função disso, passei a valorizar muito mais esta época da vida, do que o próprio momento que surgia em meu dia a dia.
Curiosamente dez anos depois, quando completei meio século de vida, as lembranças do que vivi aos 40 anos, mostraram que na verdade em qualquer momento de nossas vidas, sempre haverá novos horizontes a serem explorados e descobertos. Cada tempo tem seu sonho.
Se por um lado recordar nos faz bem, pois não devemos e nem podemos esquecer nossas raízes, por outro lado, este hábito precisa ser bem administrado para que não nos impeça de olhar para frente e não nos tire o direito, a curiosidade e muito menos a emoção da descoberta do que há depois da próxima curva na estrada da vida.
Pelos caminhos vamos colhendo e guardando lembranças, mas sempre em busca de novos sonhos e novas esperanças.



Santos, 24 de agosto de 2013  

sábado, 10 de agosto de 2013

SENHOR ITALO



Mais um dia dos pais se aproxima.
Independente de ser uma figura sempre lembrada, nesta época parece que as emoções ficam mais à flor da pele.
Impossível ver um comercial na TV, propagandas em lojas, mensagens na internet, sem que nossos pensamentos se direcionem ao nosso pai.
As primeiras imagens dele que me vêm à mente, é vê-lo organizando seus papéis em pastas (nossa, como ele tinha pastas!), etiquetando caixas, colando objetos, trabalhando em alguma nova invenção nem sempre útil e fazendo anotações em suas agendas. Aliás, ele tinha agendas de todos os tipos e tamanhos.
Interessante que mesmo muito antes da linguagem internetês existir, era possível ler em sua agenda lembretes como, por exemplo: cortar kbelo, ou então, comprei kfé. Setembro ele anotava assim: 7mbro.
Muito criança ainda, uma de minhas brincadeiras era imitar sua profissão de representante comercial, inventando clientes e fornecedores.  Lembro-me que utilizava nestes momentos, suas já usadas cadernetas quilométricas de viagem da antiga Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Eu achava meu pai importante por ter essa caderneta que trazia a foto dele e anotações das viagens feitas.
Um pouco mais crescida, minhas brincadeiras já eram na rua com a criançada da vizinhança.  Nesta fase já comecei a sentir mais sua autoridade e reserva, pois não sentia muita facilidade e liberdade para dele me aproximar. 
Foi na adolescência que sua presença de certa forma, começou a causar em muitos momentos, mais receios do que qualquer outro tipo de sentimento.
Ainda hoje me lembro da dificuldade que era obter seu consentimento para aos domingos, ir ao cinema com amigas, aos 14, 15 anos de idade.
Se o pedido fosse feito no início da semana, a resposta que eu até já sabia de cor seria:
 - Ainda há muita água para passar sob a ponte. 
Caso contrário, se o pedido fosse feito no sábado, a resposta seria:
- De última hora não costumo decidir coisas!
Resultado, nada de cinema com amigas.  Acabei desistindo de pedir-lhe e passei a ir somente com autorização de minha mãe, que como se dizia, “segurava a barra” por mim.
Estes tipos de atitudes acabaram reforçando certo distanciamento dos filhos em relação a ele, pois havia sempre o receio de uma bronca inesperada e muitas vezes, não merecida.
Já adulta, comecei a entendê-lo melhor e descobrir que por baixo daquela armadura invisível que ele vestia, havia alguém que se importava com a família, com amigos, mas que tinha grandes dificuldades em manifestar isto através dos gestos tão comuns, como um abraço ou até um simples aperto de mãos.   
Pude vê-lo emocionado pouquíssimas vezes e mesmo assim, de maneira bem contida.  Talvez, nestas poucas ocasiões, já vendo os filhos adultos, sentiu-se um pouco mais seguro para extravasar sentimentos trancados no peito durante anos.
Interessante que fora do âmbito familiar, ele era divertido com amigos, contador de piadas e ria com muita facilidade.
A armadura que vestia era na verdade sua proteção, sua maneira de não demonstrar emoções e desta forma, manter o que ele entendia ser sua autoridade de pai e de chefe de família. Esta minha interpretação se reforçou com a chegada dos netos, com os quais seu comportamento foi bem diferente do que teve com os filhos.
Aprendi a respeitá-lo e a temê-lo desde a infância. 
Somente na fase adulta é que pude compreendê-lo melhor e admirá-lo mais ainda após sua partida, ao saber de atitudes elogiáveis que tomou e não contou nem mesmo aos beneficiados.  
Este era o Sr. Italo, meu pai.
Esteja onde estiver, desejo-lhe um FELIZ DIA DOS PAIS!

Santos, 10 de agosto de 2013  (Véspera do Dia dos Pais)


domingo, 28 de julho de 2013

CADÊ O BICHO?



O telefone toca e uma voz amiga solicita um favor.
A partir daí se desenvolve um fato que me faz rir ainda hoje.
- Oi, você pode vir em casa matar uma barata para mim?
- Posso ir sim, mas não moramos tão perto assim e até eu chegar à sua casa, a barata já fugiu.
- Não foge não. Ela está presa num parafuso da parede.
- COMO ASSIM???
- Ela está presa no parafuso que segura a prateleira colocada antes de eu mudar para cá.
- Nossa! Isso já faz meses!
- Pois é, ela está presa nesse parafuso há uns 5 meses.
- Mas então ela está morta!
- Não, não está.  Parece que às vezes as anteninhas dela se mexem.
Diante dessa afirmativa municiei-me de toda a coragem que tenho (que nesta situação específica, é diretamente proporcional ao meu tamanho) e me dirigi ao campo de batalha para ver o que realmente estava ocorrendo.
Ela prontamente me mostrou o local do calvário da bichinha. 
Ao chegar mais perto não contive a risada.
A tal barata heroica que sobrevivera meses com abdome perfurado, na verdade era um pedaço de reboco da parede que havia soltado quando um parafuso fora lá colocado.  A única coisa que poderia lembrar uma barata era o formato da cabeça, mas só e apenas isso.
Expliquei-lhe rindo do que se tratava, mas diante de minha reação ela colocou os óculos e chegando mais perto reafirmou que era sim o bichinho pois tinha até duas antenas.
Aproximei-me novamente para ver as tais antenas e aí sim, ri tanto que cheguei às lágrimas.
A pessoa que fixou a prateleira fez um risco a lápis na parede para marcar a altura a ser colocada.  Acontece que a madeira não ficou bem na horizontal, mas sim com uns poucos milímetros fora da marca, justamente nas laterais direita e esquerda do reboco descascado.
Portanto, o que ela chamava de antenas, eram dois pequenos riscos horizontais feitos com grafite na parede.  Com certeza, impressionada, minha amiga olhava de longe e via até movimentos nas ditas antenas.
Tive dificuldades em explicar-lhe o acontecido pois  não conseguia parar de rir, enquanto ela, ainda preocupada com o inseto e sem saber o motivo de minha crise de riso, já gargalhava também contagiada por mim.
O jeito foi pegar sua mão e fazê-la tocar no local para que constatasse que nada havia lá além de buraco e riscos feitos a lápis.
Finalmente foi desfeita toda e qualquer dúvida sobre a existência do obstinado inseto e o velório foi cancelado por absoluta falta de defunto.
                 Com o problema resolvido tomamos um gostoso cafezinho com direito a um brinde por minha imensa bravura – matar o buraco na parede!

Santos, 26 de julho de 2013 

Para Vivian (in memoriam), recordando uma tarde em que choramos de tanto rir. Como nos faz bem chorar de alegria!

terça-feira, 23 de julho de 2013

BRINCADEIRAS DE RUA



Vozes infantis ecoam nos corredores do prédio. Férias chegam quase a ser sinônimo de crianças brincando.
Mesmo no inverno quando nem sempre o tempo permite idas à praia, elas circulam pelos andares, brincam nos corredores e para irritação de alguns, entram nos elevadores e ficam subindo e descendo sem parar, até que um adulto apareça para acabar com a festa.
Espaços para brincadeiras praticamente não existem no prédio. Isso, entretanto, não é problema, pois em qualquer cantinho é possível sentar-se no chão com os novos amigos.
Enquanto para alguns poucos moradores, as vozes infantis não são muito bem recebidas, eu já as considero como sinal de vida, de alegria, de esperança e sonhos futuros.
De certa forma o que me entristece, é que na verdade elas não precisam de muito espaço para as brincadeiras, já que quase sempre estão entretidas com eletrônicos nas mãos.
A despeito dos pontos positivos que tais equipamentos oferecem como desenvolvimento da observação, reflexos e raciocínio, é visível que a aventura, as descobertas da e na natureza, a imaginação, a criatividade e socialização, são deixadas em segundo plano.
Os tempos são outros e muitas mudanças ocorreram nas últimas décadas e continuam a ocorrer cada vez mais céleres.  A maior circulação de veículos, problemas com segurança, riscos de um modo geral, aliados aos avanços tecnológicos cada vez mais disponíveis, acabaram com as brincadeiras de rua.
O corre-corre, esconde-esconde, mãe da rua, pega-pega, bolinhas de gude, carrinho de rolimã, são atividades interativas praticamente desconhecidas pelas crianças de hoje.
Brinquedos tecnológicos contribuem para a individualização. Muitas crianças gastam o tempo livre, trancadas em um quarto ou num pequeno espaço, na frente da televisão ou de um computador.
Em outras épocas, logo no início da noite, a criançada da vizinhança se reunia nas calçadas para decidirem sobre o que brincariam.  
Eram tantos garotos que muitas vezes formavam-se grupos distintos e em certos aspectos até rivais, como as turmas da Rua 2 e da Rua 3 formadas no começo dos anos 60 na cidade do interior chamada Rio Claro. Estes grupos marcavam “combates” e para isso, se municiavam com muitas tampinhas de garrafas que eram lançadas com estilingues. Era uma farra só e a correria tomava conta das calçadas e ruas. A Avenida 8 considerada território neutro, foi palco de muitas destas “guerrinhas”.
Fora dos momentos de confronto, as crianças moradoras na Rua 2 evitavam circular pela Rua 3 e vice-versa, pois isso seria considerada uma provocação.
Em noites que não havia combates, a criançada inventava as mais variadas brincadeiras.
Certa noite alguém teve uma ideia que de imediato agradou a todos.
Na esquina havia dois postes com pouca distância entre eles. Usando uma linha preta de costura, a garotada trançou-a várias vezes de um poste a outro, formando uma espécie de teia de aranha.   Como a iluminação pública era muito fraca, a linha ficou praticamente invisível.
Armada a arapuca, todo mundo se escondeu atrás de uma mureta na varanda de uma das casas próximas.  E não é que foi justamente um tio nosso (eu e meu irmão estávamos na brincadeira) que surgiu andando na calçada, todo garboso, de terno, chapéu tipo Humphrey Bogart , carregando um guarda-chuva pendurado no braço?!
Ao passar entre os postes ele foi retido pelos fios da linha.
Assustado, deu um rápido pinote para trás e quase derrubou seu chapéu estiloso.  Recompôs-se e intrigado com o fato, ergueu o guarda-chuva e com ele começou a tatear o espaço. Parecia um guerreiro brandindo sua espada contra o nada. Finalmente percebeu o vai e vem de linhas trançadas.  Olhou para os lados e nada viu. Desistindo de entender tudo aquilo, contornou a esquina desviando dos postes e seguiu seu caminho sem nunca descobrir os autores da arte.
A garotada escondida segurou as gargalhadas até que ele sumisse de vista. Foi uma cena impagável e inesquecível.
Que boas lembranças e saudades gostosas dessas brincadeiras de rua.
Será que os brinquedos eletrônicos de hoje, despertarão estes mesmos sentimentos no adulto de amanhã?

Santos, 23 de julho de 2013 


Para os amigos das Turmas da Rua 2 e da Rua 3, na Rio Claro/SP  dos anos 60.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

DESABAFO INESPERADO - BUD PRD



Diz-se que o melhor da festa é esperar por ela.
Realmente a expectativa nos faz muito bem, mas o melhor mesmo é poder curtir bem a festa em todos os seus momentos.
Após semanas de preparativos e com tudo organizado, a longa viagem teve início.
Tudo ou quase tudo era novidade e a ansiedade por nada perder fazia os turistas traçarem a cada noite, o programa a ser cumprido no dia seguinte.
Em cada cidade muitas visitas, muitas surpresas, muitas emoções, muitas risadas e um pouco de cansaço que era deixado de lado.  Entretanto, depois de 13 dias de viagens e 5 cidades visitadas, a fadiga já se manifestava com certa força trazendo a irritação consigo, fato tão característico em momentos estressantes.
Dirigindo-se para a estação ferroviária de Praga na República Tcheca, arrastando malas já com pesos razoáveis, o grupo de turistas caminhava rapidamente a fim de não perderem o horário do trem que os levaria a outro país.
O trânsito não estava lá muito organizado e entre carros, ônibus e caminhões, circulavam também várias charretes destinadas a passeios turísticos. 
Uma parte do grupo caminhava mais rapidamente, mas o peso dos anos e das malas fez com que a outra parte ficasse mais atrás.  Resolveram então apressar os passos na tentativa de não se distanciarem muito, mas foram contidos por uma charrete que lhes cortou a frente bem no meio de um cruzamento movimentado.
 Nesse mesmo instante ouviu-se um FÓÓÓNNNN - uma tremenda buzinada vinda de um carro que seguia atrás da charrete.
O susto provocado pelo barulho da buzina foi imenso e acabou de vez com a já pouca paciência de um dos turistas.  Sem pestanejar e em seu mais elevado grau de irritação, virou-se para o “buzinador” e em alto e bom som gritou-lhe:
 - VÁ PEIDAR!
A gargalhada dos demais componentes do grupo foi a única manifestação que se ouviu, já que o motorista, um cidadão theco, desconhecendo totalmente o idioma português não se abalou com a ordem que lhe foi dada e com certeza nem a cumpriu.
Observou-se depois que a buzinada fora dirigida ao condutor da charrete, mas aí, o berro ordenando a eliminação de gases intestinais já havia sido dado.
O desabafo tão inesperado serviu como válvula de escape e recarregou um pouco as energias do grupo que seguiu em frente arrastando pesadas malas, mas gargalhando muito com a ordem bizarra dada àquele motorista.
Na próxima viagem talvez seja conveniente aprender alguns desaforos em diferentes idiomas para que todo e qualquer desabafo, tenha o alcance desejado!

Santos, 17 de junho de 2013 

Bude PRD, de acordo com pesquisa feita, seria a expressão em theco.
Ao Edo, fica aqui a dica para a próxima buzinada tcheca......rss

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A VISITA REAL





Durante uma comunicação com pessoas bem próximas, nós mulheres, achamos que poucas palavras são suficientes para uma perfeita compreensão do que dizemos. Entretanto, na maioria das vezes isto nem sempre ocorre, principalmente quando o ouvinte é um homem.
De certa forma as mulheres após fornecerem algumas informações, acreditam que o outro consiga assimilá-las e decifrá-las, sem que para isso seja necessária uma detalhada explanação. 
Acontece que às vezes tais informações não são as básicas, as essenciais, aquelas que permitam chegar-se a uma plena compreensão do que foi dito.  Surgem então a partir daí, desentendimentos que podem levar tanto a sérias divergências como também a boas gargalhadas.
Foi justamente essa segunda situação que ocorreu recentemente em uma família.
Os três Arcanjos da Anunciação, Gabriel, Rafael e Miguel, estavam simbolicamente na casa de uma amiga que teria que encaminhá-los a outra família, numa espécie de corrente imaginária, para que eles a visitassem levando-lhe também proteção e saúde.
Convidada a ser a próxima anfitriã dos Arcanjos, ela concordou de imediato e combinou com a amiga, dia e hora para recebê-los, claro que simbolicamente.
No horário e dia combinados, eles seriam convidados a sair da casa onde se hospedavam para se dirigirem, virtualmente, para a outra residência que deveria ficar com a porta de entrada devidamente aberta para recebê-los.
Ciente que o marido era totalmente cético em relação a assuntos místicos, religiosos e crendices de um modo geral, ela decidiu omitir-lhe detalhes do acordo que fizera, evitando assim as costumeiras brincadeiras e gozações.
Desta forma, ela não esclareceu que era uma visita fictícia, imaginária. 
Explicou somente que naquele dia, a partir de um determinado horário, receberiam a visita dos três Arcanjos e que por esse motivo, a porta da residência deveria ser mantida aberta.
Ele não fez no momento maiores questionamentos, pois conhecedor da religiosidade da família acreditou que receberiam a visita de parentes que trariam as imagens de Gabriel, Rafael e Miguel, para uma noite de orações.
No horário combinado ela pediu à filha que prendesse a cachorrinha da casa, obviamente para evitar que o animal fugisse para a rua.  Entretanto, o marido vendo a cena, entendeu que cachorra ficaria presa, pois poderia estranhar e latir para as pessoas que estavam prestes a chegarem.
Sentado em sua poltrona na sala, ficou olhando para a porta aberta e esperou, esperou, esperou...
Passado certo tempo e já invocado com a demora, não se conteve e perguntou se as visitas chegariam de carro.
Ela, pressupondo que ele estava sendo irônico, já ficou irritada, mas continuou a olhar a porta permanecendo num respeitoso silêncio.
Pensando em ser prestativo, o marido pegou o controle remoto e avisou que já iria deixar aberto o portão eletrônico da residência. Ouviu de imediato uma resposta carregada de agressividade que o deixou cismado, sem entender o que se passava.
De repente, embora não tivesse havido qualquer barulho ou movimento estranho, ouviu a esposa dizer:
- Podem entrar!
Sem entender absolutamente nada, ele esticou o pescoço para olhar para a rua.  Como não visse ninguém, indagou curioso:
- Se eles nem chegaram, por que você disse que podem entrar?
A esposa já bem irritada com aquela postura dele e achando que estava sendo alvo de gozações, respondeu-lhe de maneira brusca e em poucos segundos um grande bate boca se estabeleceu.
No meio do entrevero ele acabou finalmente entendendo de qual tipo de visita se tratava e aí as gargalhadas foram inevitáveis.
Como toda a discussão ocorreu bem no horário combinado para a recepção aos Arcanjos, o casal não sabe até hoje se as visitas entraram na residência ou se assustados com a confusão, bateram asas e partiram em revoada em busca de locais mais calmos. Afinal uma guerrinha familiar não é ambiente propício para uma visita, principalmente uma visita sagrada.

Santos, 18 de fevereiro de 2.014.

Para Dakota, cachorrinha que alheia a tudo, teve que ficar presa até que os humanos se entendessem.

sábado, 29 de junho de 2013

UMA UNIVERSIDADE CHAMADA VIDA




O aprendizado é o resultado de nossos estudos aliados à experiência de vida; na verdade é essa experiência que nos conduz a comportamentos bem mais adequados do que qualquer estudo por mais profundo que seja.
Interessante que só nos damos conta disso quando nossa bagagem de anos já pesa razoavelmente.
Pensando sobre isso, me veio à mente um fato ocorrido logo no início da carreira profissional envolvendo um aluno residente na zona rural. Estudava no período noturno, pois ajudava a família na lavoura, apesar dos seus 13 anos somente.
Não era uma mente brilhante, mas suas maiores dificuldades provinham justamente da falta de tempo para se dedicar aos estudos. 
O aluno já havia ficado retido para os exames de segunda época (ainda não havia o processo de recuperação) em duas disciplinas; com a reprovação  nos exames finais também em Ciências, completou a terceira disciplina, fato este que o levou à reprovação na 6ª série do Ensino Fundamental.
Até hoje me lembro do erro que cometeu na última questão da prova e que lhe resultou em uma nota abaixo da média.   Ele não soube explicar o que eram pés acolimbéticos encontrados em algumas aves.
Na realidade o aluno errou também outras questões básicas e importantes, mas esta última foi a que encerrou sua chance de aprovação.
Recém-formada, trazia na bagagem muitas informações adquiridas na faculdade, mas todo esse aprendizado não teve sua aplicação de maneira adequada justamente por causa da inexperiência de vida.
Com certeza essa minha memória para o fato está associada ao arrependimento que veio posteriormente.  Hoje me pergunto o que pretendia avaliar ao formular tal questão?  Talvez pela falta de experiência, pus em prática a expressão ser mais realista que o rei.
É a velha história de que não basta saber O QUE avaliar, mas COMO avaliar, tema este que já foi abordado no texto ENTENDERAM? publicado neste mesmo blog.
Se encontrasse este aluno novamente, depois de transcorridos quase 40 anos, iria lhe perguntar se o fato de desconhecer o que eram pés acolimbéticos lhe trouxe algum prejuízo na vida, além de fazê-lo perder um ano de estudos.
Provavelmente na ocasião, sentia-me a dona da verdade.  Hoje, já com anos e anos de estrada nesta vida, sei que ninguém é senhor absoluto de verdade alguma.
Realmente a vida é uma grande Universidade.
A propósito, você sabe o que são pés acolimbéticos? 
Não????
Como você conseguiu viver até hoje sem saber isso?????

Santos, 16 de junho de 2013 


Nesta homenagem a um ex-aluno, faço aqui um mea culpa.