sábado, 25 de maio de 2013

A LIGAÇÃO DO ALÉM



A infância é um período de nossas vidas no qual brincar, estudar e ser feliz, são ou ao menos deveriam ser, as únicas responsabilidades.
Na criança, o lado emocional suplanta o racional e sua personalidade ainda em formação, pode ser afetada por atitudes que não compreende, principalmente quando tais atitudes são constantes.   Como consequência, os receios infantis assim desencadeados, podem se manifestar mesmo na vida adulta.
Acostumado com repreensões por parte do pai, algumas merecidas e muitas imerecidas, o garoto vivia sempre na expectativa de ouvir a qualquer momento, uma solene descompostura.  Por mais que buscasse corresponder às exigências paternas, geralmente alguma coisa não saia a contento e era o que bastava. 
Já na adolescência, o simples fato dele usar uma camisa (camisetas ainda não eram tão comuns) para fora da calça, gerou uma solene bronca que até a mim, mera espectadora, causou grande espanto.
Anos se passaram e o garoto, agora pai de família, demonstrou que o receio de um ralho paterno ainda se mantém, embora agora se manifeste mais no campo da pilhéria.
Vários anos após o falecimento do pai, uma pequena troca de nomes o colocou de imediato em sobressalto.
O telefone tocou e sua filha, na época com 5 anos, correu para atender ao chamado.  Do outro lado da linha, uma voz masculina pediu por seu pai e se identificou como filho de ITALA.
A menina que já havia ouvido muito as histórias de um ITALO, avô que ela não chegou a conhecer, se confundiu ao dar o recado e estendendo o aparelho para o pai, avisou:
- É o ItalO que quer falar com você!
A expressão de espanto foi geral.
Todos os olhares se dirigiram para o pai da garota, que com expressão assustada, evitava pegar no aparelho. 
Passados alguns segundos de silêncio total, eis que se ouve sua resposta, num misto de brincadeira e receio:
- É a cobrar?  É interurbano??   É do além???????   To fora!  Não vou atender não!  Já me deu bronca demais em vida!
Dessa vez a repreensão não veio; fora um simples engano na troca de vogais.
Sorte dele não haver telefone no além.


Santos, 25 de maio de 2013  

sexta-feira, 24 de maio de 2013

sexta-feira, 19 de abril de 2013

PEDAÇOS DE MIM



                Finalmente em livro, uma parte dos contos e crônicas constantes deste blog.
                
                Um desejo antigo realizado.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O DIREITO AO AVESSO


Um sentimento travesso
virou-me pelo avesso.
E contive a dor.
E contive o amargor.
Dor e amargor no peito,
acorrentados e calados.
Perdi-me de mim.
Me desconheci.
Fiquei oca.
Perdi a alma.
Olhos abertos e nada via.
O mundo lá fora sequer existia.
Tropecei em meus passos,
em busca apenas,
de um simples abraço!
Perdi a noção do tempo.
Perdi a conta das horas.
E foi ele - o tempo,
justamente o tempo,
que me abriu seus braços,
corrigiu meus passos,
e acalentou minha alma,
num forte enlaço.
Já me vejo não mais pelo avesso.
Atravesso a vida.
Enxergo o mundo.
Carrego agora em meu ser,
de modo muito profundo,
todo sentimento do mundo!

Ligia M. Cerri
30/03/2013 - 11h01

quinta-feira, 21 de março de 2013

EXPLORAÇÃO INTERROMPIDA


Sempre despertaram certa curiosidade os comentários que eu fazia a respeito da mania organizacional de meu pai.   Cada fato novo contado era motivo de espanto seguido de muita risada devido aos exageros e invencionices tão particulares a ele.
Brincava inclusive dizendo-lhe que qualquer dia montaria uma exposição e cobraria ingresso para visitação pública.  Ele até achava graça e concordava que às vezes cometia alguns exageros, mas com o passar do tempo somente aprimorava mais e mais suas invenções domésticas.
Tivemos liberdade para observar melhor e mexer em suas coisas, somente após sua partida deste mundo.
Foi assim que certa tarde ao receber a visita de uma amiga, surgiu a ideia de visitarmos o cantinho da casa que ele considerava seu escritório.  Era onde passava a maior parte do tempo, sempre criando suas artes.
Em meio a muitas gargalhadas abríamos os armários, as gavetas, as pastas e em todos os objetos havia algum detalhe curioso.  Ele usava e abusava de anotações caprichosas, sempre com letras de forma feitas com pincel atômico nas cores verde e vermelho (cores de seu time de coração – Velo Clube); usava muito durepox, fitas crepes, carimbos na forma do dedo indicador tanto esquerdo quanto direito apontando para alguma anotação importante, agendas, blocos, bloquinhos e blocões de papel, etc.
Havia até prendedores de madeira para varal com seu nome anotado para não serem misturados aos demais de uso comum.  Isto porque ele tinha o costume de pendurar no varal para secar após o uso, até sua escova de dente.
Como esse escritório ficava no pavimento superior da casa e com porta que se abria para o quintal, resolveu adotar certas medidas de segurança. Quebrou propositadamente o trinco da porta com o objetivo de tornar mais difícil ou até impossibilitar sua abertura por algum visitante indesejado, ou seja, um ladrão.
Feito isso, para evitar que o vento fechasse a porta enquanto estava trabalhando, providenciou uma pedra de calçada portuguesa com um formato que permitia seu perfeito encaixe entre a lateral da porta e o batente. Desta forma a porta ficava travada e era mantida aberta enquanto ele lá se encontrasse.
Um detalhe: para facilitar a exata posição na colocação da pedra, colou sobre um lado dela um pedaço de esparadrapo branco onde escreveu em caprichadas letras de forma – ESTE LADO PARA CIMA.
Distraídas que estávamos bisbilhotando, não percebemos que uma forte corrente de vento começou a circular pelo cômodo. 
Incautas, também não tivemos o cuidado de colocar a tal pedra estratégica no lugar certo.
Foi quando entre uma risada e outra ouvimos um forte barulho.  O vento havia empurrado a porta que se fechou com violência.
Uma troca de olhares assustados foi suficiente para nos entendermos. 
Seria uma represália vinda do além???
Estava decretado o final de nossa alegre exploração. 
Estávamos presas num pequeno espaço no pavimento superior, sem mais ninguém na casa e pior ainda, sem sequer um telefone para pedir ajuda.
Tentamos inicialmente segurar no toco de trinco que havia, mas era impossível sequer abaixá-lo.   Ele nem se movimentava.
Resolvemos analisar com calma a situação e para nossa sorte vimos que havia um pequeno vão no encaixe entre a parte superior da porta e o batente.  Com auxílio de um bastão de madeira colocado nesse vão e com muito esforço feito a quatro mãos, pouco a pouco fomos conseguindo aumentar esse espaço até que passados alguns suados minutos conseguimos abrir a porta.  Alívio amplo, geral e irrestrito.
Coincidência ou não, o fato é que o susto valeu como um aviso e não foi preciso um segundo aviso.  Saímos aos atropelos do escritório.
Estava encerrada a primeira e última exploração às invencionices de meu pai.
Naquele momento, de onde ele estava, com certeza se divertiu às tantas com os apuros das intrusas em seu antigo território.
Manias e temperamento muito autoritário à parte, somente após sua partida tomamos conhecimento de atitudes generosas em relação a terceiros, mas nunca divulgadas por ele nem mesmo aos beneficiados.  Assim era o Sr. Italo Cerri.


Santos, 21 de março de 2013.        
Para Alice Keiko, companheira dessa exploração interrompida.

segunda-feira, 18 de março de 2013

EU VI



Apesar dos anos que já passaram, vez ou outra a cena lhe vem à mente e quando se dá conta, está rindo sozinha.
O cenário era velho conhecido seu – a rua em que morou desde seu nascimento. Sabia bem como era cada pedacinho dela, mas mesmo assim a jovem gostava de ficar admirando-a nos momentos de dolce far niente. Era justamente isso que fazia na manhã daquele domingo ensolarado.
Eis que de repente entre os carros que transitavam, viu surgir bem rente à sarjeta, uma bicicleta vermelha.  Sobre ela, um garoto todo sorridente mantinha os pés apenas apoiados nos pedais.  Apesar da razoável velocidade que desenvolvia, ele não fazia o mínimo esforço pois seu pai que corria na extremidade da calçada, empurrava-o com sua mão esquerda apoiada nas costas do menino, enquanto em sua mão direita, carregava uma louça e uma caixa de jogos.
Vinham embalados e rindo com a brincadeira até que o pai errou um passo. 
Seu pé esquerdo pisou fora da calçada desequilibrando-o.
O tombo que se seguiu foi inevitável e particularmente acrobático.
A caixa de jogos e a louça foram lançadas para o alto.  O jogo era War com grande quantidade de pecinhas coloridas, que subiram muito alto para depois caírem num festival de cores esparramadas pela calçada e asfalto.  A louça não teve melhor sorte e encontrou seu finado dia naquele instante, partindo-se em vários pedaços.
Ajoelhado no chão, atônito e ainda abobalhado pelo tombo, o pai olhou à sua volta para ver se alguém mais além do filho, ria daquela cena. Viu que uma senhora que estava no portão bem em frente não demonstrava nenhuma reação, quer fosse de riso, susto ou mesmo preocupação.  Assim ela permaneceu enquanto ele recolhia pacienciosamente, cada peça do jogo.  Provavelmente a senhora dormia em pé ou algum problema na visão a impediu de curtir a cena desastrada de malabarismo.
Aliviado e concluindo que ninguém além do filho havia testemunhado sua situação vexatória, olhou mais à frente e deparou-se com a jovem em pleno acesso de riso, vendo-o ajoelhado na calçada juntando os pedaços que sobraram da louça (que nem era sua) e catando as “trocentas” peças do War, jogo com o qual, diga-se de passagem, ele detestava brincar.
A performance do pseudo-atleta teve um final triunfal com direito até a malabarismo trapalhão.

Santos, 18 de março de 2013   


Obs: Eu vi e não me esqueço, sr. Edo.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

CHAMEM UM HOMEM!



Recentemente ao ler um livro, encontrei um nome familiar ao magistério paulista nos anos 90.
Instantaneamente veio-me à lembrança, o relato de uma amiga sobre um fato ocorrido quando ela desempenhava funções em uma repartição pública dirigida por essa pessoa.
Sua sala de trabalho ficava justamente ao lado do gabinete do diretor dessa repartição, importante e respeitável senhor, famoso por sua classe, cultura e inteligência.
Tal diretor esbanjava charme por onde passava, exibindo sempre muita elegância tanto no vestir como na forma de tratar as pessoas.
Diariamente figuras conhecidas e de destaque entravam naquela sala para tratarem de negócios diretamente relacionados a milhares de profissionais.
Certo dia um pequeno imprevisto fez toda aquela elegância e galhardia irem para os ares num instante.
No meio do expediente ouviram-se gritos nervosos e de pânico, vindos do gabinete do diretor.
Era a voz do chefe que pedia em alto e bom som:
-Chamem um homem, chamem um homem!
Na sala vizinha, a jovem assustada, lembrou-se que seu chefe estava sozinho no momento e enquanto sua colega providenciava um homem para atender ao pedido feito aos gritos, ela, aflita e com objetivo de ajudar no que fosse preciso, abriu a porta do gabinete e entrou.
A cena que presenciou a deixou sem ação.
Aquela figura elegante, cheia de classe e pompa que chamava a atenção principalmente das mulheres, estava literalmente trepada na mesa de trabalho e com o olhar apavorado dirigido a um rato que tranquilo e alheio a toda confusão, passeava sobre o tapete, dando voltas em torno da mesa.
Estava explicada a necessidade de um homem no gabinete!!!!

Santos, 24 de fevereiro de 2013   


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

SURPRESA NO ANDAR DE BAIXO



Morar em prédio que recebe turista tem pontos negativos, mas por outro lado quebra a rotina, a monotonia e muitas vezes oferece momentos bem divertidos.
Enquanto fazia um pequeno lanche na cozinha, escutava mesmo sem querer, uma conversa que acontecia no corredor.
Era um casal que alugara o apartamento vizinho e comentava sobre banalidades.
De repente o homem deu um alerta dizendo estar sentindo cheiro de algo queimando.
A mulher prontamente confirmou e acrescentou que parecia plástico pegando fogo.
Nesse momento liguei meu “sinal de alerta” e fiquei esperta para qualquer emergência, embora eu mesma não estivesse sentindo cheiro algum.
Andando pelo corredor o casal concluiu que o cheiro vinha do 5º andar, ou seja, logo abaixo.
Decidido a ver do que se tratava, o homem avisou que iria descer pelas escadas para ver se descobria a causa do cheiro. 
Aproximei-me da porta de casa ainda sem abri-la, mas preocupada em saber se realmente havia tal cheiro e sua causa.
Nesse momento ouvi aquele barulho característico de chinelos batendo nos calcanhares de alguém que desce rapidamente uma escada.
“De repente, não mais que de repente” como já disse Vinícius, ouvi altos rosnados e latidos de cachorro quando está avançando em alguém.  Pelo som era cachorro dos grandes.
No mesmo instante ouvi novamente o barulho de chinelos batendo em calcanhares, mas agora, era alguém que fazia o caminho contrário - subia as escadas em desabalada carreira.
Foi quando ouvi em alto e bom som, sonoros palavrões, pronunciados ofegantemente:        
- CA_ _ _ _ O!!!!   
- PQP !!!!!!! 
- Quem é o corno que deixou um cachorro solto no corredor do 5º andar?!
Apesar da situação e mesmo sem enxergar a cena, foi impossível segurar o riso por detrás da porta. A gargalhada foi alta.
Enquanto ele ainda proferia umas “trocentas” pragas contra o dono do cachorro, comentou que seu calcanhar sangrava.
Os impropérios continuaram e creio eu, dirigidos agora não só ao cachorro mas a mim também pois deve ter ouvido a gargalhada. Em meio a isso tudo ouvi a mulher dizer:
- Você percebeu que o cheiro de queimado passou?
A resposta dele veio rápida:
- Merdinha de cachorro. Até esqueci que desci as escadas pra ver isso!!!   

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

VOTO VENCIDO




18 a 25 de setembro de 2012 - Semana Nacional de Trânsito. Foi o aviso que li há pouco, num site da internet.
No mesmo instante me veio à mente a primeira escola pública estadual onde atuei como professora, muito embora ainda universitária, já lecionasse em escola particular. O início na rede estadual ocorreu num final de agosto quando assumi aulas de Ciências num município vizinho. 
Animada com as novidades ainda estava tomando contato com o ambiente quando no começo de setembro fui escalada para compor a banca examinadora de um concurso de frases sobre a Semana do Trânsito.
As frases deveriam ser originais e alertarem para os perigos no trânsito, bem como maneiras seguras e responsáveis para quem dirige e para quem é passageiro.
O corpo de jurados era composto por 5 professores de diferentes áreas de ensino.
Como todos os alunos de 5ª e 6ª séries (atuais 6º e 7º anos) participaram, a quantidade de frases foi significativa e uma primeira triagem foi necessária. Os próprios alunos selecionaram dez trabalhos de cada classe que foram encaminhados para a fase final a cargo da banca de jurados.
A expectativa era grande uma vez que para os dois primeiros colocados, uma casa comercial oferecera uma viagem de lazer num final de semana, juntamente com os pais.
Na noite marcada para a escolha final nos apresentamos no laboratório de Ciências onde as cartolinas com as frases escritas estavam dispostas cuidadosamente sobre as bancadas.
Tudo muito formal e bem organizado pela direção da escola.
Numa primeira leitura dois cartazes já chamaram minha atenção pelas maneiras divertidas com que as frases foram elaboradas.  Comparadas às demais concorrentes, acabei dando meus votos para estas duas.  Elas expressavam uma realidade vivida pelos alunos cuja maioria residia na zona rural e usava diariamente o ônibus escolar.
Ao confrontar minhas escolhas com as dos demais jurados, por mais que eu argumentasse e justificasse as opções para 1º e 2º lugares, acabei sendo voto vencido e a frase campeã que já não lembro mais, dizia algo no estilo bem tradicional, nada criativo, semelhante a: Dirija com cuidado para preservar a vida. 
Entretanto, decorridos tantos anos, ainda me lembro das duas frases por mim escolhidas e que até hoje me fazem rir.
Elas mostravam claramente o dia-a-dia dessas crianças no ponto de espera do ônibus e durante todo seu percurso.

2ª Colocada: NÃO TREPE NAS PLACAS.
1ª Colocada: PEDESTRE, NÃO ANDE COM A CABEÇA PARA FORA DO ÔNIBUS

 Impossível esquecê-las!!!

Santos, 24 de setembro de 2012    

domingo, 9 de setembro de 2012

ALEGRIAS VIVIDAS




Ambiente de trabalho é local onde além da qualificação profissional, deve haver também muita responsabilidade, atenção, educação e respeito.
A somatória desses fatores todos, muitas vezes acaba criando uma atmosfera séria,  circunspecta, tolhendo gestos de descontração.
Não era diferente em meu local de trabalho. O chefe, pessoa muito competente e um tanto autoritária, dificilmente exibia um sorriso em sua face. Tal fato acabou desencadeando a fama de ser muito severo.  Em função disso, muitos de seus subordinados tinham certo temor até em lhe dirigir a palavra.
Esse clima sério, que a despeito de propiciar o bom andamento do serviço tornando-o ágil, gerava certa inquietação. Sempre acreditei que era possível desempenhar bem uma função sem deixar de lado o bom humor. Aliás, muitas vezes o bom humor até melhora o rendimento.
Na sala de trabalho ocorriam alguns momentos de boas risadas sempre que surgia a possibilidade.
Certa ocasião foi designada uma professora até então desconhecida, para ser minha auxiliar.
Notando seu nervosismo inicial, resolvi criar uma situação que a deixasse mais calma, mais descontraída. Resolvi dar certo tratamento de choque para quebrar o gelo.
Lembrei-me que no fundo da gaveta havia um grande frasco de vidro contendo centenas de clips de papel, a maioria dos quais enferrujados.  Com a expressão muito séria coloquei o tal vidro na frente da auxiliar e justificando a necessidade de se evitar desperdício de material, mandei que a professora abrisse cada peça, passasse bom-bril ao longo dela para tirar a ferrugem e finalmente a fechasse direitinho para ser reutilizada.
O olhar de espanto e a paralisação total da auxiliar foram instantâneos.
Creio mesmo que ela entrou por alguns segundos, num estado de coma traumático. Nesse instante acabei deixando a risada escapar, o que foi bom para evitar que um enfarte ou coisa desse tipo acontecesse. Esse foi seu batismo.
Com o passar dos dias fui percebendo que a professora era muito espirituosa e tinha facilidade para soltar frases irônicas muito apropriadas e hilárias.
Foi assim que numa certa manhã ela recebeu a incumbência diretamente do temido chefe, de datilografar (nessa época as máquinas de datilografia reinavam soberanas) um importante documento em três vias.  Em função da urgência, ele posicionou-se em pé ao lado da mesa aguardando o serviço ser realizado.
Nervosa, já que não era muito ágil nesse trabalho, ela começou a suar principalmente nas mãos. Enquanto arrumava os papéis para colocá-los na máquina, o carbono preto em contato com o suor começou a soltar tinta e sujar não só suas mãos, como também as folhas brancas.
Com o chefe muito sério em pé a seu lado, impávido, querendo pressa no serviço e vendo toda aquela trapalhada até para colocar os papéis na máquina, a professora parou tudo o que estava fazendo, apoiou a papelada sobre a mesa, colocou as mãos na cintura, suspirou bem fundo e dirigindo-se a ele afirmou:
- Senhor! Não trabalho sob pressão!
Levei um susto ouvindo isso mas logo veio o alívio. Diante do inesperado desabafo de minha auxiliar, algo um tanto raro aconteceu: o chefe riu descontraído da situação e retirou-se imediatamente para sua sala avisando que lá ficaria à espera do material.
De outra feita, numa tarde já no final do expediente, conversávamos um assunto divertido, uma piada para ser mais exata, quando de repente eis que o chefe entra inesperadamente na sala.  Distraídas com o assunto, não ouvimos seus conhecidos passos no corredor.  De pronto a conversa parou e ele obviamente notando isso, questionou com certo sorriso irônico, se estava nos atrapalhando.
- Atrapalhou sim. A partir de amanhã o senhor venha trabalhar com sapatos de salto alto.
Foi a resposta rápida e divertida de minha auxiliar que novamente conseguiu provocar muito riso no semblante tão fechado do chefe.
Realmente o poeta Vinícius* sabia o que dizia quando escreveu:
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração...”

Santos, 09 de setembro de 2012 

Nota: Uma homenagem à Rosmari  e às lembranças de um tempo muito bom.

*Samba da Bênção” – Vinícius de Moraes e Baden Powell







sexta-feira, 10 de agosto de 2012

REMINISCÊNCIAS



A infância vivida há algumas décadas, pouco ou nada tem em comum com o dia-a-dia das crianças desse século XXI.
Sem entrar no mérito a respeito das diferentes realidades, quer sejam sob os aspectos de segurança, familiares ou educacionais, a meninada que brincava nos meados do século passado, desfrutava de espaços para se divertir nas grandes casas, nas ruas e nas praças, livres de maiores receios mesmo sem a presença de adultos.
Em contrapartida recebiam uma rigorosa educação. Acatavam com respeito (muitas vezes com receio) as ordens que lhes eram impostas e pouco ou nada questionavam sobre elas.
As obrigações também existiam desde pequenos e embora contribuíssem para o desenvolvimento da responsabilidade, muitas vezes tinham certa dose de exagero.
Dentre esses exageros vivenciados, um em especial sempre resultava em repreensão logo nas primeiras horas dos domingos.  O dia mal havia clareado (às vezes ainda estava escuro) e alguém lá em casa já levava uma bronca.
Tínhamos, eu e meu irmão, então com idades de 7 e 8 anos aproximadamente, que acompanharmos nosso pai à missa da manhã que era rezada às 6 horas, numa igreja que ficava em torno de 1 km de nossa casa. Fosse inverno, verão, chuva ou mesmo férias, lá íamos os três a pé para a cerimônia da santa missa.
Enquanto eu era rápida para acordar e me arrumar, meu irmão já necessitava de um tempo maior para ficar definitivamente desperto.  Como a cobrança para ser rápido era insistente, ele até que tentava superar seus baixos escores a cada domingo, mas sem muito sucesso.
Assim, em todas as manhãs domingueiras acostumei-me a ir andando rapidamente ao lado de meu pai, olhando de vez em quando para trás a fim de ver lá longe, meu irmão vindo como um autômato. Lembro-me bem que em dias de neblina seu vulto chegava a sumir parcialmente tamanha a distância que ele estava.
Numa certa manhã ele ainda meio dormindo vestira seu terninho e gravata de missa e sem se olhar no espelho, pois não havia tempo para isso, saiu na correria pelas ruas conseguindo chegar quando o padre já estava começando a cerimônia.
Ao olhar o garoto acomodando-se no banco da igreja, o semblante sempre sério do pai acabou se rompendo ao mesmo tempo em que não consegui segurar o riso, coisa que em ambiente que exige silêncio se torna ainda mais difícil. 
Meu irmão estava impecavelmente vestido a não ser por um detalhe: ele havia colocado a gravata de tons escuros, literalmente no pescoço, isto é, acima do colarinho da camisa.  Lembrava Tiradentes com sua corda no pescoço - um perfeito candidato a enforcamento. 
Se normalmente era difícil para nós crianças, nos concentrarmos na missa àquela hora da manhã e ainda rezada em latim, naquele domingo ela foi totalmente perdida pois tivemos ataques de riso o tempo todo.
Era mesmo um exagero essa obrigação de irmos à missa às 6 horas, obrigação essa que perdurou por alguns anos.
Nesses tempos também, os meninos usavam as chamadas calças curtas e somente no início da adolescência, lá pelos seus 11 a 12 anos, é que tinham o direito às suas primeiras calças compridas, fato que era motivo de muito orgulho para eles.
Animado com a ideia, meu irmão atendendo às orientações, começou a tirar suas medidas.  Ocupada com seus afazeres minha mãe ia explicando o que anotar e ele, fazendo uso da fita métrica, marcava os números.   Até que lhe foi pedido medida da altura da calça. 
Rapidamente encostou-se no armário, pegou um lápis e apoiando uma régua sobre o topo de sua cabeça, pediu que fosse verificado se a tal régua estava bem reta. Queria marcar sua altura no armário com perfeita exatidão para poder medi-la, afinal seria sua primeira calça comprida e não poderia ficar curta ou comprida demais.
Em meio à risada geral, a mãe questionou qual modelo de calça ele pretendia: uma comum que chegasse até sua cintura ou uma que lhe cobrisse até a cabeça feito um saco de batatas?
Finalmente as medidas corretas foram anotadas e a primeira calça comprida passou a fazer parte de seu guarda-roupa.
São lembranças resgatadas recentemente junto à tantas outras depois de assistir ao filme “A Guerra dos Botões”.  Ele reproduziu em minha memória outras guerrinhas como da Turma da Rua 2 contra a Turma da Rua 3, mas essa é uma história que ficará para uma outra vez.
Reminiscências perdidas no tempo.

Santos, 10 de agosto de 2012  

sábado, 4 de agosto de 2012

VAMOS ÀS COMPRAS ?




Ser prevenido até que é uma boa atitude desde que esta prevenção seja bem administrada e não parta para o exagero e a mania.
Pois bem, isso ele sempre foi, bem prevenido.  Planejava suas tarefas com tanta organização e antecedência que era até motivo de brincadeiras na família.
Quando ainda trabalhava como representante comercial, viajava de trem pelas cidades da região. Sendo assim, tinha sempre o cuidado de estudar os horários de ida e volta de tal forma que no final do dia estivesse em casa para poder dormir na sua cama.
Entretanto, algumas viagens para cidades mais distantes o obrigavam a dormir em hotel.  Nessas ocasiões o momento de arrumar sua mala era um divertimento que provocava risos nos filhos e nele próprio.  Com muita antecedência começava seus preparativos separando tudo que levaria, de roupas a sapatos, passando pelos objetos de uso pessoal.  
Sem exagero, a mala ficava pronta três dias antes da viagem que teria um único pernoite em hotel.
Uma cena presenciada pela filha ainda menina ficou gravada em sua memória: o observou  usando um grande serrote para cortar ao meio o cabo de uma escova de dente. 
Nos idos anos 50 não era comum ou talvez nem existisse ainda no comércio local, escova de dente pequena ou dobrável, própria para viagem.  Ele havia encontrado uma caixinha que serviria como local para guardar a tal escova.  Aconteceu porém, que essa caixa era pequena.  Ele não teve dúvidas e lançou mão de um imenso serrote para cortar o cabo da escova.
E não é que apesar do absurdo da cena o resultado foi excelente!  A paciência e o capricho surtiram ótimos resultados e ele feliz guardou a dita escova na caixinha a ela destinada.
As compras em supermercados nunca foram seu forte e ciente disso as deixava ao encargo da esposa.  Entretanto quando ficava sabendo de alguma promoção que considerasse imperdível, lá ia ele aproveitar a ocasião, afinal era bom ter um certo estoque em casa para prevenção.
Dentre tantas, duas dessas compras ficaram registradas nos anais da família.
Aproveitando preços bons ele resolveu comprar 100 quilos de açúcar (em pacotes de 5 kg) de uma única vez, para uma família de 5 pessoas. Quando essa carga começou a ser descarregada na casa a esposa entrou em choque. 
Como não havia espaço suficiente para guardar tudo aquilo começou a distribuição a parentes, vizinhos e amigos. Despensa lotada e mesmo assim uma parte ficou num canto no chão da cozinha. 
Houve entretanto, mais um agravante. 
Naquela época o produto vinha em sacos de papel. Com o passar do tempo, o açúcar começou a petrificar dentro dos pacotes.
Sendo assim, cada vez que alguém fosse abrir um deles, tinha antes que pegar o martelinho de carne e dar uma verdadeira surra de pancada no açúcar para quebrar as malditas pedrinhas e só depois, abrir o pacote.  Às vezes de tanto apanhar, o papel acabava rasgando e esparramava açúcar para todos os lados para desespero da esposa e alegria das formigas.
 Desnecessário dizer que as sessões de pancadarias açucareiras aconteceram por meses, meses e mais meses.
A outra inesquecível aquisição, quase resultou em acidente fatal.
Num final de tarde lá foi ele todo lampeiro, às compras novamente. Encheu completamente um carrinho de supermercado somente com latas de óleo.  Como naquele dia não estavam fazendo entregas em domicílio, telefonou para a filha pedindo que ao sair do trabalho passasse no supermercado para dar uma carona a ele e às suas compras.
Quando viu a filha estacionando o carro em frente ao supermercado, começou a puxar o carrinho na rampa de saída do estabelecimento. Portanto caminhava à frente de toda a lataria.
Aconteceu que essa rampa tinha uma inclinação bem acentuada e o peso do carrinho carregado com latas de óleo o fez ganhar velocidade.
Por alguns segundos ele chegou a correr mas vendo que fatalmente seria atropelado pelas próprias compras, deu um pinote para o lado abandonando o carrinho, que descendo em quinta marcha e em desabalada carreira rampa abaixo, acabou atravessando a rua e foi parar somente após bater na guia da calçada do outro lado.
A filha e todos que estavam nas proximidades levaram o maior susto.
Por sorte, no momento do ocorrido, nenhum carro estava descendo a avenida, pois fatalmente aconteceria um grave acidente.
Passado o susto, a gargalhada foi geral. A cena lembrou antigos filmes de Chaplin.
Depois do quase acidente e das risadas, já a caminho de casa a filha ficou em dúvida se era mais aconselhável levar junto um cardiologista pois a mãe ao ver toda aquela lataria chegando, provavelmente teria um infarto fulminante.  
Foi a última grande compra.

Santos, 04 de agosto de 2012

sábado, 28 de julho de 2012

A TÃO ESQUECIDA EDUCAÇÃO




A vida é um constante confronto com novas situações e novos desafios.
Mudanças geram insegurança mas são necessárias para que haja crescimento e evolução.
A sociedade como um todo se depara dia a dia com essas alterações sejam elas no campo material, impulsionadas pelos avanços tecnológicos, como também nas relações interpessoais.
A família como era concebida há poucas décadas sofreu significativas mudanças. Atualmente apresenta uma grande diversidade na maneira como pode ser constituída. O que a princípio causou espanto no século passado, hoje está inserido no contexto da sociedade.
O que há de se ressaltar, entretanto, é que caminhando ao lado de todas essas mudanças ocasionadas pelos chamados novos tempos, estamos também presenciando a extinção de certos valores imprescindíveis ao ser humano.
Cito um único e fundamental exemplo observado constantemente por todos nós: a morte da EDUCAÇÃO.
É lamentável como ela vem perdendo seu valor gradativamente.
A educação está deixando de existir não somente no trato entre pessoas desconhecidas, mas também no seio familiar, onde parcela significativa dos jovens e crianças tratam seus pais com absoluta falta de respeito, reproduzindo esse comportamento em todos ambientes que frequentam. Não é difícil observar-se nas escolas, nos clubes, nos lugares públicos, grosserias dirigidas a adultos e principalmente a pessoas idosas.
O que mais espanta é a rendição total dos pais ou responsáveis diante dessas situações. 
Um misto de despreparo, sentimento de culpa, compensações totalmente fora de contexto e até disputas absurdas, norteiam atitudes desses adultos que acabam desestruturando a convivência e se dão por vencidos diante dos filhos.
Ainda lembro-me de expressões de pais, quando eram solicitados a comparecerem na escola devido a comportamentos muito inadequados dos adolescentes. Creio que colegas continuem a ouvir hoje e cada vez com mais frequência, a famosa frase desabafo:
- Não posso com a vida do meu filho! A senhora faça o que puder!
Essa declaração dita diante da criança ou adolescente significa que realmente os pais “jogaram a toalha”.
Aqui sou obrigada a fazer uma atualização: a segunda frase era válida há alguns anos e a ouvi várias vezes; atualmente ela seria algo assim:
 - A senhora não se atreva a criticar meu filho!
Não se trata de um retorno à palmatória, às humilhações, aos castigos corporais impostos às crianças e jovens.  Tais maneiras de controlar certos comportamentos já revelaram que a opressão, o medo, o receio, não moldam o bom caráter.  Ao contrário, muitas vezes por conta deles, perde-se o respeito de vez.
O que se ouve falar muito mas não é posto em prática, é o que se observa no cotidiano da família, primeiro grupo social com o qual a criança tem contato: a falta de conversa, de diálogo entre pais e filhos. Não aquele “papo” sobre assuntos banais que nada acrescentam a ambas as partes; mas conversas pessoais onde num clima calmo, sem tempo cronometrado, com eletrônicos desligados, o filho sinta segurança para se abrir, se expor, baixar a guarda e contar o que lhe vai na mente e na alma. Uma conversa de mão dupla, onde pais também exponham seus pensamentos e desejos calcados nos exemplos aprendidos com a vida.  Diálogo que tenha como pano de fundo sempre presente, o afeto, o bem querer, o amor.
Diferentes personalidades e temperamentos existem, mas ninguém melhor que a família para encontrar o caminho da aproximação enquanto há tempo.
Uma vez cultivada no lar a tão esquecida educação, facilmente se expandirá e se manifestará na sociedade como um todo.
Apesar de todos os pesares, ainda aposto nisso.

Santos, 28 de julho de 2012   

domingo, 22 de julho de 2012

O EXAME


Nunca foi muito de ir a médicos, na verdade os evitou até há bem poucos anos.
Entretanto, como sói acontecer, o tempo passa e a máquina humana a exemplo da mecânica, necessita de revisões periódicas.
Procurando diagnosticar um problema surgido, o neurologista solicitou um exame com nome pomposo: eletromiografia. 
Exame agendado e com a guia de solicitação médica em mãos, lá se foi ela para a clínica a fim de solucionar um desconforto que havia surgido na face.
Sentada na sala de espera e não se sentindo muito confortável em função dos semblantes sérios e preocupados que via ao seu redor, decidiu ler uma revista de fofocas televisivas para tentar relaxar um pouco.
Passados alguns minutos, uma paciente saiu da sala de exames e acomodou-se no sofá ao seu lado. Uma conversa informal foi iniciada e a recém-chegada pôs se a contar as agruras que sofrera na realização do tal exame feito em seu antebraço.
 Contou que a dor havia sido muito forte. Explicou que foram usados eletrodos na forma de agulhas espetadas na parte afetada e sentira muitos choques. Logo a seguir, alguém chegou para vir buscá-la e na despedida ainda desejou melhor sorte à mais nova conhecida.
As informações que acabara de receber não foram nada animadoras. Teve que se controlar para literalmente não fugir dali naquele mesmo instante pois se a eletromiografia feita no antebraço havia doido tanto, o que diria feita na face, que era o seu caso!
Chegou a ficar em pé e enquanto decidia o que fazer, eis que a enfermeira abriu a porta da sala e falou seu nome. Tarde demais para fugir.  Resolveu encarar a situação.
Deitada na maca só pensava em acabar logo com aquilo enquanto via as preparações envolvendo eletrodos e agulhas. Pensava com toda convicção possível naquele momento: esse corpo não é meu! Esse corpo não me pertence!
E o sacrifício começou. 
Realmente, além das picadas das agulhas, pequenos choques eram dados na face esquerda.  Um, dois, três, quatro....Perdeu a conta de quantos foram.
O que tornava tudo mais dolorido ainda eram os locais das picadas em regiões extremamente sensíveis: nas pálpebras inferior e superior, lateral dos olhos e cantinho dos lábios.
Ela que não transpira facilmente, começou a sentir as palmas das mãos encharcadas, as costas também e até no rosto sentia um liquido escorrer pela pele. Secava as mãos suadas no brim da calça jeans enquanto torcia para que terminasse logo.
Finalmente acabou!
Meio atordoada pela dor, sentou-se na maca e ouviu o médico pedir que esperasse um pouco. Nesse momento ele se aproximou com um chumaço de algodão e começou a limpar seu rosto (o dela e não o dele, obviamente). 
Foi aí que ela levou um susto vendo manchas de sangue no algodão.  Aquele líquido que ela sentia escorrer na face, na realidade não era suor como pensara inicialmente e sim, sangue.
Terminada a limpeza ele a autorizou a descer da maca e comentou de maneira bem séria. 
- Como você sangra fácil!
Ainda atordoada pela dor e sentindo-se criticada, não se conteve, respondeu de pronto, sem raciocinar e falando de maneira um tanto áspera:
- Pois claro, eu não estou empalhada!!!  Fura meu rosto todo e não quer que eu sangre!!!
Retirou-se então rapidamente pois mesmo com dor, sentiu uma vontade enorme de cair na gargalhada ali mesmo, ao ver o olhar surpreso dele pela resposta recebida!
Decididamente ela não estava empalhada!

Santos, 22 de julho de 2012