sexta-feira, 19 de abril de 2013
PEDAÇOS DE MIM
Finalmente em livro, uma parte dos contos e crônicas constantes deste blog.
Um desejo antigo realizado.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
O DIREITO AO AVESSO
Um sentimento travesso
virou-me pelo avesso.
E contive a dor.
E contive o amargor.
Dor e amargor no peito,
acorrentados e calados.
Perdi-me de mim.
Me desconheci.
Fiquei oca.
Perdi a alma.
Olhos abertos e nada via.
O mundo lá fora sequer existia.
Tropecei em meus passos,
em busca apenas,
de um simples abraço!
Perdi a noção do tempo.
Perdi a conta das horas.
E foi ele - o tempo,
justamente o tempo,
que me abriu seus braços,
corrigiu meus passos,
e acalentou minha alma,
num forte enlaço.
Já me vejo não mais pelo avesso.
Atravesso a vida.
Enxergo o mundo.
Carrego agora em meu ser,
de modo muito profundo,
todo sentimento do mundo!
Ligia M. Cerri
30/03/2013 - 11h01
Ligia M. Cerri
30/03/2013 - 11h01
quinta-feira, 21 de março de 2013
EXPLORAÇÃO INTERROMPIDA
Sempre despertaram certa
curiosidade os comentários que eu fazia a respeito da mania organizacional de
meu pai. Cada fato novo contado era
motivo de espanto seguido de muita risada devido aos exageros e invencionices
tão particulares a ele.
Brincava inclusive dizendo-lhe que
qualquer dia montaria uma exposição e cobraria ingresso para visitação pública.
Ele até achava graça e concordava que às
vezes cometia alguns exageros, mas com o passar do tempo somente aprimorava mais
e mais suas invenções domésticas.
Tivemos liberdade para observar melhor
e mexer em suas coisas, somente após sua partida deste mundo.
Foi assim que certa tarde ao receber
a visita de uma amiga, surgiu a ideia de visitarmos o cantinho da casa que ele
considerava seu escritório. Era onde passava
a maior parte do tempo, sempre criando suas artes.
Em meio a muitas gargalhadas abríamos os armários, as gavetas, as pastas e em todos os objetos havia algum
detalhe curioso. Ele usava e abusava de
anotações caprichosas, sempre com letras de forma feitas com pincel atômico nas
cores verde e vermelho (cores de seu time de coração – Velo Clube); usava muito
durepox, fitas crepes, carimbos na forma do dedo indicador tanto esquerdo
quanto direito apontando para alguma anotação importante, agendas, blocos,
bloquinhos e blocões de papel, etc.
Havia até prendedores de madeira
para varal com seu nome anotado para não serem misturados aos demais de uso
comum. Isto porque ele tinha o costume
de pendurar no varal para secar após o uso, até sua escova de dente.
Como esse escritório ficava no
pavimento superior da casa e com porta que se abria para o quintal, resolveu adotar certas medidas de segurança. Quebrou propositadamente o trinco
da porta com o objetivo de tornar mais difícil ou até impossibilitar sua
abertura por algum visitante indesejado, ou seja, um ladrão.
Feito isso, para evitar que o vento
fechasse a porta enquanto estava trabalhando, providenciou uma pedra de calçada
portuguesa com um formato que permitia seu perfeito encaixe entre a lateral da
porta e o batente. Desta forma a porta ficava travada e era mantida aberta
enquanto ele lá se encontrasse.
Um detalhe: para facilitar a exata
posição na colocação da pedra, colou sobre um lado dela um pedaço de
esparadrapo branco onde escreveu em caprichadas letras de forma – ESTE LADO
PARA CIMA.
Distraídas que estávamos
bisbilhotando, não percebemos que uma forte corrente de vento começou a
circular pelo cômodo.
Incautas, também não tivemos o cuidado de colocar a tal pedra estratégica no lugar certo.
Incautas, também não tivemos o cuidado de colocar a tal pedra estratégica no lugar certo.
Foi quando entre uma risada e
outra ouvimos um forte barulho. O vento
havia empurrado a porta que se fechou com violência.
Uma troca de olhares assustados foi suficiente para nos entendermos.
Seria uma represália vinda do além???
Estava decretado o final de nossa alegre exploração.
Seria uma represália vinda do além???
Estava decretado o final de nossa alegre exploração.
Estávamos presas num pequeno espaço
no pavimento superior, sem mais ninguém na casa e pior ainda, sem sequer um
telefone para pedir ajuda.
Tentamos inicialmente segurar no
toco de trinco que havia, mas era impossível sequer abaixá-lo. Ele nem se movimentava.
Resolvemos analisar com calma a
situação e para nossa sorte vimos que havia um pequeno vão no encaixe entre a
parte superior da porta e o batente. Com
auxílio de um bastão de madeira colocado nesse vão e com muito esforço feito a
quatro mãos, pouco a pouco fomos conseguindo aumentar esse espaço até que
passados alguns suados minutos conseguimos abrir a porta. Alívio amplo, geral e irrestrito.
Coincidência ou não, o fato é que o
susto valeu como um aviso e não foi preciso um segundo aviso. Saímos aos atropelos do escritório.
Estava encerrada a primeira e
última exploração às invencionices de meu pai.
Naquele momento, de onde ele estava,
com certeza se divertiu às tantas com os apuros das intrusas em seu antigo
território.
Manias e temperamento muito autoritário
à parte, somente após sua partida tomamos conhecimento de atitudes generosas em
relação a terceiros, mas nunca divulgadas por ele nem mesmo aos beneficiados. Assim era o Sr. Italo Cerri.
Santos, 21 de março de 2013.
Para Alice Keiko, companheira dessa exploração
interrompida.
segunda-feira, 18 de março de 2013
EU VI
Apesar
dos anos que já passaram, vez ou outra a cena lhe vem à mente e quando se dá
conta, está rindo sozinha.
O
cenário era velho conhecido seu – a rua em que morou desde seu nascimento. Sabia
bem como era cada pedacinho dela, mas mesmo assim a jovem gostava de ficar
admirando-a nos momentos de dolce far
niente. Era justamente isso que fazia na manhã daquele domingo ensolarado.
Eis
que de repente entre os carros que transitavam, viu surgir bem rente à sarjeta,
uma bicicleta vermelha. Sobre ela, um
garoto todo sorridente mantinha os pés apenas apoiados nos pedais. Apesar da razoável velocidade que
desenvolvia, ele não fazia o mínimo esforço pois seu pai que corria na
extremidade da calçada, empurrava-o com sua mão esquerda apoiada nas costas do
menino, enquanto em sua mão direita, carregava uma louça e uma caixa de
jogos.
Vinham
embalados e rindo com a brincadeira até que o pai errou um passo.
Seu
pé esquerdo pisou fora da calçada desequilibrando-o.
O
tombo que se seguiu foi inevitável e particularmente acrobático.
A
caixa de jogos e a louça foram lançadas para o alto. O jogo era War com grande quantidade de
pecinhas coloridas, que subiram muito alto para depois caírem num festival de
cores esparramadas pela calçada e asfalto.
A louça não teve melhor sorte e encontrou seu finado dia naquele
instante, partindo-se em vários pedaços.
Ajoelhado
no chão, atônito e ainda abobalhado pelo tombo, o pai olhou à sua volta para
ver se alguém mais além do filho, ria daquela cena. Viu que uma senhora que
estava no portão bem em frente não demonstrava nenhuma reação, quer fosse de
riso, susto ou mesmo preocupação. Assim
ela permaneceu enquanto ele recolhia pacienciosamente, cada peça do jogo. Provavelmente a senhora dormia em pé ou algum problema na visão a impediu de curtir a cena desastrada de malabarismo.
Aliviado
e concluindo que ninguém além do filho havia testemunhado sua situação
vexatória, olhou mais à frente e deparou-se com a jovem em pleno acesso de
riso, vendo-o ajoelhado na calçada juntando os pedaços que sobraram da louça
(que nem era sua) e catando as “trocentas” peças do War, jogo com o qual,
diga-se de passagem, ele detestava brincar.
A
performance do pseudo-atleta teve um final triunfal com direito até a malabarismo trapalhão.
Santos,
18 de março de 2013
Obs: Eu vi e não me esqueço, sr. Edo.
Obs: Eu vi e não me esqueço, sr. Edo.
domingo, 24 de fevereiro de 2013
CHAMEM UM HOMEM!
Recentemente ao ler um livro, encontrei
um nome familiar ao magistério paulista nos anos 90.
Instantaneamente veio-me à
lembrança, o relato de uma amiga sobre um fato ocorrido quando ela desempenhava
funções em uma repartição pública dirigida por essa pessoa.
Sua sala de trabalho ficava
justamente ao lado do gabinete do diretor dessa repartição, importante e
respeitável senhor, famoso por sua classe, cultura e inteligência.
Tal diretor esbanjava charme por
onde passava, exibindo sempre muita elegância tanto no vestir como na forma de
tratar as pessoas.
Diariamente figuras conhecidas e de
destaque entravam naquela sala para tratarem de negócios diretamente
relacionados a milhares de profissionais.
Certo dia um pequeno imprevisto fez
toda aquela elegância e galhardia irem para os ares num instante.
No meio do expediente ouviram-se
gritos nervosos e de pânico, vindos do gabinete do diretor.
Era a voz do chefe que pedia em
alto e bom som:
-Chamem um homem, chamem um homem!
Na sala vizinha, a jovem assustada,
lembrou-se que seu chefe estava sozinho no momento e enquanto sua colega
providenciava um homem para atender
ao pedido feito aos gritos, ela, aflita e com objetivo de ajudar no que fosse
preciso, abriu a porta do gabinete e entrou.
A cena que presenciou a deixou sem
ação.
Aquela figura elegante, cheia de
classe e pompa que chamava a atenção principalmente das mulheres, estava literalmente
trepada na mesa de trabalho e com o olhar apavorado dirigido a um rato que tranquilo
e alheio a toda confusão, passeava sobre o tapete, dando voltas em torno da
mesa.
Estava explicada a necessidade de um
homem no gabinete!!!!
Santos, 24 de fevereiro de
2013
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
SURPRESA NO ANDAR DE BAIXO
Morar em prédio que recebe
turista tem pontos negativos, mas por outro lado quebra a rotina, a monotonia e
muitas vezes oferece momentos bem divertidos.
Enquanto fazia um pequeno lanche
na cozinha, escutava mesmo sem querer, uma conversa que acontecia no corredor.
Era um casal que alugara o
apartamento vizinho e comentava sobre banalidades.
De repente o homem deu um alerta
dizendo estar sentindo cheiro de algo queimando.
A mulher prontamente confirmou e
acrescentou que parecia plástico pegando fogo.
Nesse momento liguei meu “sinal
de alerta” e fiquei esperta para qualquer emergência, embora eu mesma não
estivesse sentindo cheiro algum.
Andando pelo corredor o casal
concluiu que o cheiro vinha do 5º andar, ou seja, logo abaixo.
Decidido a ver do que se tratava,
o homem avisou que iria descer pelas escadas para ver se descobria a causa do
cheiro.
Aproximei-me da porta de casa ainda
sem abri-la, mas preocupada em saber se realmente havia tal cheiro e sua causa.
Nesse momento ouvi aquele barulho
característico de chinelos batendo nos calcanhares de alguém que desce rapidamente
uma escada.
“De repente, não mais que de
repente” como já disse Vinícius, ouvi altos rosnados e latidos de cachorro
quando está avançando em alguém. Pelo
som era cachorro dos grandes.
No mesmo instante ouvi novamente o
barulho de chinelos batendo em calcanhares, mas agora, era alguém que fazia o
caminho contrário - subia as escadas em desabalada carreira.
Foi quando ouvi em alto e bom som, sonoros palavrões, pronunciados ofegantemente:
- CA_ _ _ _ O!!!!
- PQP !!!!!!!
- Quem é o corno que deixou um
cachorro solto no corredor do 5º andar?!
Apesar da situação e mesmo sem
enxergar a cena, foi impossível segurar o riso por detrás da porta. A gargalhada foi alta.
Enquanto ele ainda proferia umas “trocentas”
pragas contra o dono do cachorro, comentou que seu calcanhar sangrava.
Os impropérios continuaram e creio eu, dirigidos agora não só ao cachorro mas a mim também pois deve ter ouvido a gargalhada. Em meio a isso tudo ouvi a mulher dizer:
- Você percebeu que o cheiro de
queimado passou?
A resposta dele veio rápida:
- Merdinha de cachorro. Até
esqueci que desci as escadas pra ver isso!!!
segunda-feira, 24 de setembro de 2012
VOTO VENCIDO
18 a 25 de setembro de
2012 - Semana Nacional de Trânsito. Foi o aviso que li há pouco, num site da internet.
No mesmo instante me veio à mente a primeira escola pública
estadual onde atuei como professora, muito embora ainda universitária, já lecionasse em
escola particular. O início na rede estadual ocorreu num final de agosto quando
assumi aulas de Ciências num município vizinho.
Animada com as novidades ainda estava tomando contato com o
ambiente quando no começo de setembro fui escalada para compor a banca
examinadora de um concurso de frases sobre a Semana do Trânsito.
As frases deveriam ser originais e alertarem para os perigos no
trânsito, bem como maneiras seguras e responsáveis para quem dirige e para quem
é passageiro.
O corpo de jurados era composto por 5 professores de
diferentes áreas de ensino.
Como todos os alunos de 5ª e 6ª séries (atuais 6º e 7º anos) participaram,
a quantidade de frases foi significativa e uma primeira triagem foi necessária.
Os próprios alunos selecionaram dez trabalhos de cada classe que foram
encaminhados para a fase final a cargo da banca de jurados.
A expectativa era grande uma vez que para os dois primeiros
colocados, uma casa comercial oferecera uma viagem de lazer num final de
semana, juntamente com os pais.
Na noite marcada para a escolha final nos apresentamos no
laboratório de Ciências onde as cartolinas com as frases escritas estavam
dispostas cuidadosamente sobre as bancadas.
Tudo muito formal e bem organizado pela direção da escola.
Numa primeira leitura dois cartazes já chamaram minha atenção
pelas maneiras divertidas com que as frases foram elaboradas. Comparadas às demais concorrentes, acabei
dando meus votos para estas duas. Elas expressavam
uma realidade vivida pelos alunos cuja maioria residia na zona rural e usava
diariamente o ônibus escolar.
Ao confrontar minhas escolhas com as dos demais jurados, por
mais que eu argumentasse e justificasse as opções para 1º e 2º lugares, acabei
sendo voto vencido e a frase campeã que já não lembro mais, dizia algo no estilo
bem tradicional, nada criativo, semelhante a: Dirija com cuidado para preservar a vida.
Entretanto, decorridos tantos anos, ainda me lembro das duas
frases por mim escolhidas e que até hoje me fazem rir.
Elas mostravam claramente o dia-a-dia dessas crianças no
ponto de espera do ônibus e durante todo seu percurso.
2ª Colocada: NÃO TREPE NAS PLACAS.
1ª Colocada: PEDESTRE,
NÃO ANDE COM A CABEÇA PARA FORA DO ÔNIBUS.
Impossível esquecê-las!!!
Santos,
24 de setembro de 2012
domingo, 9 de setembro de 2012
ALEGRIAS VIVIDAS
Ambiente de trabalho é local onde além
da qualificação profissional, deve haver também muita responsabilidade,
atenção, educação e respeito.
A somatória desses fatores todos,
muitas vezes acaba criando uma atmosfera séria, circunspecta, tolhendo gestos de descontração.
Não era diferente em meu local de
trabalho. O chefe, pessoa muito competente e um tanto autoritária, dificilmente
exibia um sorriso em sua face. Tal fato acabou desencadeando a fama de ser muito
severo. Em função disso, muitos de seus subordinados
tinham certo temor até em lhe dirigir a palavra.
Esse clima sério, que a despeito de
propiciar o bom andamento do serviço tornando-o ágil, gerava certa inquietação.
Sempre acreditei que era possível desempenhar bem uma função sem deixar de lado
o bom humor. Aliás, muitas vezes o bom humor até melhora o rendimento.
Na sala de trabalho ocorriam alguns
momentos de boas risadas sempre que surgia a possibilidade.
Certa ocasião foi designada uma professora
até então desconhecida, para ser minha auxiliar.
Notando seu nervosismo inicial, resolvi
criar uma situação que a deixasse mais calma, mais descontraída. Resolvi dar certo
tratamento de choque para quebrar o gelo.
Lembrei-me que no fundo da gaveta
havia um grande frasco de vidro contendo centenas de clips de papel, a maioria
dos quais enferrujados. Com a expressão
muito séria coloquei o tal vidro na frente da auxiliar e justificando a necessidade
de se evitar desperdício de material, mandei que a professora abrisse cada
peça, passasse bom-bril ao longo dela para tirar a ferrugem e finalmente a fechasse
direitinho para ser reutilizada.
O olhar de espanto e a paralisação
total da auxiliar foram instantâneos.
Creio mesmo que ela entrou por
alguns segundos, num estado de coma traumático. Nesse instante acabei deixando
a risada escapar, o que foi bom para evitar que um enfarte ou coisa desse tipo
acontecesse. Esse foi seu batismo.
Com o passar dos dias fui
percebendo que a professora era muito espirituosa e tinha facilidade para soltar frases irônicas muito
apropriadas e hilárias.
Foi assim que numa certa manhã ela
recebeu a incumbência diretamente do temido chefe, de datilografar (nessa época
as máquinas de datilografia reinavam soberanas) um importante documento em três
vias. Em função da urgência, ele
posicionou-se em pé ao lado da mesa aguardando o serviço ser realizado.
Nervosa, já que não era muito ágil
nesse trabalho, ela começou a suar principalmente nas mãos. Enquanto arrumava
os papéis para colocá-los na máquina, o carbono preto em contato com o suor
começou a soltar tinta e sujar não só suas mãos, como também as folhas brancas.
Com o chefe muito sério em pé a seu
lado, impávido, querendo pressa no serviço e vendo toda aquela trapalhada até
para colocar os papéis na máquina, a professora parou tudo o que estava
fazendo, apoiou a papelada sobre a mesa, colocou as mãos na cintura, suspirou
bem fundo e dirigindo-se a ele afirmou:
- Senhor! Não trabalho sob pressão!
Levei um susto ouvindo isso mas
logo veio o alívio. Diante do inesperado desabafo de minha auxiliar, algo um
tanto raro aconteceu: o chefe riu descontraído da situação e retirou-se imediatamente
para sua sala avisando que lá ficaria à espera do material.
De outra feita, numa tarde já no
final do expediente, conversávamos um assunto divertido, uma piada para ser
mais exata, quando de repente eis que o chefe entra inesperadamente na sala. Distraídas com o assunto, não ouvimos seus
conhecidos passos no corredor. De pronto
a conversa parou e ele obviamente notando isso, questionou com certo sorriso
irônico, se estava nos atrapalhando.
- Atrapalhou sim. A partir de amanhã o senhor venha
trabalhar com sapatos de salto alto.
Foi a resposta rápida e divertida de minha auxiliar que novamente conseguiu provocar muito riso no semblante tão fechado do chefe.
Realmente o poeta Vinícius* sabia o
que dizia quando escreveu:
“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração...”
Santos, 09 de setembro de 2012
Nota: Uma homenagem à Rosmari e às
lembranças de um tempo muito bom.
*Samba da Bênção” – Vinícius de
Moraes e Baden Powell
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
REMINISCÊNCIAS
A infância vivida há algumas décadas,
pouco ou nada tem em comum com o dia-a-dia das crianças desse século XXI.
Sem entrar no mérito a respeito
das diferentes realidades, quer sejam sob os aspectos de segurança, familiares ou educacionais,
a meninada que brincava nos meados do século passado, desfrutava de espaços
para se divertir nas grandes casas, nas ruas e nas praças, livres de maiores
receios mesmo sem a presença de adultos.
Em contrapartida recebiam uma
rigorosa educação. Acatavam com respeito (muitas vezes com receio) as ordens
que lhes eram impostas e pouco ou nada questionavam sobre elas.
As obrigações também existiam
desde pequenos e embora contribuíssem para o desenvolvimento da
responsabilidade, muitas vezes tinham certa dose de exagero.
Dentre esses exageros vivenciados, um em
especial sempre resultava em repreensão logo nas primeiras horas dos domingos. O dia mal havia clareado (às vezes ainda
estava escuro) e alguém lá em casa já levava uma bronca.
Tínhamos, eu e meu irmão, então com
idades de 7 e 8 anos aproximadamente, que acompanharmos nosso pai à missa da manhã que
era rezada às 6 horas, numa igreja que ficava em torno de 1 km de nossa casa.
Fosse inverno, verão, chuva ou mesmo férias, lá íamos os três a pé para a
cerimônia da santa missa.
Enquanto eu era rápida para
acordar e me arrumar, meu irmão já necessitava de um tempo maior para ficar
definitivamente desperto. Como a
cobrança para ser rápido era insistente, ele até que tentava superar seus
baixos escores a cada domingo, mas sem muito sucesso.
Assim, em todas as manhãs
domingueiras acostumei-me a ir andando rapidamente ao lado de meu pai, olhando
de vez em quando para trás a fim de ver lá longe, meu irmão vindo como um
autômato. Lembro-me bem que em dias de neblina seu vulto chegava a sumir
parcialmente tamanha a distância que ele estava.
Numa certa manhã ele ainda
meio dormindo vestira seu terninho e gravata de missa e sem se olhar no espelho,
pois não havia tempo para isso, saiu na correria pelas ruas conseguindo chegar quando
o padre já estava começando a cerimônia.
Ao olhar o garoto acomodando-se no
banco da igreja, o semblante sempre sério do pai acabou se rompendo ao mesmo
tempo em que não consegui segurar o riso, coisa que em ambiente que exige
silêncio se torna ainda mais difícil.
Meu irmão estava impecavelmente
vestido a não ser por um detalhe: ele havia colocado a gravata de tons escuros,
literalmente no pescoço, isto é, acima do colarinho da camisa. Lembrava Tiradentes com sua corda no pescoço -
um perfeito candidato a enforcamento.
Se normalmente era difícil para nós crianças, nos concentrarmos na missa àquela hora da manhã e ainda rezada em latim, naquele domingo ela foi totalmente perdida pois tivemos ataques de riso o tempo todo.
Era mesmo um exagero essa obrigação de irmos à missa às 6 horas, obrigação essa que perdurou por alguns anos.
Nesses tempos também, os meninos
usavam as chamadas calças curtas e somente no início da adolescência, lá pelos
seus 11 a 12 anos, é que tinham o direito às suas primeiras calças compridas,
fato que era motivo de muito orgulho para eles.
Animado com a ideia, meu irmão
atendendo às orientações, começou a tirar suas medidas. Ocupada com seus afazeres minha mãe ia
explicando o que anotar e ele, fazendo uso da fita métrica, marcava os números. Até
que lhe foi pedido medida da altura da calça.
Rapidamente encostou-se no armário,
pegou um lápis e apoiando uma régua sobre o topo de sua cabeça, pediu que fosse
verificado se a tal régua estava bem reta. Queria marcar sua altura no armário
com perfeita exatidão para poder medi-la, afinal seria sua primeira calça comprida e não poderia ficar curta ou comprida demais.
Em meio à risada geral, a mãe
questionou qual modelo de calça ele pretendia: uma comum que chegasse até sua
cintura ou uma que lhe cobrisse até a cabeça feito um saco de batatas?
Finalmente as medidas corretas
foram anotadas e a primeira calça comprida passou a fazer parte de seu
guarda-roupa.
São lembranças resgatadas
recentemente junto à tantas outras depois de assistir ao filme “A Guerra dos
Botões”. Ele reproduziu em minha memória
outras guerrinhas como da Turma da Rua 2 contra a Turma da Rua 3, mas essa é
uma história que ficará para uma outra vez.
Reminiscências perdidas no tempo.
Santos, 10 de agosto de 2012
sábado, 4 de agosto de 2012
VAMOS ÀS COMPRAS ?
Ser prevenido até que é uma boa
atitude desde que esta prevenção seja bem administrada e não parta para o
exagero e a mania.
Pois bem, isso ele sempre foi, bem
prevenido. Planejava suas tarefas com tanta
organização e antecedência que era até motivo de brincadeiras na família.
Quando ainda trabalhava como
representante comercial, viajava de trem pelas cidades da região. Sendo assim, tinha
sempre o cuidado de estudar os horários de ida e volta de tal forma que no
final do dia estivesse em casa para poder dormir na sua cama.
Entretanto, algumas viagens para
cidades mais distantes o obrigavam a dormir em hotel. Nessas ocasiões o momento de arrumar sua
mala era um divertimento que provocava risos nos filhos e nele próprio. Com muita antecedência começava seus
preparativos separando tudo que levaria, de roupas a sapatos, passando pelos
objetos de uso pessoal.
Sem exagero, a mala ficava pronta
três dias antes da viagem que teria um único pernoite em hotel.
Uma cena presenciada pela filha
ainda menina ficou gravada em sua memória: o observou usando um grande serrote para cortar ao meio o
cabo de uma escova de dente.
Nos idos anos 50 não era comum ou
talvez nem existisse ainda no comércio local, escova de dente pequena ou
dobrável, própria para viagem. Ele havia
encontrado uma caixinha que serviria como local para guardar a tal escova. Aconteceu porém, que essa caixa era pequena. Ele não teve dúvidas e lançou mão de um imenso
serrote para cortar o cabo da escova.
E não é que apesar do absurdo da
cena o resultado foi excelente! A
paciência e o capricho surtiram ótimos resultados e ele feliz guardou a dita
escova na caixinha a ela destinada.
As compras em supermercados nunca
foram seu forte e ciente disso as deixava ao encargo da esposa. Entretanto quando ficava sabendo de alguma
promoção que considerasse imperdível, lá ia ele aproveitar a ocasião, afinal
era bom ter um certo estoque em casa para prevenção.
Dentre tantas, duas dessas compras
ficaram registradas nos anais da família.
Aproveitando preços bons ele resolveu
comprar 100 quilos de açúcar (em pacotes de 5 kg) de uma única vez, para uma
família de 5 pessoas. Quando essa carga começou a ser descarregada na casa a
esposa entrou em choque.
Como não havia espaço suficiente
para guardar tudo aquilo começou a distribuição a parentes, vizinhos e amigos.
Despensa lotada e mesmo assim uma parte ficou num canto no chão da cozinha.
Houve entretanto, mais um agravante.
Naquela época o produto vinha em sacos
de papel. Com o passar do tempo, o açúcar começou a petrificar dentro dos
pacotes.
Sendo assim, cada vez que alguém
fosse abrir um deles, tinha antes que pegar o martelinho de carne e dar uma
verdadeira surra de pancada no açúcar para quebrar as malditas pedrinhas e só
depois, abrir o pacote. Às vezes de
tanto apanhar, o papel acabava rasgando e esparramava açúcar para todos os
lados para desespero da esposa e alegria das formigas.
Desnecessário dizer que as sessões de
pancadarias açucareiras aconteceram por meses, meses e mais meses.
A outra inesquecível aquisição, quase
resultou em acidente fatal.
Num final de tarde lá foi ele todo lampeiro, às compras
novamente. Encheu completamente um carrinho de supermercado somente com latas
de óleo. Como naquele dia não estavam
fazendo entregas em domicílio, telefonou para a filha pedindo que ao sair do
trabalho passasse no supermercado para dar uma carona a ele e às suas compras.
Quando viu a filha estacionando o
carro em frente ao supermercado, começou a puxar o carrinho na rampa de saída
do estabelecimento. Portanto caminhava à frente de toda a lataria.
Aconteceu que essa rampa tinha uma
inclinação bem acentuada e o peso do carrinho carregado com latas de óleo o fez
ganhar velocidade.
Por alguns segundos ele chegou a correr mas vendo que fatalmente seria atropelado pelas
próprias compras, deu um pinote para o lado abandonando o carrinho, que descendo em
quinta marcha e em desabalada carreira rampa abaixo, acabou atravessando a rua e foi parar somente após bater na guia da
calçada do outro lado.
A filha e todos que estavam nas proximidades
levaram o maior susto.
Por sorte, no momento do ocorrido,
nenhum carro estava descendo a avenida, pois fatalmente aconteceria um grave
acidente.
Passado o susto, a gargalhada foi
geral. A cena lembrou antigos filmes de Chaplin.
Depois do quase acidente e das risadas, já a caminho de casa a filha ficou em dúvida se era mais aconselhável levar junto um cardiologista pois a mãe ao ver toda aquela lataria chegando, provavelmente teria um infarto fulminante.
Foi a última grande compra.
sábado, 28 de julho de 2012
A TÃO ESQUECIDA EDUCAÇÃO
A vida é um constante confronto com
novas situações e novos desafios.
Mudanças geram insegurança mas são
necessárias para que haja crescimento e evolução.
A sociedade como um todo se depara dia
a dia com essas alterações sejam elas no campo material, impulsionadas pelos
avanços tecnológicos, como também nas relações interpessoais.
A família como era concebida há
poucas décadas sofreu significativas mudanças. Atualmente apresenta uma grande diversidade
na maneira como pode ser constituída. O que a princípio causou espanto no
século passado, hoje está inserido no contexto da sociedade.
O que há de se ressaltar,
entretanto, é que caminhando ao lado de todas essas mudanças ocasionadas pelos chamados
novos tempos, estamos também presenciando a extinção de certos valores
imprescindíveis ao ser humano.
Cito um único e fundamental exemplo
observado constantemente por todos nós: a morte da EDUCAÇÃO.
É lamentável como ela vem perdendo
seu valor gradativamente.
A educação está deixando de existir
não somente no trato entre pessoas desconhecidas, mas também no seio familiar,
onde parcela significativa dos jovens e crianças tratam seus pais com absoluta
falta de respeito, reproduzindo esse comportamento em todos ambientes que
frequentam. Não é difícil observar-se nas escolas, nos clubes, nos lugares
públicos, grosserias dirigidas a adultos e principalmente a pessoas idosas.
O que mais espanta é a rendição
total dos pais ou responsáveis diante dessas situações.
Um misto de despreparo, sentimento
de culpa, compensações totalmente fora de contexto e até disputas absurdas, norteiam
atitudes desses adultos que acabam desestruturando a convivência e se dão por
vencidos diante dos filhos.
Ainda lembro-me de expressões de
pais, quando eram solicitados a comparecerem na escola devido a comportamentos
muito inadequados dos adolescentes. Creio que colegas continuem a ouvir hoje e cada
vez com mais frequência, a famosa frase desabafo:
- Não posso com a vida do meu
filho! A senhora faça o que puder!
Essa declaração dita diante da
criança ou adolescente significa que realmente os pais “jogaram a toalha”.
Aqui sou obrigada a fazer uma
atualização: a segunda frase era válida há alguns anos e a ouvi várias vezes; atualmente
ela seria algo assim:
- A senhora não se atreva a criticar meu filho!
Não se trata de um retorno à
palmatória, às humilhações, aos castigos corporais impostos às crianças e
jovens. Tais maneiras de controlar certos
comportamentos já revelaram que a opressão, o medo, o receio, não moldam o bom caráter. Ao contrário, muitas vezes por
conta deles, perde-se o respeito de vez.
O que se ouve falar muito mas não é
posto em prática, é o que se observa no cotidiano da família, primeiro grupo
social com o qual a criança tem contato: a falta de conversa, de diálogo entre
pais e filhos. Não aquele “papo” sobre assuntos banais que nada acrescentam a
ambas as partes; mas conversas pessoais onde num clima calmo, sem tempo
cronometrado, com eletrônicos desligados, o filho sinta segurança para se abrir,
se expor, baixar a guarda e contar o que lhe vai na mente e na alma. Uma
conversa de mão dupla, onde pais também exponham seus pensamentos e desejos calcados
nos exemplos aprendidos com a vida. Diálogo
que tenha como pano de fundo sempre presente, o afeto, o bem querer, o amor.
Diferentes personalidades e temperamentos
existem, mas ninguém melhor que a família para encontrar o caminho da
aproximação enquanto há tempo.
Uma vez cultivada no lar a tão
esquecida educação, facilmente se expandirá e se manifestará na sociedade como
um todo.
Apesar de todos os pesares, ainda
aposto nisso.
Santos, 28 de julho de 2012
domingo, 22 de julho de 2012
O EXAME
Nunca foi muito de ir a médicos, na
verdade os evitou até há bem poucos anos.
Entretanto, como sói acontecer, o tempo passa e a máquina
humana a exemplo da mecânica, necessita de revisões periódicas.
Procurando diagnosticar um problema
surgido, o neurologista solicitou um exame com nome pomposo:
eletromiografia.
Exame agendado e com a guia de
solicitação médica em mãos, lá se foi ela para a clínica a fim de solucionar um
desconforto que havia surgido na face.
Sentada na sala de espera e não se
sentindo muito confortável em função dos semblantes sérios e preocupados que
via ao seu redor, decidiu ler uma revista de fofocas televisivas para tentar relaxar
um pouco.
Passados alguns minutos, uma
paciente saiu da sala de exames e acomodou-se no sofá ao seu lado. Uma conversa
informal foi iniciada e a recém-chegada pôs se a contar as agruras que sofrera
na realização do tal exame feito em seu antebraço.
Contou que a dor havia sido muito forte.
Explicou que foram usados eletrodos na forma de agulhas espetadas na parte
afetada e sentira muitos choques. Logo a seguir, alguém chegou para vir
buscá-la e na despedida ainda desejou melhor sorte à mais nova conhecida.
As informações que acabara de
receber não foram nada animadoras. Teve que se controlar para literalmente não
fugir dali naquele mesmo instante pois se a eletromiografia feita no antebraço
havia doido tanto, o que diria feita na face, que era o seu caso!
Chegou a ficar em pé e enquanto
decidia o que fazer, eis que a enfermeira abriu a porta da sala e falou seu
nome. Tarde demais para fugir. Resolveu
encarar a situação.
Deitada na maca só pensava em
acabar logo com aquilo enquanto via as preparações envolvendo eletrodos e
agulhas. Pensava com toda convicção possível naquele momento: esse corpo não é
meu! Esse corpo não me pertence!
E o sacrifício começou.
Realmente, além das picadas das
agulhas, pequenos choques eram dados na face esquerda. Um, dois, três, quatro....Perdeu a conta de
quantos foram.
O que tornava tudo mais dolorido
ainda eram os locais das picadas em regiões extremamente sensíveis: nas
pálpebras inferior e superior, lateral dos olhos e cantinho dos lábios.
Ela que não transpira facilmente,
começou a sentir as palmas das mãos encharcadas, as costas também e até no
rosto sentia um liquido escorrer pela pele. Secava as mãos suadas no brim da
calça jeans enquanto torcia para que terminasse logo.
Finalmente acabou!
Meio atordoada pela dor, sentou-se
na maca e ouviu o médico pedir que esperasse um pouco. Nesse momento ele se
aproximou com um chumaço de algodão e começou a limpar seu rosto (o dela e não
o dele, obviamente).
Foi aí que ela levou um susto vendo
manchas de sangue no algodão. Aquele
líquido que ela sentia escorrer na face, na realidade não era suor como pensara
inicialmente e sim, sangue.
Terminada a limpeza ele a autorizou
a descer da maca e comentou de maneira bem séria.
- Como você sangra fácil!
Ainda atordoada pela dor e
sentindo-se criticada, não se conteve, respondeu de pronto, sem raciocinar e
falando de maneira um tanto áspera:
- Pois claro, eu não estou empalhada!!! Fura meu rosto todo e não quer que eu sangre!!!
Retirou-se então rapidamente pois mesmo
com dor, sentiu uma vontade enorme de cair na gargalhada ali mesmo, ao ver o
olhar surpreso dele pela resposta recebida!
Decididamente ela não estava
empalhada!
domingo, 15 de julho de 2012
UMA CERTA CADEIRA DE PRAIA
Em função de sua criatividade sui generis e extrema mania de organização
que já foram comentadas em outros textos deste blog (O discípulo do Prof. Pardal, Meias
de Outono e Livre ou Ocupado?), meu pai foi protagonista de muitas histórias hilárias e de outras tantas que provocaram reações de espanto na família.
Sua mesa de trabalho era arrumada
com perfeição e cada objeto tinha posição exata para ficar sobre ela. Sendo
assim, quem fizesse uso de algo tinha que ter o cuidado de repor exatamente no
local de onde tirara sob a pena de levar uma bronca caso isso não fosse
respeitado.
Para garantir que sua arrumação fosse mantida por ocasião da limpeza da mesa elaborou caprichosamente um croqui
onde desenhou a disposição exata de cada objeto, croqui esse colado na parede sobre
a mesa. Assim, ao tirar-se o pó do
tampo, bastava olhar o desenho para recolocar cada material na posição certa.
Outro costume comum era fazer
anotações nos objetos para lhe facilitar o uso.
Não teve dúvidas em pintar com destaque os botões de ligar, desligar e
alterar volume do recém-comprado aparelho de som.
Em meio a essas marcas feitas aqui
e acolá pela casa toda, uma delas em especial, poderia ter lhe garantido o Prêmio Nobel da Guerra, caso tal
prêmio existisse.
A televisão do quarto era de seu
uso exclusivo já que sua predileção era por programas que a família não
apreciava muito e a recíproca era verdadeira.
Como um problema nos olhos dificultava sua visão à distância, ele
providenciou uma cadeira de praia que era colocada perto da TV.
Entretanto, a posição da cadeira
que mais lhe agradava e facilitava a visão, ficava justamente próxima à porta
de entrada do quarto, bem na passagem.
Sendo assim, ao desligar a TV, fechava e guardava a cadeira para não
atrapalhar a circulação.
Acontecia porem que cada vez de usar
a tal cadeira, ele demorava um pouco para acertar o local exato de colocá-la para
ter uma boa visão da tela.
Foi aí que veio a “brilhante”
ideia!
Seguindo seu instinto de fazer
marcas em tudo, rapidamente lançou mão de um pincel atômico de cor preta e
pôs-se a marcar com grandes círculos, os locais exatos no chão onde ficaria
cada um dos quatro pés da cadeira.
O piso do quarto era revestido de
carpete bem claro e tinha pouco tempo de uso já que a casa era uma construção
recente.
Resultado: quem entrasse no quarto
já veria de imediato, quatro grandes círculos pretos pintados no carpete claro.
Ao concluir o trabalho e satisfeito
com sua criatividade que solucionara o problema, ele saiu da casa assobiando como sempre, sem comentar
com ninguém sua grande obra.
Quando a esposa entrou no quarto e
deparou-se com aqueles quatro enormes círculos pretos no chão que ela mantinha
sempre muito limpo, faltou pouco para ser decretada a terceira guerra mundial.
Extremamente irritada e indignada
com o estrago no carpete, ela questionava sem parar pronunciando seu
tradicional bordão - Não brota? Não brota? – querendo
dizer com isso que não brotou um pensamento, um raciocínio lógico sequer, que
indicasse que ele estava estragando o carpete.
Por dias seguidos ela tentou
remover sem êxito as escuras manchas, conseguindo apenas clareá-las um pouco.
Finalmente se deu por vencida e
acabou acostumando-se com a nova decoração do ambiente.
Ele por sua vez ficou
satisfeitíssimo.
Suas marcas estavam salvas e a
cadeira continuaria a ser posicionada tranquilamente sempre no mesmo lugar.
A Terceira Guerra Mundial foi
abortada a tempo!
Santos, 15 de julho de 2012
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