sábado, 27 de agosto de 2011

LIVRE OU OCUPADO?


A casa era confortável embora fosse pequena para abrigar a família composta pelo casal e três filhos. A falta de outro quarto transformou a sala em dormitório para o filho mais velho.  Entretanto o espaço era seu somente no período noturno pois nas primeiras horas da manhã seguinte o ambiente  passava a ser ocupado também pelos outros membros da família.
Dessa forma solucionou-se (ou ao menos se tentou) a falta de espaço nos quartos.   Ficou pendente outro problema que afetava diretamente os membros da família, principalmente o pai: era a existência de um único banheiro no interior da casa.
Havia outro banheiro no quintal mas não era muito usado principalmente em dias chuvosos, durante as noites e também por quem estava com pressa já que ele era bem mais distante.
O assim chamado banheiro social era com certeza o mais concorrido.
As crianças até que eram rápidas quando nele se trancavam, mas por incrível que possa parecer, bastava alguém entrar no aposento que lá vinha o pai todo afobado querendo usá-lo. Chegava apressado já forçando a maçaneta antes mesmo de saber se lá havia alguém.  Ao constatar que o banheiro estava sendo usado ficava contrariado e não tinha outra opção a não ser se dirigir ao outro cômodo no quintal.
Isso era fato corriqueiro. O aposento ficava vazio uma boa parte do tempo. Bastava alguém entrar que o pai chegava desesperado para usá-lo.
Vai daí que de tanto forçar a maçaneta da porta trancada um dia ele conseguiu quebrá-la.
Foi quando teve a grande ideia que, segundo ele (e seguramente somente para ele mesmo), indicaria a situação do banheiro para quem fosse usá-lo e isso pouparia inclusive a nova maçaneta já instalada.
Naquele mesmo dia providenciou o material necessário para por em prática sua grande ideia.
Recortou dois retângulos de cartão cartaz, um na cor verde e outro na cor vermelha e colou um ao outro deixando expostas as faces coloridas. Com tinta branca escreveu em letras bem grandes e caprichadas as palavras: OCUPADO no lado vermelho e LIVRE no lado verde.
Esclareceu que as cores facilitariam mais ainda e até dispensariam a leitura do aviso.
Entusiasmado com sua própria criatividade providenciou um pedaço de linha e todo satisfeito pendurou na porta do banheiro sua mais nova invenção.
Chamou os demais membros da família e passou as orientações de uso:
- Ao entrar no banheiro vire a plaquinha e deixe o lado vermelho à vista. Assim, mesmo de longe, todos saberão que o aposento está ocupado e já se dirigirão ao quintal. 
- Uma vez liberado o banheiro o ocupante deve virar o lado verde da plaquinha para fora, avisando que está livre para uso.
Tão contente estava com sua ideia que nem percebeu os olhares apalermados do “grande público” de quatro pessoas, usuárias do banheiro em pauta. 
Era uma gambiarra nada elegante.
Da sala de visitas podia-se observar pendurada na porta do banheiro aquela “discretíssima” placa de papelão colorido alertando o próximo usuário. 
O criador da “brilhante” ideia, entretanto, alardeava feliz que a partir daquele momento nem precisariam mais usar maçaneta ou trancar a porta visto que a plaquinha já avisaria a situação.
Nos primeiros dias (para ser mais sincera, talvez só no 1º dia) todos respeitaram (como sempre) a nova norma doméstica e a tal plaquinha foi usada a contento.
Com o passar do tempo e por que não dizer com a pressa ao entrar, já que esse cômodo por algum motivo especial sempre é um dos locais nos quais as pessoas chegam correndo, o desespero para usar o banheiro era maior que a lembrança de virar qualquer plaquinha fosse ela verde, vermelha ou cor de burro quando foge.
As conseqüências do desrespeito às ordens não tardaram a chegar e tiveram como vítima o próprio autor da ideia.  Chegando sempre correndo e vendo o lado verde exposto, acabava dando literalmente com o nariz na porta pois quem lá já estava não havia lembrado de virar a discretíssima plaquinha.
O caso se repetiu com tanta constância que ele se deu por vencido e retirou o cartão com os avisos. Esse fato foi comemorado (obviamente de forma discreta, como convinha) pelo “grande público” usuário do banheiro.
Pela primeira vez e acho que única, uma norma doméstica foi revogada sem necessidade de lobista.

Santos, 27 de agosto de 2011  

sábado, 20 de agosto de 2011

FIM DO MUNDO


Não há quem já não tenha ouvido falar ao longo de sua vida, de alguma profecia sobre um próximo final do mundo.
Nostradamus, textos bíblicos, São Malaquias, as profecias de Nossa Senhora de Fátima, profecias chinesas, profecia Maia e tantas outras, muitas inclusive anunciando para dezembro de 2012 a data final de existência do mundo tal qual o conhecemos.
Independente ou não da proximidade do apocalipse, não são poucos os que procuram obter dessa vida aquilo que julgam ser o melhor, isso considerando bens materiais, prazeres, a preocupação com o EU a qualquer custo e acima de qualquer respeito pelo OUTRO, o TER em vez do SER ou simples dolce far niente até a data fatídica.
Observando justamente isso é que concluo que o próprio homem está causando e até antecipando, se considerarmos as profecias, o final dos tempos!
Não é preciso ser vidente, ser profeta ou sensitivo. Basta prestarmos atenção ao que acontece próximo a nós, conosco mesmo ou termos acesso aos meios de comunicação.
Nos jornais televisivos são tantas notícias ruins gerando um clima tão pesado, que se tornou comum observarmos o apresentador respirar fundo após relatar casos e exclamar:
- Vamos mudar um pouco de assunto!
Isso já não é o fim do mundo???
Crimes horrendos envolvendo pais e filhos, traições entre amigos próximos, roubos deslavados de erário público que ocorrem nos altos escalões e descem a pirâmide até sua base, chegando até aos pequenos furtos que de tão corriqueiros já nem causam mais espanto ou revolta.
Certa ocasião durante uma palestra sobre qualidade de vida solicitou-se um gesto de braço por parte de quem já havia sido vítima de assalto ou roubo. Acompanhando o gesto (feito por quase 80% da numerosa plateia) ouviu-se uma estrondosa gargalhada. 
Senti um grande impacto: as pessoas passaram a considerar piada o fato de terem sido assaltadas e riem de si próprias. 
Isso já não é o fim do mundo???
Cresci vendo diariamente um texto afixado por meu pai, na casa de comércio que possuía.  Ao longo dos anos, passando pela adolescência e chegando à vida adulta, as palavras de Rui Barbosa passearam em minha mente. Cheguei a me questionar algumas vezes: será que ficaria com vergonha de ser honesta?
Diante de uma situação inesperada no trabalho e não concordando com a solução proposta, ouvi há anos um superior que tomando a atitude à qual eu me negara, afirmando com a maior serenidade que nem sempre dá para se ter escrúpulos.
A velha frase desfilou novamente em meus pensamentos: “...o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”. 
Isso não é o fim do mundo???
Já está mais do que na hora de enxergarmos que independente de qualquer profecia, de qualquer data, o homem, O PRÓPRIO HOMEM, está decretando o fim do mundo... HOJE!!!!

Santos, 16 de agosto de 2011



domingo, 14 de agosto de 2011

COLECIONANDO LEMBRANÇAS E ARQUIVANDO SAUDADES


A vida passa diante de nossos olhos num ritmo frenético, sem se preocupar se estamos conseguindo acompanhar seus passos ou não.
É como se estivéssemos sentados à janelinha de um trem em velocidade, tentando captar todas as cenas que se mostram no lado de fora.
Se nos distrairmos por segundos, a vista se embaralha e perdemos imagens que talvez nunca mais vejamos. Emoções deixam de serem vistas e vividas.
Muitas vezes na tentativa de nada perdermos, nos apegamos a detalhes desnecessários que tiram o foco de nossa visão. Então de repente e sem que esperemos, a vista embaça, se perde no horizonte e quando nos damos conta “o tempo passou na janela” como bem disse o poeta Chico.
Cada momento tem sua importância e singularidade na história de nossas vidas.
Ao longo dos anos contabilizamos alegrias, descontamos tristezas, somamos vitórias, abatemos decepções.
Assim vamos colecionando lembranças e arquivando saudades.
Entretanto há que se saber o que é necessário arquivar. 
Nas profundezas da alma, naquela gavetinha mais escondida, empenada e difícil de ser aberta, devem ficar lembranças que nos machucaram no passado.  O tempo se incumbirá de danificá-las e desbotá-las a tal ponto que num dia qualquer de faxina da alma, esvaziaremos aquela gaveta sem nem nos darmos conta de seu conteúdo.
Lembranças boas, essas sim, devem estar sempre às mãos na primeira gaveta. Ao resgatarmos uma delas sempre virá junto um arquivo anexo - a eterna saudade.
Quem nunca sentiu uma saudade? Quem nunca chorou de saudade?
Saudade de alguém, saudade de um lugar, saudade de uma época, saudade de um momento, saudade de nós mesmos.
Ela varia na intensidade e na forma de nos atingir, mas fiel, nos acompanha ao longo dos anos.
Intensa, forte e soberana, no início a saudade nos domina. Toma conta dos pensamentos, das emoções, dos sentidos - toma conta de nossas vidas.
Com o passar do tempo filtramos melhor tais sentimentos e revolvendo apenas a gaveta das boas lembranças, encontramos a saudade que não fere, ao contrário, dá uma sensação gostosa que nos aquece por dentro.
Transportamo-nos virtualmente no espaço e no tempo na ânsia de reviver momentos especiais. Chega até ser difícil sentir essa saudade sem nos alegrarmos.
É nesses momentos que sonhamos acordados na tentativa de fazer aquele momento fugir da lembrança e acontecer novamente.
A saudade assim, despertada de seu estado temporário de dormência, massageia a alma e nos aquece.  Sem ela resta o vazio e o coração hiberna.
Alguém já disse há tempos: “SAUDADE É O AMOR QUE FICA”!


Santos, 14 de agosto de 2011
(Dia dos Pais)

sábado, 6 de agosto de 2011

FERIADO EM PARATY



Feriado se aproximando com previsões de bom tempo e calor.
As quatro amigas decidiram aproveitar os dias de folga para descansarem na praia e curtirem a   bucólica Paraty.
Malas prontas, últimos acertos feitos e logo no início da manhã já estavam na estrada.
Durante o trajeto que não foi curto, muita conversa muitos casos contados e muita risada.
Comentando o que uma ou outra levava na bagagem, eis que surgiu um senão. Prevenidas e acostumadas com imprevistos, três delas levavam vários cabides em suas malas.
A motorista ouvindo essas observações ficou intrigada e levantou um alerta - não havia tido essa ideia!  
Para brincarem com ela, as outras três imediatamente lhe avisaram que não adiantaria pedir, pois não emprestariam os cabides. Deveria ter sido mais eficiente e pensado nisso no momento de arrumar sua mala.
O assunto rendeu muito durante a viagem e as três através de gestos propositalmente combinados, fizeram muita zoeira sobre a motorista, conhecida até então por sua grande capacidade de planejamento e administração.
Chegaram ao destino logo depois da hora do almoço e não tiveram dificuldades em localizar a pousada que haviam reservado. Local bonito e próximo à praia.
Não era uma pousada requintada, ao contrário, era bem simples, mas muito aconchegante e exatamente o que elas procuravam.
Registros feitos, as amigas se dirigiram ao quarto onde as quatro ficariam juntas. De imediato já escolheram as camas e sobre elas colocaram suas coisas.
Malas abertas, roupas desdobradas e após uma disfarçada troca de olhares cúmplices e divertidos, as três acintosamente começaram a colocar as peças nos cabides que levaram, quando de repente o alerta de uma delas interrompeu os trabalhos. 
No quarto que lhes fora destinado, só havia camas, única e exclusivamente C A M A S.
Nenhum armário para guardar roupas e muito menos pendurar cabides, claro!
Olhares incrédulos e roupas nas mãos, o que se ouviu a seguir foram só gargalhadas no que foram acompanhadas pela amiga “descabidada” que triunfante, ria mais que todas confirmando a máxima - Quem ri por último ri melhor!
Na manhã seguinte, a mais madrugadora dentre as amigas, levantou-se e pé ante pé saiu do quarto a fim de caminhar na praia.
Observadora, viu quando uma garça se deslocava sobre a areia encharcada e curiosa resolveu se aproximar.  Distraída com a cena da ave procurando alimento, não se deu conta do tipo de terreno em que pisava. 
Era um grande lodaçal.
Isso ela constatou tarde demais ao sentir uma perna afundando até acima do joelho.  Rindo de sua situação ridícula, não conseguiu ter forças para livrar a perna presa no lodo e teve que sentar-se no chão para poder fazer isso. 
Enquanto isso a garça a olhava incrédula e assustada sem entender o que aquele ser humano fazia.
Quando conseguiu ficar em pé novamente teve que voltar rapidinho à pousada porque um banho era necessário e urgente já que estava toda enlameada.
Quando as demais amigas acordaram contou-lhes o caso ainda inconformada com o riso disfarçado que jura ter visto no canto do bico da garça enquanto ela afundava na lama.

Santos, 4 de julho de 2011

Recordando tempos não tão distantes e muito bons na companhia de Mada, Alice e Cleide.

sábado, 30 de julho de 2011

O GOLPE BAIXO

O movimento era grande na agência bancária e ele ainda tinha outros afazeres a cumprir naquela tarde.
Com um olho no relógio e outro na fila que se arrastava a sua frente, começou a calcular o tempo que ainda restava para chegar ao escritório de seu cliente. Foi com satisfação que viu sua vez chegar e ser atendido prontamente pelo caixa. Transação efetuada, documentos ainda em mãos, saiu atabalhoadamente do banco.
Caminhava pela calçada ainda guardando seus papéis enquanto mantinha a pasta executiva aberta apoiada contra seu peito e amparada na palma da mão.  Isto prejudicava sua visão para baixo e próxima de si.
Pela mesma calçada porem em sentido contrário, vinha uma anãzinha em passos acelerados e com os olhos voltados para o relógio pois se dirigia ao banco que estava prestes a ser fechado.
Numa mesma rota de direção e sentidos inversos, a colisão entre ambos foi inevitável.
Com o baque violento de seu corpo com as pernas do homem, a anã para não cair, agarrou-se firmemente a elas dando-lhes um forte abraço e assim permanecendo por um tempo.
O homem que até então não enxergava o que acontecia, sentiu aquele travamento nas pernas e isto lhe tirou o equilíbrio.
Para desvencilhar-se do que o retinha, tentou dar chutes no ar o que o levou a perder mais ainda o pouco equilíbrio que lhe restava.
Em segundos os dois corpos agarrados desabaram no chão: pasta executiva e papéis para um lado e o homem com a mulher ainda agarrada em suas pernas, para outro lado.
Instantaneamente formou-se um círculo de curiosos transeuntes que com olhares atônitos pensaram que agora além da chamada “saidinha de banco”, outra estratégia de roubo começara a ser usada: o golpe baixo.

Campinas, 27 de julho de 2011

História vivenciada por um amigo há muitos anos. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

segunda-feira, 18 de julho de 2011

PERDIDO NA CURVA

Não era dia de festa mas a alegria e ansiedade eram evidentes.
Há muito tempo as crianças apoiadas pela mãe, queriam visitar o zoológico da cidade vizinha, onde também havia um grande lago para pescarem e andarem de barquinhos.
Avesso a passeios nos finais de semana o pai havia finalmente concordado em viajarem no domingo bem cedinho.
Os pequenos levantaram-se antes dos pais e já vestidos, ficaram esperando somente o café para se dirigirem ao carro.  A euforia era imensa. 
Café tomado e lanches preparados, todos se acomodam na velha Chevrolet Veraneio 1969.
No banco de trás, as 3 crianças satisfeitas da vida, já combinavam as brincadeiras que fariam durante o passeio.
A distância a ser percorrida não era muito grande mas a estrada apresentava várias curvas bem acentuadas e por isso mesmo exigia cautela dos motoristas.
            A garota ia sentada entre os dois irmãos justamente para evitar algum desentendimento entre ambos, fato meio comum.
Poucos minutos de estrada e os pais já estavam chamando a atenção dos pequenos que não paravam quietos no lugar, mesmo porque não havia ainda a exigência de cinto de segurança para os passageiros.
A certa altura o filho caçula começou a cantarolar uma música cuja palavra final desencadeava uma nova frase e assim sucessivamente, tornando a música extremamente repetitiva, mas do agrado da molecada.  Os irmãos o acompanhavam na cantoria e os pais no banco da frente, resignados com o barulho, começaram a conversar outros assuntos.
Numa curva mais acentuada, o filho caçula foi literalmente espremido pelos corpos dos irmãos que não se seguraram e foram deslocados na direção do garoto.  Em vez de queixa, o fato resultou numa brincadeira adotada pelos três. 
A cada curva da estrada, fosse para a direita ou para a esquerda, as crianças deixavam seus corpos soltos e pressionavam o garoto que estivesse na ponta.
As risadas eram altas e os pais distraídos, não observaram o motivo de tanta risada.
Aconteceu porem que numa dessas curvas, o menino mais velho esbarrou o cotovelo no trinco da porta que se abriu de imediato, forçada pelo movimento que o carro vazia no momento. 
Ato contínuo, o corpo do garoto foi projetado para fora do veículo, rolando no asfalto.   Como na sequência havia mais uma curva para o outro lado, a porta fechou novamente fazendo um barulho forte.
Ao ouvir esse som a mãe ainda sem olhar para trás, questionou o motivo daquele barulho.
Espantada ouviu a filha dizer com a maior naturalidade que o irmão havia caído do carro.
Pai e mãe instantaneamente olharam para trás e pelo vidro traseiro viram apavorados o garoto já um pouco distante, correndo em plena pista, puxando um pouco a perna esquerda e gesticulando muito.
Uma brusca virada no volante do carro seguida de uma brecada violenta fez todo mundo gritar enquanto o carro parava no acostamento.
O pai desceu rapidamente e foi correndo em direção ao garoto, gritando para que fosse para o acostamento.  Por sorte naquele momento nenhum outro veículo estava transitando pela estrada.
Quando se encontraram, o pai muito assustado abraçou o menino e ouviu dele uma solene bronca: 
- Ia me deixar para trás? Não sei chegar ao zoológico sozinho!
Com os ânimos acalmados e por sorte apenas um pequeno esfolado no joelho do menino, a família pode seguir viagem não sem antes acontecer um rodízio de lugares dentro do automóvel: como uma sentinela, a mãe passou para o banco de trás acomodando-se entre os meninos e decretando o final das brincadeiras.

Santos, 23 de maio de 2011 

sexta-feira, 8 de julho de 2011

DESCULPE, FOI ENGANO !

Era inverno.
Saiu de seu trabalho mais tarde do que previa e preocupou-se com a escuridão da avenida embora fosse ainda início da noite.
O pouco movimento da rua aumentava ainda mais a sensação de insegurança.
De longe avistou seu carro estacionado sob uma árvore e próximo a ele, dois rapazes conversavam.  Talvez ela andasse assistindo muitos filmes policiais mas o fato é que o cenário estimulou sua criatividade. Já imaginou um assalto acontecendo.
Em passos rápidos e olhando disfarçadamente para os garotos, dirigiu-se ao carro e acessou o dispositivo para desligar o alarme. Pretendia entrar rapidamente no carro e sair de um arranque só.
Ainda olhando de soslaio para os dois, aproximou-se da porta e num ímpeto abriu-a. Já havia colocado parte do corpo dentro do carro quando de repente ergueu os olhos e viu uma jovem loira que sentada no banco do carona, mexia em um celular.
Como já estava assustada com seus próprios pensamentos, ao ver a estranha dentro do seu  carro, não pode evitar um grito.  A garota que até então estava distraída, ergueu os olhos e ao topar com aquela mulher já dentro do carro, recuou para o canto e começou a gritar por socorro.
Por instantes as duas gritaram juntas, uma  assustada com a outra.
Foi aí que  ela,  praticamente já sentada no banco do motorista, observou objetos estranhos dentro do carro.  Olhou pelo vidro e viu que estacionado logo à frente havia outro veículo  igual ao seu com um detalhe assaz importante – a placa era exatamente a de seu automóvel.
Havia entrado em carro errado. 
Saiu rapidamente para a calçada ainda ouvindo a gritaria da moça e constatou que o veículo no qual havia entrado era exatamente igual ao seu mas decididamente NÃO era o seu.
Olhou para a jovem loira procurando nela um botão off para ver se a fazia parar de gritar mas não teve sucesso. Conseguiu apenas balbuciar um - desculpe, foi engano!.
Ouvindo ainda as gargalhadas dos rapazes, entrou enfim no carro certo e partiu sem nem olhar para trás.
O receio de ser assaltada fez com que ela própria fosse confundida com assaltante! 
Agora não faltava mais nada para seu currículo de micos!!!

Santos, 4 de julho de 2011 

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A ESTRADA DESERTA

Início de carreira sempre apresenta um certo sacrifício e muitos desafios.
Não foi diferente com as três jovens recém-formadas professoras.  
Moradoras em uma mesma cidade, iniciaram a vida profissional numa escola do município vizinho.  Foi quando se conheceram e a amizade teve início.
As aulas aconteciam no período noturno e como não havia transporte público entre as duas cidades nesse horário, a única que já era motorista e tinha seu próprio carro, dava carona para as amigas todas as noites e assim dividiam as despesas das viagens.
O percurso por estrada não era superior a 30 Km mas havia um trecho onde o movimento pequeno tornava a pista praticamente deserta. Comentários existiam de que nesse trecho, às vezes, se ouviam barulhos de tiros e que marginais se escondiam nas matas próximas à estrada. 
Apesar das jovens considerarem estes fatos como lendas contadas pelos moradores simples da região, não escondiam um pouco de temor quando transitavam pelo local.
Uma noite já próximo ao final da última aula, as professoras foram avisadas de que um grupo de detentos havia fugido do presídio num município vizinho.
A princípio não se preocuparam uma vez que o risco de se depararem com tais foragidos era mínimo. Encerradas as aulas, as três mulheres iniciaram a volta para seus lares.
A viagem feita sempre tão descontraída desta vez foi acompanhada de apreensão e todas vinham observando com atenção, o canavial que margeava a pista.
Ao se aproximarem do trecho menos movimentado, uma das professoras em tom de brincadeira, resolveu abaixar-se no banco para, segundo ela, evitar alguma bala perdida. A outra amiga , rindo, resolveu imitá-la.
A motorista nesse momento vendo-se como único alvo dentro do carro apavorou-se e para desespero das amigas, inesperadamente escorregou no banco também mantendo as mãos no volante.
No instante seguinte o carro fez uma manobra brusca para um lado, rodopiou e em meio a uma gritaria parou atravessado no acostamento com a parte traseira já no meio do canavial.  
Nos segundos que se seguiram, constatado que todas estavam bem, respiraram aliviadas até que uma das jovens, apavorada por estarem ali paradas, gritou para a amiga colocar urgentemente o carro em movimento e saírem dali.
Ordem dada, ordem cumprida e num arranque de fazer inveja a Barrichello, cantando pneus e levantando muita poeira, em fração de segundos o carro já estava novamente na estrada.    
Controle do veículo retomado e passado o susto, concluíram que era melhor permanecerem sentadinhas em seus lugares, sendo ou não alvos móveis para supostos atiradores.
A viagem terminou sem outros imprevistos e nenhum marginal saiu da mata mas em contrapartida, elas sim, haviam entrado na mata com carro e tudo e só não atropelaram os bandidos porque eles com certeza estavam a quilômetros dali.

Santos, 10 de junho de 2011



Uma homenagem à Jade, Damaris e Ana Maria num período muito divertido pelos lados de Iracemápolis.

domingo, 26 de junho de 2011

BARRADA NA PORTA





Era um sábado chuvoso nos idos anos 50. Relógios marcando meio dia e o comércio encerrando suas atividades, fato comum nas cidades do interior naqueles tempos.
Pai e filho tomam as últimas providências para concluírem o trabalho, fecharem a loja e se dirigirem para casa que era próxima pois o almoço já os aguardava. Todas as portas de aço estavam devidamente abaixadas e trancadas, menos a principal que era de esquina e por onde sairiam.
Como a chuva estivesse forte resolveram esperar mais um pouco visto que estavam sem guarda-chuva e até abaixarem a porta de aço e colocarem os cadeados estariam totalmente molhados. 
Enquanto o pai ultimava suas anotações na mesa que ficava nos fundos da loja, o menino resolveu abaixar um pouco a porta da esquina até uma altura que evitasse a entrada da chuva trazida pelo forte vento.  Assim pensando abaixou-a até a metade e dirigiu-se também para os fundos da loja para aguardar o pai.
Na residência os ânimos estavam ficando mais tensos com o atraso de ambos. A comida estava esfriando e uma demora maior obrigaria voltar todo alimento para o fogo novamente.
Tentou-se contato pelo telefone mas naqueles tempos qualquer chuva mais intensa provocava danos nos aparelhos impedindo ligações.
Tempo passando, comida esfriando e a paciência esgotando. Foi quando a esposa decidiu mandar a menina ir ao encontro do pai e do irmão para apressá-los. A garota ficou até feliz pois usaria pela primeira vez sua nova sombrinha azul de cabo longo, presente de aniversário.  
Ventava muito e a chuva caia com força e bem inclinada.  Buscando maior proteção, além de deslocar-se junto às paredes das casas, ela também inclinou a sombrinha deixando-a bem à frente de seu corpo. Andando dessa forma a menina tinha a visão prejudicada pois só conseguia ver um pouco mais de um metro da calçada a sua frente. 
Atravessou a rua correndo para molhar-se o menos possível. Embalada nessa corrida ela continuou em velocidade até enxergar por baixo da sombrinha, o degrau e a abertura da porta de esquina da loja.
O que se ouvi a seguir foi um enorme estrondo e um grito.
Barrada pela porta semiaberta a menina teve o rosto projetado com violência contra as ferragens da sombrinha que entortou a tal ponto que o cabo encostou no tecido. Entrou atordoada na loja, trocando as pernas e sem saber direito o que tinha acontecido. Chegou a pensar que havia sido atropelada por um caminhão. 
Tentando sozinha estancar o sangue que saia pelo nariz, viu quando o pai ao invés de acudi-la, dava uma enorme bronca no irmão por ter deixado a porta naquela posição semiaberta.   
Com dor e assustada com o sangue que escorria em seu rosto, a garota tratou de voltar para casa correndo novamente. Desta vez a travessia foi feita  até sem sombrinha, não se importando com a chuva que lhe molhava. Com toda a confusão ela até esqueceu do que havia ido fazer na loja. 
Logo depois pai e filho também chegaram na residência.
O almoço daquele sábado com certeza não foi dos mais festivos. 
O acontecimento porém acarretou outro problema. 
A sombrinha nova ficou muito danificada.  Com o impacto sofrido, o cabo entortou praticamente 90°, dobrando bem sobre o local de travamento das varetas, o que impossibilitava seu fechamento. Assim ficou a sombrinha aberta por um bom tempo sobre o armário, esperando um dia chuvoso para que a menina pudesse levá-la para consertar. 
No primeiro dia de chuva lá foi a garota bem constrangida caminhando com sua sombrinha entortada.  Para que o tecido ficasse sobre sua cabeça e lhe protegesse ela tinha que segurar o cabo na posição horizontal na altura de seu ombro, o que a obrigava a andar com o braço erguido. Isso despertou olhares curiosos em todo o trajeto.
Ao passar em frente a uma loja onde dois senhores conversavam, ouviu o comentário espantado entre ambos sobre o novo e estranho modelo de sombrinha.  Perguntaram-lhe então se não era desconfortável.
Rapidamente ela esclareceu:
- É modelo próprio para dias de chuva com vento forte - e pensando consigo mesma, completou mentalmente a frase – desde que não tenha nenhuma porta pela frente!           
                            
Santos, 26 de maio de 2011 

Ps:  
1. A preocupação em dar a bronca  (aliás uma enorme bronca, certo Edo?) foi maior do que acudir um nariz arrebentado.....rsss
2. Os dois senhores que estranharam o modelo da sombrinha foram Mauricio e Emílio Chacur, proprietários de uma loja na rua 3 - Bazar São Paulo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

MEIAS DE OUTONO

Conviver com uma pessoa extremamente bagunceira é difícil.
Igualmente complicado é morar com alguém excessivamente organizado.
Ela se encaixava na segunda situação. Desde os tempos de namoro já sabia que ele gostava de cada coisa em seu lugar, devidamente anotado, arrumado e tantos “ados” quantos fossem possíveis.
Com o passar dos anos e já casados ele foi aperfeiçoando cada vez mais sua criatividade de um modo geral, principalmente no quesito organização. 
O armário embutido do quarto do casal era bem espaçoso e tomava uma parede toda do cômodo, de cima abaixo.  Já foi assim projetado em função do território que ele precisava para seus pertences.
No início fez-se a divisão do espaço em duas partes iguais. Entretanto isso durou pouquíssimo tempo.  Logo ele se viu atrapalhado e sem lugar para guardar suas coisas.
As camisas que não usava no dia a dia, e as tinha em quantidade razoável, eram guardadas em suas caixas de origem, devidamente empilhadas e etiquetadas com todo capricho.  Dizia que assim procedia para facilitar a identificação de seus conteúdos.
Quem abrisse seu lado do armário veria além de camisas nos cabides, muitas embalagens empilhadas. Coladas nas laterais das caixas, tiras brancas de papéis com grandes letras de forma feitas com pincel atômico colorido, exibiam informações tais como: camisa branca fina de mangas compridas, camisa azul clara de mangas curtas, camisa bege de lã, e assim por diante. Lembravam prateleiras de uma camisaria dispostas de maneira até melhor e mais racional.
A esposa logo começou a ter seu lado no armário invadido por caixas alheias. Para evitar problemas, aos poucos foi passando a usar o armário do quarto vizinho. Não demorou muito para que ele tomasse posse de todo o espaço.
Os filhos, em sua ausência claro, divertiam-se abrindo as portas famosas e rindo muito pois sempre havia alguma ideia nova lá dentro.
Certa feita a mãe ao abrir o armário espantou-se muito com algo que viu. Ficou tão pasma que chamou a filha para ver a última novidade em termos de organização.
Ao entrar no quarto ela encontrou a mãe parada diante das portas abertas do armário com uma caixa retangular nas mãos. 
Era uma caixa de meias. O pai havia passado também a guardar cada par de meias dentro de uma caixa.
Nessa em particular que a mãe segurava, havia uma etiqueta em sua lateral onde caprichosas letras vermelhas informavam: MEIAS DE OUTONO.
Ele chegara ao cúmulo de classificar meias segundo a estação do ano mais própria para usá-las e o fez de forma tão precisa, que em pleno país tropical distinguiu meias para usar no outono de meias para usar no inverno.
Enquanto elas ainda espantadas se divertiam com aquilo, o dono das meias chegou de improviso e as flagrou com a caixa nas mãos.
Quis saber o que se passava e a mãe aproveitando que a bronca esperada não veio, questionou-o curiosa sobre a classificação das meias.
A explicação foi dada com toda calma e tranquilidade que lhe eram peculiares:
- Essas meias esquentam muito meus pés tanto no verão como na primavera. Já experimentei usar no inverno e vi que elas não aquecem bem.  Então as classifiquei assim para usá-las somente no outono. Simples assim. Mais alguma pergunta?
Diante dos olhares atônitos das duas, pegou a caixa, guardou-a no lugar, fechou o armário e saiu assobiando como era seu costume.
Estava encerrada a visitação pública aos seus pertences.

 Santos, 06 de junho de 2011  

                 Ao Sr. Italo, meu pai, uma homenagem relembrando uma de suas "artes".
                 Extremamente conservador, crítico e de temperamento forte, aliados à tranquilidade,   calma e bom humor junto aos amigos.  Sua criatividade se manifestava em excêntricas "invenções" caseiras. Tinha o hábito de andar sempre assobiando (geralmente marchas militares e o Hino Nacional) e o fazia muito bem. Teve atitudes muito humanas mas as fez em silêncio e só viemos a saber depois de sua partida. 

domingo, 12 de junho de 2011

A LÓGICA INFANTIL

Nos horários em que não havia expediente, ele circulava livremente por aqueles corredores e fazia daquele espaço seu local de brincadeiras.
Tinha no máximo cinco anos, mas era super ativo e vivia dando preocupações à avó, zeladora daquela repartição.   A despeito de suas reinações, era figurinha conhecida e querida por todos que por lá circulavam.  Sua vivacidade era notável.
Durante a semana, recebia ordens de não sair do espaço destinado à zeladoria, pois a avó estaria trabalhando e sem tempo de lhe dar atenção.
Geralmente essas normas eram quebradas uma vez que ele jamais teve paciência para ficar sentado diante de uma televisão ligada, por mais divertido que fosse o programa.
Era comum encontrar o garoto circulando fora da área que lhe era permitida.
Naquela manhã de inverno ocorria uma reunião em uma das salas e aquela figurinha infantil foi vista circulando pelas proximidades. Já próximo do horário de almoço, a reunião estava chegando ao seu final quando alguém deu um alerta de cheiro de queimado no ambiente.  No mesmo instante todos concordaram e passaram a olhar as lâmpadas e fios procurando o ponto de partida daquele cheiro forte de coisas queimando.
Não demorou muito para que algumas labaredas surgissem por trás dos vidros da janela aberta, com o fogo já dando algumas lambidas para dentro da sala.
Pânico geral. Todos saíram rapidamente do local buscando o pátio externo, bem distante dali. Todos não; três funcionários já munidos de extintores de incêndio se dirigiram para o local das chamas.
Um amontoado de sucata formada por restos de móveis e papéis velhos alimentavam o fogo que já havia alcançado uma altura razoável.
Com certa dificuldade já que nunca havia mexido com isso, o funcionário esvaziou dois extintores para conseguir apagar todos os focos do incêndio.
A uma distância segura, a zeladora e seu neto acompanhavam todo o trabalho.
Quando só havia cinzas e pouca fumaça saindo, começou o questionamento sobre o que teria provocado aquilo.  Não havia rede elétrica por perto, não havia sistema de gás. Era somente um amontoado de material que ali estava acumulado.
Uma a uma cada possibilidade foi sendo descartada até que se observou ali perto, caída no chão, uma caixa de fósforos com alguns palitos usados ao lado.
Os olhares se dirigiram para o pequeno garoto que até então estava muito quieto, fato inusitado para todos.
A avó percebendo a situação começou a questioná-lo para que contasse o que sabia e o olhar arregalado dele o denunciava. 
Quando todos já haviam concluído que ele era o causador de toda aquela confusão, o garoto mostrando ares de revolta resolveu fazer sua própria defesa e muito indignado falou com toda convicção que a lógica infantil lhe permitiu:
- Esse fogo não fui eu que fiz não!!!  e fazendo um gesto com o dedo indicador e o polegar deixando-os a uma distância de uns dois centímetros um do outro, completou:
- O fogo que eu fiz era pequenininho assim ó, e não grandão como esse que o tio apagou!

Santos, 09 de maio de 2011