segunda-feira, 3 de março de 2025

AVALIAÇÃO E SEUS DESACERTOS

 


                   
                                          Imagens: Facebook - Grupo Professores Sonhadores


            Há poucos dias vi  uma publicação em rede social de um grupo intitulado Professores Sonhadores cuja legenda era: O aluno mais injustiçado do Brasil.

            Abri o arquivo que estava em forma de reel (vídeo curto) e me surpreendi com o conteúdo. 

          De imediato reportei-me aos tempos de magistério e às experiências bem semelhantes às apresentadas neste reel, cujas imagens estão na abertura deste texto.

            Há duas questões básicas envolvidas no processo avaliatório: o objetivo - o que avaliar e a maneira - como avaliar.

            Há anos já comentei sobre a dificuldade que muitos professores têm no momento de formularem as perguntas nas avaliações. Muitas vezes uma pergunta mal elaborada deixa dúvidas sobre o que realmente se deseja saber.

            No fato citado no reel está óbvio que a criança concluiu assertivamente cada questão apresentada.

            O que deve ter levado o professor a considerá-las erradas foi com certeza ver que as respostas não traziam exatamente as mesmas palavras que ele esperava ler. A interpretação tanto quanto o raciocínio do aluno foram totalmente desconsiderados.

            Até o famoso Calvin, personagem do desenho em quadrinhos criado por Bill Watterson, aproveitou a oportunidade que lhe foi oferecida ao se deparar com a questão formulada por sua professora:

             - O que você sabe sobre os presidentes dos Estados Unidos?

            A resposta bem objetiva do garoto foi:

            - Não sei nada.

            Ele foi absolutamente sincero e correto em sua resposta.

            Outros exemplos similares pude acompanhar na profissão como foi o  caso em que a professora das séries iniciais do Ensino Fundamental, após ensinar sinônimos e antônimos, pediu na prova:

            - Dê o contrário de: bonito, frio, claro e alto.

            A criança respondeu prontamente: otinob, oirf, oralc e otla.

            A professora não teve outra opção a não ser considerar certa pois o modo como formulara a questão havia dado abertura para este tipo de resposta. Posteriormente explicou melhor a pergunta para a classe toda.

            Atuei como intermediadora em um caso hilário e bizarro durante um desentendimento entre pai de aluno e professor.  Era prova de Ciências e após estudos sobre Higiene e Saúde, apareceu na avaliação a seguinte pergunta:

            - Qual a primeira coisa que você deve fazer após usar o vaso sanitário?

            O professor esperava como única resposta possível: Lavar as mãos.

            Aconteceu porém que era uma 7ª série com alunos em plena adolescência. E não é que um dos garotos respondeu que chacoalhava seu pênis?

          O professor ficou tremendamente irritado e considerou a resposta muito desrespeitosa. Além de colocar um grande X vermelho sobre ela,  humilhou e criticou severamente o aluno diante da classe toda que acabou caindo na gargalhada ao saber a resposta dada.

            Pela idade do aluno e seu histórico brincalhão com certeza a resposta foi proposital, mas independente disso, a maneira como foi feita a questão abriu a possibilidade desta afirmação.

              Em casa o rapaz mostrou a prova ao pai e contou sobre a humilhação. Ato contínuo  este pai foi pedir explicações ao professor, reforçando que a resposta estava certa.

            Foi complicado chegar-se a um consenso e tive muita dificuldade em segurar o riso ao me ver naquela insólita situação, onde pai e professor discutiam o que era prioritário: chacoalhar o órgão ou lavar as mãos. O professor acabou por admitir, não sem muito reclamar, que falhou na formulação da frase.  

            A importância sobre o que avaliar deve ter a mesma intensidade e o mesmo cuidado em relação ao como avaliar.

            O objetivo da  prova é um elemento que não pode ser relegado a segundo plano.São relativamente comuns mesmo em concursos públicos questões que nada têm a ver com o real propósito da avaliação. 

            Nunca me esqueço de um fato ocorrido há anos ainda no início de minha carreira, quando um diretor de escola resolveu ele próprio elaborar uma prova para selecionar dentre vários candidatos, qual seria o mais apto para ocupar a função de servente, atual auxiliar de serviços gerais.

            Fez as questões sozinho e aplicou a avaliação. Ao fazer a correção ficou muito chocado (palavra dele) ao verificar que nenhum candidato acertou uma pergunta em especial.

            Entrou na sala dos professores indignado e nos contou o fato. Todos ali presentes ficaram curiosos. Ele então esclareceu que ninguém soube responder quantos quilômetros tinha a ponte Rio-Niterói. 

            A expressão de espanto de todos inclusive a minha, seguida dos olhares disfarçados, foi imediata.

          Nenhum de nós sabia a resposta. Tal ponte havia sido inaugurada há mais de dois anos.

            O rosto da professora de Geografia que estava em pé ao lado do diretor, perdeu a cor no ato. Ficamos todos em silêncio.

         Assim que ele se retirou da sala a risada foi geral, seguida pela busca imediata da resposta, afinal ele poderia voltar e nos questionar.

            Qual a importância de saber a quilometragem de tal ponte para exercer a função de servente escolar numa pequena cidade do interior paulista? Serviria apenas e tão somente para uma análise insignificante da cultura geral de cada um. Com certeza nenhum candidato havia passado por ela e creio que nem tinham a menor intenção de fazê-lo.

             Portanto devemos ter sempre em mente o que é realmente significativo avaliar, bem como, o modo de proceder a este questionamento de tal forma que não deixe dúvidas a quem for submetido a ele.


Santos, 03 de março de 2025. (segunda-feira de carnaval).

Nota: A quem possa interessar: a ponte Rio-Niterói tem 13,29 km de extensão e foi inaugurada em 1974. Seu vão central tem 300 m de comprimento e 72 m de altura.


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

CARNAVAIS D'ANTANHO



        

        
        Já não gosto de carnaval com a mesma intensidade que gostei na infância e juventude. Muitos que já viveram seis ou mais décadas também não o apreciam tanto.
        Ouvindo a mídia falar sobre esta festa popular, vendo fantasias expostas nas lojas e escutando músicas carnavalescas, o baú das boas lembranças se abre e um verdadeiro desfile de fatos vêm em minha mente.
        A recordação mais antiga que tenho é uma fantasia de holandesa que usei em um carnaval nos meus 4 ou 5 anos. O chapéu típico não parava em minha cabeça.
        Os pensamentos seguintes já trazem a figura de meu avô paterno, Adolpho.            Ele frequentava o Grupo Ginástico Rio-clarense, clube social da cidade.
        Nas matinês de carnaval levava os netos mais velhos para brincarem no salão que ainda funcionava na esquina da avenida 3 com rua 2.
        Também nos comprava os inesquecíveis tubos dourados de lança-perfumes juntamente com pacotes de confete e os rolinhos de serpentina. 
        Infelizmente o mau uso do lança-perfume por parte dos adultos, acabou provocando seu banimento.
        Avô Adolpho não entrava no salão e de longe ficava observando nossa alegria. Soube anos mais tarde que ele gostava muito dos bailes quando era solteiro, mas depois do casamento nunca mais foi. No carnaval divertia-se vendo a alegria dos netos.
        À noite havia o chamado corso que era o desfile de carros alegóricos e das escolas de samba.  
        Nessas ocasiôes eram meus pais que entravam em cena, nos levando para assistir.
        Minha mãe, caprichosa que era, costurava sacolinha de tule para mim e meu irmão colocarmos confetes e serpentinas e jogarmos durante o corso. E lá íamos nós empolgados e carregando a tal sacolinha cheia.
        O desfile era na região central da cidade e costumávamos ficar na esquina da rua 3 com avenida 1. Isso era bom para nós crianças pois havia neste local uma casa com jardim e uma muretinha com gradil. Ficávamos em pé nesta muretinha e assim tínhamos uma visão plena do desfile.
        Particularmente o que mais me atraia a atenção eram os carros alegóricos dos clubes, sempre muito iluminados, enfeitados, com moças bonitas fantasiadas e músicas bem alegres.
        Voltávamos para casa com a sacolinha de tule vazia, mas com o coração repleto de alegria.
        Havia próximo de casa uma loja que alugava vestidos de noiva e aí morava uma amiga, Lucinda, sobrinha dos proprietários. Nesta época de carnaval a loja confeccionava adereços para as escolas de samba.
        Eu, já na pré-adolescência, fui muitas vezes ajudar neste trabalho que na verdade para mim era muito prazeroso. Montávamos os chapéus com enfeites, as coroas, colares, etc.
        Certa ocasião a dona da loja, dona Rizolina, ao saber que eu não iria nas matinês naquele ano por problemas familiares, fez às pressas uma fantasia para que eu pudesse acompanhar sua sobrinha. Lá fomos nós, Lucinda de Rainha da Lua e eu de Colombina. Nos levaram até a um estúdio fotográfico para registrar esse momento. Acho que dona Rizolina nunca soube o quanto fez minha mãe feliz com este gesto.
        Com o tempo isso foi se perdendo, assim como as idas nas matinês e a companhia dos pais para ver o corso carnavalesco. 
        Como é imperativo à vida, vieram as mudanças nesta festa e em nós mesmos.
        As antigas marchinhas deram lugar a diferentes rítmos de acordo com a preferência dos jovens de hoje; o carnaval de rua sofisticou-se e hoje é um verdadeiro show de riqueza e cores, mas que de certa forma afastou o povo pois tudo isso tem um custo que boa parte da população não pode assumir.
        Ainda restam os alegres blocos formados pelos bairros, por clubes ou entidades, que dão voz e vez a todos.
        Apesar de eu não ter mais grande atração pelo carnaval, as marchinhas antigas, ah...essas sim, estão guardadas para sempre na memória e cantaroladas nestes dias de festas carnavalescas.
        Bom carnaval ou bom descanso a todos!


Santos, 28 de fevereiro de 2025 (sexta-feira de carnaval)
 




sábado, 22 de fevereiro de 2025

Cada música, uma lembrança

    



       Tenho o hábito de aproveitar o tempo livre ouvindo música. Fico quieta no quarto curtindo minhas músicas preferidas, acompanhando passo a passo as letras e muitas vezes cantarolando junto.

    Fiz uma extensa playlist no Spotify com músicas de minha preferência, nacionais ou estrangeiras e sem nenhuma preocupação cronológica.

    Recentemente dei-me conta que cada composição traz de imediato ao ouvir os primeiros acordes, uma lembrança específica que vivi ou presenciei, representando momentos felizes e outros nem tanto.

    Resolvi então traçar este paralelo entre as músicas e minha trajetória de vida.

1. Que será será - Doris Day. Não há como não lembrar de minha mãe que assistiu ao filme com este tema musical nos anos 50 e sempre comentava sobre a história. Passei a ser fã da obra mesmo porque a melodia é muito cativante e me transporta diretamente para a infância.

2. Moon River - Audrey Hepburn - No filme Bonequinha de Luxo a cena na qual a atriz canta sentada na janela de seu apartamento, ao som de seu violão, me encantou desde sempre. Já o assisti umas três vezes.

3. Cinema Paradiso - tema do filme de mesmo nome com orquestra de Enio Morricone. A melodia linda me transporta para outras épocas. Lembro de uma maquininha comprada por meu pai onde ele colocava carretéis com desenhos sequenciais e ao virar uma manivela tais desenhos passavam a ter movimentos. Era o nosso cineminha infantil. Chegamos a projetar estes filminhos em um muro branco que havia em uma residência na avenida 10 entre ruas 2 e 3. A criançada da região se reuniu ali para assistir, sentada na calçada mesmo. 

4. Luiza - Tom Jobim. Impossível ouvir esta música sem ficar visualizando mentalmente a Luíza de minha família, com toda sua graça, juventude e beleza.

5. New York, New York - Frank Sinatra. Esta canção e sua interpretação na voz de Sinatra, dispensam qualquer comentário. A primeira imagem que me vem à mente é do Prof. Paulo Landim falecido recentemente. Ele dublou-a no palco de uma escola durante apresentações feitas em um período de greve de quase todo o funcionalismo público estadual.  Estava caracterizado como o próprio Sinatra e foi imensamente aplaudido.

6. Hey Jude - Paul McCartney. Novamente minha mãe entra em meus pensamentos. Sempre gostei muito dessa melodia e a ouvia com frequência, mas tinha que ouví-la baixinho pois minha mãe sentia angústia ao escutá-la. Dizia que era uma música sem fim, que nunca terminava.

7. Summertime - Ella Fitzgerald, Louis Armstrong. Outra delícia de ouvir. Apesar de seu ritmo lento, ela me traz na memória uma cena de desenho animado da TV. É quando o Pica Pau se veste de mulher e para provocar o leão marinho faz uma dança sensual ao som de Summertime.

8. Besame Mucho - Orquestra de Ray Conniff. Ouvi-a pela primeira vez na casa de uma amiga do antigo curso primário, Luíza Cristina Camargo. Fiquei maravilhada com o som e com o ritmo. Era um disco Long Play, que chamávamos na época de LP, que eu ainda não conhecia.

9. Céu de Santo Amaro - Caetano Veloso e Flavio Venturini. Que delícia ouvir esta obra. A melodia de Bach depois de 200 anos se encaixou perfeitamente na letra composta por Venturini. Ouvindo-a me transporto ao céu de Rio Claro, minha cidade natal. À noite durante a infância, com menos iluminação que atualmente, ainda podia se ver as milhares de estrelas cintilando e durante o dia o azul  dominava e ainda domina o firmamento.

10. Carta ao Tom 74 - Vinícius de Moraes e Toquinho. A suavidade das letras de Vinícius são verdadeiros poemas. Ouço e me coloco no lugar do cantor sentindo toda a nostalgia que ele cita pois inevitavelmente as mudanças chegam levando embora pedaços de nossa história.

11. Autumn Leaves - Eric Clapton. Essa melodia também gosto muito na voz de Nat King Cole. O outono soa como despedida, mas que valoriza ainda cada momento presente. Usei-a como fundo musical numa crônica escrita por Rubem Alves, O Amor Não Envelhece.

12. Deixa a Vida me Levar - Zeca Pagodinho. Descontração sempre é bem-vinda. Essa alegre música me traz de imediato o nome de Carolina, que nos seus vinte e poucos anos cantarolava feliz essa música que nos deixa mais leves diante da realidade da vida.

13. Fortissimo - Rita Pavone. As músicas italianas sempre estiveram em minhas preferências, principalmente as românticas dos anos 60. Essa em especial me lembra na verdade outra gravada por Rita, a Datemi un Martello. No ano de 1964 a cantora se apresentou no Brasil pela primeira vez e entre outras músicas, cantou alegremente a Datemi un Martello. No dia seguinte ao da transmissão do show na televisão, ouvi a conversa entre um vizinho, sr. Euclides, e meus pais. Estavam chocados com o tipo de música e a maneira como ela estava vestida. Eu nos meus 12 anos vibrei com a apresentação dela, mas nem me atrevi a demonstrar isso, afinal naqueles tempos criança não entrava em conversa de adultos.

14. Je t'aime Ma Non Plus - Anthony Ventura. Essa música lançada em 1969 estourou no mundo todo. Era super moderna para a época e aqui no Brasil, em plena ditadura militar, assim que o sucesso se espalhou o governo a censurou e ela foi proibida de tocar na mídia toda.  Estávamos no último ano do Ensino Médio, Curso de Magistério, e no intervalo das aulas o Grêmio Estudantil (entidade que representava o corpo discente) que era presidido por um aluno (Luiz Carlos), colocava músicas para alegrar o ambiente escolar. Num certo dia estávamos na sala do Grêmio quando o presidente colocou para tocar justamente Je t'aime, que àquela altura já estava proibida. Lembro-me da diretora da escola vir correndo e entrar desesperada na sala gritando com o rapaz para que parasse a música. O medo das represálias por parte do governo era imenso.

    Enquanto escrevo estas palavras o Spotify está tocando a playlist. 

    Citei apenas uma pequeníssima parte da relação.

    A playlist completa totaliza 8h de músicas que contam, cada uma à sua moda, um pouquinho de minha história.

    Creio que todos nós revivemos momentos marcantes de nossa trajetória ouvindo as músicas de ontem, de hoje e de sempre, pois músicas de qualidade são atemporais.


Santos, 22 de fevereiro de 2025.

 


sábado, 8 de fevereiro de 2025

NÓS E O TEMPO





            Ouvindo a música Carta ao Tom onde Vinícius de Moraes evoca com nostalgia tempos felizes que vivera no Rio de Janeiro, dei-me conta de como o elemento tempo está continuamente nos acompanhando e quase sempre carregado de saudade e melancolia.

            O tempo é contraditório. Ele pode ser um fator que estimula ou desalenta, que alegra ou entristece, que consola ou aflige, mas quer queiramos ou não mexe conosco constantemente. 

          No início da vida queremos rapidez e desejamos que ele passe depressa, mas já na fase adulta nos sentimos atropelados e queremos freá-lo.

          Seja qual for o efeito dele sobre nós em diferentes momentos, é interessante observar que à medida que avançamos nos anos de vida, olhamos cada vez mais para trás  buscando aqueles tempos que nos abrem os baús das memórias afetivas trazendo as melhores e doces lembranças.

        Para mim e creio que para muitos a música é justamente uma das chaves que abre de imediato este baú tão rico e valioso por preservar nossa história de vida.

        O tempo não pára como já cantou Cazuza e tantos outros antes dele.

        É significativo o número de letras musicadas com este tema central.

        Adoniran Barbosa com seu jeito irreverente já cantou Envelhecer é uma Arte, assim como Fábio Jr canta Meus Vinte e Poucos Anos, Arnaldo Antunes com Envelhecer e  Não Vou me Adaptar, Aldir Blanc com Resposta ao Tempo maravilhosamente gravada por Nana Caymmi, Oração ao Tempo de Caetano Veloso, e tantas outras.

     Não há como negar que são letras muito inspiradas que cantam e nos encantam nas vozes dos artistas.

        As letras nos falam de momentos passados que o próprio tempo não consegue apagar.

        Em face da situação atual na qual caminha a humanidade encerro aqui com a prece de Vinícius em sua Carta ao Tom:

"É preciso acabar com essa tristeza, 

 É preciso inventar de novo o amor".


Santos, 08 de fevereiro de 2025.


 



sábado, 4 de janeiro de 2025

ZICA, URUCUBACA OU PURA DESATENÇÃO!




       Creio que todos nós já tivemos dias nos quais acontecem tantas coisas erradas que chegamos a desejar nem termos saido da cama pela manhã.

        O ano que se findou recentemente logo em seus primeiros dias já demonstrou que adversidades viriam ao longo dele. 

        Bem no início de janeiro o carro em que ela  estava descendo a Serra do Mar simplesmente "apagou" dando tempo somente para que sua motorista o conduzisse ao acostamento, aproveitando o embalo do veículo no declínio da estrada. 

        Contatos feitos com a seguradora deixavam claro que haveria dificuldade em se encontrar guinchos disponíveis.

      Dito e feito: ela e a motorista ficaram 6 horas presas dentro do veículo aguardando o guincho e o táxi que as levaria em segurança para a casa.

        Era um prenúncio de uma série de ziquiziras que, graças a Deus sem grandes consequências, ocorreriam ao longo de 2024.

       Na verdade apesar de algumas desventuras, este ano que terminou trouxe também momentos muito bons como o recebimento de visitas importantes vindas de além mar e de Rio Claro também, assim como novas amizades chegaram.

        E não é que até nos últimos dias já no mês de dezembro a zica, ou mesmo a pura desatenção, se manifestou novamente e em grande estilo?

        Hóspede em casa de familiar e na ausência dele (ainda bem) ela preparou-se psicologicamente para obter uma xícara de café na máquina elétrica. Convém esclarecer que ela é do tempo ainda da Mellita e do café coado.

        Postou-se diante do aparelho e lembrando as orientações recebidas sobre como usá-lo, providenciou uma caneca não muito pequena.  

        Como pretendia tomar café com leite teve a "brilhante" ideia de já colocar o tal leite nesta caneca, assim o café sairia e cairia direto sobre ele.

        No momento em que apoiou a vasilha na máquina e colocou a cápsula de café no devido espaço, observou que havia pouca água no reservatório do aparelho.

        Retirou então a caneca com leite do local, a colocou no alto do micro-ondas que se encontrava logo à esquerda e providenciou a água necessária.

        Na sequência e já se considerando uma expert no manuseio do material, ligou triunfante a cafeteira elétrica.

        Nos primeiros bruuuummm que a máquina fez, viu assustada que não havia recolocado a caneca no local para receber o café que estava prestes a cair.

        Pegou rapidamente a vasilha que estava sobre o micro-ondas.  

        Na pressa ela esqueceu que havia leite dentro da caneca que ao ser tombada derramou a totalidade do líquido sobre sua cabeça fazendo-o escorrer desde seus cabelos, passando pelo corpo e chegando aos seus pés, provocando uma sujeira considerável.

        É importante esclarecer que não desperdiçou o café pois ele caiu direitinho sobre a caneca vazia.

            Os primeiros pensamentos já às gargalhadas foram: 

            - Será que tem câmera escondida aqui?  

            - Será que leite faz bem aos olhos? Havia gotas de leite até nos cílios.

           O difícil foi fazer a limpeza do balcão, da cafeteira e do chão principalmente.

       Após tudo limpo (ao menos ela pensava assim), roupa lavada e banho tomado, finalmente pôde apreciar o café que a estas alturas já estava frio. O jeito foi esquentá-lo novamente e claro, acrescentar leite.

            Na chegada do proprietário ficou como se diz pianinho sobre o acontecido.

      Para sua surpresa entretanto, ele sentiu algo estranho no ambiente e perguntou se havia acontecido alguma explosão na cozinha. 

           Muito perspicaz observou na geladeira na parte de baixo da porta, manchas com cheiro de leite estragado.

        Ela não havia observado que o líquido tinha espirrado até na geladeira que estava em suas costas.  O jeito foi contar o sucedido.

        Ainda bem que não precisou ficar sentada no banquinho de castigo pensando na "trapaiada" que fizera.

        Para arrematar a fase de zica de 2024, após almoçar em um restaurante notou que sua comanda simplesmente havia sumido sem deixar rastros.

        Não teve outra alternativa a não ser apresentar no caixa duas opções: pagar quanto lhe fosse pedido, ou então, ir para a cozinha lavar os pratos.

        Felizmente o rapaz do caixa foi gentil e deve ter considerado a situação de freguesa prioritária devido à idade, cobrando um valor bem sensato.

            Agora neste novo ano espera que a urucubaca desapareça.


Santos, 4 de janeiro de 2025.


Obs: Ao Luís Fernando com os agradecimentos pela hospedagem e claro, com as minhas devidas desculpas pelas "trapaiadas".






quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

ESCRÚPULOS - PARA QUÊ?

                 


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                Há dias ando sentido necessidade de escrever algum conto ou crônica leve, para descontrair, para suavizar o dia, para despertar sorrisos.

                Entretanto tenho tido dificuldade em redigir tais temas diante de tantos fatos desagradáveis que a mídia nos mostra diariamente.

           São abusos gritantes de autoridades, são golpes perpetrados para beneficiar alguns em detrimento de muitos, são denúncias que chocam pela ousadia e por aí afora.

                    Mesmo sem querer acabo lembrando-me de uma propaganda antiga de cigarro feita pelo ex-jogador da seleção de futebol brasileira, Gérson, onde ele encerra sua fala dizendo que: "gosto de levar vantagem em tudo". 

                Este fato acabou ficando conhecido como a Lei de Gérson e teve uma péssima repercussão, sendo associado a comportamentos desonestos e moralmente questionáveis do ponto de vista ético.

            Infelizmente sabemos que há muitos seguidores desta "lei" e que se beneficiam dela usando e abusando do tal jeitinho brasileiro, que como sabemos na maior parte das vezes, corresponde a atitudes oportunistas e amorais.

                Conheço e com certeza todos nós conhecemos pessoas que podem ser consideradas doutoras nesta arte, e o que é pior, pessoas que sentem orgulho de seus feitos e de suas ditas espertezas, vangloriando-se de benefícios obtidos através do desprezível jeitinho brasileiro.

                Isto parece tão incrustado em nosso país que já não nos causa mais espanto, ao contrário, causa desalento, desânimo e até mesmo nos bloqueia a vontade de criticar, de virar o jogo, e acabamos assistindo passivamente o triunfo da falta de ética em todos os níveis da sociedade.

                Impossível não lembrar uma experiência própria quando discordei e não adotei uma certa atitude que era totalmente contrária às normas. O superior imediato diante de minha postura executou a ordem por mim negada e ainda deu um conselho que me chocou bastante:  "Na vida do dia a dia não se pode ter muitos escrúpulos"!

         Infelizmente constatamos isso diariamente ao observarmos o comportamento de um modo geral da população, mas principalmente de nossas autoridades que deveriam dar o exemplo e zelar pela ética no desempenho de suas funções. 

                São justamente essas ditas autoridades que praticam e seguem à risca a Lei de Gérson, obtendo vantagens de forma indiscriminada, passando por cima de questões éticas e morais.

                O caráter da população nacional não deve e não pode estar relacionado a estes comportamentos condenáveis.

                A descrença em uma mudança já dominou muita gente, mas ainda tenho a firme esperança que isto possa ser revertido, mesmo que seja a longo prazo.

                Ética, moral e escrúpulo, serão sempre bem-vindos!


Santos, 05 de dezembro de 2024.



sábado, 21 de setembro de 2024

PAURA






Olhar ameaçador!

Alguém em sã consciência já viu alguma pomba com olhar ameaçador?

Pois ele vê!

E não só em pomba. Vê este olhar em vários pequenos animais, desde mariposas e até numa inocente cigarra como uma que inadvertidamente teve o atrevimento de entrar em sua casa causando um alvoroço incrível.

Talvez uma conversa com terapeuta ajude a explicar os motivos de tanta paura.

Algumas lembranças de fatos da infância já corroboram para desvendar, ao menos em parte, o que desencadeia este comportamento exagerado em um adulto.

Com pouca idade ele via com certa frequência a funcionária da casa representar com as mãos e seus longos dedos, aranhas se deslocando sobre a mesa de forma assustadora em sua direção. Isto o fazia se afastar num átimo, aos atropelos.

Será que estes episódios desencadearam os temores por outros seres, mesmo que pequenos? Pode ser.

O fato é que cada contato acidental com animais tão menores que ele, resulta em atitudes inesperadas que provocam momentos muito hilários.

Atualmente são as pombas que têm caído pela chaminé, surgindo de maneira atabalhoada na sala.

Quando menos ele espera, o barulho do bater das asas seguido da visão de uma delas na lareira, já é sinal que vem confusão no pedaço.

Nem cogita a possibilidade de se aproximar para ajudá-la a encontrar a saída. Limita-se a abrir as janelas e rapidamente sai do ambiente, ficando de longe na torcida para que a inocente e atordoada pomba voe para longe.

Tem sido assim neste final de verão europeu.

Estou lembrando agora que a pomba é o símbolo da paz. Imagine se fosse o símbolo da guerra!

No exato momento que relato este fato está justamente acontecendo a visita de uma pomba, que segundo ele, tem olhares ameaçadores.

Ela está tranquilamente pousada sobre a TV, enquanto ele está fora da casa, espiando pela janela e torcendo para que o feroz animal vá embora.

Uma cena jocosa com gargalhadas garantidas.


Santos, 20 de setembro de 2024.


Ps: Um alerta a ele: está mais do que na hora de colocar a telinha

na chaminé, antes que entre uma ave de rapina.

Aí sim, teria motivos para correr.


domingo, 15 de setembro de 2024

A TRAVESSIA

            
Rio Claro/SP   -   Santos/SP

   

        A vida caminhou bem até então, dentro da rotina, sem fatos inesperados ou preocupantes que alterassem o cotidiano.

        Isso foi bom e ruim ao mesmo tempo. Bom pela ausência de problemas, mas ruim pois nesta situação a pessoa acomoda-se na chamada zona de conforto e estanca a vida. Era assim que ela se sentiu: estagnada. 

        Reconheceu que havia chegado o momento de fazer a travessia. 

        A insegurança claro que se fez presente, mas a vontade de dar uma guinada na estrada foi bem mais forte.

        A vida profissional estava resolvida. Havia chegado a hora de deixar seu lado pessoal se expandir, explorar novas atividades, sem amarras com qualquer compromisso de trabalho.

        O que a deixou mais pensativa foram justamente as ligações afetivas, todas criadas e desenvolvidas ao longo de mais de cinco décadas vivendo na mesma cidade e na mesma casa. Cada rua, cada avenida, despertavam de imediato, lembranças de algum fato importante. Aprendera desde a infância a amar aqueles cantinhos que até hoje chama de seus.

    Com relação aos familiares e amigos, o mesmo se passou. Totalmente descartada a possibilidade de distanciar-se de todos.

       Os momentos de indecisão foram vários, mas a vontade de explorar novas experiências sempre foi muito forte e suplantou todos empecilhos.

        Foi assim que, chegando a oportunidade de optar pelo novo caminho a seguir, lembrou-se de Santos que a encantou quando tinha 14 anos.

        Já havia visitado a cidade aos 3 anos de idade, mas nenhuma lembrança ficou, a não ser as poucas fotos em preto e branco feitas na praia e no famoso leão do Gonzaga. Entretanto, na adolescência, Santos lhe cativou.

        A imagem das palmeiras imperiais na Av. Dona Ana Costa, os hotéis na região, o jardim, a praia, tudo isso estava bem gravado em sua memória. 

        Nem cogitou outro local - Santos já havia entrado em seus sonhos.

        Chegou de mudança em um final de ano. Sozinha e sem conhecer ninguém.

    Pouco a pouco foi tomando ciência dos lugares, dos passeios, fazendo amizades e muitas caminhadas nos calçadões. 

      Estranhou a princípio o fato de caminhar por tempos sem encontrar conhecidos.     Era comum deparar-se com amigos toda vez que saía na rua em sua cidade natal. 

       A época da mudança também foi muito favorável.  A cidade estava decorada para as festas natalinas.

       Famílias inteiras passeando no bem cuidado jardim, ruas planas, a beleza da natureza, tudo isso deu-lhe uma sensação muito boa. A alegria das pessoas a contagiou.

     Hoje, mais de duas décadas transcorridas, o encantamento pela cidade só aumentou. 

      O pôr do Sol, a chegada e saída de navios de cruzeiros do porto, veleiros no mar, o colorido das flores do jardim contrastando com o verde da vegetação e o azul do céu, o centro antigo com ainda alguns prédios históricos, museus, o belíssimo prédio que abriga a Pinacoteca Benedicto Calixto, e até as apresentações de arte como o Projeto Chorinho no Aquário, etc.

     Sua cidade natal continua sendo amada por ela e sempre que possível vai rever amigos e familiares que por lá deixou, mas com certeza Santos se apoderou definitivamente de sua alma.

Santos, 25/03/2024


 

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

UMA PAIXÃO CHAMADA VELO CLUBE RIO-CLARENSE


      O ser humano é mesmo uma caixinha de surpresas.
    A despeito de todos estudos existentes sobre a psique do homem, sempre nos surpreendemos com comportamentos que por si só não têm explicações bem objetivas.
      Isto é até favorável se considerarmos que tudo o que é previsível,  acaba tornando-se monótono, anulando o impacto da surpresa, principalmente quando esta for positiva, claro.
   Assim acontece por exemplo, com a verdadeira paixão que as pessoas nutrem por times esportivos, especificamente pelo futebol.
       Sabemos que todos os esportes agregam grandes torcidas, mas a bola no pé se sobressai no mundo todo, com poucas exceções. 
      Todo este preâmbulo ocorre devido ao próximo aniversário do Velo Clube Rio-Clarense, time de futebol que como seu nome diz, existe na cidade de Rio Claro/SP.
    No próximo dia 28 de agosto ele completará 114 anos e obteve em sua última campanha, o acesso à Primeira Divisão do futebol Paulista.
      Cresci vendo como decoração de meu quarto de menina, as paredes tomadas por vários quadros com fotos de símbolos e de jogadores velistas das décadas de 50/60.
    Acostumei ver meu pai sair todos os domingos logo após o almoço, e dirigir-se ao campo do Velo, houvesse ou não jogo.
     Muitas vezes eu e meu irmão,  ainda crianças, o acompanhávamos e sabíamos até os nomes dos jogadores.
       Lembro do grupo de amigos de meu pai que também traziam o time no coração e na alma, como os irmãos Chacur, Benito Castellano, Betinho Borges, Márcio Aily, Edgar Ribeiro, Toninho Catelani, Taufik Simão, Antônio Morgado, Arlindo Schmidt, Antônio Carlos Trivelato, Sebastião Schmidt (Tana), Anésio Spiller, Lenio Mônaco, Japyr Pimentel, Sérgio Cerri e tantos outros. A lista é grande.
        O que me surpreendia (e até hoje carrego essa sensação) era observar como ele, que no núcleo familiar era extremamente contido e tinha grande dificuldade em demonstrar seus sentimentos,  quando o tema era o Velo deixava a emoção transparecer vivamente. 
    Falava do Clube com uma admiração  incrível mesmo diante de situações difíceis pelas quais muitas vezes o time passou.
  Confesso que tal paixão provocou momentos  de discussão no seio familiar. Isso ocorreu até compreendermos que era no futebol, e só  através do Velo, que ele se permitia extravasar sentimentos. 
    Com certeza em seu peito pulsava um coração vermelho com a cor verde ao lado. Amor sem comparação. 
   Agora que se aproxima mais um aniversário do time e justamente um momento importante para os velistas, Italo Cerri, aonde quer que esteja, sorrirá e festejará ladeado pelos amigos que com ele acompanharam o time em todos os maus e bons momentos. 
       Ficam aqui meus parabéns  ao Clube, meu desejo de sucesso nesta próxima campanha e também meus agradecimentos pelas alegrias  proporcionadas ao meu pai.


Rio Claro, 16 de agosto de 2024.

Para Italo Cerri e todos os velistas de coração e alma.
 
 


sexta-feira, 17 de maio de 2024

ZÉ GRANDÃO



         O rapaz abriu apenas por poucos instantes a porta de madeira do armário.

       Entre materiais escolares e de escritório, objetos de venda daquela papelaria, ela viu rapidamente um pacote volumoso embrulhado em papel celofane transparente.

       Foi-lhe pedido que não comentasse com ninguém o que vira. Nenhuma outra informação foi dada, apenas que seria seu presente de aniversário pelos 6 anos de vida. 

       Só teve tempo de ver que tinha a cor amarela e era algo grande.

       Mas o que seria?

    Silente, cumprindo a promessa feita, aguardou paciente o dia de seu aniversário para constatar o que realmente havia naquele pacote.

     E a surpresa foi grande, literalmente grande. Era um urso de pelúcia amarelo pouco menor que ela. Abraçá-lo exigia até um certo esforço. 

       De imediato ganhou o nome de Zé Grandão por causa de um personagem de revista em quadrinhos, que sempre acompanhado de uma raposa chamada João Honesto (que na verdade não era tão honesta assim), viviam perseguindo o coelho Quincas.

      Zé Grandão ganhou lugar de honra no quarto ficando  sentado sobre a cama quando não estava envolvido nas brincadeiras da garota.

    Com o passar dos anos ele foi promovido de brinquedo à confidente da já pré-adolescente.

   Ouvia calado e atento as queixas daquela amiga que com ele desabafava situações em que se sentia incompreendida pelos adultos.

    O tempo passou e agora com os pelos escurecidos pois não podia ser lavado (seu interior era todo de palha) e com alguns pontos rasgados nas patas, Zé Grandão continuava firme em seu posto sobre a cama.

    Até que um dia acharam por bem se desfazer do velho urso e isso foi feito sem prévio aviso á sua dona, agora já adulta.

     Quando sua falta foi sentida, Zé Grandão já estava longe de sua antiga morada.

    Causou uma certa decepção a quem realmente deveria decidir seu destino, mas como ele já estava bem roto, não havia muito a contestar.

    Anos se passaram e certo dia, para surpresa daquela menina agora uma mulher, ao entrar no quarto deparou-se com um urso também grande, com pelos escuros, laço vermelho no pescoço e ocupando a mesma posição do anterior.

    Recebeu de imediato o nome de Zé Grandão em homenagem àquele que tanto alegrou a garota de 6 anos, além de ter sido seu confidente durante a adolescência e companheiro por tanto tempo.

   O novo Zé Grandão que agora pode tomar banho, já que é feito de material lavável, mudou-se também para Santos e hoje ocupa lugar de destaque sentado na confortável poltrona do quarto. 

    Está ali trazendo lembranças felizes de uma infância que já vai longe! 


Santos, 17 de maio de 2024



 




segunda-feira, 8 de abril de 2024

BULLYING SEMPRE EXISTIU

 



            Vez ou outra um comentário, uma palavra, uma foto, nos lembram momentos interessantes que vivemos recentemente ou mesmo há muitos anos.
           
           Lembranças antigas da cidade mostradas recentemente numa rede social, de imediato lhe trouxeram à mente um fato marcante que até hoje a surpreende.

           Época: antigo Curso Primário, atual Ensino Fundamental I. 
          
          Escola: “Marcello Schmidt”.
          
         Com um ano apenas de diferença na idade, os dois irmãos cursavam ele a 4ª série e ela a 3ª série.

        Nesta fase ela era um tanto espevitada, enquanto ele era tranquilo, calmo e ignorava qualquer provocação. Ficava sempre como se diz, “na dele”.

       Talvez devido a este posicionamento um colega de classe passou a provocá-lo, adotando um comportamento que hoje chamamos de bullying.

      Sempre na saída das aulas ele levava um tapinha na cabeça, uma puxada de orelha, ou outra hostilidade qualquer. Nunca reagia, não dava a menor bola.

        Os irmãos e o provocador sempre faziam o mesmo trajeto ao saírem da escola até chegarem ao jardim público. A partir daí os caminhos se diferenciavam.

       Certa vez a irmã cansada de ver tais provocações, resolveu tomar uma atitude e a fez em total silêncio, sem comentar nem com os pais.

      Como era bem menor que o garoto agressor, sabia que não teria chance ao enfrentá-lo cara a cara. Lembrou-se então da enceradeira que havia na casa e que era usada para dar brilho ao assoalho. As três escovas de sua parte inferior eram unidas por uma borracha grossa e forte que às vezes escapava da tal enceradeira.

            Era a arma que ela precisava.

         Na manhã seguinte, antes de seguirem para a aula, a garota retirou a dita borracha do local e a guardou dentro da bolsa escolar, esperando a oportunidade para usá-la.

         Naquele dia retornaram novamente juntos para casa sendo seguidos de perto pelo importunador. Ao chegarem ao meio do jardim público, onde até há pouco tempo existia uma banca de revistas, eis que seu irmão leva um tapa na cabeça.

        Ela imediatamente pegou a borracha de dentro da bolsa e sem que o outro tivesse tempo de se defender, começou a desferir borrachadas em suas pernas.

        Naquela época o uniforme escolar dos meninos era uma calça curta, o que deixava as pernas totalmente à mostra.

        Pego de surpresa, o autor do bullying começou a correr e foi seguido de perto pela garota que continuou a lhe acertar as pernas com a borracha.
     Fizeram várias voltas em torno da banca de revistas enquanto o proprietário, senhor Edgar, incrédulo, só olhava a cena.

         Finalmente o provocador saiu em disparada rumo à sua casa.

         A partir daquele dia, o bullying nunca mais aconteceu.

        Para ela a enceradeira tinha sido muito mais útil do que simplesmente dar brilho ao assoalho.
 

Santos, 07 de abril de 2024

Nota: Para Angela Hilsdorf pela recordação da banca do sr. Edgar, e ao W.B. que já praticava o bullying há muitos anos.

 Aí está a borracha preta contornando as 3 escovas.


quarta-feira, 27 de março de 2024

AFEIÇÃO E INDIFERENÇA

 


          A cada ano que passa, e já se vão várias décadas desta minha existência, mesmo sem planejar ou desejar, acabo fazendo comparações buscando analogias e diferenças em meu modo de pensar e me relacionar com o mundo, durante todo este tempo.

        Observo alterações muitas vezes significativas.

        Na infância e se estendendo até o início da fase adulta, prestes a entrar no mercado de trabalho, é inerente e esperado que todos tenhamos muitos objetivos a alcançar, sonhos a realizar, sempre buscando um crescimento pessoal e também sucesso na vida profissional.  

      Claro que estas realizações quando atingidas com resultados altamente positivos, trazem consigo na esteira, facilidades para aquisição de bens de um modo geral. Isto é perfeitamente compreensível.

     Estamos, porém, presenciando atualmente uma verdadeira febre que costuma se chamar  ostentação. 

       Pessoas ainda bem jovens que por um ou outro motivo conseguem se destacar dentre as demais (não entrarei no mérito deste fato), sentem uma necessidade enorme em exibir bens adquiridos, passeios caros, vida de luxo, numa ambição sem limites.

       Nada contra.  Cada um faz de sua vida o que lhe apraz, mas sinto uma vulnerabilidade enorme nesta tal ostentação, pois se deseja um objeto apenas para tê-lo, sem significado maior além da pura exibição.

       Entretanto, voltando à análise de como enxerguei a vida nestes anos todos, observo que apesar de nunca ter sido consumista,  o tempo me tornou mais seletiva ainda.

       É a tal dicotomia: afeição e indiferença.

      Não é qualquer fato ou coisa que me atraia ao ponto de desejá-la ardentemente. 

      Noto que as coisas que mais me falam à alma, mais tocam meus sentimentos, além é claro, das pessoas com as quais convivo, são objetos que carregam em si, uma parte de minha história de vida.

     Assim é com uma mesa que está na família há muitos anos, uma jarra de porcelana, plantas que minha mãe cuidava com carinho, uma roupa que usei numa ocasião de plena felicidade, um local onde estive na companhia de pessoas que amo, um casa onde morei por anos e que me recorda momentos bons vividos em cada cantinho dela, assim como as pessoas que a compartilhavam.

      Já me disseram, que coisas são coisas, assim como Chico César canta na música “De uns tempos para cá”. * 

      Claro, concordo que coisas são meramente coisas. Não é necessário ser discípula de Platão ou Sócrates para entender isso.

       Reafirmo, entretanto, que aprendi através da vivência de décadas, que há coisas que são relevantes, justamente por nos trazerem lembranças boas, lembranças queridas que por si só, são excelentes companheiras. 

        Por estas eu tenho afeto, e me orgulho disso!

Santos, 27 de março de 2024


*Música: DE UNS TEMPOS PARA CÁ

Autor: Chico César

De uns tempos pra cá

Os móveis, a geladeira

O fogão, a enceradeira

A pia, o rodo, a pá

Coisas que eu quis comprar

Deu vontade de vender

Pra ficar só com você

Isso de uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá

O carro, a casa, o som

Tv, vídeo, livros, bom

O que em tese faz um lar

Admito eu quis comprar

Começo a me arrepender

Pra ficar só com você

Isso de uns tempos pra cá

Coisas são só coisas

Servem só pra tropeçar

Têm seu brilho no começo

Mas se viro pelo avesso

São fardo pra carregar

Coisas são só coisas

Servem só pra tropeçar

Têm seu brilho no começo

Mas se viro pelo avesso

São fardo pra carregar

De uns tempos pra cá

O pufe, a escrivaninha

Sabe a mesa da cozinha?

Lençóis, louça e o sofá

Não precisa se alterar

Pensei em me desfazer

Pra ficar só com você

Isso de uns tempos pra cá

De uns tempos pra cá

Telefone, bicicleta

Minhas saídas mais secretas

'To pensando em deixar

Dê no que tiver que dar

Seu amor me basta ter

Pra ficar só com você

Isso de uns tempos pra cá

Coisas são só coisas

Servem só pra tropeçar

Têm seu brilho no começo

Mas se viro pelo avesso

São fardo pra carregar

Coisas são só coisas

Servem só pra tropeçar

Têm seu brilho no começo

Mas se viro pelo avesso

São fardo pra carregar