quinta-feira, 27 de outubro de 2022

A TURMA DA RUA 2




Passeando recentemente pelas calçadas que tantas e tantas vezes andei da infância à fase adulta, fui olhando para as casas do quarteirão, uma a uma, recordando como eram as arquiteturas nos anos 60, relembrando as famílias e mentalmente citando seus nomes um por um. Lembro de todos principalmente das crianças.

Dos moradores de minha época não há mais nenhum ocupando sua antiga casa.  Na verdade, há ainda uma pessoa que não chegou a compartilhar dos folguedos de minha turma, mas brincou com minha irmã caçula. Juliana permanece como representante da Rua 2.

Neste intervalo de quase 6 décadas houve uma mudança incrível no quarteirão e  praticamente nada lembra o cenário de minha infância.

Eram casas simples, outras um pouco mais elaboradas, mas sempre abrigando pessoas que valorizavam a amizade acima de tudo.

Não há como esquecer a residência do pianista Eugênio Benetti. Além do som belíssimo que se fazia ouvir, a família costumava colocar sobre as muretas na frente da casa, lindas e coloridas araras que lá ficavam enfeitando e encantando os olhos da meninada. Nunca cheguei a ver, mas os adultos contavam que Geninho fazia suas serenatas à noite colocando o piano sobre a carroceria de um caminhão e percorrendo as ruas da cidade. Imagino a emoção de quem recebia tais serenatas.

Asfalto ainda não havia chegado e era sobre o calçamento de paralelepípedos que a criançada toda noite se reunia para as brincadeiras de rua.  Eram muitas.

Lembro que quando íamos brincar do que chamávamos de Pai da Latinha (uma variedade de pega pega), colocávamos uma lata bem no cruzamento da rua 2 com a avenida 8 e o dono da lata contava até 10 enquanto a molecada se espalhava pelo pedaço. Ele tinha que alcançar alguém sem deixar que ninguém viesse tocar na dita cuja lata. Se ao menos relasse em alguma criança ambas trocariam de função e ele ficaria livre de tomar conta da latinha.

Só de pensar no local já se conclui o pouco trânsito que havia neste pedaço.

Ainda neste mesmo cruzamento sobre o bueiro que ainda deve estar lá, meu pai acendia fogos de artifício na época das festas juninas.  Colocava o que se chamava vulcão e era lindo ver aquela explosão de cores e luzes subindo bem alto.

Futebol era meio constante. As portas de aço das casas comerciais serviam como gol.

Entretanto o que mais me recordo eram as turmas.

Nós nos identificávamos como a Turma da Rua 2 e outros meninos moradores na rua de baixo, entre as mesmas avenidas (8 e 10), se intitulavam Turma da Rua 3. Como era de se esperar havia rivalidade entre ambas.

Para quem morava na 3, passar pela rua 2 a qualquer hora do dia significava provocação.  O mesmo ocorria quando alguém da 2 ousasse passar pela rua 3.

Lembro-me que toda vez que tinha que ir na antiga Padaria Gaib (esquina da rua 3 com avenida10) eu ia e voltava usando apenas a rua 2 e avenida 10 como percurso. 

De vez em quando uma guerrinha surgia entre as turmas. O campo de batalha era a avenida 8 entre as duas ruas.  Para estas ocasiões fazíamos estoque de munição: tampinhas de refrigerantes amassadas ao meio. Elas eram lançadas com estilingues.

Apesar de serem somente tampinhas doía bastante quando éramos alvejados.

Muitos anos depois em uma consulta com um dermatologista em Rio Claro, ele reconheceu-me. Lembrou-se da infância e em particular das Turmas das Ruas 2 e 3. Éramos inimigos naqueles tempos.

Por um bom período fui a única menina do pedaço já que minha irmã nasceu anos depois. Não tive muita escolha: era entrar nas brincadeiras dos meninos ou ficar de fora olhando. Confesso que morria de medo do carrinho de rolimã (Geórgeres andava como se fosse piloto de Fórmula 1) e também não gostava de ficar no gol pois tinha medo das boladas.

Flávio era o expert em empinar papagaios. Sempre os colocava nas alturas para orgulho do pai Euclides (proprietário da loja Bazar da China).

Até um ringue de luta de box como manda o figurino foi montado certa vez na casa do Beto (Casa da Borracha). Meu primo Francisco foi escolhido para massagista e adaptou uma malinha infantil de viagem com esparadrapos e que tais.  Colou até uma cruz branca na tampa da mala. Lembro que a disputa mais esperada foi Beto x Luiz Ângelo (Cerri). Não me lembro quem ganhou, mas isso nem nos importava. O que valia era a festa que fazíamos nas brincadeiras.

A maior parte dos prédios abriga atualmente casas comerciais. A região central da cidade se expandiu e atingiu nosso reduto infantil.   Novos tempos.

Não se vê mais a criançada em turmas brincando nas calçadas e ruas.  Na cidade como em todas as outras os vizinhos mal se conhecem e se cumprimentam.

São as consequências do mundo moderno que nos trouxe tantos benefícios nas áreas da saúde, tecnologia, educação, etc, mas em contrapartida, abafou de vez a alegria dos gritos infantis que se ouviam nas ruas e esquinas de minha infância.

 

Santos, 27 de outubro de 2022

OBS.: Aos amigos desta época que nos deixou grandes e belas lembranças.


 

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

ETIQUETA x ESPONTANEIDADE

 


Etiqueta e finesse há tempos estão cada vez mais esquecidas e em plena decadência. As gerações mais novas pouca ou nenhuma importância dão às normas de conduta com finura de maneiras e protocolos de um modo geral.

Já se foi o tempo em que era uma exigência em muitas famílias, principalmente nas consideradas nobres e elegantes sentar-se à mesa e portar-se com cerimônia sabendo como usar corretamente todos os talheres, como se servir e como manter uma conversa adequada durante uma refeição.

A vida corrida dos tempos atuais quando boa parte das pessoas almoça em horários distintos e até fora de casa, sem oportunidade de reunir a família, aliada à praticidade do mundo moderno, acabou por abolir muitas destas etiquetas.

A despeito disso há ainda sem sombra de dúvidas, maneiras de se portar e se comunicar com as pessoas de forma delicada e elegante, sem beirar ao exagero.

Porém há situações nas quais a espontaneidade da pessoa acaba desencadeando conversas que se tornam hilárias e desprovidas de qualquer finesse.

Foi o que ocorreu recentemente.

Preocupado em avisar a tempo todos os envolvidos sobre a falta de água que ocorreria em minutos no edifício, o responsável pelos recados acabou provocando risos pela maneira apressada e meio atabalhoada de se expressar.

De maneira nenhuma foi falta de educação ou respeito. 

Ao contrário, a pressa, a preocupação e a maneira instintiva e sincera de divulgar o aviso, acarretou em frase hilária, mas perfeitamente entendida pelos ouvintes.

- Senhora, a água vai parar daqui a pouco.  Se tiver que ir ao banheiro, vá já!

Impossível não achar divertido receber tal aviso de maneira tão simplista e que a despeito da importância dele provocou muito riso.

O jeito foi mesmo seguir as instruções e ir ao banheiro, armazenando na sequência dois baldes de água prevendo demora no retorno do precioso líquido.

Pensando mais sobre a frase conclui que ela poderia ter sido mais explícita ainda.

Ainda bem que não chegou a este ponto......kkkkkk

 

Santos, 26 de outubro de 2022


sexta-feira, 9 de setembro de 2022

NOSSAS MEMÓRIAS AFETIVAS

 

                                                                    Óleo sobre tela - Sandra de Pinho


Como é difícil, eu diria até quase impossível, não fazermos comparações entre os tempos atuais e os que vivemos há algumas décadas durante a infância, juventude e início da fase adulta.

Com certeza as mudanças em todos os sentidos sempre ocorreram e sempre ocorrerão; elas são necessárias para não ficarmos estagnados na mesmice.

A despeito de entender perfeitamente isso, confesso que tenho dificuldades em assimilar e simpatizar por exemplo com as músicas tipo funk, trap, rap, sertanejo pop, sertanejo universitário, etc.

O mesmo fato se dá com relação a outras manifestações artísticas como teatro na atualidade (algumas stand-up são lamentáveis) bem como certas pinturas abstratas demais para meu gosto.

Interessante que gosto e curto telas tipo expressionismo abstrato, cubismo e expressões geométricas como as telas de Mondrian. Ressalto aqui inclusive o trabalho muito bonito de uma amiga que foge das telas acadêmicas e consegue colocar em seus trabalhos sua expressividade maior através do jogo de cores e formas. (Sandra de Pinho*).

Foi lendo recentemente um texto de Leandro Karnal** que entendi um pouco esta resistência de minha parte, às mudanças bruscas deste século XXI.

Neste artigo que denominou ESSA EU CONHEÇO, ele cita Proust e recorda que nossas preferências dialogam com nossas memórias afetivas.

Ou seja, um cheiro de um alimento que adorávamos na infância, ao ser sentido, nos remete diretamente a esta fase da vida e a momentos alegres.

Com as artes também ocorrem fatos similares.  É comum ouvirmos (eu mesma falo) que as músicas de meu tempo eram muito mais bonitas que as atuais.  Com toda certeza as que mais aprecio são as que fizeram fundo musical em minha infância, adolescência e juventude. Isto também acontece por conta da memória afetiva de momentos significativos.

Faço, entretanto, uma ressalva sem querer idealizar o passado: não sou musicista e” malemal” brinco no teclado, mas em minha opinião, a poesia e o lirismo que havia nas letras e melodias das músicas “do meu tempo e dos tempos que me antecederam” eram mais elaboradas, mais criativas e envolventes.

Realmente os tempos são outros, o mundo mudou e o jovem tem sua própria identidade que manifesta da maneira como aprecia, como sente a vida, e não como a sentíamos há algumas décadas. Cada um em seu tempo.

Concluo pensamentos com a frase usada por Karnal ao final de seu texto:

“Fico à toa na vida, olhando a banda passar, pensando naquilo que era bom...Esperança para o futuro e alguma melancolia para hoje”. 

 

Santos, 09 de setembro de 2022

 

* Sandra de Pinho - Exposição TODAS AS CORES, em Galeria de Artes Braz Cubas, Centro de Cultura Patrícia Galvão - Santos - 2017. 



**Leandro Karnal – Crônica ESSA EU CONHEÇO, publicada no jornal O Estado de São  Paulo -31 de agosto de 2022.

sábado, 18 de junho de 2022

Nós e os lusos

 


          Nada mais curioso e divertido do que vivenciar ou mesmo ouvir as histórias de gafes na comunicação entre brasileiros e os descendentes de nossos colonizadores.

          Nestes últimos tempos nos quais constatamos um número cada vez mais crescente de migrantes partindo de nossa terra com destino a Portugal, os choques principalmente no vernáculo são constantes a despeito da língua pátria ser a mesma.

          Na verdade todos sabemos que o idioma português não permaneceu em sua antiga colônia de maneira pura e simples. Em terra tupiniquim ele foi recebendo ao longo dos anos uma conotação abrasileirada.

          Diante disso há expressões e costumes com significados totalmente diversos nos dois países.

          Aí as gafes são inevitáveis e as gargalhadas também, principalmente por parte dos brasileiros já que os lusos são bem mais contidos.

          Foi uma dessas situações presenciadas em uma doceria de Lisboa.

          Após o cordial atendimento por parte da funcionária, alguém resolveu agradecer com mais ênfase e dirigindo-se a ela soltou em alto e bom som para todos ouvirem:

- “Obrigado moça!”

          Na hora viu-se o semblante dela fechar-se numa carranca e num tom ríspido ela devolveu:

-“ Não sou moça, sou rapariga. Aqui moça é mulher que não presta”.

          O espanto foi geral entre os brasileiros.

          Outra dificuldade foi comprar um simples lubrificante para maçanetas. A orientação dada foi para se dirigir a uma drogaria. E lá foi ele todo pimpão seguindo as dicas do caminho. Topou com uma farmácia e na hora concluiu que tinha chegado ao local indicado.

          Para seu espanto havia nas prateleiras apenas e tão somente remédios.

          Aparvalhado (expressão rotineira em seu rosto ultimamente), perguntou ao atendente que o orientou a ir numa drogaria.

          Já se preparando para pagar um micão, timidamente e até com certo receio, perguntou:

-“ Uai! Aqui não é uma drogaria?”

-“ Não! Em Portugal farmácia vende remédios e drogaria vende materiais básicos para ferragens, gás, rede elétrica, etc.”

          Lá saiu ele em busca de uma drogaria novamente!

          É notório que os lusos levam as frases citadas ao pé da letra.

          Vai daí que novamente a “parvice” entra em ação.

          Ao ser solicitado o número de seu documento, lampeiro e querendo facilitar, soltou:

-“ 5, 8, 9 e meia dúzia “.

          Na hora a rapariga parou de digitar. Ele pensou: Pronto! Já fiz alguma burrada!

          A jovem com certa carga de ironia lascou a pergunta:

-“ Meia dúzia de quê?”

          Ele não segurou a gostosa gargalhada, fazendo a atendente zombeteira rir junto.

          Outro ponto de confusão foi com a letra K.   Soletrando uma palavra preocupado em oralizá-la corretamente, foi logo ditando:

-“ B- A - F - K”.

          Foi o que bastou!

          A jovem parou de digitar e olhou seriamente para ele. Seguiu-se o curioso diálogo:

-“ Depois do F vem o C e o A?”

-“ Não!!!! Depois do F vem o K”, ele respondeu.

-“ Então, isso é o C mais o A”!!!!

-“ Não é não! É o K sozinho!!!”

          Já um tanto irritada a rapariga afirmou:

-“ Essa letra não existe!”.

          O olhar embasbacado estava estampado em seu rosto! Já pensando em invocar Fernando Pessoa e todos seus heterônimos, ou até Camões se preciso fosse, ele se indignou:

-“ COMO ASSIM???”

          E ato contínuo pegou o documento e indicou a letra para a jovem. E ela:

-“ Ah!! Essa letra se chama capa”.

-“ Capa?????”

-“ Sim! Portanto depois do F vem o capa!”

          E assim de gafe em gafe ele vai aprendendo os costumes lusos, aprendizado este sempre acompanhado de uma bela gargalhada ao final, ao menos da parte dele!!!


Santos, 18 de junho de 2022.

Para Edo pelas dicas, pela colaboração e por estar sempre fornecendo motivos para boas e saudáveis risadas!

Nota: O K vem do grego Kappa, portanto capa!

quinta-feira, 28 de abril de 2022

EDWARD x VAN GOGH

 



A preguiça é um dos pecados capitais e graças a ela há a procrastinação,  a apatia e até o desmazelo.

Quem de nós já não curtiu momentos de uma gostosa e pura preguiça que ocorre vez ou outra? É uma delícia deixar o corpo relaxado e a mente livre de preocupações, deixando passar por ela somente situações leves de puro relaxamento.

Com ele não é diferente, ainda mais quando alguma atitude a ser tomada diga respeito à elegância no trajar ou alguma mudança em seu visual. Aí então a procrastinação é certa, a despeito das cobranças  familiares. 

Diante da aproximação de uma viagem para rever familiares e amigos após anos ausente, acabou cedendo aos pedidos para dar o que chamamos de "um tapa no visual".

Seus cabelos rebeldes e num comprimento um pouco exagerado davam-lhe um aspecto de relaxo e total descuido. 

Em função disso resolveu atender aos apelos da família e concordou ao menos em aparar um pouco suas melenas, desde que tal fato se fizesse em casa mesmo, sem ter que recorrer a algum salão para isso.

Resignado ele pegou o pente para colocar no aparelho cortador de cabelos. Por conta de uma distração qualquer, ou por força da idade que o classifica como idoso, acabou pegando o tal pente específico para cortar barbas.

Para quem desconhece tais objetos, o pente para barba realmente quase rapa enquanto o pente para cabelos apenas apara.

Tudo acertado ele calmamente sentou-se imóvel enquanto a esposa providenciava os equipamentos necessários como toalha, pente e ... uma tesoura bem afiada.

Foi quando o espírito de Edward Mãos de Tesoura baixou de vez.

A primeira cortada que foi literalmente da nuca para o cocoruto já causou um belo estrago visto que quase rapou o couro cabeludo. 

Somente neste momento foi observada a troca do tipo de pente colocado no aparelho cortante, mas àquelas alturas Edward já estava muito empolgado e continuou seu trabalho com a tesoura: molha aqui, penteia ali e as tesouradas seguiram derrubando os cabelos sobre a toalha.

A princípio tudo caminhava como manda o figurino até que, e sempre há um senão, ouviu-se um berro que fez Edward dar um pulo para trás.

Num descuido a ponta da tesoura avançou além do necessário e atingiu a parte superior da orelha. O gemido foi alto provocando momentaneamente a suspensão da tal poda para que um curativo fosse feito já que sangrava bastante.

Foi quando ele ao olhar no espelho sentiu-se o próprio Van Gogh de terras lusitanas

Atrás de si Edward ainda brandia assustadoramente a tesoura.

Curativo feito e mais resignado ainda, submeteu-se novamente ao instrumento cortante pois do jeito que estava, metade rapado e metade cabeludo, não daria mesmo para deixar. 

Como ele gosta de viver perigosamente, continuou firme e forte sentadinho na cadeira enquanto ouvia o téc téc da tesoura livrando-o das madeixas.

Conformado pensou consigo que se não ficasse com uma aparência mais bonita, ao menos poderia ser comparado ao famoso pintor e sua orelha decepada.

Edward Mãos de Tesoura não ouviu, mas ele orava em silêncio pedindo clemência para a outra orelha que lhe restava intacta ainda!

 

Santos, 28 de abril de 2022

Para a dupla que me faz rir mesmo estando há mais de 8000 Km de distância.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Espírito DA luz

                                        

 

Madrugada corria solta e o silêncio e escuridão imperavam naquele quarto.

Seu sono sempre muito leve foi despertado por uma sensação estranha de repentina luminosidade no ambiente.

Mudou sua posição na cama para melhor se ajeitar. Foi quando percebeu mesmo com as pálpebras ainda cerradas, uma claridade bem perto de si.

Ainda sem entender, sonolento, abriu vagarosamente os olhos e o que viu lhe causou um grande espanto fazendo-o recuar instantaneamente na cama.

De dentro do armário com a porta semi cerrada, saia um raio forte de luz que iluminava parcialmente o quarto.  Piscou várias vezes tentando compreender o que estava vendo.

Ao constatar aquela fonte de luz saindo pela fresta da porta, um calafrio lhe desceu pela espinha e num átimo saltou da cama pelo lado oposto ao do armário. 

O que se passava? 

Seria um sonho? Seria um pesadelo? Seria algum espírito que se instalara dentro de seu guarda-roupas?

Ainda atordoado ficou pensando em como desvendar o mistério sem se aproximar muito, já que desconhecia a causa daquilo.

Olhou à sua volta e viu seu chinelo sobre o tapete. Resolveu usá-lo como arma e num gesto rápido lançou-o com força contra a porta do armário.

Nada aconteceu. A luz continuou firme e forte a brilhar lá dentro.

Contornou a cama muito ressabiado pensando em sair do quarto e se afastar, pois talvez algum espírito estivesse no ambiente.

Seria algum espírito brincalhão? Melhor levar todas as hipóteses em consideração pois de repente era algum mal que ali se instalara.

Como ainda faltavam horas para o dia clarear, chegou à conclusão que o melhor a fazer era desvendar de vez tudo aquilo.

Munido de toda a coragem que conseguiu reunir aproximou-se pé ante pé do armário segurando na mão o outro pé de chinelo, única defesa que tinha no momento.

Prendendo a respiração e mantendo o corpo o mais distante possível do armário, com sua "arma" improvisada, deu um grande safanão na porta que estava meio aberta e no mesmo instante deu um salto para trás buscando se proteger mais ainda.

Foi quando tudo se esclareceu. A porta do guarda-roupa se abriu de vez.

Tranquilamente sobre as peças de roupas dobradas na prateleira, viu sua lanterna acesa iluminando todo o interior do armário.

Lembrou-se então de tê-la guardado ali antes de deitar. Por uma falha qualquer o botão de liga e desliga ficou mal posicionado e no meio da noite resolveu optar por ligar a peça.

Apesar do coração ainda acelerado respirou fundo e deu graças por estar livre de qualquer mau espírito no ambiente.

Voltou a deitar-se agora no quarto já novamente escuro, conseguindo conciliar o sono, mas não sem alguma dificuldade, afinal havia acabado de vivenciar uma experiência inédita.

Não é qualquer um que sai por aí espantando um espírito a chineladas!!!!

Santos, 06 de abril de 2022


terça-feira, 1 de março de 2022

INFINITAMENTE AZUIS


 Neste carnaval de 2022 as festas populares estão suspensas, mas a natureza encarregou-se de nos oferecer um espetáculo diário que invade nossos olhos sem pedir licença.

Impossível não se encantar diante da beleza natural que estes dias têm nos proporcionado.

Da aurora ao poente um desfile de cores passeia pelo céu e se reflete nas águas do mar onde parecem criar vida a cada onda que se forma.

Não há como deixar isso passar incólume. Mesmo os desapaixonados, totalmente imunes e alheios à sensibilidade, param alguns momentos para admirar esta festa.

A aquarela que o sol esparrama pelo firmamento ao nascer, vai aos poucos sendo substituída pela cor azul que passa a dominar céu e mar. Quase não conseguimos delinear onde termina um e começa o outro.

De certa forma sou suspeita, aliás muito suspeita, para falar do azul já que esta é minha cor preferida. Entretanto a beleza destes dias extraordinários encanta a todos.

Só a visão de céu e mar nos bastaria, mas a natureza é caprichosa e como uma espécie de moldura bilateral vemos os diferentes tons de verde do jardim e dos morros próximos, auxiliados pelo colorido dos guarda-sóis na areia, dando o toque final a esta tela incrível!

Chegada a hora do crepúsculo e novo espetáculo o sol nos reserva. Como se uma paleta de tintas fosse esparramada, nos deparamos com o céu multicolorido se refletindo nas águas trêmulas do mar.

Tenho presenciado estas cenas há dias e a cada vez meu encantamento aumenta.

Os poetas com o dom de brincarem com as palavras, mais do que ninguém sabem expressar o êxtase que nos causam estes dias tão azuis.

Como bem escreveu Mário Quintana:

“Naquele dia fazia um azul tão límpido, meu Deus, que eu me sentia perdoado para sempre.

Nem sei de quê”.


Santos, 01 de março de 2022 - terça-feira de carnaval.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

O DESEJO PARA 2020

 



No primeiro almoço do ano de 2020 reunindo família e amigos,  lembro-me que decorei um dos pratos com as palavras FELIZ 2020.

Em pouco tempo entretanto, notícias vindas de longe começaram a trazer sérias preocupações ao mundo todo.  Já no início de março começamos a conviver com a pandemia causada pelo Covid 19. 

A princípio julguei, e creio que não fui a única, que seria um problema com duração de alguns poucos meses. Cheguei a costurar algumas máscaras de forma bem amadora para esperarmos o final da pandemia.

Grande engano!

Com muitas restrições, cuidados e receios, passamos por todo 2020 presenciando perdas de amigos, familiares e conhecidos. A felicidade desejada no primeiro dia do ano foi substituída pelo temor da doença.

Ainda sob o impacto de 2020 começamos 2021 mas agora sem grandes alardes, sem grandes festas, sem grandes promessas, sem grandes desejos a não ser nos livrarmos deste vírus mortal.

Assim chegamos agora às vésperas de outro novo ano.

Com certeza a situação da pandemia está bem mais controlada do que há 2 anos embora continue ainda se manifestando em diferentes variantes e exigindo a manutenção dos cuidados básicos.

A possibilidade entretanto de alguns encontros pessoais, de trocarmos abraços com pessoas amigas e queridas, de sentirmos de perto, na real como se diz, o CALOR HUMANO,  faz toda a diferença!

O isolamento necessário vivenciado recentemente nos mostrou como as artes em todos os seus aspectos, para mim destaco a música, tornam nossa vida mais feliz, mais leve, ao mesmo tempo que tal distanciamento reforçou a importância e necessidade do olho no olho, do abraço e do sorriso que brota espontaneamente assim que nos deparamos com pessoas que há muito não podíamos ver nem tocar.

Aos poucos e embora ainda com cuidados espero e desejo que em 2022 realmente possamos comemorar vitórias e sobretudo, possamos nos aproximar mais das pessoas e sentirmos de fato o calor humano em nossas vidas.

Talvez no próximo dia 1 eu repita a decoração do prato de 2020, desejando agora com muito amor, o reencontro de todos nós.

FELIZ 2022 a todos!

 

Santos, 30 de dezembro de 2021


quarta-feira, 24 de novembro de 2021

PROCURA-SE

           Em plena era tecnológica com tantos recursos à disposição informando distâncias, localizações, identificações, eles conseguiram perder um carro nas ruas de uma pequena e conhecida cidade mineira: Monte Sião. É bom que se esclareça que não era um carrinho de brinquedo não!

          Hospedados em Águas de Lindóia eis que o casal decidiu passar algumas horas em Monte Sião, cidade bem próxima e já em Minas Gerais.

          Lá chegando circularam com o carro contornando o jardim central mas não havia vagas. Acabaram entrando numa pequena rua nas proximidades e lá estacionaram o veículo.

          Feito isso foram tranquilos passear pelo comércio no centro da cidade.

          Após um bom almoço resolveram seguir viagem para outro município vizinho e próximo.

          Decisão tomada e eis que surge um problema. Na verdade um problemão.

          Ambos não se lembraram de anotar o nome da rua com um número próximo ao local do carro.

          Sabiam que era perto da igreja central mas não tinham ideia se era uma paralela, perpendicular ou muito menos transversal às ruas que circundam o jardim.

          Como não usaram o dr. Google Maps e nem seu companheiro Waze para lá chegarem, não havia como resgatar qualquer informação.

          Sob um sol escaldante das 13h puseram-se a percorrer todo o centro. O incrível é que para eles todas vitrines das lojas pareciam iguais e não conseguiam lembrar ao menos um ponto de referência.

          A saída seria acionar a polícia (grande mico) ou pedir a colaboração de algum motociclista para que ele rodasse pelo centro. O casal andara muito e àquelas alturas o almoço já tinha descido até seus calcanhares e diante da preocupação, já estava até quase se despedindo do corpo.

          Foi quando uma alma bondosa e extremamente solícita se prontificou a circular com seu carro por toda a região central. 

          Tudo combinado e eis que ela percebe que ele já não estava mais ao alcance de sua vista.

          Na ânsia de encontrar o pobre FOX abandonado ele continuou sua caminhada subindo e descendo as ladeiras.

          Contato telefônico não deu resultado. Sendo assim, ela acompanhada pela senhora benfeitora em seu carro, passaram a circular mas agora procurando não somente o carro, mas também seu motorista. Depois de várias tentativas e graças ao tal WhatsApp, ele e ela conseguiram combinar um ponto de encontro.

          Isto feito o FOX passou a ser o único foco da busca.

          Finalmente numa última tentativa eis que ela enxerga a placa do carro, que quietinho tranquilo esperava sob um sol de rachar mamona.

          Fico imaginando se tal fato ocorresse numa cidade de grande porte!

          O jeito seria voltar pra casa de ônibus ou então esperar a madrugada chegar e ver se depois que todos os veículos estacionados fossem retirados, em qual rua estaria um velho e solitário FOX cinza.

Águas de Lindóia, 24 de novembro de 2021

Obs: agradeço muito à nova amiga Sueli, moradora e comerciante de Monte Sião/MG

Que bom que ainda podemos contar com pessoas como você!



quinta-feira, 14 de outubro de 2021

AI DE QUEM SAIR DO QUADRADINHO

 


 

Quantas e quantas vezes nós professores já comemoramos o 15 de Outubro, seja na condição de alunos ou de homenageados!

Lembro com clareza das festinhas que fazíamos desde o antigo curso primário quando crianças ainda, levávamos alguns pratos de doces e salgados para ao final da aula, festejarmos e parabenizarmos a professora.   Era tudo tão puro, tão verdadeiro que guardo estes momentos até hoje nas lembranças!

Com o passar dos anos as comemorações ficaram mais restritas mas sempre feitas com muito respeito e admiração.

Já durante o exercício do magistério tive assim como todos os colegas da época, momentos muito especiais que renderam bilhetes, desenhos e cartas com mensagens lindas parabenizando pela data. Gratidão era a palavra.

Guardo ainda hoje estas cartas e bilhetes recebidos de alunos que hoje são pais e até avós.  Creio que muitos colegas também mantenham estes tipos de lembranças que aquecem nossas almas ao recordá-las.

Infelizmente como em toda profissão entre os professores também conheci alguns poucos que não se adaptavam ao magistério e que atuavam como meros transmissores de conteúdos, sem nada a acrescentar àquelas cabecinhas ainda em formação que estavam sob nossos cuidados.

O aluno que por ventura chegasse a uma resposta um pouco diferente daquela que fora ditada nos famosos questionários feitos em sala de aula para serem decorados e respondidos nas provas, recebiam um X em vermelho sobre a questão resultando na perda de pontos no total da nota. E ai de quem se atrevesse a responder com palavras diferentes, embora com mesmo sentido.

O raciocínio lógico, o ângulo diferente captado pelo aluno, bem como sua criatividade não eram levados em conta pelos transmissores de conteúdos, ao contrário, eram cerceadas todas e quaisquer respostas que fugissem às esperadas. Tais comportamentos desconsideravam que a pergunta poderia estar mal formulada e dar margem à diferentes interpretações.  A comunicação não havia sido clara e objetiva.

O importante não é apenas saber O QUE avaliar, mas também COMO avaliar!

Lembro bem de uma situação onde uma criança estudante de escola de zona rural, em seu terceiro ano após estudar sinônimos e antônimos, recebeu na prova o seguinte exercício:

Escreva o contrário de: bonita, calor, claro. A criança respondeu em sua simplicidade: atinob, rolac, oralc.

A princípio a resposta foi considerada errada, mas a maneira como foi feita a pergunta deu margem a esta resposta que deveria ser considerada certa seguida de uma clara explicação à criança.

É aí que se encontra toda a diferença entre o verdadeiro professor e o mero transmissor de conteúdos.

Mais um dia 15 de outubro nos alerta para o DIA do PROFESSOR.

É justamente aos profissionais movidos pelo idealismo do verdadeiro professor educador, que deixo aqui minha homenagem, meu respeito e minha gratidão.

 

                                        PARABÉNS PROFESSORES!!!!!

 

Santos, 14 de outubro de 2021.


sábado, 18 de setembro de 2021

PARABÉNS PELO SEU DIA

 

   

                                   


                     Avessa às fotos constituía-se numa missão quase impossível clicá-la sem que abaixasse o rosto ou se ocultasse por trás de objetos.  

Nestas tentativas acabei colecionando fotos sui generis como por exemplo se escondendo entre as roupas penduradas num varal ou até virando literalmente de costas.  O interessante é que ela era uma mulher muito bonita desde jovem e conservou a beleza até partir.

Como ainda não havia a facilidade de hoje o jeito era esperar a revelação chegar para apenas  constatar o que já se sabia: novamente ela havia conseguido sucesso ao se ocultar.

Assim era minha mãe, reservada, simples, sem nunca pedir nada para si e muito menos exigir. Pensava sempre no bem estar dos outros.  Devido a isso era difícil presenteá-la nas datas festivas pois ao ser consultada sempre dizia não querer  e nem precisar de nada.

Hoje logo pela manhã meus pensamentos viajaram através do tempo e do espaço pois 18 de setembro é SEU DIA.   A pergunta veio instantaneamente:  O que gostaria de ganhar?  E eu mesma respondi com sua frase típica: Não preciso de nada! Só quero sossego!

O jeito era procurar algo de seu gosto e presenteá-la assim mesmo.

Há mais de 21 anos não posso mais surpreendê-la.  Nos primeiros anos de sua partida levava flores mas atualmente só posso lhe oferecer orações.

Hoje porém é dia de festa e gosto sempre de recordar os bons momentos quando a alegria irrompia pela casa provocando gargalhadas em todos.  São justamente estas ocasiões que relembro agora quando a senhora completaria 93 anos.

Como esquecer a tal expressão "bita véio" sempre que queria distância de algo ruim ou complicado? Virou até um bordão na família e é repetido pelas gerações mais novas.

Lembro também da história da mola na bunda dando o maior susto num entregador, dou risada ao recordar o caso do Cristo sem um braço que para ela virou um guarda de trânsito, a história da dentadura fujona, da cadeira de praia que quase causou a 3ª Guerra Mundial, a correria dos netos para o banho ao ouvirem sua voz se aproximando e interrompendo o jogo que não acabava nunca (até hoje a cena das canelinhas dos dois girando tão rápidas me fazem lembrar do desenho do bip bip fugindo do coiote) e muitos outros momentos de pura descontração.

Como esquecer as tardes em que ia ajudar a fazer empadinhas na casa de tia Daiza? Toda empadinha que ficava meio feiosa elas comiam e assim quase não sobravam salgadinhos para assar.  Riam até não mais poder.

É dona Daisy, a senhora partiu cedo demais mas deixou muitas lembranças boas em todos que a conheceram e com certeza deixou também imensas saudades.

Parabéns Mã, como os filhos a chamavam, e esteja em paz.

Um dia nos encontraremos para recordar estes momentos marcantes que entraram para a história da família. Com certeza daremos novamente boas gargalhadas.

 

Santos, 18 de setembro de 2021.

Para minha mãe Daisy Arnold Cerri, desejando-lhe muitas felicidades.

Uma das únicas fotos obtidas com sucesso:


terça-feira, 7 de setembro de 2021

A DICOTOMIA DO RADICALISMO


 


Não há algo que me deixe mais irritada do que o radicalismo em todos os seus aspectos.

Jamais e em tempo algum a inflexibilidade, a intransigência, a intolerância e o sentir-se dono da verdade absoluta desconsiderando opiniões contrárias pode ser considerado um comportamento racional.

Através da inteligência (quando ela existe, claro) temos condições de analisar individualmente cada situação que se nos apresenta e com o bom senso que deve nortear nossos pensamentos, verificar até que ponto concordamos ou não com posturas e atitudes diferenciadas das nossas. 

Com certeza encontraremos prós e contras nestas análises. Isto é perfeitamente lógico e esperado. 

Entretanto o que se vem observando já há anos é o radicalismo exacerbado que literalmente cega as pessoas. Enxergam somente aquilo que lhes convém, que coincide com suas ideias, que em suma, reforça a imensa convicção de estar totalmente certo não se dando nem ao trabalho de examinar de modo imparcial, qualquer contestação.

Isto vem ocorrendo em todos as áreas culturais sejam visuais como desenho, pintura, escultura, fotografia, seja na literatura abordando poemas, crônicas, contos, romances.   ouvi observações extremistas como "nada do que se faz hoje em dia presta" como também  o inverso:  "que mau gosto tinham os nossos antepassados"!

Em se tratando de política então não é necessário nem exemplificar.

Abomino tanto radicais de esquerda como radicais de direita.  Os considero pobres de espírito em grau agudo. Chego a pensar que estão com a mente bloqueada por ideologias em suas concepções críticas que através da persuasão provocam alienação da consciência do homem.

Chega-se ao cúmulo de sermos obrigados a optar por um ou por outro lado sem qualquer outra saída, ou seja: para a direita extremista se você não concorda com ela então é taxado de esquerdista.   A mesma situação ocorre caso você discorde da esquerda extremista que fatalmente lhe rotulará de reacionária e retrógrada.

Vejam bem, estou me referindo ao radicalismo exacerbado.

Tais assuntos estão cada vez mais contaminados por inverdades que nos conduzem para um abismo e uma dicotomia da população que jamais vimos.

Quando será que o ser humano usará realmente sua inteligência e bom senso para analisar e se posicionar diante de fatos tão importantes e necessários, sem se considerar o dono da verdade absoluta?

                        Será que o ser humano ainda pode ser considerado um  ser pensante?

                        Lembrei-me agora do conto de fadas de Hans Christian Andersen: A Roupa Nova do Rei.

 

Santos, 07 de setembro de 2021.


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

ELA ... A VACA





Creio que com o passar dos anos, ou seria melhor dizer, passar das décadas, ficamos mais atentos às lembranças do passado seja ele distante ou mais recente. 

Vira e mexe e sem prévio aviso, me vejo vasculhando o baú da memória e por sorte sempre as lembranças que encontro são as que me fazem sorrir ou até rir muito mesmo que sozinha.

Lembranças tristes raramente batem à minha porta.

Há duas noites lendo um livro interessante (O Livreiro) emprestado por uma amiga, a certa altura o autor descreve a história de quando adquiriu um cofre para guardar o dinheiro arrecadado aos sábados em sua loja no final da década de 60, visto que os bancos não abriam nesse dia e claro, nem se pensava em caixa eletrônico ainda.

No mesmo instante e com muita nitidez veio em minha mente um enorme cofre de cor verde musgo que pertencia ao meu avô. Não sei se por eu ser muito pequena mas aquele cofre parecia imenso para mim.

Por uns tempos ele ficara nas dependências do escritório da família no térreo do sobrado da rua 3 com avenida 8 em Rio Claro.  Posteriormente com o fechamento do comércio da família este cofre foi para o quarto de meu avô.

Lá ele guardava papéis importantes, dinheiro e até sua flauta.

Era comum naqueles tempos chamar-se os cofres de burra (ou burras). Há até a expressão: "Enchendo as burras" , que significa estar guardando valores ou dinheiro.

Sendo assim meu avô e todos nós da família também nos referíamos ao cofre chamando-o de burra.

Certa manhã de domingo minha irmã caçula com seus 6 ou 7 anos saiu de casa, atravessou a rua e se enfiou na casa de avô Adolpho que era bem próxima. Ficou por lá pouco tempo e logo voltou. 

A mãe quis saber o motivo do retorno tão rápido e ela explicou que não havia ninguém por lá, apenas o avô em seu quarto. Na sequência completou com a frase que me fez lembrar deste caso há duas noites ao ler O Livreiro:

- Ele tava abrindo a VACA no quarto.

Gargalhada geral.

A menina fez uma "leve" troca de bichos.

Anos depois durante uma compra em supermercado, procurando leite e verificando marcas e preços e ao constatar que um tipo estava em oferta, meu irmão negou-se a levá-lo pois achou o nome do produto assaz esquisito e que não lhe passava confiança.  O leite era da marca Dona Vaca.  Talvez tenha achado o nome explícito demais. Na verdade a estranheza em minha opinião deveria ocorrer caso o nome fosse Senhor Boi.

Anos depois a vaca surgiu novamente no seio familiar.

A sobrinha caçula em fase final de alfabetização fazia um joguinho de palavras cruzadas próprio para crianças. 

Eis que a dica dizia "Vive no brejo". Havia três espaços a serem preenchidos num total de quatro pois no segundo espaço já havia a letra A.

A garota mais que depressa gritou.

- Já sei, é VACA!

Estranhou no mesmo instante o olhar espantado dos adultos demonstrando claramente que ela errara. 

Foi quando resolveu explicar o motivo de sua certeza que era vaca, pois  já ouvira muitas vezes todos dizendo a expressão:

- A vaca foi pro brejo. Então quem mora no brejo é a vaca! 

E quem vai agora contra a lógica infantil?????

 

Santos, 2 de agosto de 2021.

 

Relembrando Tutu e avô abrindo uma vaca no quarto, sr. Edo e sua cisma com o nome do leite e Luíza com sua brilhante associação entre o dito popular e as palavras cruzadas.