segunda-feira, 23 de março de 2020

MOMENTOS QUE NÃO ESQUEÇO





Nestes tempos em que ouvimos a palavra vírus centenas de vezes por dia, lembrei-me das aulas de Programas de Saúde que faziam parte do currículo escolar nos cursos técnicos (2º Grau) lá pela década de 70.
Nesta época ainda universitária eu já lecionava em tais cursos em uma escola da cidade. 
Durante as exposições teóricas dos conteúdos sempre tive o costume de entre uma e outra fala provocar a participação dos alunos através de perguntas que fazia aleatoriamente, sem nomear alguém em especial, deixando livre para quem se sentisse seguro da informação pudesse dar a resposta tornando a aula interativa.
Essa dinâmica  espantava o sono tão comum entre alunos trabalhadores que estudavam no período noturno.
Um fato que após mais de 4 décadas ainda está muito presente em minha memória, foi justamente a aula sobre vias de penetração dos micróbios em nosso organismo.
Era uma turma de Química Industrial com 40 alunos, naqueles tempos em que o respeito fazia parte da educação que todos traziam de casa. Era uma turma bem participativa.
Comecei falando da via respiratória e questionei qual seria o local de entrada.  Claro que de imediato muitos responderam o nariz. 
Na sequência perguntei sobre as vias digestivas e os alunos também prontamente disseram que era através da alimentação.
Empolgada com a participação da classe fiz entusiasmada a terceira pergunta:
- E a via de penetração cutânea?
Deparei-me com expressões de espanto e um silêncio geral.
Conclui que tal comportamento havia sido causado pelo desconhecimento do termo cutânea.
Antes que eu pudesse explicar o significado ouvi uma voz carregada de sotaque interiorano vir lá do fundo da sala:
- Dona!!!!!!   Que pergunta é essa???  A gente não pode falar isso!!
Só aí me dei conta do que se passava na cabeça dos alunos e já rindo muito juntamente com todos,  passei rapidamente a mão no braço explicando que se referia à pele que cobre nosso corpo. Lembro até do rosto do aluno que ao me questionar estava vermelho de vergonha.
Se tal fato ocorresse hoje ouviríamos talvez até alguma música tipo funk falando o que a classe pensou e se calou naquela noite.
Em outra ocasião já dando aulas para o Ensino Fundamental e falando sobre higiene corporal, explicava a importância dos banhos diários para remover inclusive resíduos e células mortas da pele.   Estava em pé encostada na mesa da primeira carteira que era ocupada por um aluno muito espirituoso. 
Quando falei sobre a necessidade de levar uma bela chuveirada, ele fez um gesto brusco se encolhendo todo na carteira e colocando os braços sobre a cabeça.
Diante de meu espanto ele esclareceu:
- Professora, estou treinando como vou me proteger para levar uma chuveirada!
Diante da brincadeira dele percebi que minha orientação sobre  levar uma bela chuveirada poderia realmente se tornar muito perigosa....rs.
Em tempos de covid-19, nada como relembrar momentos tão alegres e felizes no magistério.

Santos, 23/03/2020

A todos ex-alunos que fazem parte de minha história e com os quais muito aprendi, e em especial ao Spagnhol e Vivaldo, protagonistas destes fatos.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

HÁ CINCO DÉCADAS





Em pleno salão de baile carnavalesco ela gritava em meio à folia e às marchinhas:
- Guarde uma carteira ao lado da sua no primeiro dia de aula!
Falava com a alegria que sempre a acompanhou e acompanha até nos dias atuais.  Eu ria,  acenava positivamente e assim procedia.
Sentávamos lado a lado nas velhas carteiras modelo Brasil, aquelas cujos tampos eram presos ao encosto da carteira da frente. Assim foram os 3 anos do curso do Ensino Médio que nos anos 60 era chamado de Curso Normal, formando as futuras professoras de 1ª à 4ª séries do Ensino Fundamental, antigo primário.
Esta posição das carteiras facilitava o contato nos dias de prova. Minha letra sempre foi grande mas apesar disso era comum ouvir um sussurro vindo da carteira ao lado dizendo - aumenta a letra, aumenta a letra!
Sorrio só em lembrar! Eram atitudes inocentes e típicas de adolescentes que estavam bem longe de comportamentos como os que geralmente vemos nos tempos atuais, carregados de maldade e total falta de educação.
Nos efervescentes anos de 1967 a 1969  quarenta jovens na faixa de 15 e 16 anos estudavam na mesma classe.  Muitas delas já haviam cursado juntas também os antigos cursos ginasial e primário e aí os laços de amizade só se fortaleceram.
Cada qual com seu temperamento, com sua expectativa diante da vida; algumas expansivas, outras tímidas, algumas sempre alegres, outras mais contidas.
A verdade é que apesar das diferenças entre si todas formavam um grupo coeso de muita amizade e cumplicidade, cuja marca registrada eram a alegria e espontaneidade. Éramos felizes e sabíamos disso.
Era uma turma de boas notas e excelente educação mas que de certa forma desafiava os professores que necessitavam buscar muita bagagem para motivarem suas aulas.
Impossível não lembrar das aulas descontraídas de Psicologia quando o professor usando de fina ironia, brincava com os fatos que ocorriam. Até hoje me lembro da blusa que ele chamava de  psicodélica (era um termo da moda) que era sempre usada por uma das alunas, bem como do dia em que um pandeiro caiu no chão durante sua aula. Ele era doutor em sua área e sabia bem como lidar com aquela classe que transbordava dinamismo.
As aulas de Sociologia já eram mais silenciosas e o professor bem circunspecto. Fizemos a leitura e  interpretação completa do livro de autoria de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo. E não é que estamos vivendo realmente neste admirável mundo?
As temidas chamadas orais de História deixaram marcas em muitas alunas.  As dissertações sobre a História do Brasil e História Geral exigiam excelente memória!
Cada professor procurava se adequar àquela turma irrequieta e ao mesmo tempo curiosa diante do mundo que estava se abrindo à sua frente.
Muitas já namoravam e no sábado (havia aulas neste dia também) a sala mais precisamente o fundão da sala, transformava-se num salão de cabeleireiro.  Qualquer folga, qualquer tempinho, lá estavam algumas pedindo auxilio para as amigas que eram mais jeitosas com os arranjos nos cabelos e com a manicure, afinal era dia de namorar na Praça da Liberdade após as aulas da tarde.
Na semana que antecedia algum baile especial principalmente no clube Ginástico Rioclarense frequentado pela maioria, o alvoroço da moçada era imenso. Modelos de vestidos, escolha de penteados, de sapatos,etc
As saídas para passeios extraclasse eram diversão garantida.  Geralmente o transporte era improvisado e íamos na carroceria do caminhão do pai de uma das alunas.  Momentos que com certeza nenhuma de nós esqueceu e nem esquecerá.
Éramos 40 jovens e trazíamos no olhar muitos sonhos, esperanças e vontade de abraçar o mundo. 
E assim após 3 anos juntas chegamos à formatura, ao momento no qual cada uma já tinha traçado o rumo a seguir.  Algumas foram para a Universidade, outras abraçaram de imediato o magistério e algumas se casaram logo após a formatura e até mudaram de cidade. 
Nas voltas que o mundo deu acabamos nos desencontrando pelas esquinas da vida e ficamos reduzidas a pequeninos grupos.  Vez ou outra nos encontrávamos ao acaso.
A chegada da tecnologia com suas mil possibilidades de comunicação virtual, possibilitou o início  dos contatos. Como rastilho de pólvora as mensagens correram rapidamente em todas as direções e em pouco tempo quase a totalidade das jovens foram localizadas.
Infelizmente 6 já nos deixaram e algumas poucas não puderam ser contatadas.
Neste dezembro de 2019 completamos 50 anos de formatura. E claro, um almoço foi organizado para o reencontro das jovens formandas de 1969.
Na longa mesa que se formou no restaurante era impossível saber quem falava mais.
Na verdade talvez a frase correta seja:  impossível saber quem sorria mais.
O comportamento do grupo reunido era exatamente o mesmo  vivido há 50 anos. A alegria do reencontro, as novidades que cada uma tinha para contar, as lembranças de fatos ocorridos nas aulas. Enfim, uma infinidade de emoções para extrapolar! Risos e lágrimas de alegria ao mesmo tempo.
Realmente somos o que vivemos e posso garantir que nestas poucas horas que passamos juntas, foi como se estivéssemos nos arrumando para a festa de formatura.  
A euforia daquelas jovens no final do curso estava novamente presente, como se cinco décadas não tivessem transcorrido.
Recordando Vinícius de Moraes - "A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida" .
Parabéns amigas pelos 50 anos de formatura no Instituto de Educação "Joaquim Ribeiro" - Rio Claro/SP

Santos, 12 de janeiro de 2020

Deixo aqui uma homenagem especial às amigas que já partiram: Cristina Nobreza, Bia Moreira, Marli Pacheco, Cecília Chinelato, Maristela Fernandes e Vanuza Leal.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

BARULHINHO MISTERIOSO






Splasch....splasch.....splasch.....
O inconfundível barulho de sacolinha plástica sendo manuseada sempre me faz recordar uma reunião  de trabalho.
O típico ruído se ouvia a todo instante e estava intrigando a responsável pela reunião que de frente para a plateia  fazia  suas explanações sobre procedimentos administrativos a serem executados.
Compondo a mesa diretiva mais três pessoas também trocavam olhares inquisidores diante do barulho repetitivo.
Quando outra pessoa tomava a palavra o barulhinho curioso não acontecia. Bastava a dirigente reiniciar sua fala e pronto....splasch...splasch...splasch....
Até que identificou-se que tal ruído vinha da primeira fileira da plateia, mais precisamente das mãos de um diretor de escola.  Em seu colo além dos papéis utilizados na reunião, havia um saquinho plástico branco não transparente que era constantemente mexido pelas mãos de seu portador.
A curiosidade foi grande e uma das componentes da mesa diretiva, sem grande alarde, levantou-se e passou a ocupar uma cadeira que até então estava vazia justamente na primeira fila.
Ficou atenta e com os olhos fixos no saquinho branco esperando o momento em que ele fosse novamente tocado.  Não demorou muito pois assim que a dirigente retomou sua fala  o tal splasch se fez ouvir no recinto.
Neste instante o segredo foi desvendado pelo olhos atentos daquela que estava sentada próxima.  
O diretor havia levado de maneira disfarçada dentro do tal saquinho, um mini gravador que era ligado e desligado a todo instante. Foi o recurso que ele encontrou para poder ouvir e estudar novamente as orientações no momento de executar o trabalho. 
Consciente das dificuldades que geralmente ocorriam na elaboração das tarefas administrativas, ele resolvera gravar as explanações para minimizar tais problemas e reduzir as falhas.
Se no dia a dia  havia essa preocupação no tocante à escrituração escolar, em contrapartida contornava as dificuldades  de seu cargo de forma bem satisfatória visto que a escola situava-se num bairro  periférico e naquela época com sérios problemas econômicos e sociais. Creio mesmo que outra pessoa não teria fibra para permanecer tantos anos à frente desta unidade escolar como ele permaneceu.
A despeito destas adversidades procurava manter o bom humor o que de certa forma ajudava a diminuir os ralhos de seus superiores.
Um fato em especial sempre me faz rir ao lembrá-lo. 
Na necessidade de se passar aviso urgente para todas as escolas o recurso disponível na época  era somente o telefone.  A internet não havia ainda se popularizado nem tampouco o celular. É bom que se esclareça que não havia também o tal identificador de ligações.
Em uma dessas ocasiões a funcionária começou a ligar rapidamente para todas as unidades.  Ao telefonar para a escola deste diretor não reconheceu de imediato a voz dele, ao passo que ela sim teve sua voz reconhecida por ele.  Na dúvida e achando que havia ligado para número errado, a funcionária quis saber de onde estava se falando. Num momento de descontração e para zoar um pouco como se diz hoje em dia, ele respondeu de pronto:
- É da Funerária Santa Maria, sua morte nossa alegria!
Assustada com tal resposta a funcionária desligou imediatamente o telefone. Claro que logo a seguir nova ligação desfez a confusão e todos acabaram rindo muito da situação.
Em momentos assim que paramos e pensamos que se há de procurar colher sempre as virtudes das pessoas pois é sabido que falhas todos nós as temos.

Santos, 02/11/2019

Para Mariana que não quis saber de papo com a Funerária Santa Maria....eita!

terça-feira, 23 de julho de 2019

ESSA TAL EMPATIA





Interessante esse sentimento chamado empatia.
Do nada, assim sem aviso prévio, conhecemos alguém que embora ainda seja uma página em branco em nossas vidas, já desperta nossa atenção e transmite um sentimento agradável.
Foi assim que há muitos anos ao iniciar uma experiência nova em termos profissionais, entre tantas pessoas totalmente desconhecidas, um rosto com um sorriso tranquilo e seguro,  transmitiu  a mensagem que eu era bem-vinda. Sabendo de minha total inexperiência naquele campo, colocou-se à minha disposição para os primeiros passos.
Nossa convivência neste período foi curta mas isso não impediu de guardar para sempre na memória,  aquele sorriso doce e tranquilizador.
A dona deste sorriso era você Ivani.
Anos se passaram até que numa viagem de férias a vejo chegar cheia de expectativas e trazendo sua mala. Para minha surpresa você fazia parte do grupo e isso me alegrou bastante.
Convivemos vários dias neste período de viagem e suas atitudes só reforçaram o que eu já sabia:  pessoa  sincera, meiga, sensata e alegre. Trazia na face a expressão que nos faz reconhecer um verdadeiro amigo.
Novamente nossos caminhos se distanciaram e depois de mais de uma década, a reencontrei novamente graças a amigas em comum.
A partir daí as saídas com o grupo tornaram-se mais frequentes: era uma noite de pizza regada a vinho, algumas comemorações,  jantares na casa de alguém  ou simplesmente para conversarmos e rirmos muito. 
Mudei de cidade e a partir daí toda vez que visitava  nossa sempre amada Rio Claro, combinávamos uma saída à noite com toda a turma.  Justamente em várias oportunidades estas noites coincidiram com capítulo final de novela e você, noveleira que era, abria mão de assistir o tal capítulo para poder participar do encontro.
Não esqueço de uma certa manhã de sábado em que passei rapidamente por Rio Claro. Nesta ocasião fiz uma caminhada com amigas nas proximidades do campo de aviação. Você ficou sabendo disso e deu um jeito de aparecer por lá apenas para me dar um abraço.
Até em Santos você veio me visitar com as amigas.  Foram dias de muita alegria e até um senhor banho de chuva tomamos na volta para casa depois de um passeio.
Fui acompanhando sua vida à distância depois que adoeceu  e sempre torcendo e rezando.
Até que...
Até que na semana passada recebi a notícia de sua partida.
Claro que um filme passou em minha mente. Um filme em câmera lenta fazendo uma retrospectiva destes anos todos.  Em cada cena sempre seu sorriso doce se destacava.
Siga em paz amiga Ivani.
Siga em paz e com a certeza que faz parte da história de quem pôde conviver com você.
Deixou-me somente boas e belas lembranças e um sentimento de eterna gratidão.
Parece que estou vendo alguém sorrindo no céu.  Será você?

Santos, 22 de julho de 2019

Para amiga Ivani Aparecida Lombardo (in memorian)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

THELMA





Conhecemo-nos há aproximadamente 5 anos.
Cheguei novata entre as alunas, já antigas frequentadoras das aulas.
De imediato me foi dito que talvez não houvesse  vaga naquela turma, mas sim em outro dia e horário.
Lembro-me bem como foi a reação de algumas alunas e a dela em especial, intervindo na questão e dizendo ao professor que me permitisse frequentar as aulas naquele grupo.
Assim foi feito e comecei a participar daquela turma.
Já no primeiro dia ainda um tanto quieta e tímida, tive a primeira demonstração de seu temperamento  autêntico e forte.  Irritada por conta de uma dificuldade maior em acertar os tons ao  pintar a óleo determinado espaço em sua tela, proferiu algumas palavras que num primeiro momento me pareceram um tanto grosseiras demais. Alguns termos debochados foram citados em alto e bom som.
Antes que me refizesse do susto ouvi sua voz relembrando minha presença na turma, que em sendo novata, poderia me ofender ouvindo determinadas expressões.
Percebendo e compreendendo que aquela situação era mais que rotineira, sorri, a acalmei e esclareci que todos os vocábulos e expressões que ouvira já eram de meu conhecimento e que infelizmente não havia aprendido nada novo.
Foi então a vez dela rir alto ao perceber que eu havia entendido que tais explosões eram costumeiras e serviam apenas como desabafos momentâneos.
Assim era Thelma, explosiva e impetuosa. Escondia por trás de seu comportamento impulsivo, um coração enorme e disposto a ajudar quem dela se aproximasse.
Sua maneira autêntica de ser, apesar de a princípio causar certo receio, fez com que a admirasse mais.  Dizia o que realmente estava pensando, sem bajular, sem eufemismos. Falava com o objetivo de aprimorar ou acrescentar algo que julgasse necessário, sem a menor preocupação em  "dourar a pílula". 
Neste curto espaço de tempo em que convivemos, pude observar embora de forma lenta, o declínio de sua saúde.   Apesar de estar ciente de certas restrições necessárias ao seu bem-estar, ela nunca preocupou-se muito consigo mesma e descumpria com frequência tais restrições, não ouvindo os conselhos de ninguém. 
Nesta semana, após um último ano muito difícil e com os problemas de saúde agravados, Thelma partiu.
Sua presença física não mais será vista mas com certeza seu jeito tão peculiar de ser, tão despojado de não me toques, bem como seu enorme coração, jamais serão esquecidos.
Vá em paz Thelma!
Continue pintando suas obras nesta tela azul e enorme do céu, que daqui debaixo  estaremos  admirando. Siga seu caminho com a certeza que viverá para sempre na memória daqueles que a conheceram.

Santos, 11 de fevereiro de 2019.

Para Thelma Dib.

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

O VEXAME




Todos temos nossos temores mais ou menos intensos e que vira e mexe nos colocam em situações complicadas.  Fobia de elevador, receio de viajar de avião, medo do escuro e seus fantasmas e por aí afora.
Se pensarmos em um animal em particular, a barata ganha tranquilamente  o troféu de inseto considerado o mais detestável e abominável, e não somente pelas mulheres diga-se de passagem.
Claro que há muitos outros animais bem mais perigosos como os que carregam venenos  em seus corpos, para a própria defesa, mas as baratas são hors concours no quesito terror.   Talvez por serem cosmopolitas  e habitarem ambientes comuns aos humanos, sendo portanto mais facilmente encontradas, elas se destacam com louvor diante de outros animais.
Habitando nosso planeta há aproximadamente mais de 300 milhões de anos, este inseto apresentou poucas adaptações evolutivas ao longo de todo este tempo. O formato achatado e a  cor de seu corpo, bem como a disposição das patas, facilitam  muito suas  rápidas fugas quando descobertas. Tudo isso só colabora para aumentar o pânico que tal bichinho causa quando resolve circular por aí, ou pior ainda, a voar por aí. Alguém já disse com muita propriedade que pior do que ver uma barata, é não vê-la mais!!!
Foi justamente por causa dela que de repente, em plena loja cheia de pessoas, ouviu-se um grito apavorante na fila do caixa, ao mesmo tempo em que num gesto de desespero os pacotes de compras eram lançados para o alto.
Num primeiro momento como num passe de mágica todos pararam onde estavam e sequer ousaram dar um passo.  Apenas as cabeças se mexeram em direção ao lado de onde viera o imenso grito de pavor.  Seria a chegada de um monstro?  Seria o próprio Lúcifer presente na loja?
A autora do escândalo ainda com o pânico estampado no rosto , apontava para uma enorme barata sobre o balcão, bem próxima ao seu corpo.  
A funcionária tão ou mais assustada que a freguesa, ao constatar o motivo de todo aquele escarcéu teve que se conter para não cair na gargalhada, já que a protagonista do show estava visivelmente transtornada.  Com delicadeza pegou o bichinho com as mãos e mostrou que era simplesmente um brinquedo de plástico, isto mesmo, de  plástico,   que ela mesma havia colocado ali para demonstração juntamente com outros artigos especiais usados para se comemorar o Dia das Bruxas.
A estas alturas a clientela toda da loja que já fazia um grande círculo em torno das protagonistas, não se conteve ao ver qual era o monstro horripilante causador de todo aquele tropel. As gargalhadas saíram em alto e bom som.
Depois disso tudo provavelmente por um bom tempo a freguesa evitará por os pés nesta loja, até ter certeza absoluta que seu show foi esquecido.
             Um fato ficou comprovado: a eficácia do brinquedinho para comemorar o Dia das Bruxas.  Podem comprar sem medo, ou melhor, até com o medo mesmo!!!

Santos, 17 de outubro de 2018

Para Tutu por proporcionar um showzinho divertido,  e também em homenagem à barata por sua performance incrível, se passando por uma real.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A SURPRESA TEM MÃO DUPLA










É absolutamente normal  que a pessoa não goste de receber surpresas ruins. Há entretanto quem não goste nem mesmo de boas surpresas. Não aceitam bem tais situações sejam em forma de notícia, de presente, de conhecimento ou mesmo de visita.
Em contrapartida há, e creio que em número bem maior, quem curta uma surpresinha de vez em quando desde que seja positiva, claro!
Eu me enquadro nesta segunda turma. Gosto de surpreender e ser surpreendida  com boas e desejadas notícias, presentes inesperados, atitudes especiais, etc.
Também eles pensando assim puseram em prática um planejamento feito às pressas. Dois se encontravam em São Paulo e o terceiro estava além mar, do outro lado do Oceano Atlântico.
Para que tudo se realizasse a contento, colocaram-se logo a caminho já que havia mais de 8.000 km a serem vencidos até chegarem aos seus destinos.
Ansiosos já se deliciavam imaginando as expressões de espanto e incredulidade, seguidas de boas gargalhadas, descontração, bem como momentos carinhosos e amigos.
E foi assim que em plena noite de um domingo, o whatsapp avisou a chegada de mensagem  no grupo familiar. Uma foto mostrava aquele que seria surpreendido, todo risonho, bem em frente à sua residência em Campinas. 
Espanto geral no grupo. 
Como assim?  Foto antiga? Montagem? Àquela hora e dia, ele deveria estar exatamente a mais de 8.000 Km dali.
O whatsapp endoidou e não parava de apitar já que uma parcela do grupo não entendia o que estava se passando.  
E dá-lhe emojis
                                                    


             
Aproveitando as reações de espanto, ele curtia e se divertia com as hipóteses levantadas pelos demais em busca de explicação para a tal foto. Realmente ele estava em Campinas.
Foi quando outras duas fotos apareceram nas telinhas dos celulares de todos: um casal espantado dentro de um avião, e passagens aéreas para o outro lado do Oceano Atlântico.
Incredulidade ampla, geral e irrestrita.
Como assim? Montagem? Voo doméstico querendo se passar por internacional??? O casal estava mesmo viajando???
Mensagens dispararam novamente no grupo da família!  Santa tecnologia.
   
Até que.....até que após alguns minutos e muitas mensagens e expressões de espanto, a compreensão se fez entre todos.
                          

Por uma incrível coincidência ou brincadeira do destino, pai e filho se desencontraram em pleno espaço aéreo sobre o Atlântico.  Quase se viram e trocaram tchauzinhos pelas janelinhas dos respectivos aviões.
O pai que deveria permanecer em  Portugal por longo tempo, resolveu retornar ao Brasil sigilosamente para surpreender a família, ao mesmo tempo que o casal (seu filho e nora) embarcou para lá no mesmo dia, também de maneira sigilosa, visando surpreendê-lo.
Desencontro total.  Os três queriam surpreender e foram pegos de surpresa. Realmente ela tem mão dupla!
            
A despeito de toda confusão os surpreendidos puderam se encontrar dias mais tarde e tudo acabou bem!
                         

Santos, 03/09/2018

Para Edo, Luis Fernando e Erika - pelo incrível desencontro aéreo.

segunda-feira, 26 de março de 2018

A TRINCA PELUDA





Eles eram grandes.  Muito grandes.
Eram três ao todo e muito bonitos - um preto, um branco e um com pelos castanhos tendendo para o dourado.  Três cães enormes circulando pela casa.
Ainda bem que eram razoavelmente dóceis pois caso contrário jamais alguém entraria lá e se entrasse, com certeza não sairia intacto dado ao tamanho das criaturas.
Bem alimentados e cuidados, vagavam pelos cômodos à procura do lugar mais fresco já que o calor estava insuportável.
Naquele final de semana de pleno verão eles estavam sob os cuidados de uma pessoa com a qual não tinham muito contato, mas nem por isso criaram problemas, ao contrário, ficaram deitados a maior parte do tempo.
Final de noite e início da madrugada,  com a TV já desligada, o senhor dirigiu-se ao banheiro. Os três animais o seguiram e sentaram-se próximos à porta esperando por ele.
Ao entrar no quarto, para seu espanto, foi seguido pela trinca que se acomodou no chão ladeando a cama toda - um de cada lado e um nos pés.  
Isso é até compreensível e aceitável afinal ali havia ar condicionado e os cães com certeza também se acharam com até mais direito de usufruírem daquela temperatura amena, uma vez que eles eram os mais peludos do quarteto. Entendendo que esse era o costume, o senhor resolveu deixar a porta aberta para o caso de seus companheiros de quarto desejarem sair durante a noite para alguma balada. Na verdade ele é que de certa forma ficou sem chance de sair da cama no escuro pois correria o risco de pisar sem querer em um dos pimpolhos peludos e aí o forrobodó estaria armado.
Dormiu assim totalmente guardado pelo cães que a exemplo dos humanos, roncavam razoavelmente.  Situação curiosa e estranha, mas enfim, era uma nova experiência em sua vida.
Na bela manhã de domingo ensolarado lá estavam todos dividindo os espaços da casa e em perfeita harmonia após um sono reparador no quarto para quatro.  Assim passaram as horas daquele dia até que chegou o momento da partida.
No final da tarde o senhor arrumou suas coisas e seguindo as orientações recebidas, trancou a porta da sala que dava acesso à frente da casa enquanto a trinca peluda dormia sossegada no piso frio do cômodo. 
Ato seguinte, abriu o portão da rua para partir de vez, procurando agir sempre com total naturalidade para não chamar a atenção de frequentadores de um bar bem na frente do local.
Já na calçada e enquanto virava a chave na fechadura não notou que havia um recipiente com água bem próximo  dali e encostado ao muro. No exato instante em que muito discretamente fechava o portão, um grande e sedento cão  preto de rua, enfiou-se entre suas pernas e começou a beber a água da vasilha. 
Ao olhar para baixo e vendo o cão preto, o senhor se espantou e achando que era um de seus coleguinhas de quarto que havia escapado, começou a empurrá-lo para dentro da casa ao mesmo tempo em que o animal acionava com toda força seu breque improvisado usando as quatro patas, negando-se peremptoriamente a entrar na casa.  Cena hilária de quase rapto canino.
Alguns segundos depois ao ser alertado sobre o equívoco, deixou o assustado animal seguir sua vida de morador de rua, muito provavelmente sem terminar de matar a sede, já que naquele instante sua prioridade era bem outra: ir para bem longe dali.
Ainda mantendo discrição, ou melhor, o que ainda restava de discrição e obedecendo orientações recebidas, o senhor teria que jogar o chaveiro por cima do muro.
Antes de jogá-lo e para ter certeza de onde cairia, subiu numa saliência tipo barrado que havia no muro. E não é que nesse exato momento o dito cujo chaveiro resolveu escapar de suas mãos e cair na calçada provocando forte tilintar de sinos?   O gesto perfeitamente identificado à distância teve que ser repetido pela segunda vez, mas agora finalmente com sucesso.
A estas alturas toda e qualquer discrição que ainda havia foi de vez para o espaço. Só não notou todo aquele movimento, algum frequentador do bar que tivesse sérios problemas de visão.
Missão cumprida, retorno tranquilo para o lar. 
Por muito pouco o morador da casa ao chegar à noite, acreditaria piamente em geração espontânea já que deixara três cães e encontraria quatro animais instalados confortavelmente  em sua sala.

Santos, 25 de março de 2018


Ao Luiz Adhemar, que fez mais três amigos de 4 patinhas, ou melhor, de 4 patonas!!

quinta-feira, 20 de julho de 2017

RESGATE DE EMOÇÕES


Uma notícia triste vinda de longe transportou de imediato meus pensamentos para uma época distante, mas ainda muito viva em minha memória.
Nos fins dos anos 50 eu era a única menina da vizinhança e as brincadeiras de rua eram todas na companhia dos meninos.  No começo da noite e finais de semana brincávamos com carrinhos de rolimã, empinávamos pipas, fazíamos guerrinha de tampinhas de garrafas com a turma da rua 3, corríamos nos pega-pega e às vezes eu até jogava futebol  (era sempre a goleira e o gol era a porta de aço de um casa comercial).
Foi quando mudou-se  perto de casa uma garota loirinha de nome Lucinda, que tinha idade próxima à minha.  Fiquei maravilhada.    Afinal teria uma companheira para brincadeiras.
Não estudávamos na mesma escola, mas isso não foi empecilho para ficarmos logo amigas e passarmos a frequentar uma a casa da outra.  Ela morava na ocasião com seus tios que tinham um comércio de vestidos de noivas e também confeccionavam flores em tecidos.  Para mim era uma festa ver as funcionárias montando aquelas flores de pano e na época carnavalesca elaborarem os adereços para as escolas de samba da cidade.
Acabei aprendendo um pouco a mexer com isso e nas ocasiões em que o serviço apertava, lá estávamos nós ajudando na oficina. Era mais brincadeira que trabalho mesmo.  Tínhamos então por volta de 8 a 9 anos de idade.
 Foi com ela que comecei a frequentar um programa dominical dirigido totalmente às crianças,  na antiga Rádio PRF2 da cidade.
Era o chamado Programa da Tia Joaninha.  A apresentadora, a Sra. Joana Batista Epiphânio, promovia uma espécie de seleção de calouros mirins, onde toda criança que assim desejasse, poderia cantar uma música para um auditório que ficava lotado.
A expectativa e torcida da plateia formada por muitas crianças e seus familiares, eram contagiantes.  Eu fazia parte da torcida de Lucinda que diga-se de passagem, cantava muito bem mesmo músicas difíceis, não adequadas às vozes infantis.  Lembro-me bem do sucesso que ela fez ao cantar  "Se acaso você chegasse" *.
Nos carnavais sua tia inventava e nominava belas fantasias para a sobrinha ir nas matinês. A última que lembro foi a Rainha da Lua. 
Numa ocasião por um problema familiar, eu não iria na matinê.  A tia, D. Rizolina,  fez então às pressas uma fantasia para que eu pudesse acompanhar sua sobrinha. Lá fui eu de última hora vestida de Colombina.  Nos levaram até no tradicional fotógrafo Copriva para registrar o momento.
Creio que D. Rizo nunca soube o quanto fez minha mãe feliz com este gesto!
Já na adolescência começamos a frequentar a mesma escola  e embora não estivéssemos na mesma classe, íamos e voltávamos juntas para o Curso Normal (Magistério) no tradicional Instituto de Educação "Joaquim Ribeiro".
Após este período nossas vidas mudaram e seguimos caminhos diferentes. Aos poucos perdemos o contato.
Há pouco tempo e graças à tecnologia ela me localizou numa rede social.  Num piscar de olhos toda aquela emoção vivenciada há tantos anos voltou à tona, assim como as boas e belas lembranças.
Nesta semana infelizmente Lucinda nos deixou.  Com ela se foi uma bela parte de minha infância e adolescência.
Siga em paz amiga!  Será sempre lembrada com muito amor  e carinho!!!


Santos, 20 de julho de 2017.


Para Lucinda Fozzato Hebling, in memoriam!

*  Musica: Se acaso você chegasse
                 Autoria: Lupicínio Rodrigues

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

MACAQUINHOS DO SÓTÃO





Desde que soube do fato, meus macaquinhos do sótão começaram a cutucar pedindo-me uma atitude. 
Sei bem o que querem, entendo-os perfeitamente, mas ainda não havia conseguido administrar e gerir de maneira racional e não apenas emocional, como expressar este reboliço que o fato anunciado ontem, provocou nos macaquinhos de minha mente.
Pensei inicialmente em imagens, depois resolvi associá-las a um áudio, por fim decidi pelo texto simples que saia com fluência e espontaneidade.
Não posso em hipótese alguma alegar surpresa.  Isso realmente não aconteceu.
Já esperava resultado positivo por conhecê-la desde sempre e por seu histórico até hoje.
O que realmente atiçou meus macaquinhos não foi o feito em si, mas o brilhantismo de tal feito.
Estou referindo-me à Luíza Quinália Cerri.
Não obstante ainda lhe falte uma boa carga horária de ensinamentos e conteúdos equivalentes ao último ano do Ensino Médio, dispôs-se a conhecer as emoções, para não dizer pressões, às quais se expõem todos aqueles que se deparam com a chamada peneirada final, ou seja, o vestibular.
Sem o objetivo de criar polêmica, tal critério de avaliação até certo ponto discutível, tem ainda pleno poder de decisão: você está numa universidade ou, tente novamente!
Todos que já passaram por isso sabem bem o que estou falando.  A experiência, positiva ou negativa, fica marcada para sempre. 
As emoções vivenciadas tornam a ser repetir quando pessoas próximas a nós também passam por isso.  Já foi assim, essa mesma emoção, com sobrinhos e primos que apresentaram excelentes resultados. 
A torcida sempre foi grande e as comemorações foram maiores ainda.
Ousada, Luíza optou por uma carreira concorrida numa universidade pública.
Ontem o resultado foi divulgado: aprovada na segunda fase e em 12º lugar na classificação, de um total de 80 vagas.
Como já afirmei no início, não fiquei surpresa com a aprovação, mas realmente a classificação me “pegou de jeito”, considerando que nem concluiu ainda o Ensino Médio.
Independente da decisão que tomará, saiba Luíza, que emoção e orgulho se misturam neste momento a muitos outros sentimentos bons.  Os macaquinhos do meu sótão que o digam.
Você mostrou a que veio - ao sucesso!
Parabéns menina, ops....parabéns moça Luiza!!!!!


Santos, 17 de fevereiro de 2017