segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A SURPRESA TEM MÃO DUPLA










É absolutamente normal  que a pessoa não goste de receber surpresas ruins. Há entretanto quem não goste nem mesmo de boas surpresas. Não aceitam bem tais situações sejam em forma de notícia, de presente, de conhecimento ou mesmo de visita.
Em contrapartida há, e creio que em número bem maior, quem curta uma surpresinha de vez em quando desde que seja positiva, claro!
Eu me enquadro nesta segunda turma. Gosto de surpreender e ser surpreendida  com boas e desejadas notícias, presentes inesperados, atitudes especiais, etc.
Também eles pensando assim puseram em prática um planejamento feito às pressas. Dois se encontravam em São Paulo e o terceiro estava além mar, do outro lado do Oceano Atlântico.
Para que tudo se realizasse a contento, colocaram-se logo a caminho já que havia mais de 8.000 km a serem vencidos até chegarem aos seus destinos.
Ansiosos já se deliciavam imaginando as expressões de espanto e incredulidade, seguidas de boas gargalhadas, descontração, bem como momentos carinhosos e amigos.
E foi assim que em plena noite de um domingo, o whatsapp avisou a chegada de mensagem  no grupo familiar. Uma foto mostrava aquele que seria surpreendido, todo risonho, bem em frente à sua residência em Campinas. 
Espanto geral no grupo. 
Como assim?  Foto antiga? Montagem? Àquela hora e dia, ele deveria estar exatamente a mais de 8.000 Km dali.
O whatsapp endoidou e não parava de apitar já que uma parcela do grupo não entendia o que estava se passando.  
E dá-lhe emojis
                                                    


             
Aproveitando as reações de espanto, ele curtia e se divertia com as hipóteses levantadas pelos demais em busca de explicação para a tal foto. Realmente ele estava em Campinas.
Foi quando outras duas fotos apareceram nas telinhas dos celulares de todos: um casal espantado dentro de um avião, e passagens aéreas para o outro lado do Oceano Atlântico.
Incredulidade ampla, geral e irrestrita.
Como assim? Montagem? Voo doméstico querendo se passar por internacional??? O casal estava mesmo viajando???
Mensagens dispararam novamente no grupo da família!  Santa tecnologia.
   
Até que.....até que após alguns minutos e muitas mensagens e expressões de espanto, a compreensão se fez entre todos.
                          

Por uma incrível coincidência ou brincadeira do destino, pai e filho se desencontraram em pleno espaço aéreo sobre o Atlântico.  Quase se viram e trocaram tchauzinhos pelas janelinhas dos respectivos aviões.
O pai que deveria permanecer em  Portugal por longo tempo, resolveu retornar ao Brasil sigilosamente para surpreender a família, ao mesmo tempo que o casal (seu filho e nora) embarcou para lá no mesmo dia, também de maneira sigilosa, visando surpreendê-lo.
Desencontro total.  Os três queriam surpreender e foram pegos de surpresa. Realmente ela tem mão dupla!
            
A despeito de toda confusão os surpreendidos puderam se encontrar dias mais tarde e tudo acabou bem!
                         

Santos, 03/09/2018

Para Edo, Luis Fernando e Erika - pelo incrível desencontro aéreo.

segunda-feira, 26 de março de 2018

A TRINCA PELUDA





Eles eram grandes.  Muito grandes.
Eram três ao todo e muito bonitos - um preto, um branco e um com pelos castanhos tendendo para o dourado.  Três cães enormes circulando pela casa.
Ainda bem que eram razoavelmente dóceis pois caso contrário jamais alguém entraria lá e se entrasse, com certeza não sairia intacto dado ao tamanho das criaturas.
Bem alimentados e cuidados, vagavam pelos cômodos à procura do lugar mais fresco já que o calor estava insuportável.
Naquele final de semana de pleno verão eles estavam sob os cuidados de uma pessoa com a qual não tinham muito contato, mas nem por isso criaram problemas, ao contrário, ficaram deitados a maior parte do tempo.
Final de noite e início da madrugada,  com a TV já desligada, o senhor dirigiu-se ao banheiro. Os três animais o seguiram e sentaram-se próximos à porta esperando por ele.
Ao entrar no quarto, para seu espanto, foi seguido pela trinca que se acomodou no chão ladeando a cama toda - um de cada lado e um nos pés.  
Isso é até compreensível e aceitável afinal ali havia ar condicionado e os cães com certeza também se acharam com até mais direito de usufruírem daquela temperatura amena, uma vez que eles eram os mais peludos do quarteto. Entendendo que esse era o costume, o senhor resolveu deixar a porta aberta para o caso de seus companheiros de quarto desejarem sair durante a noite para alguma balada. Na verdade ele é que de certa forma ficou sem chance de sair da cama no escuro pois correria o risco de pisar sem querer em um dos pimpolhos peludos e aí o forrobodó estaria armado.
Dormiu assim totalmente guardado pelo cães que a exemplo dos humanos, roncavam razoavelmente.  Situação curiosa e estranha, mas enfim, era uma nova experiência em sua vida.
Na bela manhã de domingo ensolarado lá estavam todos dividindo os espaços da casa e em perfeita harmonia após um sono reparador no quarto para quatro.  Assim passaram as horas daquele dia até que chegou o momento da partida.
No final da tarde o senhor arrumou suas coisas e seguindo as orientações recebidas, trancou a porta da sala que dava acesso à frente da casa enquanto a trinca peluda dormia sossegada no piso frio do cômodo. 
Ato seguinte, abriu o portão da rua para partir de vez, procurando agir sempre com total naturalidade para não chamar a atenção de frequentadores de um bar bem na frente do local.
Já na calçada e enquanto virava a chave na fechadura não notou que havia um recipiente com água bem próximo  dali e encostado ao muro. No exato instante em que muito discretamente fechava o portão, um grande e sedento cão  preto de rua, enfiou-se entre suas pernas e começou a beber a água da vasilha. 
Ao olhar para baixo e vendo o cão preto, o senhor se espantou e achando que era um de seus coleguinhas de quarto que havia escapado, começou a empurrá-lo para dentro da casa ao mesmo tempo em que o animal acionava com toda força seu breque improvisado usando as quatro patas, negando-se peremptoriamente a entrar na casa.  Cena hilária de quase rapto canino.
Alguns segundos depois ao ser alertado sobre o equívoco, deixou o assustado animal seguir sua vida de morador de rua, muito provavelmente sem terminar de matar a sede, já que naquele instante sua prioridade era bem outra: ir para bem longe dali.
Ainda mantendo discrição, ou melhor, o que ainda restava de discrição e obedecendo orientações recebidas, o senhor teria que jogar o chaveiro por cima do muro.
Antes de jogá-lo e para ter certeza de onde cairia, subiu numa saliência tipo barrado que havia no muro. E não é que nesse exato momento o dito cujo chaveiro resolveu escapar de suas mãos e cair na calçada provocando forte tilintar de sinos?   O gesto perfeitamente identificado à distância teve que ser repetido pela segunda vez, mas agora finalmente com sucesso.
A estas alturas toda e qualquer discrição que ainda havia foi de vez para o espaço. Só não notou todo aquele movimento, algum frequentador do bar que tivesse sérios problemas de visão.
Missão cumprida, retorno tranquilo para o lar. 
Por muito pouco o morador da casa ao chegar à noite, acreditaria piamente em geração espontânea já que deixara três cães e encontraria quatro animais instalados confortavelmente  em sua sala.

Santos, 25 de março de 2018


Ao Luiz Adhemar, que fez mais três amigos de 4 patinhas, ou melhor, de 4 patonas!!

quinta-feira, 20 de julho de 2017

RESGATE DE EMOÇÕES


Uma notícia triste vinda de longe transportou de imediato meus pensamentos para uma época distante, mas ainda muito viva em minha memória.
Nos fins dos anos 50 eu era a única menina da vizinhança e as brincadeiras de rua eram todas na companhia dos meninos.  No começo da noite e finais de semana brincávamos com carrinhos de rolimã, empinávamos pipas, fazíamos guerrinha de tampinhas de garrafas com a turma da rua 3, corríamos nos pega-pega e às vezes eu até jogava futebol  (era sempre a goleira e o gol era a porta de aço de um casa comercial).
Foi quando mudou-se  perto de casa uma garota loirinha de nome Lucinda, que tinha idade próxima à minha.  Fiquei maravilhada.    Afinal teria uma companheira para brincadeiras.
Não estudávamos na mesma escola, mas isso não foi empecilho para ficarmos logo amigas e passarmos a frequentar uma a casa da outra.  Ela morava na ocasião com seus tios que tinham um comércio de vestidos de noivas e também confeccionavam flores em tecidos.  Para mim era uma festa ver as funcionárias montando aquelas flores de pano e na época carnavalesca elaborarem os adereços para as escolas de samba da cidade.
Acabei aprendendo um pouco a mexer com isso e nas ocasiões em que o serviço apertava, lá estávamos nós ajudando na oficina. Era mais brincadeira que trabalho mesmo.  Tínhamos então por volta de 8 a 9 anos de idade.
 Foi com ela que comecei a frequentar um programa dominical dirigido totalmente às crianças,  na antiga Rádio PRF2 da cidade.
Era o chamado Programa da Tia Joaninha.  A apresentadora, a Sra. Joana Batista Epiphânio, promovia uma espécie de seleção de calouros mirins, onde toda criança que assim desejasse, poderia cantar uma música para um auditório que ficava lotado.
A expectativa e torcida da plateia formada por muitas crianças e seus familiares, eram contagiantes.  Eu fazia parte da torcida de Lucinda que diga-se de passagem, cantava muito bem mesmo músicas difíceis, não adequadas às vozes infantis.  Lembro-me bem do sucesso que ela fez ao cantar  "Se acaso você chegasse" *.
Nos carnavais sua tia inventava e nominava belas fantasias para a sobrinha ir nas matinês. A última que lembro foi a Rainha da Lua. 
Numa ocasião por um problema familiar, eu não iria na matinê.  A tia, D. Rizolina,  fez então às pressas uma fantasia para que eu pudesse acompanhar sua sobrinha. Lá fui eu de última hora vestida de Colombina.  Nos levaram até no tradicional fotógrafo Copriva para registrar o momento.
Creio que D. Rizo nunca soube o quanto fez minha mãe feliz com este gesto!
Já na adolescência começamos a frequentar a mesma escola  e embora não estivéssemos na mesma classe, íamos e voltávamos juntas para o Curso Normal (Magistério) no tradicional Instituto de Educação "Joaquim Ribeiro".
Após este período nossas vidas mudaram e seguimos caminhos diferentes. Aos poucos perdemos o contato.
Há pouco tempo e graças à tecnologia ela me localizou numa rede social.  Num piscar de olhos toda aquela emoção vivenciada há tantos anos voltou à tona, assim como as boas e belas lembranças.
Nesta semana infelizmente Lucinda nos deixou.  Com ela se foi uma bela parte de minha infância e adolescência.
Siga em paz amiga!  Será sempre lembrada com muito amor  e carinho!!!


Santos, 20 de julho de 2017.


Para Lucinda Fozzato Hebling, in memoriam!

*  Musica: Se acaso você chegasse
                 Autoria: Lupicínio Rodrigues

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

MACAQUINHOS DO SÓTÃO





Desde que soube do fato, meus macaquinhos do sótão começaram a cutucar pedindo-me uma atitude. 
Sei bem o que querem, entendo-os perfeitamente, mas ainda não havia conseguido administrar e gerir de maneira racional e não apenas emocional, como expressar este reboliço que o fato anunciado ontem, provocou nos macaquinhos de minha mente.
Pensei inicialmente em imagens, depois resolvi associá-las a um áudio, por fim decidi pelo texto simples que saia com fluência e espontaneidade.
Não posso em hipótese alguma alegar surpresa.  Isso realmente não aconteceu.
Já esperava resultado positivo por conhecê-la desde sempre e por seu histórico até hoje.
O que realmente atiçou meus macaquinhos não foi o feito em si, mas o brilhantismo de tal feito.
Estou referindo-me à Luíza Quinália Cerri.
Não obstante ainda lhe falte uma boa carga horária de ensinamentos e conteúdos equivalentes ao último ano do Ensino Médio, dispôs-se a conhecer as emoções, para não dizer pressões, às quais se expõem todos aqueles que se deparam com a chamada peneirada final, ou seja, o vestibular.
Sem o objetivo de criar polêmica, tal critério de avaliação até certo ponto discutível, tem ainda pleno poder de decisão: você está numa universidade ou, tente novamente!
Todos que já passaram por isso sabem bem o que estou falando.  A experiência, positiva ou negativa, fica marcada para sempre. 
As emoções vivenciadas tornam a ser repetir quando pessoas próximas a nós também passam por isso.  Já foi assim, essa mesma emoção, com sobrinhos e primos que apresentaram excelentes resultados. 
A torcida sempre foi grande e as comemorações foram maiores ainda.
Ousada, Luíza optou por uma carreira concorrida numa universidade pública.
Ontem o resultado foi divulgado: aprovada na segunda fase e em 12º lugar na classificação, de um total de 80 vagas.
Como já afirmei no início, não fiquei surpresa com a aprovação, mas realmente a classificação me “pegou de jeito”, considerando que nem concluiu ainda o Ensino Médio.
Independente da decisão que tomará, saiba Luíza, que emoção e orgulho se misturam neste momento a muitos outros sentimentos bons.  Os macaquinhos do meu sótão que o digam.
Você mostrou a que veio - ao sucesso!
Parabéns menina, ops....parabéns moça Luiza!!!!!


Santos, 17 de fevereiro de 2017

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

CULPA DA BOLSA DOURADA



Ficar de mau humor perto dela é meio difícil, diria até que é quase impossível.
A despeito das correrias do dia a dia, dos tropeços que se dá, das dificuldades que vira e mexe nos tiram a paz, há pessoas que "tiram isso de letra" como se diz popularmente, e não perdem o bom humor. 
Ela é assim.
Já a vi brava, irritada e com vontade de socar alguém, mas estes sentimentos são tão rápidos, tão passageiros, que mal lhe tiram o sorriso dos lábios.
Aliado a tudo isso, parece que sempre as confusões acontecem com ela ou de certa forma a envolvem e ouvi-la contar os casos, é gargalhada na certa.
Foi isso e mais um pouco o que aconteceu num final de semana prolongado, durante uma viagem a Santos.
Como combinado com sua mãe, foi de carona até a rodoviária para pegar o ônibus com passagem já comprada.  Sua amiga tomaria o mesmo ônibus, mas numa cidade vizinha onde o veículo faria uma parada.
Pouco antes de chegarem ao local do embarque, ela se deu conta que havia esquecido sua "singela" bolsa, totalmente dourada e com mais de meio metro de comprimento.  Nela estavam objetos de uso pessoal, documentos e a passagem que iria usar.  Nervosa com o imprevisto, ficou até aborrecida com o fato da mãe não ter notado que ela esquecera a "discretíssima" bolsa.
Apesar de já atrasadas, não houve jeito a não ser dar meia volta rumo à residência.
Mesmo sendo rápidas não conseguiram retornar à rodoviária antes da partida do ônibus.
Sabendo que ele faria também uma outra breve parada numa cidade anterior à que sua amiga estava, não teve dúvidas: decidiu ir de carro até onde a companheira aguardava, na certeza que ultrapassaria o tal "busão" no caminho, enquanto ele entrasse no lugarejo.  Desta forma embarcaria junto com a amiga.
De imediato tomou a direção do carro alegando que era mais rápida ao volante e partiu a toda velocidade. Pela "estrada afora ela foi bem contente"*. Não usava um chapeuzinho vermelho, mas tinha uma bela e imensa bolsa douradíssima.
No banco do carona, a mãe pedia-lhe que fosse mais devagar, que iria provocar acidente e outros conselhos mais do que pertinentes, mas a vontade de alcançar o tal veículo era maior.  Foi-lhe até sugerido que ligasse para o celular do motorista pedindo-lhe para esperá-la, mas essa hipótese não tinha como ser considerada por motivos óbvios.
O que ela imaginava realmente aconteceu, ou seja, chegou na rodoviária da cidade vizinha minutos antes do ônibus. Conseguira ultrapassá-lo na estrada. Juntamente com a amiga, embarcou sem maiores complicações.
Problema solucionado, eis que surgiu nova situação. 
A tensão nervosa e a preocupação pelas quais acabara de passar, fez com que seu corpo, mais precisamente seu sistema digestivo resolvesse dar sinais que iria funcionar.  Ela tinha pela frente uma viagem de mais de 3 horas num veículo sem banheiro. 
A cada minuto a aflição aumentava e o jeito foi tentar se distrair com outras coisas e de vez em quando falar para si mesma:  "Calma, calma, espera mais um pouco que já lhe atendo! Calma, agora não "totozinho", ainda não é sua hora!"
Suando frio conseguiu controlar o organismo, mas ao chegar a seu destino, para espanto de todos, ela praticamente voou da porta de entrada do apartamento para o banheiro e lá ficou por um bom tempo.
Quando conseguiu sair, contou e encenou detalhadamente todos os fatos com aquele seu jeito divertido, e aí as gargalhadas foram gerais.
Aqui caberia um The End, mas não foi o que aconteceu.
Um tempo depois ela soube que a história ainda não havia acabado. Um novo personagem, um tal  de Detran, entrara triunfante no capítulo final.
Realmente com a correria na estrada, ela conseguiu evitar a perda da passagem e dos reais que havia gasto na sua compra, mas em compensação, quando chegaram as multas por excesso de velocidade no percurso em que ultrapassou o ônibus, os reais que perdeu, superaram em muito o valor da tal passagem, além de outras dores de cabeça.
O novo personagem tentou ofuscar a protagonista, mas nem os dissabores a fizeram perder o bom humor. Foi melhor nem fazer os cálculos e seguir em frente para novas emoções.
Hoje, problemas resolvidos e superados, as peripécias da dona da bolsa dourada ainda provocam risos ao serem lembradas.
A propósito, será que ela ainda tem a bela, "recatada" e dourada  bolsa?

Santos, 23/10/2016

* Música da história infantil: O Chapeuzinho Vermelho.

Para Carolina e seu bom humor.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

O PESADELO




Filmes de terror???
Ela queria distância deles. Não se atrevia a assistir nenhum.
Quando ocasionalmente havia uma cena deste estilo no filme que estava vendo, fechava os olhos ou tampava-os deixando só uma pequena fresta entre os dedos  que se fechava quando o ritmo da música ficava mais apavorante.
No entender dela, e no meu também, é impossível ter um sono tranquilo e repousante depois de levar sustos e mais sustos diante das telas da TV ou cinema.
Há porém quem goste muito destas fortes emoções e não perdem oportunidade de assisti-las.
Acontece que coincidência ou não, na hora de dormir os fantasmas aparecem nos sonhos e aí o que era para ser descanso e repouso, vira o tal pesadelo.
Foi provavelmente isto que aconteceu naquela viagem.
Tudo transcorria dentro da normalidade. Estrada boa,  ônibus bem confortável, passageiros sossegados e cochilando naquele final de tarde e início de noite.
Olhou ao redor e concluiu que talvez só ela e o motorista estavam acordados.
De repente, "não mais que de repente"* como dizia Vinícius de Moraes, a companheira do banco ao lado que aparentemente dormia  bem tranquila, começou a se agitar e dizer palavras sem nexo.  Preocupada, aproximou-se da amiga e ficou atenta. 
Os murmúrios aos poucos passaram a gemidos mais altos ao mesmo tempo em que o corpo se contraia.
Notando que a amiga deveria estar sonhando com algo ruim, resolveu acordá-la antes que os gemidos se transformassem em gritos e acordassem todos os passageiros.
Delicadamente apoiou cada mão sobre os ombros da jovem e chamou-a pelo nome por duas vezes seguidas. Ao chamá-la pela terceira vez com a voz mais elevada, viu com espanto que sua companheira encarou-a de uma forma assustadora, com olhos esbugalhados, ao mesmo tempo em que soltava um grito apavorante.
Levou um susto tão grande que a fez recuar o corpo rapidamente, acabando por bater a cabeça no vidro da janela do ônibus, provocando um ruído surdo.
Enquanto ela própria se refazia do espanto e da pancada na cabeça, a jovem ao seu lado agora desperta, respirava ofegante tentando explicar que havia tido um pesadelo horrível.   
Nem era necessário justificar nada pois pela intensidade do berro, deduzia-se que no mínimo ela tinha estado com o próprio capeta.
Foi difícil conter a gargalhada e ao mesmo tempo ser solidária com a amiga que ainda assustada com os maus sonhos, se recompunha no assento ao lado sem se atrever a olhar ao redor.
Neste mês em que se comemora o Dia das Bruxas, com certeza os fãs destes tipos de filmes estarão acumulando bastante informações para novos e tenebrosos pesadelos. E aí, haja gritos no meio da noite!
Decididamente como dizem os jovens de hoje,  eu "tô fora"!


Santos, 11 de outubro de 2016.


*  Soneto de Separação - Vinícius de Moraes

quarta-feira, 6 de julho de 2016

TROCA TROCA




Não é fato raro fazer confusão com nomes de pessoas, trocando-os por outros semelhantes ou ligados a algum fato que nos envolva.
Geralmente diante de nomes muito diferentes, nossas mentes processam associações com experiências vivenciadas e aí o risco de troca é muito grande.
Considero-me especialista nisso.  Sem que possa controlar, relaciono mentalmente o nome com algo que conheço e aí, no vai e vem da conversa, acabo confundindo as palavras.
O fato é que os resultados destas trocas, são sempre divertidos.
Há tempos, ao cumprimentar um representante do Tribunal de Contas cujo sobrenome era Alpiste, me referi a ele em alto e bom som como Sr. Pardal.
Já por duas vezes enquanto conversava com um vizinho de nome Josué, o chamei de Jeová.
Por sorte ele não percebeu, mas foi difícil me controlar pois a vontade de rir veio na hora, quando pensei que afinal não errara muito já que ambos estão na Bíblia. Continuei o assunto segurando o riso a muito custo.
Entretanto nem sempre tais trocas "passam batido" como se costuma dizer; às vezes a pessoa se ofende ao ter o nome confundido com outro e isso piora tudo. A vontade de rir da situação aumenta mais ainda e a gargalhada muitas vezes é inevitável.
Foi assim com ela que precisando de uma consulta, acabou indo à clínica do Dr. Colombo. Profissional sério e competente.
Tudo transcorria normalmente.  Exames feitos, receitas transcritas e eis que, um tanto distraída, no meio da conversa o chamou de Dr. Cristóvão. 
Ouviu de imediato a correção feita com ares não muito amistosos e de maneira bem pronunciada:
- Meu nome é COLOMBO! 
A partir daí ficou se controlando e torcendo para a consulta terminar, pois estava para explodir de tanto segurar o riso. Com certeza a estas alturas ela já estava até desejando pegar carona nas caravelas Santa Maria, Pinta e Nina e zarpar dali.
Resultado disso foi que o Dr. Colombo perdeu uma cliente que resolveu não voltar com medo de na próxima consulta, acabar chamando-o de Cabral.

Santos, 6 de julho de 2016


Para Tutu, que com certeza aprendeu direitinho quem descobriu a América.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

COMO TIRAR O BOI DA LINHA




- ALÔ!!!!!   ALÔ!!!!   ALÔÔÔÔ????  O telefone está novamente com linha presa!  Que droga de  Telesp!!!*
Naqueles anos iniciais da década de 90, era muito comum ouvirmos estas expressões em casa, pois realmente o problema era frequente.
A casa era grande e alguns cômodos ficavam bem distantes entre si, além da escada a ser vencida.  Isto acabou motivando a instalação de 3 extensões do telefone fixo, além do ponto principal.  Dois aparelhos ficavam no térreo e outros dois na parte superior do sobrado.
Sendo assim, não era raro  estar se usando a linha e ser interrompido por alguém que na outra extremidade da casa, pegava o aparelho para também fazer alguma chamada.
Este fato não criava problemas para os moradores, ou ao menos parecia não criar para os adultos, mas sim para o neto adolescente.
Como sabemos,   a adolescência é uma fase linda, mas um tanto complicada e com oscilações de humor inesperadas. Uma questão primordial tanto para meninos quanto para meninas é a privacidade, fato perfeitamente compreensível e lógico.  
Acontecia que o rapaz andava encontrando dificuldades em conversar tranquilamente com quem desejasse sem correr o risco de uma provável escuta indesejável e acidental. O celular ainda não reinava absoluto na vida das pessoas e dos jovens especialmente.
Decidido a ter seus momentos telefônicos preservados, resolveu puxar uma fiação, obviamente clandestina, para seu quarto.  Sem que os adultos soubessem ele subiu no forro da casa, puxou o fio telefônico, desceu-o pelo conduíte da rede elétrica e instalou um tipo de chavinha comutadora, num local muito bem escondido.  Tudo feito com capricho e sem deixar vestígios. Um serviço profissional.
Conforme a posição em que o botão desta chave fosse colocado, a linha do telefone estaria liberada para a casa toda, ou então somente para seu quarto, e nesta situação deixava mudos os demais aparelhos.  Assim ele falava sem receio de estar sendo ouvido.
Acontecia porém que após seu uso, o rapaz esquecia de retornar a chave na posição que liberava os demais aparelhos e por incrível coincidência, sempre a vítima era seu avô. Ao pegar o aparelho e encontrá-lo mudo, ficava indignado e irritado com a Telesp. Esbravejava enquanto seguidamente retirava e punha o monofone no apoio, na esperança de liberar a linha presa.
O rapaz ouvindo as reclamações ditas em alto e bom som, lembrava da tal chavinha e corria para seu quarto.  Instantaneamente e para surpresa de todos, a linha era liberada.  O avô, incrédulo, comentava que parecia até que a Telesp havia ouvido as broncas tal a rapidez do conserto.
Assim ocorreu por um bom tempo até que certo dia topei com o esconderijo da chavinha. Mexi nela e acabei por descobrir sua utilidade.
Pesando os prós e contras conclui pela manutenção da privacidade adolescente e juntamente com minha mãe, tornamo-nos coniventes com a estratégia inteligente usada para tirar não só o "boi", mas a "manada" toda da linha.
Claro que com isso acabamos também ficando com a responsabilidade de zelar para que a tal chavinha liberasse a linha após seu uso clandestino no quarto do rapaz.
O avô jamais veio a saber do fato e continuou a vociferar contra a  companhia telefônica toda vez que ia usar o aparelho enquanto o neto estrategicamente, tinha tirado o "boi da linha".

Santos, 30 de março de 2016

Para Luis Fernando e sua criatividade!

* Telecomunicações de São Paulo - empresa operadora de telefonia no Estado de São Paulo, antes da privatização ocorrida em julho/1998.


sexta-feira, 25 de março de 2016

UM CHINELINHO SUSPEITO






Cada momento tem sua importância na vida de todos nós.
Seja no âmbito profissional ou pessoal, o que foi vivenciado ou apenas presenciado,  ficará armazenado para sempre em nossa memória e vez ou outra, sua lembrança será resgatada.
Uma frase solta ouvida numa conversa alheia, uma música tocada ao longe, uma data, qualquer coisa pode apertar o gatilho das lembranças e nos conduzir de imediato àquele momento já vivido há tanto tempo.
Ontem por exemplo, o dia em especial, uma 5ª feira Santa, levou meus pensamentos diretamente para um fato protagonizado por uma amiga há muitos anos.
Dentre as cerimônias religiosas tradicionais neste dia santo, há a chamada Cerimônia do Lava-Pés, na qual o celebrante repetindo um gesto de humildade de Cristo antes da ceia, lava os pés de 12 pessoas representando os 12 Apóstolos.
Ela fora convidada a ser uma das pessoas cujos pés seriam simbolicamente lavados pelo padre da paróquia.
Preparou-se para o evento sem maiores dificuldades e postou-se ao lado dos outros 11 convidados.
Finda a cerimônia da lavagem, como de costume, foi entregue a cada participante, devidamente embrulhado, um pão benzido representando o alimento servido na Santa Ceia.
Distraída e feliz já com o pé refrescado, ela recebeu o presente: um pacote alongado e macio. Ainda sem abrir o embrulho, deduziu apressadamente que deveria ser um par de chinelinhos para vestir já que tivera seu pé direito recém lavado. 
Preferiu continuar com suas sandálias e sem maiores preocupações, acomodou o pacote macio sob a axila, também conhecida mais popularmente como sovaco.
Caminhou assim por alguns momentos apertando bem o tal embrulho para que não escorregasse. Afinal, não queria perder os "chinelinhos" novos.
Somente ao chegar próxima a algumas amigas é que seu gesto tão casual foi questionado.
Não entendia o motivo de lhe chamarem a atenção pelo fato de ter carregado o pretenso  chinelinho na axila.
Finalmente alguém lhe esclareceu que não se tratava de um simples calçado, mas sim, de um pão abençoado que fora benzido especialmente para aquela cerimônia.
Foi quando retirou rapidamente o pacotinho já bem amassado, do sovaco onde o abrigara.
Constatou satisfeita que o pão sobrevivera.
É bem verdade que estava todo tortinho e amassado, mas sobrevivera sem nenhum outro aroma comprometedor.
O pão continuava abençoado.
Uma  Feliz Páscoa a todos!


Santos, 25 de março de 2016  - Sexta-feira Santa.


Para Cleide, que ficou sem seu chinelinho...rsss. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

CHEGOU A MINHA VEZ




Há três anos me diverti muito com um caso que não presenciei, mas acompanhei cada etapa através dos sons emitidos.
Um turista hospedado no prédio onde moro, estava preocupado com um cheiro que lembrava plástico sendo queimado.
Desceu as escadas correndo para já no instante seguinte, virar nos calcanhares e voltar  acompanhado por fortes latidos. Se desceu correndo, seguramente na volta ele voou.  
Subiu os degraus rapidamente enquanto soltava sonoros palavrões tendo os  latidos como fundo musical.  Chegou ofegante no andar superior.
O susto dele foi tão grande que até se esqueceu qual havia sido o motivo  que o levara ao andar debaixo.
Ri muito na ocasião pois acompanhei toda história através dos sons: a conversa no corredor, o barulho da descida da escada, os latidos fortes, a subida com os TÉC TÉC TÉC  dos chinelos batendo rapidamente nos calcanhares, culminando com um rosário de palavrões. Aprendi até alguns  novos.
Contei o fato neste blog: http://lmcerri.blogspot.com.br/2013/01/surpresa-no-andar-de-baixo.html.
Pois bem.  Decorridos três anos, fui apresentada a este mesmo cachorro.
Ao sair do elevador  vi sua cabeça me espiando pela porta aberta de um apartamento. Com certeza minha figura não lhe agradou pois de imediato ele saiu no corredor e veio latindo e correndo em minha direção.
Na mesma hora tentei voltar para dentro do elevador, mas as portas se fecharam. Fiquei ali meio acuada enquanto o quatro patas se aproximava latindo.
Por sorte eu trazia uma sombrinha  nas mãos; estiquei-a para frente e me preparei para o duelo. Senti-me o próprio Zorro sem capa.
Neste instante os donos do cão saíram na porta e o chamaram. 
Ainda bem que o animal é obediente pois estancou na mesma hora e voltou.
Para mim é  totalmente furada aquela máxima que diz: cão que ladra não morde.  Conheço um exemplar que quebra esta afirmação em grande estilo.
Retomei meu caminho no corredor e ouvi  o necessário pedido de desculpa seguido da famosa frase: Não precisa ter medo, ele não faz nada.
Ainda com o coração disparado retruquei:  Como não?  E o susto que ele provoca?
 Temos que lembrar que sustos assim podem trazer consequências graves principalmente para digamos, uma candidata à idosa como eu......eita!
Neste instante lembrei-me das gargalhadas que dei quando ouvi os apuros do turista, neste mesmo andar, três anos antes. 
Quase certeza que se trata do mesmo cachorro.  
Ri naquela ocasião e agora foi a minha vez de ser apresentada a este cão que ladra, ladra muito, mas não quero comprovar se morde ou não.
                   Cachorro nervoso e solto no corredor do prédio é mesmo um Ó!!!!
Saber conviver realmente é uma arte, uma verdadeira arte!



Santos, 10 de janeiro de 2016

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

CAIXINHA DE PANDORA







Final de ano, quer queiramos ou não, acabamos fazendo uma análise mesmo que rápida, de como foi nossa atuação ao longo dos últimos 12 meses.
Momentos alegres, momentos de conquistas, momentos de perdas e decepções, vão desfilando pela memória como que saltando um a um, de dentro de uma caixinha que abriga nossas vidas.
Interessante notar como o passar dos anos altera nossas reações diante de situações já vivenciadas, sejam positivas ou não.
Fato que em outros tempos me tiraria do sério como se costuma dizer, hoje pouco me afeta e sua mínima importância, faz com que o coloque bem no fundo do bauzinho da memória. Esquecer eu não esqueço; isso ainda não aprendi a fazer.  De certa forma é até bom para servir de alerta.
Tirando a média e os noves fora, 2015 foi um ano bom para mim.
Aprendi  muitas coisas novas e úteis, enveredei por novos caminhos, conheci pessoas que se tornaram importantes para mim.
Aprendi principalmente que as pedras do caminho que nos fazem tropeçar, aquelas mesmas de Drummond, também nos impulsionam para frente, a despeito de catarmos coquinhos (junto com nossos caquinhos), nos primeiros e desajeitados passos à procura do equilíbrio.
Este solavanco é bom e necessário pois sempre mostra novos ângulos da vida, ângulos estes que a mesmice e a acomodação escondem, nos deixando na ilusória zona de conforto.
A exemplo de Pandora devemos abrir as caixas de nossas vidas, deixando escapar tudo o que nos faz mal, tudo o que nos machuca, mas mantendo em seu interior algo essencial - a esperança.
Essa sim, deve estar presente na caixinha que abriga nossas vidas.
Com a esperança bem guardada e renovada, iniciemos esta nova caminhada.


Santos, Natal de 2015.