quarta-feira, 6 de julho de 2016

TROCA TROCA




Não é fato raro fazer confusão com nomes de pessoas, trocando-os por outros semelhantes ou ligados a algum fato que nos envolva.
Geralmente diante de nomes muito diferentes, nossas mentes processam associações com experiências vivenciadas e aí o risco de troca é muito grande.
Considero-me especialista nisso.  Sem que possa controlar, relaciono mentalmente o nome com algo que conheço e aí, no vai e vem da conversa, acabo confundindo as palavras.
O fato é que os resultados destas trocas, são sempre divertidos.
Há tempos, ao cumprimentar um representante do Tribunal de Contas cujo sobrenome era Alpiste, me referi a ele em alto e bom som como Sr. Pardal.
Já por duas vezes enquanto conversava com um vizinho de nome Josué, o chamei de Jeová.
Por sorte ele não percebeu, mas foi difícil me controlar pois a vontade de rir veio na hora, quando pensei que afinal não errara muito já que ambos estão na Bíblia. Continuei o assunto segurando o riso a muito custo.
Entretanto nem sempre tais trocas "passam batido" como se costuma dizer; às vezes a pessoa se ofende ao ter o nome confundido com outro e isso piora tudo. A vontade de rir da situação aumenta mais ainda e a gargalhada muitas vezes é inevitável.
Foi assim com ela que precisando de uma consulta, acabou indo à clínica do Dr. Colombo. Profissional sério e competente.
Tudo transcorria normalmente.  Exames feitos, receitas transcritas e eis que, um tanto distraída, no meio da conversa o chamou de Dr. Cristóvão. 
Ouviu de imediato a correção feita com ares não muito amistosos e de maneira bem pronunciada:
- Meu nome é COLOMBO! 
A partir daí ficou se controlando e torcendo para a consulta terminar, pois estava para explodir de tanto segurar o riso. Com certeza a estas alturas ela já estava até desejando pegar carona nas caravelas Santa Maria, Pinta e Nina e zarpar dali.
Resultado disso foi que o Dr. Colombo perdeu uma cliente que resolveu não voltar com medo de na próxima consulta, acabar chamando-o de Cabral.

Santos, 6 de julho de 2016


Para Tutu, que com certeza aprendeu direitinho quem descobriu a América.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

COMO TIRAR O BOI DA LINHA




- ALÔ!!!!!   ALÔ!!!!   ALÔÔÔÔ????  O telefone está novamente com linha presa!  Que droga de  Telesp!!!*
Naqueles anos iniciais da década de 90, era muito comum ouvirmos estas expressões em casa, pois realmente o problema era frequente.
A casa era grande e alguns cômodos ficavam bem distantes entre si, além da escada a ser vencida.  Isto acabou motivando a instalação de 3 extensões do telefone fixo, além do ponto principal.  Dois aparelhos ficavam no térreo e outros dois na parte superior do sobrado.
Sendo assim, não era raro  estar se usando a linha e ser interrompido por alguém que na outra extremidade da casa, pegava o aparelho para também fazer alguma chamada.
Este fato não criava problemas para os moradores, ou ao menos parecia não criar para os adultos, mas sim para o neto adolescente.
Como sabemos,   a adolescência é uma fase linda, mas um tanto complicada e com oscilações de humor inesperadas. Uma questão primordial tanto para meninos quanto para meninas é a privacidade, fato perfeitamente compreensível e lógico.  
Acontecia que o rapaz andava encontrando dificuldades em conversar tranquilamente com quem desejasse sem correr o risco de uma provável escuta indesejável e acidental. O celular ainda não reinava absoluto na vida das pessoas e dos jovens especialmente.
Decidido a ter seus momentos telefônicos preservados, resolveu puxar uma fiação, obviamente clandestina, para seu quarto.  Sem que os adultos soubessem ele subiu no forro da casa, puxou o fio telefônico, desceu-o pelo conduíte da rede elétrica e instalou um tipo de chavinha comutadora, num local muito bem escondido.  Tudo feito com capricho e sem deixar vestígios. Um serviço profissional.
Conforme a posição em que o botão desta chave fosse colocado, a linha do telefone estaria liberada para a casa toda, ou então somente para seu quarto, e nesta situação deixava mudos os demais aparelhos.  Assim ele falava sem receio de estar sendo ouvido.
Acontecia porém que após seu uso, o rapaz esquecia de retornar a chave na posição que liberava os demais aparelhos e por incrível coincidência, sempre a vítima era seu avô. Ao pegar o aparelho e encontrá-lo mudo, ficava indignado e irritado com a Telesp. Esbravejava enquanto seguidamente retirava e punha o monofone no apoio, na esperança de liberar a linha presa.
O rapaz ouvindo as reclamações ditas em alto e bom som, lembrava da tal chavinha e corria para seu quarto.  Instantaneamente e para surpresa de todos, a linha era liberada.  O avô, incrédulo, comentava que parecia até que a Telesp havia ouvido as broncas tal a rapidez do conserto.
Assim ocorreu por um bom tempo até que certo dia topei com o esconderijo da chavinha. Mexi nela e acabei por descobrir sua utilidade.
Pesando os prós e contras conclui pela manutenção da privacidade adolescente e juntamente com minha mãe, tornamo-nos coniventes com a estratégia inteligente usada para tirar não só o "boi", mas a "manada" toda da linha.
Claro que com isso acabamos também ficando com a responsabilidade de zelar para que a tal chavinha liberasse a linha após seu uso clandestino no quarto do rapaz.
O avô jamais veio a saber do fato e continuou a vociferar contra a  companhia telefônica toda vez que ia usar o aparelho enquanto o neto estrategicamente, tinha tirado o "boi da linha".

Santos, 30 de março de 2016

Para Luis Fernando e sua criatividade!

* Telecomunicações de São Paulo - empresa operadora de telefonia no Estado de São Paulo, antes da privatização ocorrida em julho/1998.


sexta-feira, 25 de março de 2016

UM CHINELINHO SUSPEITO






Cada momento tem sua importância na vida de todos nós.
Seja no âmbito profissional ou pessoal, o que foi vivenciado ou apenas presenciado,  ficará armazenado para sempre em nossa memória e vez ou outra, sua lembrança será resgatada.
Uma frase solta ouvida numa conversa alheia, uma música tocada ao longe, uma data, qualquer coisa pode apertar o gatilho das lembranças e nos conduzir de imediato àquele momento já vivido há tanto tempo.
Ontem por exemplo, o dia em especial, uma 5ª feira Santa, levou meus pensamentos diretamente para um fato protagonizado por uma amiga há muitos anos.
Dentre as cerimônias religiosas tradicionais neste dia santo, há a chamada Cerimônia do Lava-Pés, na qual o celebrante repetindo um gesto de humildade de Cristo antes da ceia, lava os pés de 12 pessoas representando os 12 Apóstolos.
Ela fora convidada a ser uma das pessoas cujos pés seriam simbolicamente lavados pelo padre da paróquia.
Preparou-se para o evento sem maiores dificuldades e postou-se ao lado dos outros 11 convidados.
Finda a cerimônia da lavagem, como de costume, foi entregue a cada participante, devidamente embrulhado, um pão benzido representando o alimento servido na Santa Ceia.
Distraída e feliz já com o pé refrescado, ela recebeu o presente: um pacote alongado e macio. Ainda sem abrir o embrulho, deduziu apressadamente que deveria ser um par de chinelinhos para vestir já que tivera seu pé direito recém lavado. 
Preferiu continuar com suas sandálias e sem maiores preocupações, acomodou o pacote macio sob a axila, também conhecida mais popularmente como sovaco.
Caminhou assim por alguns momentos apertando bem o tal embrulho para que não escorregasse. Afinal, não queria perder os "chinelinhos" novos.
Somente ao chegar próxima a algumas amigas é que seu gesto tão casual foi questionado.
Não entendia o motivo de lhe chamarem a atenção pelo fato de ter carregado o pretenso  chinelinho na axila.
Finalmente alguém lhe esclareceu que não se tratava de um simples calçado, mas sim, de um pão abençoado que fora benzido especialmente para aquela cerimônia.
Foi quando retirou rapidamente o pacotinho já bem amassado, do sovaco onde o abrigara.
Constatou satisfeita que o pão sobrevivera.
É bem verdade que estava todo tortinho e amassado, mas sobrevivera sem nenhum outro aroma comprometedor.
O pão continuava abençoado.
Uma  Feliz Páscoa a todos!


Santos, 25 de março de 2016  - Sexta-feira Santa.


Para Cleide, que ficou sem seu chinelinho...rsss. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

CHEGOU A MINHA VEZ




Há três anos me diverti muito com um caso que não presenciei, mas acompanhei cada etapa através dos sons emitidos.
Um turista hospedado no prédio onde moro, estava preocupado com um cheiro que lembrava plástico sendo queimado.
Desceu as escadas correndo para já no instante seguinte, virar nos calcanhares e voltar  acompanhado por fortes latidos. Se desceu correndo, seguramente na volta ele voou.  
Subiu os degraus rapidamente enquanto soltava sonoros palavrões tendo os  latidos como fundo musical.  Chegou ofegante no andar superior.
O susto dele foi tão grande que até se esqueceu qual havia sido o motivo  que o levara ao andar debaixo.
Ri muito na ocasião pois acompanhei toda história através dos sons: a conversa no corredor, o barulho da descida da escada, os latidos fortes, a subida com os TÉC TÉC TÉC  dos chinelos batendo rapidamente nos calcanhares, culminando com um rosário de palavrões. Aprendi até alguns  novos.
Contei o fato neste blog: http://lmcerri.blogspot.com.br/2013/01/surpresa-no-andar-de-baixo.html.
Pois bem.  Decorridos três anos, fui apresentada a este mesmo cachorro.
Ao sair do elevador  vi sua cabeça me espiando pela porta aberta de um apartamento. Com certeza minha figura não lhe agradou pois de imediato ele saiu no corredor e veio latindo e correndo em minha direção.
Na mesma hora tentei voltar para dentro do elevador, mas as portas se fecharam. Fiquei ali meio acuada enquanto o quatro patas se aproximava latindo.
Por sorte eu trazia uma sombrinha  nas mãos; estiquei-a para frente e me preparei para o duelo. Senti-me o próprio Zorro sem capa.
Neste instante os donos do cão saíram na porta e o chamaram. 
Ainda bem que o animal é obediente pois estancou na mesma hora e voltou.
Para mim é  totalmente furada aquela máxima que diz: cão que ladra não morde.  Conheço um exemplar que quebra esta afirmação em grande estilo.
Retomei meu caminho no corredor e ouvi  o necessário pedido de desculpa seguido da famosa frase: Não precisa ter medo, ele não faz nada.
Ainda com o coração disparado retruquei:  Como não?  E o susto que ele provoca?
 Temos que lembrar que sustos assim podem trazer consequências graves principalmente para digamos, uma candidata à idosa como eu......eita!
Neste instante lembrei-me das gargalhadas que dei quando ouvi os apuros do turista, neste mesmo andar, três anos antes. 
Quase certeza que se trata do mesmo cachorro.  
Ri naquela ocasião e agora foi a minha vez de ser apresentada a este cão que ladra, ladra muito, mas não quero comprovar se morde ou não.
                   Cachorro nervoso e solto no corredor do prédio é mesmo um Ó!!!!
Saber conviver realmente é uma arte, uma verdadeira arte!



Santos, 10 de janeiro de 2016

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

CAIXINHA DE PANDORA







Final de ano, quer queiramos ou não, acabamos fazendo uma análise mesmo que rápida, de como foi nossa atuação ao longo dos últimos 12 meses.
Momentos alegres, momentos de conquistas, momentos de perdas e decepções, vão desfilando pela memória como que saltando um a um, de dentro de uma caixinha que abriga nossas vidas.
Interessante notar como o passar dos anos altera nossas reações diante de situações já vivenciadas, sejam positivas ou não.
Fato que em outros tempos me tiraria do sério como se costuma dizer, hoje pouco me afeta e sua mínima importância, faz com que o coloque bem no fundo do bauzinho da memória. Esquecer eu não esqueço; isso ainda não aprendi a fazer.  De certa forma é até bom para servir de alerta.
Tirando a média e os noves fora, 2015 foi um ano bom para mim.
Aprendi  muitas coisas novas e úteis, enveredei por novos caminhos, conheci pessoas que se tornaram importantes para mim.
Aprendi principalmente que as pedras do caminho que nos fazem tropeçar, aquelas mesmas de Drummond, também nos impulsionam para frente, a despeito de catarmos coquinhos (junto com nossos caquinhos), nos primeiros e desajeitados passos à procura do equilíbrio.
Este solavanco é bom e necessário pois sempre mostra novos ângulos da vida, ângulos estes que a mesmice e a acomodação escondem, nos deixando na ilusória zona de conforto.
A exemplo de Pandora devemos abrir as caixas de nossas vidas, deixando escapar tudo o que nos faz mal, tudo o que nos machuca, mas mantendo em seu interior algo essencial - a esperança.
Essa sim, deve estar presente na caixinha que abriga nossas vidas.
Com a esperança bem guardada e renovada, iniciemos esta nova caminhada.


Santos, Natal de 2015.

domingo, 3 de maio de 2015

CRIANÇAS E SUAS EXPRESSÕES




Crianças têm boa memória. Disso ninguém duvida. 
Haja vista a facilidade que todas têm em repetir frases inteiras que lhes ensinaram, mesmo usando palavras que desconhecem os significados.
Este fato muitas vezes acaba até sendo explorado por adultos que expõem seus filhos a situações de verdadeiros papagaios, dizendo frases complexas que nem sequer compreendem, mas que contrastam fortemente com a inocência estampada nos rostinhos. Desta forma atraem a atenção e podem até gerar algum tipo de benefício aos pais, sejam puramente a vaidade e orgulho ou até financeiros.
O que é realmente curioso e até divertido é que muitas vezes os pequenos memorizam os termos que lhes ensinaram e passam a repeti-los exatamente como entenderam sua pronúncia que nem sempre está correta.
Como desconhecem as palavras e seus significados, as frases ficam às vezes surreais.
Uma das situações favoráveis à ocorrência destes fatos, são as orações religiosas. 
Lembro-me perfeitamente do dia em que meu pai prestando atenção na reza que minha mãe me ensinava, estancou de repente na porta do quarto.
Do alto de meus seis anos eu rezava em voz alta a oração Salve Rainha, quando no trecho "Mãe misericordiosa,  vida doçura e esperança nossa, salve!" ,  eu soltei a pérola: 
- Mãe misericordiosa vinda do sul, e esperança nossa, salve!
Parado na minha frente e rindo muito perguntou para minha mãe se Nossa Senhora era gaúcha de nascimento, já que segundo minhas palavras ela era "vinda do sul"!
Mais gargalhadas ainda quando ele resolveu pedir-me para repetir a oração desde o início e ouviu outra ligeira troca de termos:  os degredados filhos de Eva, viravam em minha palavras, os empregados filhos de Eva.
Um outro caso ocorreu com Victor que estava com a mãe quando esta lhe pediu que esperasse um pouco, pois iria trocar a sua irmã.
Muito assustado o garoto pediu:
- Não troca não mãe, eu gosto dela.
O garoto mais velho tinha um reio que usava em suas brincadeiras com cavalinho de pau;  a irmã caçula resolveu querer um e entre lágrimas pedia ao pai que fizesse um correio para ela também.
Recentemente li na rede social o comentário de uma amiga sobre a forma como seu netinho de dois anos canta a música de Natal:
- Bate o sino pequenino sino de nenê , já nasceu deus me livre para o nosso bem!!!!!
Recordando estas cenas infantis, lembrei-me das palavras ditas pelo poeta Manoel de Barros comentando a definição dada por uma criança quando lhe foi perguntado o que era uma borboleta.   
A resposta veio rápida:  
- Borboleta é uma cor que avoa!
Diante desta frase, Manoel concluiu brilhantemente: 
- A criança erra na gramática, mas acerta na poesia.


Santos, 3 de maio de 2015 

Para Victor, para Edo (o dono do reio), e para Clotilde e seu netinho Enzo.

domingo, 19 de abril de 2015

COMUNICAÇÃO




Estamos vivendo uma época em que a intensidade de comunicação entre as pessoas, supera seus próprios limites a cada dia que passa.
Com apenas um toque de dedo numa tela touchscreen, a tecnologia nos permite resgatar contatos com pessoas que não víamos há décadas.
Amigos perdidos no túnel do tempo, sobre os quais nunca mais tivemos quaisquer notícias, de repente como num passe de  mágica, estão ali, na nossa frente, nos sorrindo na tela de um equipamento eletrônico.
As redes sociais já fazem parte da vida diária de mais de um bilhão de usuários, que não deixam de acessá-las ao menos uma vez ao dia, mesmo que rapidamente.
O mundo todo está exposto na internet num gigantesco reality show.
Conhecidos se reencontram, conhecidos dos conhecidos se tornam também amigos, e assim as redes se ampliam a cada instante.
Nunca foi tão fácil localizar alguém, marcar encontros de turmas, divulgar ideias, imagens, situações, etc.
A comunicação está no auge, mas, e sempre há um mas, será que realmente vem ocorrendo em sua plenitude?
O termo é de origem latina - COMMUNICATIO - onde o prefixo CO= sentido de reunião; a raiz MUNIS= estar encarregado de; e o sufixo TIO= atividade.*
Portanto comunicação é uma atividade realizada em conjunto.
O que se tem visto com frequência cada vez maior, ainda considerando as redes sociais, são usuários expondo seus pensamentos, mas pouco interessados em saber com profundidade e atenção, o que os demais participantes pensam a respeito.  Haja vista que vemos constantemente comentários sobre alguma postagem, onde seus autores não se deram sequer ao trabalho de ler o que foi escrito anteriormente sobre o tema e ficam questionando fatos já explicitados por outros, antes mesmo de sua participação.
De certa forma o mundo virtual está refletindo o que se passa no real, ou seja, muito se fala e  pouco se ouve.
A peça teatral Tribos, de autoria de Nina Raine, aborda justamente esta questão.   A partir de problemas enfrentados pela surdez de um personagem, mostra-nos metaforicamente falando, que é cada vez mais frequente a surdez nas relações pessoais.
O ato de se comunicar está falhando já que tem caminhado num sentido único, quando deveria ocorrer numa pista de mão dupla:
FALAR  E  OUVIR
Será que realmente sabemos ouvir as pessoas, seus interesses e necessidades?
Será que nesta rota acelerada, seja ela virtual ou real, nos preocupamos tanto em expor nossas ideias que acabamos nos esquecendo que o ato de comunicar envolve uma atividade realizada em conjunto com outrem?

Em plena era da comunicação, ainda permanecemos surdos.


Santos, 19 de abril de 2015 


*   www.communicare-tmc.blogspot.com.br - Mestrado em TIC - ISE Piaget/Gaia.
               


segunda-feira, 30 de março de 2015

"FUI BUSCAR LÃ E VOLTEI TOSQUIADA"




Em recente viagem de ônibus percebi que era uma das poucas pessoas que usava o cinto de segurança.
Pensei  - Caramba, ainda continuo bem Caxias!
De imediato lembrei-me de um episódio em que passei o maior vexame por causa deste acessório importante.
Íamos pela estrada rumo à Itirapina (SP) onde faríamos uma reunião na escola, com todo o corpo docente.
No carro já um tanto velho (um modelo dos primeiros Gol, antes do popular bolinha), cinco mulheres matraqueavam ao mesmo tempo.  
Ao passarmos pelo trecho de serra, algumas brincaram com a motorista sobre sua capacidade ao volante.
Resolvi então fazer uma graça que quase me colocou em desgraça!
Dizendo estar preocupada, resolvi colocar o cinto de segurança.
Naquela época não havia ainda a obrigatoriedade de seu uso.
Eu estava sentada no banco traseiro do carro, entre duas amigas.
Falei e agi; de imediato  já estava protegida do risco de ser lançada para fora do veículo, serra abaixo, caso a motorista fizesse alguma barbeiragem.
Finda a viagem, o carro foi estacionado bem em frente à escola faltando apenas poucos segundos para o início da reunião.
Sendo assim, no momento em que o veículo parou, todas as ocupantes saíram rapidamente e se dirigiram para o prédio.
Todas não!
Eu fiquei sentadinha onde estava. 
Eu e a dona do carro, que em pé na calçada, esperava só minha saída para travar o veículo. Ela olhava e não entendia o motivo de minha demora, enquanto me via numa verdadeira luta com o cinto.
Aconteceu o que eu não esperava.  O tal acessório não me soltava.
Ao fazer a brincadeira lá na serra, não notei que as extremidades metálicas do cinto estavam enferrujadas.  Ao ser travado, a ferrugem provocou um problema no mecanismo que simplesmente não permitia que ele fosse destravado. 
Em outras palavras, eu estava literalmente presa ao banco sem conseguir me soltar.
Já um tanto nervosa devido ao horário, pus-me a digladiar com aquela faixa preta que apertava minha barriga.
A amiga na calçada alertou as outras, que voltaram para fazer o meu resgate.
Uma ajoelhou-se no banco ao meu lado, tentando sem sucesso me soltar.
Outra sugeriu que tentasse escorregar por baixo do cinto.  Tentei algumas vezes, mas o cinto estava super apertado e eu não conseguia deixá-lo mais folgado.
Após a terceira tentativa para escorregar, resolvi desistir. Achei que iria acabar enforcada pela barriga.
Claro que a estas alturas, as gargalhadas eram muitas.
Dando muita risada nós perdíamos a força e o corpo mole não permitia que déssemos os safanões necessários naquele acessório demoníaco.
Depois de um tempo, já conformada com meu destino, perguntei para a dona do carro quanto ela me cobraria de aluguel, já que tudo indicava que seu veículo seria meu novo lar.
Foi quando o diretor da escola surgiu no portão trazendo uma tesoura nas mãos.  Afinal toda aquela confusão já havia atrasado demais o início da tal reunião.
Nesse momento, uma amiga que já estava ajoelhada no chão do carro (eu pensei que ela fosse orar) deu um imenso tranco na trava do cinto conseguindo abri-la.
Eu havia acabado de ser libertada de meu cativeiro.
Como diz o ditado popular - "Fui buscar lã e acabei tosquiada"!!!!
A partir deste episódio, toda vez que tenho que colocar o bendito cinto, antes de mais nada, vejo se não está enferrujado.
Como diria minha mãe:  "Bita véia, tô fora!!!"

Rio Claro, 28 de março de 2015.
(Casa da Alice, no dia do casamento de Janaína Schmidt Traina).


Para as amigas Lázara (a que mais ria), Graça e Sonia. Não me lembro quem era a  quinta mulher no carro.

sexta-feira, 20 de março de 2015

APUROS COM A MARIPOSA




Um comentário feito numa rede social a respeito de uma mariposa, fez passar um filme em minha cabeça.
Não sou do tipo que morre de medo de insetos ou outros animais pequenos, haja vista que sou formada em Biologia.
Porém, não fico nem um pouco tranquila quando por perto algum inseto alado está fazendo acrobacias aéreas, nem sempre com senso de direção.
Basta pensar no voo de uma barata para me arrepiar e me encolher toda. Ela correndo no chão é uma situação, agora, ela voando como doida, aí é gritaria na certa.
Aliás já me disseram que eu não mato as baratas, mas que na verdade elas morrem sozinhas de enfarte fulminante tamanho o susto que levam com meus gritos.  Eu grito e bato, grito e bato, até o final da batalha. Talvez seja intriga da oposição, mas que elas morrem, morrem mesmo.
Em função dos trabalhos práticos de coletas de mosquinhas nas matas durante o curso de pós-graduação, vivenciei experiências que já relatei em outros contos, como a visita que recebi de um enorme gafanhoto passeando por dentro de minha calça jeans. 
No desespero ao senti-lo subindo por minha perna e pensando que pudesse ser escorpião ou até mesmo aranha, avisei minha amiga de coleta e ela própria acabou tirando minhas calças em plena mata, já que eu mesma estava constrangida em fazer isso no meio dos eucaliptos do horto florestal onde estávamos. 
Por sorte era um inofensivo gafanhoto. Pense em um gafanhoto grande, bem grande.  Já pensou?  Pois bem, aquele era maior ainda.  O maior que vi na vida.
 O coitado mais assustado do  que eu, havia enroscado suas patinhas na costura interna da calça. Assim que se livrou, saiu num voo estabanado a toda velocidade e sem tempo de dizer adeus, me deixando ali parada com as calças arriadas, mas aliviada.
A montagem do insetário (com mais de 300 exemplares)  proporcionou também muitos momentos de sustos seguidos de muitas gargalhadas, como a verdadeira luta que foi para coletar as ditas baratas (sempre elas) intactas, sem quebrar antenas ou patinhas. 
O caso da mariposa que lembrei acima, ocorreu quando já exercia o magistério.
Era uma noite muito quente e havia chovido na véspera. 
As luzes fluorescentes das salas de aula eram chamarizes para os insetos que entravam pelas janelas e se debatiam nas lâmpadas.  Eram na maioria besouros e mariposas pequenas.
Até que...  Até que uma enorme mariposa de corpo negro com muitas escamas (parecem pelos) e asas com desenhos amarelos e pretos, entrou toda estabanada dando rasantes sobre as cabeças dos alunos. 
Era classe de adultos de um curso técnico de eletrônica, formada na sua totalidade por homens.
Eu estava bem no meio de uma explanação sobre velocidade, espaço e tempo, com vários esquemas feitos na lousa. Movimentava-me de um lado para outro na frente da classe explicando os tais esquemas.
Conforme a mariposa se aproximava de algum aluno, ele somente dava um safanão com o caderno e continuava a olhar para a frente, na maior calma.
Com certeza eu era a única que estava preocupada, para não dizer apavorada, com as acrobacias da dita cuja.  Continuei a explanação mas nem piscava, só de olho na maldita.
Até que finalmente alguém a acertou de jeito e ela caiu no chão, no canto da sala e bem junto à parede da lousa.   E lá ela ficou quietinha, para minha alegria. 
Continuei a caminhar de um lado para o outro concluindo as explicações e numa das paradas, não percebi que meu pé esquerdo ficou muito próximo da mariposa.  A calça comprida era preta e de tecido fino; tinha a boca um pouco larga (era moda na época) e quase tocava o chão. 
De repente senti umas patinhas roçando em minha coxa.  
Gelei.
Olhei para o canto onde estava a tal mariposa e para meu desespero vi que ela havia sumido. Conclui no ato que ela havia subido por dentro da calça.
Procurei ficar impassível diante dos alunos.
Sem parar de falar, embora minha vontade fosse gritar e sair correndo, segurei-a por cima da calça e apertei o máximo que pude. Soltei logo em seguida e vi o corpo dela caindo ao lado de meu pé esquerdo. 
Afastei-me rápido e respirei aliviada. Não a havia matado mas com certeza ela não voaria tão cedo.
Controlei-me tanto que se algum aluno percebeu o que houve, não comentou nada, nem os que estava nas primeiras carteiras.
Assim que terminou a aula fui voando ao banheiro. Queria lavar a roupa por dentro pois estava enojada.  O tecido preto no avesso, brilhava com tantas escamas que haviam saído do corpo da mariposa.
Como eu disse no início, não morro de medo de insetos, principalmente daqueles que estão bem longe de mim!

Santos, 20 de março de 2015  

Saudades e gostosas lembranças de um ambiente tão amigo e acolhedor que encontrei na Organização Escolar Alem/Rio Claro.

sexta-feira, 13 de março de 2015

ERA UMA VEZ UMA SOMBRINHA








Uma pequena sombrinha esquecida do lado de fora do apartamento, se escafedeu durante a noite. É estranho dizer isso, mas era uma sombrinha de estimação!
Na verdade ela foi levada inadvertidamente por um funcionário que recolhia o lixo reciclável. Apesar de ainda estar em perfeito estado,  ela foi confundida com lixo e teve seu fim antecipado. 
DESAPEGA! 
Foi a divertida expressão que ouvi ao lamentar o ocorrido.
De imediato esta palavra remete a uma propaganda que circulou recentemente na TV, onde objetos já fora de uso são vendidos para desocuparem espaço.
Ao longo dos anos, por necessidade ou puro apego, vamos guardando coisas que acabam incorporadas ao nosso cotidiano.  Isso pode ser prazeroso, mas também pode causar certos transtornos se tais materiais já não são mais necessários.
Esta ação, desapegar, para mim em especial é uma ação que executo com certa dificuldade, mesmo em se tratando apenas de objetos materiais.
Isto acontece porque geralmente eles vêm acompanhados de lembranças que contam muitas histórias e particularmente sou "chegadinha" em histórias.
Agora mesmo estou diante de alguns móveis, ainda muito úteis e bons, que me transportam diretamente à infância contando divertidas cenas  que os envolveram.
Nos tempos atuais pela própria falta de espaço, não há como manter coisas que já não nos interessam.  A praticidade da vida moderna não permite isso.
Em uma das mudanças de residência, ante o desafio de sair de uma casa com muitas dependências para um pequeno apartamento, pude constatar que temos grande capacidade de adaptação que nos permite viver bem, com poucas coisas.
A felicidade, o sentir-se bem, não se encontram nas coisas que nos cercam, mas sim, em nosso próprio interior.
Apegos e desapegos se sucedem em nossa vida e assim, embora de maneira não prevista, tive que me desapegar daquele pequeno objeto, mas com certeza suas histórias permanecerão.
E foi assim que uma simples sombrinha, que mesmo não sendo Policarpo Quaresma, teve também seu triste fim.



Santos, 13 de março de 2015