domingo, 1 de março de 2015

TUDO ACONTECE COM ELE




Se algumas pessoas têm a capacidade nata de se envolver em trapalhadas, ele com certeza é uma delas.  A expressão "Tudo acontece com ele" -  é perfeitamente adequada neste caso.
Alegre e descontraído, sempre se diverte com seus próprios micos.
Desde pequeno se contam histórias engraçadas nas quais foi o protagonista.
Quando um grupo de amigos se reúne e ele está presente, sempre há novos casos a serem contados e aí as gargalhadas são garantidas.
Lembro de um caso antigo ocorrido no trânsito na região central da cidade.
Com o semáforo fechado, ele aguardava o momento de colocar a velha Kombi do amigo, em movimento novamente.  Assim que a luz verde acendeu, num gesto um tanto afoito, em vez de engatar a primeira marcha para sair, ele simplesmente conseguiu arrancar o câmbio de seu encaixe.
Nervoso, tentou sem sucesso, encaixar a barra do câmbio em seu devido lugar, socando repetidamente a barra de ferro no buraco que ficara.
 Como o veículo bloqueava a passagem, uma grande fila de carros formou-se atrás da Kombi.
Teve então início um imenso e ensurdecedor buzinaço.
Muito irritado com toda aquela barulheira, ele não teve dúvidas:  pôs o braço esquerdo totalmente para fora da janela e começou a brandir vigorosamente no ar, o que havia restado do câmbio.
Foi quando os demais motoristas entenderam o problema e improvisaram um desvio para liberar o trânsito.
Mais recentemente, sua distração provocou mais risos.
Resolveu almoçar em um restaurante que oferecia almoço por quilo.
Foi se deslocando pelos balcões de frios e quentes, recolhendo os alimentos que desejava.
Na sequência, com a bandeja nas mãos,  dirigiu-se em direção à balança para pesar o prato.
Eis que, para sua surpresa,  ao chegar a sua vez, o rapaz responsável avisou que não poderia pesar os alimentos naquelas condições.
Diante de sua expressão espantada e sem entender o motivo, o rapaz o alertou:
- O Sr. não pegou o prato. Colocou toda a comida diretamente na bandeja.
Constatou então atônito, que havia esquecido de colocar um prato sobre a bandeja, para somente depois pegar os alimentos.
Resignado foi buscar o prato, salvou uma pequena parte da comida que estava por cima e entrou novamente na fila da pesagem.
Em outra ocasião, como fã incondicional de esporte, fazia de modo inflamado a locução de um acirrado jogo de basquete para uma radio da cidade.
Eis que nos segundos finais da partida, quando um último lance de bola na cesta definiria o campeão do torneio, sua empolgação foi tão grande que ele acabou por quebrar a cadeira onde se sentava.   Despencou com tudo no chão, sem ter tempo de ver se a bola havia entrado ou não na cesta.
Silêncio total e repentino na transmissão do jogo.
Quem acompanhava a partida pelo radio ficou sem entender nada, pois o aparelho emudeceu.  Os ouvintes ficaram a "ver, ou melhor, a ouvir navios" perdendo os instantes finais de uma vibrante partida. 
                 Com certeza muitos destes torcedores, neste momento, angustiados para saberem o resultado, socaram seus aparelhos imaginando ser problema de seu próprio radio. Depois de ouvir o jogo todo, acabaram sem saber quem foi o vencedor.
Em outro jogo, também de basquete, agora atuando apenas como torcedor, e bem fanático, acabou novamente perdendo  os segundos finais da partida.
No auge da empolgação, pulando e gritando muito, seu pivô dentário e frontal, não resistiu a tanta euforia e voou pelos ares.   
               Seu grito de guerra foi interrompido no meio, enquanto ele estarrecido via a pequena peça dar cambalhotas no ar e se precipitar três degraus abaixo na arquibancada, entre os pés do povo que sapateava comemorando a bela partida.
Desesperado e pedindo para que não pisassem em seu dente, acabou sem saber na hora, quem venceu a partida. Teve que perguntar o resultado aos amigos. Mesmo assim ficou satisfeito, pois recuperou seu pivô.
São alguns dos vários episódios protagonizados por alguém alegre, descontraído e desencanado,  que diverte os amigos e também muito se diverte, relembrando as trapalhadas nas quais se envolve com frequência, eu diria até, que com bastante frequência!

Santos, 01 de março de 2015

Ao Rubens, recordando somente uma pequena parte dos causos que tanto nos fez rir na praia.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

ADOLPHO CERRI




Recentemente ao relembrar antigos carnavais, resgatei de imediato a figura de Adolpho, meu avô paterno, intimamente associado a estas festas na minha infância.
Com certeza foi uma pessoa ímpar.
A primeira impressão que sua figura despertava, era de um certo temor em função de seu tamanho, pois era bem alto e seu sobrepeso era evidente.  Eu, que nunca fui grande, sentia-me menor ainda a seu lado.
Entretanto, a despeito deste temor inicial, hoje chego a pensar que aquele enorme físico era necessário para comportar tanta bondade e abnegação.
Talvez pela própria educação recebida, não extravasava seus sentimentos distribuindo beijos e abraços, nem mesmo às crianças. Era bem contido neste aspecto.
Essa dificuldade em demonstrar fisicamente suas emoções passava quase desapercebida,  já que seu olhar azulado transmitia clara e abertamente, o que lhe ia na alma.
Era um olhar franco, puro, carregado de carinho e ternura.
Não sei se era impressão minha, mas sentia quando criança, que recebia dele uma atenção especial dentre os netos. Talvez porque fosse a única menina, já que minha irmã nasceu anos depois.  Chamava-me às vezes de Migila;  nunca soube de onde veio este apelido e nem o por quê.
Totalmente desprovido de ambição e vaidade, muitas vezes deixava a esposa tremendamente irritada com a displicência ao se vestir para sair.   Ele realmente "não estava nem aí"  para o que os outros pudessem pensar.
Queria mesmo era se sentir confortável, e assim procedia.
Aos domingos pela manhã, após a missa, costumava tocar sua flauta transversal.  Era de cor negra e ficava guardada num elegante estojo forrado com feltro vermelho.
Já não me recordo se ele tocava bem, mas a cena dele sentado na cama, com os netos à sua volta, enquanto montava com carinho o instrumento, ficou bem gravada na memória.
Como sempre acontece com pessoas de boa índole, sua bondade e total falta de malícia, foram exploradas por outros, mas nem nestas ocasiões ele teve comportamento agressivo.
Simplesmente deixava para lá, e tocava a vida como se nada e ninguém o tivessem prejudicado.
Essa sua benevolência não era compreendida e muito menos aceita por minha avó, Maria Luíza, que com seu temperamento forte, ficava indignada quando amigos e até mesmo parentes se aproveitavam da situação.
O mais incrível é que ele não se abalava com as broncas que dela levava; cruzava as mãos nas costas, logo abaixo da cintura, num gesto característico seu, e saia de perto no maior sossego, deixando-a ainda mais irritada.
Seu jeito simples e sossegado era sua marca registrada.
Uma cena diária que muito me divertia, era vê-lo ler jornais.
Lembro-me bem de suas leituras do jornal O Estado de São Paulo, na loja de meus pais.
Desmontava o jornal todinho à procura dos assuntos que lhe interessavam. Depois, para desespero de meu pai que era extremamente organizado, ele dobrava as páginas de qualquer jeito, à sua maneira, e o jornal ficava lá, todo amarrotado.
E lá ia embora o Adolpho, tranquilamente, enquanto seu filho visivelmente alterado, mas sem dizer uma palavra, num total respeito,  remontava página por página todo o Estadão.
Adolpho nem se dava conta disso, ou se dava, não ligava a mínima.
Realmente um homem bom no sentido exato da palavra.
Ficou muito abalado com a perda da esposa.  
Não aguentou sua ausência e poucos meses depois, foi ao seu encontro.
Como bem disse Rubem Alves - "Recordar é visitar de novo aquilo que o coração guardou".
E meu coração só guardou coisas boas deste avô!
Onde quer que esteja, com certeza está em paz e tocando sua flauta.
Um dia esta Migila lhe encontrará, vô Adolpho.
Até lá!

Santos, 20 de fevereiro de 2015 


Ao avô Adolpho, in memoriam!


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

domingo, 15 de fevereiro de 2015

HOJE É CARNAVAL




Estamos em pleno Reinado de Momo e quer se queira ou não, é praticamente impossível passar ao largo disso.
Ninguém discorda que apresentamos mudanças ao longo dos anos.  Mudanças que ocorrem não somente no físico e no comportamento, mas também em nossas escolhas e preferências. E no meu caso, aqui se encaixa o carnaval.
A folia de hoje já não me atrai mais. Em alguma esquina da vida, deixei de gostar desta festa.
Na infância era impossível dissociar carnaval de meu avô paterno, Adolfo. 
De imediato vem a lembrança dos pacotes de confetes e rolos de serpentina que comprava para os netos.  Também era ele quem nos levava nas matinês do Grupo Ginástico Rio-Clarense, clube que ele frequentava há muitos anos.
Entretanto, o presente que mais esperávamos, eram aqueles tubos metálicos dourados - os famosos lança-perfumes.  Estes tubos traziam um tipo de gatilho com borrachinha vermelha, que ao ser pressionado, soltava o líquido geladinho e perfumado.
Era mesmo uma delícia brincar com eles!
O mau uso do lança-perfume acabou por acarretar sua proibição.
Uma pena!
Havia também o que chamávamos de laranjinhas ou bisnagas, que cheias de água, eram usadas para refrescar os foliões espirrando jatos d'água sobre eles.  A criançada fazia guerrinhas com estas bisnagas.
Como sempre, houve quem distorcesse o uso destes brinquedos e surgiu então o chamado sangue de diabo. Era água com tinta vermelha que manchava as roupas das pessoas.
Além das matinês nos clubes, havia também os desfiles de rua.
Nestas ocasiões minha mãe costurava sacolinhas de filó fechadas com cadarços, para levarmos confetes e serpentinas no chamado corso carnavalesco.
Eu particularmente não gostava de escolas de samba, mas me encantava com os carros alegóricos dos clubes da cidade.
Com suas luzes multicoloridas, suas bandas, suas princesas e suas rainhas, alegravam a todos e arrancavam aplausos ao longo de todo o trajeto pelas ruas centrais da cidade.
Nossa alegria chegava ao máximo quando acontecia de algum componente do carro alegórico, nos jogar rolos de serpentinas.
As músicas alegres e divertidas, ainda lembradas até hoje, eram as marchinhas de carnaval.
Anos mais tarde, já na juventude, os bailes nos salões eram esperados com ansiedade o ano todo.
"Tanto riso, oh, quanta alegria..."  *
Quem de nós não tem boas lembranças dos carnavais da juventude?
Como é imperativo à vida, vieram as mudanças nesta festa e em nós mesmos. Elas foram acontecendo ano após ano e cada vez mais aceleradas.
Nos salões, as antigas marchinhas deram lugar a diferentes ritmos, acompanhando a preferência dos jovens de hoje.
O carnaval de rua, simples e para o povo, sofisticou-se a tal ponto que hoje se constitui num verdadeiro espetáculo.
Não há como discordar da beleza e da riqueza dos desfiles na avenida das grandes cidades. Entretanto, tudo isso tem um custo que boa parte da população não pode assumir.
Felizmente restam os animados blocos que são organizados por entidades, por bairros , ou por amigos, e ainda conseguem dar voz e vez a todos, mantendo o carnaval realmente como a festa do povo.
Atualmente esta festa não me atrai mais, mas as marchinhas...ah...dessas não me esqueço jamais!
Bom carnaval ou....bom descanso!


Santos, 15 de fevereiro de 2015 

* Música : Máscara Negra
   Composição: Zé Kéti e Pereira Mattos
   Gravação:  Dalva de Oliveira
 Marcha de carnaval de 1966




Música: Tomara que Chova (atualíssima).
Composição: Paquito e Romeu Gentil
Gravação: Emilinha Borba - 1950.
Vídeo mostra cena do filme Aviso aos Navegantes (1950) com Oscarito e Grande Otelo.


segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O TEMPO É AGORA




Estive relendo há alguns dias um texto muito conhecido de Rubem Alves, que tem por título: O Tempo e as Jabuticabas. 
Como sempre o autor passa sua mensagem de maneira clara, objetiva, mas sem perder o lirismo.
Identifiquei-me com o texto.
 Fui lendo e concordando. Parecia que eu mesma estava falando.
Com mais de seis décadas percorridas, considero-me vivendo justamente neste citado tempo das jabuticabas.
Incrível como a experiência nos muda ao longo dos anos!
De um modo geral sempre consegui manter a calma (às vezes apenas aparente) e controlar as emoções quando certas atitudes de outrem contrariavam minhas certezas absolutas.
Olho para trás  e recordo sim que poucas vezes e em determinadas circunstâncias, diante de situações que não coadunavam com o desejado, com o esperado, houve momentos de tensões, de raiva e de respostas ácidas.  
A intransigência muitas vezes conflitava com a flexibilidade. Neste embate, a falta de experiência acabava por reforçar aquela máxima que diz:  ser mais realista que o rei.
Em determinadas condições havia a possibilidade do chamado jogo de cintura, mas em outras isso não era possível.
No campo profissional tenho plena consciência que andei contrariando interesses pessoais, bem como alguns objetivos egocêntricos, por cumprir à risca o que ditava a legislação. Nestes casos realmente a tal flexibilidade não poderia ter lugar, fossem amigos ou até mesmo familiares como ocorreu.
Entretanto, assim como o tempo nos ensina que não existem certezas absolutas, também nos mostra como atitudes menores, comportamentos desprezíveis e invejosos e claras demonstrações de pobreza de espírito, acarretam grande perda do precioso tempo que nos resta.
É justamente isso que Rubem Alves explora em seu texto sobre as jabuticabas. Eu que nem gosto de jabuticabas, concordo plenamente com ele.
Não tenho mais realmente paciência e tempo a perder com pessoas ególatras que mascaram suas inseguranças, que se preocupam com as aparências mas são totalmente desprovidas de conteúdos verdadeiros e que desfilam mesquinhez  por onde passam.
No ambiente virtual isso ainda é mais corriqueiro e evidente e é justamente onde minha paciência se esgota num piscar de olhos.
Paralelamente à participações construtivas e prazerosas de amigos, circulam nas redes sociais postagens tão medíocres que acabam desestimulando o acesso a tais redes. 
Óbvio que temos o livre arbítrio de lermos só o que nos interessa, mas ultimamente tem se tornado um trabalho cansativo fazer tal triagem tamanha a quantidade de participações que vão de insensatas, passando por absurdas, chegando algumas a esbarrar na hipocrisia.
As jabuticabas da bacia estão acabando, mas ainda há tempo para crescermos e valorizarmos  nossos momentos.
"Quero viver ao lado de gente humana, muito humana;
que sabe rir de seus tropeços...
não se encanta com triunfos...
não se considera eleita antes da hora...
não foge de sua mortalidade"
É tempo de curtir valores reais, autênticos, essenciais, sem mediocridades.
 "Porque, se não o sabem, disto é feita a vida, só de momentos. Não percam o agora"  - Jorge Luis Borges.

Santos, 26 de janeiro de 2015
Cidade de Santos/SP completa hoje 469 anos! Parabéns!


O TEMPO E AS JABUTICABAS
                       Rubem Alves
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Tenho mais passado do que futuro…
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas…
As primeiras, ele chupou displicente… mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço…
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades…
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis…
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que,
apesar da idade cronológica, são imaturas…
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral…
As pessoas não debatem conteúdos… apenas os rótulos…
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos…
quero a essência… minha alma tem pressa…
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços…
não se encanta com triunfos…
não se considera eleita antes da hora…
não foge de sua mortalidade..
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade…

O essencial faz a vida valer a pena…
e para mim basta o essencial…

domingo, 4 de janeiro de 2015

LAMENTÁVEL













                                     Indignada!
Assim me senti ao assistir as reportagens apresentadas na TV pelo Jornal Tribuna, segunda edição, nos dias 2 e 3 de janeiro deste ano recém-iniciado.
Ambas reportagens noticiaram o problema crônico e cada vez mais acentuado, referente à falta de vagas para estacionamento na cidade de Santos. Vide links ao final do texto.
Este fato já é vivenciado todos o dias pelos moradores e se estende da orla ao centro, independente da época do ano.
Óbvio que nos feriados prolongados e na alta temporada, este problema se agrava muito.
Entendo perfeitamente que a cidade que não consegue atender  bem seus moradores, tende a entrar em colapso ao receber grande quantidade de turistas.
Mas aí fica a pergunta: O que a municipalidade tem feito para resolver, ou ao menos minimizar este problema nesta mais de uma década que acompanho de perto?
As reportagens mostraram carros estacionados em vagas de idosos, pontos de ônibus e outros locais proibidos, chamando tais motoristas de abusados. 
Sou absolutamente contrária ao desrespeito às leis e portanto também discordo de carros estacionados em locais proibidos.  Entretanto, está evidente e absurdamente claro que a despeito de haver mesmo sempre aqueles que não se importam com as normas e leis, a imensa maioria dos turistas que aqui veio para comemorar a passagem de ano, rodou horas até conseguir uma vaga em local legal. Soube de casos que chegaram a mais de cinco horas circulando em busca de lugar para estacionar.
Considerando o cansaço da viagem, o calor extremo que fez neste dias e a irritação provocada pela falta de estrutura na cidade, muitos motoristas acabaram optando por estacionarem em locais proibidos por absoluta falta de opção nas vias públicas.
O problema concentrou-se mais ainda nas ruas próximas à orla já que os turistas vêm para a cidade buscando principalmente curtir a praia e portanto se hospedam em suas proximidades.
A reportagem também citou os casos de motoristas que qualificou de sensatos por procurarem os estacionamentos particulares.  Concordo plenamente que numa situação de demanda excessiva, procure-se tais estacionamentos que existem justamente para isso, além da segurança que oferecem.
Aconteceu porém, que o bom senso que a reportagem citou, faltou à própria reportagem e aos proprietários de tais estacionamentos, já que aproveitando-se da demanda, colocaram os preços nas alturas havendo inclusive cobranças de 100,00 por pernoite, ou como vim a saber posteriormente, até 100,00 por período. 
Da maneira como foi colocada esta questão do valor na reportagem do dia 2/1 por exemplo, a ideia que me passou é que a imprensa concordou com este abuso declarado e descarado, para não citar outra expressão pior. Em outras palavras seria como se dissesse: concorde com isso ou vá embora.
Confesso que cheguei a sentir vergonha alheia ao me colocar na posição de visitante da cidade enquanto assistia às duas reportagens.
A interpretação que fiz das falas das repórteres foi justamente que turistas vieram para atrapalhar a cidade e para tumultuar o trânsito.
Pareceu-me um tanto egocêntrico o texto das reportagens.
Como moradora sou consciente que nestes períodos de férias e de temporadas, realmente a vida do santista fica mais difícil por conta inclusive de filas em supermercados, bancos, etc.
Entretanto não podemos nos esquecer que moramos numa cidade onde o turismo é um importante gerador de receita e renda.
Cabe portanto à cidade oferecer condições viáveis no tocante à recepção aos visitantes.
Nesta mais de uma década que aqui resido, passamos por três administrações municipais e só tenho  testemunhado este problema de estacionamento agravar-se ano após ano.
Cita-se o VLT como fator que irá reduzir o número de carros circulando na cidade. Não creio que ele terá grande influência na solução deste problema enfrentado pelos turistas que para cá se dirigem com seus veículos.
Claro que a cidade cresceu, que a população aumentou e que o número de carros circulantes também, mas parece que a despeito disto tudo, a mobilidade urbana santista está estacionada no tempo e no espaço, ou melhor, na falta de espaço.

Santos, 4 de janeiro de 2015

Links para as reportagens:
Dia 02/01/2015
Dia 03/01/2015

sábado, 20 de dezembro de 2014

À LA INDIANA JONES



Tenho por hábito ler quase todas as noites enquanto o sono não vem.
Às vezes a leitura está tão interessante que acabo vencendo o sono e continuo a ler madrugada adentro.  Privilégio de quem já está aposentada e não precisa levantar cedinho na manhã seguinte.
Atualmente leio uma história que no início me fez interrompê-la por duas ou três noites seguidas. O texto é agradável de se ler e o assunto prende a atenção, mas envereda por caminhos da ficção que a princípio deixaram-me assustada.
A personagem principal em visita a uma antiga fazenda dos tempos da escravidão, começa a ser seguida por vultos que mais ninguém vê. 
A descrição das aparições à noite e à luz de lanterna,  já que na fazenda ainda não havia luz elétrica, é tão perfeita que me fez parar várias vezes e correr os olhos pelo meu próprio quarto, um tanto quanto cismada.  Ri de mim mesma pensando: só falta eu olhar em baixo da cama antes de dormir, como fazia quando criança.
Claro que tal leitura influenciou um pouco e meus sonhos foram meio complicados.
Nunca fui chegada a filmes de terror, assombrações e congêneres. Por outro lado, sou completamente leiga quando o assunto é espiritismo.
Na segunda noite de leitura e ainda continuando o clima de suspense envolvendo a personagem, fechei o livro após ler os primeiros parágrafos. Decidi na hora que teria que mudar meu horário de leitura se quisesse dormir sem sobressaltos nas noites seguintes.
Sou adepta da frase: Não creio em bruxas mas que elas existem, existem.
Entretanto, teimosa que sou, insisti  no hábito e agora já lá pelo meio da história, encaro com naturalidade a descrição das conversas entre vivos e mortos. Estou cada vez mais curiosa para ver como a autora irá alinhavar os fatos do passado com a situação presente vivida pela personagem principal.
A sensação de medo ao ler na história sobre os vultos que apareciam na penumbra do quarto, fizeram-me lembrar  de imediato do medo que sentia quando participava de uma brincadeira infantil, que ocorria num local bem escuro e cheio de teias de aranha.
No pátio interno da fábrica de macarrão de meu avô e tios, havia duas portas de zinco ligeiramente inclinadas em relação ao solo. Elas ficavam sempre trancadas com cadeado. 
Claro que para a criançada da família o fato do local ser fechado e proibido, já se tornava atraente e pedia uma exploração.
Assim foi que certo dia por descuido qualquer de um adulto, o cadeado permaneceu aberto.  Foi o que bastou para a meninada se aproximar.
Um dos primos que era mais corajoso, puxou cuidadosamente uma das portas que rangeu baixinho, mas não chegou a atrair a atenção de ninguém.
Pudemos divisar inicialmente apenas alguns degraus cheios de um limbo esverdeado e que levavam ao porão. A escuridão era quase total.
O grupo todo, umas 5 ou 6 crianças, desceu bem devagar cada degrau. Lembro-me até hoje das teias de aranha roçando em nossos rostos.
Ao mesmo tempo em que dava medo, dava também uma sensação incrível de prazer diante da aventura.  Éramos os pequenos Indiana Jones do final do anos cinquenta, começo dos sessenta.
Ao final da escada e assim que nosso olhos se acostumaram com a semi escuridão, vimos encantados muitas, mas muitas mesmo, garrafas de bebidas, precisamente vinhos.
Havíamos descoberto a adega da família.
Pouco ficamos por lá neste primeiro dia de exploração pois o medo do local, e pior ainda, o medo de sermos flagrados por algum adulto, era imenso. Naqueles tempos os castigos para traquinagens eram bem severos.
A partir daquele momento as visitas à adega passaram a ser a brincadeira preferida, pois aliava aventura no escuro e desafio às regras que nos eram impostas.
Por outras tantas vezes conseguimos adentrar tal local aproveitando sempre da ausência de cadeado.
Cada vez era uma sensação nova, uma emoção nova.
Saíamos felizes com a aventura e orgulhosos da coragem que havíamos tido.
Assim foi até que um certo dia, e sempre tem um certo dia, nos descuidamos ao fazermos a observação para termos certeza que ninguém estava por perto. Olhamos para todos os lados e dada a bandeira branca, começamos a invasão. 
Lembro-me direitinho do dia pois eu era a última da fila.  Nem bem dois ou três de nós já estavam descendo os últimos degraus, quando ouviu-se um grito feminino dando a maior bronca:
- Saiam já daí!  Saiam todos! Fechem este porão!
Identifiquei que o grito veio do alto e olhando para cima vi minha tia-avó Fiorina muito alterada, que nos olhava do salão do sobrado onde morava e cujas janelas também se abriam para o pátio interno da fábrica.
O alerta foi dado e rapidamente os adultos chegaram, mas não conseguiram nos pegar. Foi uma correria só. Movidos pelo susto e pelo medo, com certeza corremos mais que qualquer piloto de Fórmula 1. Escapamos ilesos.
Obviamente nos mantivemos por algumas horas longe dos olhos de pais e avós. Quando os encontramos bom tempo depois, a bronca já havia amenizado.
Nunca mais exploramos a nossa caverna pré-Indiana Jones, mas não esqueço as emoções sentidas em cada exploração.  Nem das teias de aranha roçando o rosto.
E não é que agora deu até saudades daquele medo infantil!


Santos, 20 de dezembro de 2014  

Ao meu irmão Edo e primos Claudio Emilio, Arnaldo, Chico e Benito, companheiros desta e de outras aventuras, como soprar canudinhos nos transeuntes. Esta será uma outra história.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

ATÉ QUANDO?





A sirene vem gritando ao longe e o som cada vez mais alto denuncia que passará aqui por perto. 
Sempre que ouço sirene de ambulância, o primeiro pensamento que me vem à mente é: tomara que dê tempo!
Quem já passou pela experiência de estar em uma delas acompanhando um doente, sabe bem a angústia que dá enquanto não se chega ao hospital.
Como moro numa rua de muito movimento, é comum ouvir-se uma sirene gritando e pedindo passagem.
Pensei apenas....tomara que dê tempo!
Aconteceu porém que o som emudeceu de repente.  Fiquei intrigada mas continuei a digitar um trabalho. 
Nova sirene ainda mais estridente que a primeira se fez ouvir no pedaço e mais uma vez também se calou repentinamente.
Aí desconfiei que algo ocorria nas redondezas. 
Pela janela vi moradores dos edifícios ao lado olhando para uma obra que se ergue ao fundo e na lateral esquerda de meu prédio.
Aí me assustei.
Dois  carros de bombeiros  e uma ambulância já estavam estacionados na entrada da obra.
No meio das ferragens e madeiramentos que se erguem já formando o segundo pavimento, vi bombeiros vasculhando todo o pedaço.
O que estaria havendo?  Princípio de incêndio?  Algum acidente?
Coração ficou apertado pois a imaginação sempre tende a pensar no pior.
Uma maca foi levada para dentro da obra e um operário saiu sobre ela, carregado pelos bombeiros.
Soube mais tarde através da TV, que um andaime havia caído sobre a perna do homem.
Minutos antes enquanto observava pela janela a chuva que caia na manhã de sábado, vi os homens como formiguinhas elétricas trabalhando rapidamente na construção deste futuro hotel. 
Um sentimento de compaixão tomou conta de mim ao ver que estes operários trabalhavam numa manhã de sábado e sob chuva, alguns nem protegidos por capa estavam. Não sei se por opção própria ou não.
Ao mesmo tempo em que achei isto injusto, fiquei a imaginar que este trabalho ingrato por ocorrer em condições adversas com a chuva caindo sem cessar, também poderia significar um valor maior a receber no final do mês ou da semana.  Sabe-se bem o quanto isto significa para um chefe de família com bocas a alimentar.
Aí é que mora o perigo!
Pensando de modo mais abrangente e geral, diante de situações ruins na vida e sem outras perspectivas melhores, o homem honrado, honesto e responsável, preocupado com o bem-estar da família, acaba muitas vezes até aceitando o risco de ser explorado, e porque não dizer usado mesmo por seus semelhantes, que se encontram numa situação bem diferente da dele.
As notícias da mídia nos chocam todos os dias com manchetes que falam em roubos de bilhões de reais.  Roubos  estes, sem citar nomes já que tudo ainda está sendo investigado, que com certeza ocorreram nos cofres públicos, não somente nos tempos atuais, mas na história de nosso país.
Vocês conseguem imaginar o tamanho da montanha de dinheiro que estes bilhões formariam?!!!! Eu não tenho nem ideia!
Bilhões que facilmente chegarão a trilhões se considerarmos o que já foi roubado do patrimônio público ao longo de tantos anos. Isso sem considerarmos o tempo do Brasil Império.
O que se vê é que de um modo geral, os mais ricos buscam mais e mais riquezas numa ambição sem limites. Seguindo a famosa e absurda frase que os fins justificam os meios, usam de processos ilícitos para angariarem mais fortunas.
Do outro lado da corda estão os trabalhadores como os que vejo diariamente sob sol e chuva, levantando mais um edifício e recebendo honestamente seus salários.
Diante de tantas denúncias de corrupção, fico enojada só de pensar que talvez aquele rapaz que saiu na maca, assim como tantos outros que são notícias nos jornais em situações iguais ou piores que as dele, possa estar num canto de uma enfermaria esperando um atendimento decente e humano.  Atendimento que muitas vezes não vem por absoluta falta de recursos, entre outros fatores, nos hospitais públicos.
 Recursos estes roubados dos cofres de nossa pátria provavelmente e justamente por aqueles que quando necessitam, buscam atendimento médico em famosos hospitais particulares ditos de ponta, como bem o sabemos.
Creio que estamos a um passo de concluirmos o que Rui Barbosa já previu há tantos anos:

"De tanto ver triunfar as nulidades. De tanto ver prosperar a desonra. De tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto"

Ando enojada com nossa realidade, mas ainda creio na honestidade dos homens.
Até quando?


Santos, 16 de dezembro de 2014 

Ao rapaz desconhecido que se acidentou no sábado, desejando que esteja se recuperando bem.