terça-feira, 23 de julho de 2013

BRINCADEIRAS DE RUA



Vozes infantis ecoam nos corredores do prédio. Férias chegam quase a ser sinônimo de crianças brincando.
Mesmo no inverno quando nem sempre o tempo permite idas à praia, elas circulam pelos andares, brincam nos corredores e para irritação de alguns, entram nos elevadores e ficam subindo e descendo sem parar, até que um adulto apareça para acabar com a festa.
Espaços para brincadeiras praticamente não existem no prédio. Isso, entretanto, não é problema, pois em qualquer cantinho é possível sentar-se no chão com os novos amigos.
Enquanto para alguns poucos moradores, as vozes infantis não são muito bem recebidas, eu já as considero como sinal de vida, de alegria, de esperança e sonhos futuros.
De certa forma o que me entristece, é que na verdade elas não precisam de muito espaço para as brincadeiras, já que quase sempre estão entretidas com eletrônicos nas mãos.
A despeito dos pontos positivos que tais equipamentos oferecem como desenvolvimento da observação, reflexos e raciocínio, é visível que a aventura, as descobertas da e na natureza, a imaginação, a criatividade e socialização, são deixadas em segundo plano.
Os tempos são outros e muitas mudanças ocorreram nas últimas décadas e continuam a ocorrer cada vez mais céleres.  A maior circulação de veículos, problemas com segurança, riscos de um modo geral, aliados aos avanços tecnológicos cada vez mais disponíveis, acabaram com as brincadeiras de rua.
O corre-corre, esconde-esconde, mãe da rua, pega-pega, bolinhas de gude, carrinho de rolimã, são atividades interativas praticamente desconhecidas pelas crianças de hoje.
Brinquedos tecnológicos contribuem para a individualização. Muitas crianças gastam o tempo livre, trancadas em um quarto ou num pequeno espaço, na frente da televisão ou de um computador.
Em outras épocas, logo no início da noite, a criançada da vizinhança se reunia nas calçadas para decidirem sobre o que brincariam.  
Eram tantos garotos que muitas vezes formavam-se grupos distintos e em certos aspectos até rivais, como as turmas da Rua 2 e da Rua 3 formadas no começo dos anos 60 na cidade do interior chamada Rio Claro. Estes grupos marcavam “combates” e para isso, se municiavam com muitas tampinhas de garrafas que eram lançadas com estilingues. Era uma farra só e a correria tomava conta das calçadas e ruas. A Avenida 8 considerada território neutro, foi palco de muitas destas “guerrinhas”.
Fora dos momentos de confronto, as crianças moradoras na Rua 2 evitavam circular pela Rua 3 e vice-versa, pois isso seria considerada uma provocação.
Em noites que não havia combates, a criançada inventava as mais variadas brincadeiras.
Certa noite alguém teve uma ideia que de imediato agradou a todos.
Na esquina havia dois postes com pouca distância entre eles. Usando uma linha preta de costura, a garotada trançou-a várias vezes de um poste a outro, formando uma espécie de teia de aranha.   Como a iluminação pública era muito fraca, a linha ficou praticamente invisível.
Armada a arapuca, todo mundo se escondeu atrás de uma mureta na varanda de uma das casas próximas.  E não é que foi justamente um tio nosso (eu e meu irmão estávamos na brincadeira) que surgiu andando na calçada, todo garboso, de terno, chapéu tipo Humphrey Bogart , carregando um guarda-chuva pendurado no braço?!
Ao passar entre os postes ele foi retido pelos fios da linha.
Assustado, deu um rápido pinote para trás e quase derrubou seu chapéu estiloso.  Recompôs-se e intrigado com o fato, ergueu o guarda-chuva e com ele começou a tatear o espaço. Parecia um guerreiro brandindo sua espada contra o nada. Finalmente percebeu o vai e vem de linhas trançadas.  Olhou para os lados e nada viu. Desistindo de entender tudo aquilo, contornou a esquina desviando dos postes e seguiu seu caminho sem nunca descobrir os autores da arte.
A garotada escondida segurou as gargalhadas até que ele sumisse de vista. Foi uma cena impagável e inesquecível.
Que boas lembranças e saudades gostosas dessas brincadeiras de rua.
Será que os brinquedos eletrônicos de hoje, despertarão estes mesmos sentimentos no adulto de amanhã?

Santos, 23 de julho de 2013 


Para os amigos das Turmas da Rua 2 e da Rua 3, na Rio Claro/SP  dos anos 60.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

DESABAFO INESPERADO - BUD PRD



Diz-se que o melhor da festa é esperar por ela.
Realmente a expectativa nos faz muito bem, mas o melhor mesmo é poder curtir bem a festa em todos os seus momentos.
Após semanas de preparativos e com tudo organizado, a longa viagem teve início.
Tudo ou quase tudo era novidade e a ansiedade por nada perder fazia os turistas traçarem a cada noite, o programa a ser cumprido no dia seguinte.
Em cada cidade muitas visitas, muitas surpresas, muitas emoções, muitas risadas e um pouco de cansaço que era deixado de lado.  Entretanto, depois de 13 dias de viagens e 5 cidades visitadas, a fadiga já se manifestava com certa força trazendo a irritação consigo, fato tão característico em momentos estressantes.
Dirigindo-se para a estação ferroviária de Praga na República Tcheca, arrastando malas já com pesos razoáveis, o grupo de turistas caminhava rapidamente a fim de não perderem o horário do trem que os levaria a outro país.
O trânsito não estava lá muito organizado e entre carros, ônibus e caminhões, circulavam também várias charretes destinadas a passeios turísticos. 
Uma parte do grupo caminhava mais rapidamente, mas o peso dos anos e das malas fez com que a outra parte ficasse mais atrás.  Resolveram então apressar os passos na tentativa de não se distanciarem muito, mas foram contidos por uma charrete que lhes cortou a frente bem no meio de um cruzamento movimentado.
 Nesse mesmo instante ouviu-se um FÓÓÓNNNN - uma tremenda buzinada vinda de um carro que seguia atrás da charrete.
O susto provocado pelo barulho da buzina foi imenso e acabou de vez com a já pouca paciência de um dos turistas.  Sem pestanejar e em seu mais elevado grau de irritação, virou-se para o “buzinador” e em alto e bom som gritou-lhe:
 - VÁ PEIDAR!
A gargalhada dos demais componentes do grupo foi a única manifestação que se ouviu, já que o motorista, um cidadão theco, desconhecendo totalmente o idioma português não se abalou com a ordem que lhe foi dada e com certeza nem a cumpriu.
Observou-se depois que a buzinada fora dirigida ao condutor da charrete, mas aí, o berro ordenando a eliminação de gases intestinais já havia sido dado.
O desabafo tão inesperado serviu como válvula de escape e recarregou um pouco as energias do grupo que seguiu em frente arrastando pesadas malas, mas gargalhando muito com a ordem bizarra dada àquele motorista.
Na próxima viagem talvez seja conveniente aprender alguns desaforos em diferentes idiomas para que todo e qualquer desabafo, tenha o alcance desejado!

Santos, 17 de junho de 2013 

Bude PRD, de acordo com pesquisa feita, seria a expressão em theco.
Ao Edo, fica aqui a dica para a próxima buzinada tcheca......rss

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A VISITA REAL





Durante uma comunicação com pessoas bem próximas, nós mulheres, achamos que poucas palavras são suficientes para uma perfeita compreensão do que dizemos. Entretanto, na maioria das vezes isto nem sempre ocorre, principalmente quando o ouvinte é um homem.
De certa forma as mulheres após fornecerem algumas informações, acreditam que o outro consiga assimilá-las e decifrá-las, sem que para isso seja necessária uma detalhada explanação. 
Acontece que às vezes tais informações não são as básicas, as essenciais, aquelas que permitam chegar-se a uma plena compreensão do que foi dito.  Surgem então a partir daí, desentendimentos que podem levar tanto a sérias divergências como também a boas gargalhadas.
Foi justamente essa segunda situação que ocorreu recentemente em uma família.
Os três Arcanjos da Anunciação, Gabriel, Rafael e Miguel, estavam simbolicamente na casa de uma amiga que teria que encaminhá-los a outra família, numa espécie de corrente imaginária, para que eles a visitassem levando-lhe também proteção e saúde.
Convidada a ser a próxima anfitriã dos Arcanjos, ela concordou de imediato e combinou com a amiga, dia e hora para recebê-los, claro que simbolicamente.
No horário e dia combinados, eles seriam convidados a sair da casa onde se hospedavam para se dirigirem, virtualmente, para a outra residência que deveria ficar com a porta de entrada devidamente aberta para recebê-los.
Ciente que o marido era totalmente cético em relação a assuntos místicos, religiosos e crendices de um modo geral, ela decidiu omitir-lhe detalhes do acordo que fizera, evitando assim as costumeiras brincadeiras e gozações.
Desta forma, ela não esclareceu que era uma visita fictícia, imaginária. 
Explicou somente que naquele dia, a partir de um determinado horário, receberiam a visita dos três Arcanjos e que por esse motivo, a porta da residência deveria ser mantida aberta.
Ele não fez no momento maiores questionamentos, pois conhecedor da religiosidade da família acreditou que receberiam a visita de parentes que trariam as imagens de Gabriel, Rafael e Miguel, para uma noite de orações.
No horário combinado ela pediu à filha que prendesse a cachorrinha da casa, obviamente para evitar que o animal fugisse para a rua.  Entretanto, o marido vendo a cena, entendeu que cachorra ficaria presa, pois poderia estranhar e latir para as pessoas que estavam prestes a chegarem.
Sentado em sua poltrona na sala, ficou olhando para a porta aberta e esperou, esperou, esperou...
Passado certo tempo e já invocado com a demora, não se conteve e perguntou se as visitas chegariam de carro.
Ela, pressupondo que ele estava sendo irônico, já ficou irritada, mas continuou a olhar a porta permanecendo num respeitoso silêncio.
Pensando em ser prestativo, o marido pegou o controle remoto e avisou que já iria deixar aberto o portão eletrônico da residência. Ouviu de imediato uma resposta carregada de agressividade que o deixou cismado, sem entender o que se passava.
De repente, embora não tivesse havido qualquer barulho ou movimento estranho, ouviu a esposa dizer:
- Podem entrar!
Sem entender absolutamente nada, ele esticou o pescoço para olhar para a rua.  Como não visse ninguém, indagou curioso:
- Se eles nem chegaram, por que você disse que podem entrar?
A esposa já bem irritada com aquela postura dele e achando que estava sendo alvo de gozações, respondeu-lhe de maneira brusca e em poucos segundos um grande bate boca se estabeleceu.
No meio do entrevero ele acabou finalmente entendendo de qual tipo de visita se tratava e aí as gargalhadas foram inevitáveis.
Como toda a discussão ocorreu bem no horário combinado para a recepção aos Arcanjos, o casal não sabe até hoje se as visitas entraram na residência ou se assustados com a confusão, bateram asas e partiram em revoada em busca de locais mais calmos. Afinal uma guerrinha familiar não é ambiente propício para uma visita, principalmente uma visita sagrada.

Santos, 18 de fevereiro de 2.014.

Para Dakota, cachorrinha que alheia a tudo, teve que ficar presa até que os humanos se entendessem.

sábado, 29 de junho de 2013

UMA UNIVERSIDADE CHAMADA VIDA




O aprendizado é o resultado de nossos estudos aliados à experiência de vida; na verdade é essa experiência que nos conduz a comportamentos bem mais adequados do que qualquer estudo por mais profundo que seja.
Interessante que só nos damos conta disso quando nossa bagagem de anos já pesa razoavelmente.
Pensando sobre isso, me veio à mente um fato ocorrido logo no início da carreira profissional envolvendo um aluno residente na zona rural. Estudava no período noturno, pois ajudava a família na lavoura, apesar dos seus 13 anos somente.
Não era uma mente brilhante, mas suas maiores dificuldades provinham justamente da falta de tempo para se dedicar aos estudos. 
O aluno já havia ficado retido para os exames de segunda época (ainda não havia o processo de recuperação) em duas disciplinas; com a reprovação  nos exames finais também em Ciências, completou a terceira disciplina, fato este que o levou à reprovação na 6ª série do Ensino Fundamental.
Até hoje me lembro do erro que cometeu na última questão da prova e que lhe resultou em uma nota abaixo da média.   Ele não soube explicar o que eram pés acolimbéticos encontrados em algumas aves.
Na realidade o aluno errou também outras questões básicas e importantes, mas esta última foi a que encerrou sua chance de aprovação.
Recém-formada, trazia na bagagem muitas informações adquiridas na faculdade, mas todo esse aprendizado não teve sua aplicação de maneira adequada justamente por causa da inexperiência de vida.
Com certeza essa minha memória para o fato está associada ao arrependimento que veio posteriormente.  Hoje me pergunto o que pretendia avaliar ao formular tal questão?  Talvez pela falta de experiência, pus em prática a expressão ser mais realista que o rei.
É a velha história de que não basta saber O QUE avaliar, mas COMO avaliar, tema este que já foi abordado no texto ENTENDERAM? publicado neste mesmo blog.
Se encontrasse este aluno novamente, depois de transcorridos quase 40 anos, iria lhe perguntar se o fato de desconhecer o que eram pés acolimbéticos lhe trouxe algum prejuízo na vida, além de fazê-lo perder um ano de estudos.
Provavelmente na ocasião, sentia-me a dona da verdade.  Hoje, já com anos e anos de estrada nesta vida, sei que ninguém é senhor absoluto de verdade alguma.
Realmente a vida é uma grande Universidade.
A propósito, você sabe o que são pés acolimbéticos? 
Não????
Como você conseguiu viver até hoje sem saber isso?????

Santos, 16 de junho de 2013 


Nesta homenagem a um ex-aluno, faço aqui um mea culpa.

sábado, 22 de junho de 2013

NOVA ESPÉCIE DE PEIXE


Pesquisando em sites de livrarias deparei-me com o título “Odeio Reuniões”.
De imediato ouvi-me dizendo – eu também!
Na vida profissional participei de muitas delas. Posso afirmar com certeza que somente em torno de 25% foram bem proveitosas e úteis.  Uma boa parcela foi pura perda de tempo, ou como se costuma dizer, foi como “chover no molhado”.
Recordo-me que sempre havia alguém que se destacava por fazer apartes totalmente desnecessários e fora de contexto.  A pessoa falava, falava, interrompia a sequência da reunião, fugia da pauta e nada se aproveitava.
Quando ocorriam tais situações, um pequeno grupo de colegas que geralmente sentava-se no fundão da sala, brincava entre si identificando tal pessoa com o apelido de ignorante desinibido.  Isto porque ela não se dava conta dos despropósitos que falava e ainda ficava “se achando”, como diz a moçada de hoje.
Foi justamente um destes ignorantes desinibidos o causador de um constrangimento que este grupo do fundão, passou durante uma reunião de diretores.
A pauta desenvolvida tratava sobre a necessidade de melhoria na merenda escolar. 
Várias sugestões foram dadas até que alguém resolveu fazer um verdadeiro discurso sobre os benefícios da carne de peixe, propondo que ela constasse do cardápio diário das escolas. Para viabilizar isso, sugeriu que fossem criados peixes num famoso lago da cidade, sabidamente muito poluído por esgotos clandestinos. 
Enquanto o desinibido defendia sua proposta com toda ênfase, um diretor que fazia parte do grupo do fundão da sala resolveu apoiar essa ideia.   Falando em tom baixo para que somente quem estivesse bem próximo o ouvisse, comentou que já havia muitos peixes vivendo no tal lago.
Diante da surpresa dos colegas, forneceu-lhes mais detalhes.
Aproximou as mãos abertas uma da outra e deixando entre ambas um espaço de uns 15 cm, explicou que esse era o tamanho médio dos peixes e que os mesmos tinham escamas na cor marrom.
Quando lhe perguntaram qual era o nome do peixe, ele esclareceu que se tratava de uma espécie de origem japonesa cujo nome era Torossô.
A gargalhada foi inevitável e a reunião imediatamente interrompida.
Todos os olhares foram dirigidos ao fundão da sala.
O dirigente que presidia a reunião quis saber o motivo de tanta alegria, mas obviamente não obteve resposta.  Ninguém quis se atrever a falar o nome do peixe que já povoava o lago.
Sobrou-lhes então uma chamada de atenção que só não foi mais severa porque tal dirigente sabia que esse grupo era formado por pessoas que apesar de brincalhonas, eram realmente comprometidas com a profissão e muito competentes.
Depois dessa interrupção, o assunto da pescaria no lago foi abortado por motivos óbvios e os tais peixes japoneses ficaram a salvo dos perigosos anzóis. 
Creio que até hoje vivam felizes nadando naquele lugar que ironicamente se chama Lago Azul.


Santos, 16 de junho de 2013

Uma homenagem aos diretores do fundão que alegravam nossas reuniões e em especial ao Kasuo.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

EM CLARO, NO ESCURO




2:10
Esses são os números que vejo no relógio digital ao lado da cama.
Não é comum, mas vez ou outra, a insônia resolve me fazer companhia madrugada afora.  Hoje ela está aqui, firme e forte.  Tudo indica que passarei boa parte da noite, em claro.
Na verdade de uns tempos para cá, mesmo enquanto durmo, meu quarto passa as noites praticamente às claras.  São tantas as luzinhas acesas em aparelhos como modem, roteador e TV, que a escuridão deixou de ser absoluta.
A insônia surge quando a rotina do dia é quebrada por alguma emoção especial ou existe uma ansiedade por algo que está por vir.
O barulho incessante de carros na avenida me deixa intrigada.  Para onde é que toda essa gente tem que ir às 2 horas da madrugada e no meio da semana!!??
Geralmente desisto de medir forças com a insônia e pego um livro na cabeceira da cama.  Hoje, entretanto, a concentração está difícil e desisto de ler.
Lembro-me que certa manhã logo ao levantar, comentei com minha mãe que meus olhos pareciam secos durante a noite e que com isso não havia conseguido dormir direito.   Ela bem objetiva como sempre, soltou a resposta imediata:
-Levantasse e molhasse os olhos!  Simples assim! Fácil, não é?
Para ela sono não era problema. Na verdade tinha sono até demais.
Costumava lançar mão de estratégias para dormir um pouco após o almoço e para isso, convidava o neto ainda pequeno, para “descansar o corpinho”, que era como ela costumava falar. 
Na verdade ele queria mais era brincar e mesmo já deitado com a avó, seus olhos ficavam espiando e procurando motivos para pular da cama.
Certa vez ela consumida pelo cansaço e vendo que o garoto não fechava os olhos, resolveu dar rápidos e pequenos sopros em seu rosto.
Para evitar o ventinho que o incomodava, o menino abaixava as pálpebras para logo em seguida, levantá-las novamente.  Em pouco tempo, acabou desistindo de manter os olhos abertos e realmente dormiu.   Ela havia descoberto uma nova estratégia para fazê-lo dormir e também poder cochilar um pouco à tarde.
4:00 cravados no relógio ao lado de minha cama.
Pelo jeito minha insônia se prolongará até o dia amanhecer.
Ah, como seria bom, muito bom mesmo, se eu pudesse contar agora, com a ajuda de uns soprinhos maternos que me fizessem dormir e descansar o corpinho!!!

Santos 14 de junho de 2013

domingo, 9 de junho de 2013

"QUANTO TEMPO DURA O ETERNO?"



Ah, o tempo! Sempre cronometrando nossas vidas.
Interessante como o conceito de tempo muda à medida que os anos se acumulam em nossa estrada.  Conforme a etapa de nossas vidas o consideramos lento ou rápido demais.
Na infância pouco nos importamos com ele.  Na verdade até o ignoramos. Vivemos cada dia a seu tempo, sem preocupações com futuros ou com passados.  O que nos interessa é o hoje, o presente, no qual depositamos nossas esperanças, satisfações, tristezas.
A entrada na adolescência e juventude que a segue provocam uma reviravolta em todos os sentidos. Buscamos algo que nem sabemos exatamente o que seja, mas o queremos com toda firmeza. Nesse período tão conturbado física e psicologicamente, temos a impressão que o tempo se arrasta vagarosamente, dia após dia, semana após semana.  Do alto (ao menos é assim que nos sentimos) dos 15 anos, queremos que ele passe depressa pois temos urgência de vida.
Nossos olhos já não focam somente o hoje, mas estão voltados principalmente para o futuro e aí é que o tempo parece querer frear nossos anseios. Buscamos a maioridade, um diploma, a carteira de motorista, enfim, queremos desempenhar efetivamente o que já nos consideramos capazes de realizar.  Os sonhos se sobrepõem à realidade. Buscamos a independência e desejamos erguer nossas bandeiras para conquistarmos o mundo, convictos de que conseguiremos.  
Já adultos e inseridos no mercado de trabalho, nossa visão se estreita. O ritmo acelerado dos dias nos consome. Nosso mundo se reduz. Os sonhos são encaixotados na alma à espera que nos sobre tempo um dia. Já não desejamos mais que ele voe; nossa pressa deixa de existir e em contrapartida, o tempo é que parece se apressar cada vez mais.
Mal conseguimos executar as atividades cotidianas, rotineiras, ligadas às obrigações profissionais e pessoais.  Reservar algumas horas para um lazer com família ou amigos nem sempre é possível. Às vezes chega-se a considerar lazer como desperdício de tempo tal a ânsia em acompanhar os ponteiros do relógio. Torna-se necessário organizar bem cada hora do dia para que tudo saia a contento e mesmo assim muitas vezes falhamos. 
Aquele tempo que antes se arrastava agora nos atropela.  Sua avidez nos suga e às vezes até nos cega.
Ocupados nas tarefas do dia a dia não nos damos conta dos anos que vão se acumulando em nossas vidas, até que chega a tão sonhada e também temida, aposentadoria.
Nesta etapa surge a preocupação contrária vivida anteriormente – o medo do excesso de tempo que agora nos parecerá sem pressa alguma.
Pois é justamente nessa fase que podemos observar que ele, o tempo, sempre caminha na mesma velocidade. Nunca retarda ou acelera seus passos. 
Nós sim que desequilibramos o tempo, aceleramos nossas vidas e muitas vezes esquecemo-nos do essencial, que é vivê-las.
A vida não é eterna!
Lembro-me agora do diálogo entre Alice e o Coelho*:

Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo.


Santos, 09 de junho de 2013


*Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll


  

sábado, 25 de maio de 2013

A LIGAÇÃO DO ALÉM



A infância é um período de nossas vidas no qual brincar, estudar e ser feliz, são ou ao menos deveriam ser, as únicas responsabilidades.
Na criança, o lado emocional suplanta o racional e sua personalidade ainda em formação, pode ser afetada por atitudes que não compreende, principalmente quando tais atitudes são constantes.   Como consequência, os receios infantis assim desencadeados, podem se manifestar mesmo na vida adulta.
Acostumado com repreensões por parte do pai, algumas merecidas e muitas imerecidas, o garoto vivia sempre na expectativa de ouvir a qualquer momento, uma solene descompostura.  Por mais que buscasse corresponder às exigências paternas, geralmente alguma coisa não saia a contento e era o que bastava. 
Já na adolescência, o simples fato dele usar uma camisa (camisetas ainda não eram tão comuns) para fora da calça, gerou uma solene bronca que até a mim, mera espectadora, causou grande espanto.
Anos se passaram e o garoto, agora pai de família, demonstrou que o receio de um ralho paterno ainda se mantém, embora agora se manifeste mais no campo da pilhéria.
Vários anos após o falecimento do pai, uma pequena troca de nomes o colocou de imediato em sobressalto.
O telefone tocou e sua filha, na época com 5 anos, correu para atender ao chamado.  Do outro lado da linha, uma voz masculina pediu por seu pai e se identificou como filho de ITALA.
A menina que já havia ouvido muito as histórias de um ITALO, avô que ela não chegou a conhecer, se confundiu ao dar o recado e estendendo o aparelho para o pai, avisou:
- É o ItalO que quer falar com você!
A expressão de espanto foi geral.
Todos os olhares se dirigiram para o pai da garota, que com expressão assustada, evitava pegar no aparelho. 
Passados alguns segundos de silêncio total, eis que se ouve sua resposta, num misto de brincadeira e receio:
- É a cobrar?  É interurbano??   É do além???????   To fora!  Não vou atender não!  Já me deu bronca demais em vida!
Dessa vez a repreensão não veio; fora um simples engano na troca de vogais.
Sorte dele não haver telefone no além.


Santos, 25 de maio de 2013  

sexta-feira, 24 de maio de 2013

sexta-feira, 19 de abril de 2013

PEDAÇOS DE MIM



                Finalmente em livro, uma parte dos contos e crônicas constantes deste blog.
                
                Um desejo antigo realizado.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

O DIREITO AO AVESSO


Um sentimento travesso
virou-me pelo avesso.
E contive a dor.
E contive o amargor.
Dor e amargor no peito,
acorrentados e calados.
Perdi-me de mim.
Me desconheci.
Fiquei oca.
Perdi a alma.
Olhos abertos e nada via.
O mundo lá fora sequer existia.
Tropecei em meus passos,
em busca apenas,
de um simples abraço!
Perdi a noção do tempo.
Perdi a conta das horas.
E foi ele - o tempo,
justamente o tempo,
que me abriu seus braços,
corrigiu meus passos,
e acalentou minha alma,
num forte enlaço.
Já me vejo não mais pelo avesso.
Atravesso a vida.
Enxergo o mundo.
Carrego agora em meu ser,
de modo muito profundo,
todo sentimento do mundo!

Ligia M. Cerri
30/03/2013 - 11h01

quinta-feira, 21 de março de 2013

EXPLORAÇÃO INTERROMPIDA


Sempre despertaram certa curiosidade os comentários que eu fazia a respeito da mania organizacional de meu pai.   Cada fato novo contado era motivo de espanto seguido de muita risada devido aos exageros e invencionices tão particulares a ele.
Brincava inclusive dizendo-lhe que qualquer dia montaria uma exposição e cobraria ingresso para visitação pública.  Ele até achava graça e concordava que às vezes cometia alguns exageros, mas com o passar do tempo somente aprimorava mais e mais suas invenções domésticas.
Tivemos liberdade para observar melhor e mexer em suas coisas, somente após sua partida deste mundo.
Foi assim que certa tarde ao receber a visita de uma amiga, surgiu a ideia de visitarmos o cantinho da casa que ele considerava seu escritório.  Era onde passava a maior parte do tempo, sempre criando suas artes.
Em meio a muitas gargalhadas abríamos os armários, as gavetas, as pastas e em todos os objetos havia algum detalhe curioso.  Ele usava e abusava de anotações caprichosas, sempre com letras de forma feitas com pincel atômico nas cores verde e vermelho (cores de seu time de coração – Velo Clube); usava muito durepox, fitas crepes, carimbos na forma do dedo indicador tanto esquerdo quanto direito apontando para alguma anotação importante, agendas, blocos, bloquinhos e blocões de papel, etc.
Havia até prendedores de madeira para varal com seu nome anotado para não serem misturados aos demais de uso comum.  Isto porque ele tinha o costume de pendurar no varal para secar após o uso, até sua escova de dente.
Como esse escritório ficava no pavimento superior da casa e com porta que se abria para o quintal, resolveu adotar certas medidas de segurança. Quebrou propositadamente o trinco da porta com o objetivo de tornar mais difícil ou até impossibilitar sua abertura por algum visitante indesejado, ou seja, um ladrão.
Feito isso, para evitar que o vento fechasse a porta enquanto estava trabalhando, providenciou uma pedra de calçada portuguesa com um formato que permitia seu perfeito encaixe entre a lateral da porta e o batente. Desta forma a porta ficava travada e era mantida aberta enquanto ele lá se encontrasse.
Um detalhe: para facilitar a exata posição na colocação da pedra, colou sobre um lado dela um pedaço de esparadrapo branco onde escreveu em caprichadas letras de forma – ESTE LADO PARA CIMA.
Distraídas que estávamos bisbilhotando, não percebemos que uma forte corrente de vento começou a circular pelo cômodo. 
Incautas, também não tivemos o cuidado de colocar a tal pedra estratégica no lugar certo.
Foi quando entre uma risada e outra ouvimos um forte barulho.  O vento havia empurrado a porta que se fechou com violência.
Uma troca de olhares assustados foi suficiente para nos entendermos. 
Seria uma represália vinda do além???
Estava decretado o final de nossa alegre exploração. 
Estávamos presas num pequeno espaço no pavimento superior, sem mais ninguém na casa e pior ainda, sem sequer um telefone para pedir ajuda.
Tentamos inicialmente segurar no toco de trinco que havia, mas era impossível sequer abaixá-lo.   Ele nem se movimentava.
Resolvemos analisar com calma a situação e para nossa sorte vimos que havia um pequeno vão no encaixe entre a parte superior da porta e o batente.  Com auxílio de um bastão de madeira colocado nesse vão e com muito esforço feito a quatro mãos, pouco a pouco fomos conseguindo aumentar esse espaço até que passados alguns suados minutos conseguimos abrir a porta.  Alívio amplo, geral e irrestrito.
Coincidência ou não, o fato é que o susto valeu como um aviso e não foi preciso um segundo aviso.  Saímos aos atropelos do escritório.
Estava encerrada a primeira e última exploração às invencionices de meu pai.
Naquele momento, de onde ele estava, com certeza se divertiu às tantas com os apuros das intrusas em seu antigo território.
Manias e temperamento muito autoritário à parte, somente após sua partida tomamos conhecimento de atitudes generosas em relação a terceiros, mas nunca divulgadas por ele nem mesmo aos beneficiados.  Assim era o Sr. Italo Cerri.


Santos, 21 de março de 2013.        
Para Alice Keiko, companheira dessa exploração interrompida.

segunda-feira, 18 de março de 2013

EU VI



Apesar dos anos que já passaram, vez ou outra a cena lhe vem à mente e quando se dá conta, está rindo sozinha.
O cenário era velho conhecido seu – a rua em que morou desde seu nascimento. Sabia bem como era cada pedacinho dela, mas mesmo assim a jovem gostava de ficar admirando-a nos momentos de dolce far niente. Era justamente isso que fazia na manhã daquele domingo ensolarado.
Eis que de repente entre os carros que transitavam, viu surgir bem rente à sarjeta, uma bicicleta vermelha.  Sobre ela, um garoto todo sorridente mantinha os pés apenas apoiados nos pedais.  Apesar da razoável velocidade que desenvolvia, ele não fazia o mínimo esforço pois seu pai que corria na extremidade da calçada, empurrava-o com sua mão esquerda apoiada nas costas do menino, enquanto em sua mão direita, carregava uma louça e uma caixa de jogos.
Vinham embalados e rindo com a brincadeira até que o pai errou um passo. 
Seu pé esquerdo pisou fora da calçada desequilibrando-o.
O tombo que se seguiu foi inevitável e particularmente acrobático.
A caixa de jogos e a louça foram lançadas para o alto.  O jogo era War com grande quantidade de pecinhas coloridas, que subiram muito alto para depois caírem num festival de cores esparramadas pela calçada e asfalto.  A louça não teve melhor sorte e encontrou seu finado dia naquele instante, partindo-se em vários pedaços.
Ajoelhado no chão, atônito e ainda abobalhado pelo tombo, o pai olhou à sua volta para ver se alguém mais além do filho, ria daquela cena. Viu que uma senhora que estava no portão bem em frente não demonstrava nenhuma reação, quer fosse de riso, susto ou mesmo preocupação.  Assim ela permaneceu enquanto ele recolhia pacienciosamente, cada peça do jogo.  Provavelmente a senhora dormia em pé ou algum problema na visão a impediu de curtir a cena desastrada de malabarismo.
Aliviado e concluindo que ninguém além do filho havia testemunhado sua situação vexatória, olhou mais à frente e deparou-se com a jovem em pleno acesso de riso, vendo-o ajoelhado na calçada juntando os pedaços que sobraram da louça (que nem era sua) e catando as “trocentas” peças do War, jogo com o qual, diga-se de passagem, ele detestava brincar.
A performance do pseudo-atleta teve um final triunfal com direito até a malabarismo trapalhão.

Santos, 18 de março de 2013   


Obs: Eu vi e não me esqueço, sr. Edo.