sexta-feira, 29 de junho de 2012

A MADRUGADA EM QUE A TERRA TREMEU



A noite foi muito agradável num aconchegante barzinho em Santiago. 
O frio não chegou a atrapalhar já que havia vários aquecedores de ambiente colocados entre as mesinhas na parte externa do prédio.  Música suave, gente bonita, um bom vinho chileno, tudo contribuíra para marcar aquela noite como um belo final de férias e uma despedida, pois dali a dois dias retornaria ao Brasil.
Sob uma belíssima lua cheia caminharam lentamente pelas ruas retornando para casa quando os relógios já anunciavam o início da madrugada de domingo.
Havia sido cancelado o último passeio marcado para aquele dia prestes a nascer. Como era para um local distante, perderiam muito tempo no trajeto o que prejudicaria a visita em si.
Acomodaram-se no apartamento do 10º andar e logo o sono chegou.
Passava um pouco das 3 horas, já em pleno sonho, quando ela foi despertada pelo forte balanço do colchão.
A princípio, sem entender o que se passava , sentou-se na cama. Entretanto ao apoiar os pés descalços no chão, a trepidação do piso não deixou mais dúvidas.  
O apartamento todo estava tremendo – era um terremoto.
Olhou pela janela e observou que muitas pessoas já estavam na rua.
Chamou a irmã avisando-a sobre o que acontecia e dizendo que deveriam sair do prédio com urgência.  Para seu espanto ouvi-a afirmar que as pessoas estavam na rua, pois com certeza chegavam de alguma balada e enquanto levantava-se calmamente, esclareceu que iria mesmo era para o banheiro pois estava precisando.
Sem perder mais tempo ela correu ao armário onde os cabides com as roupas balançavam muito. Vestiu rapidamente uma jaqueta e calças compridas por cima do pijama mesmo. A madrugada estava fria.
Nesse momento a energia elétrica foi desligada e o barulho no apartamento já aumentara muito: copos e louças caindo e quebrando no chão da cozinha, talheres pendurados no apoio de metal batiam uns contra os outros tilintando como sinetas, um grande quadro da sala despencou e as paredes estralavam sem parar.
Abriu a porta do apartamento e deparou-se com o vizinho, um rapaz também brasileiro, que apavorado tentava usar o celular sem êxito.  
Nesse momento seu sobrinho que estava no 13º andar surgiu descendo rapidamente as escadarias chamando-as para saírem do prédio. 
Os moradores chilenos também já desciam correndo e precavidos, carregavam uma garrafa de água e uma lanterna nas mãos.
Com certeza ela bateu algum recorde de velocidade ao descer na semi-escuridão, do 10º andar até o térreo.   
Na calçada grande número de pessoas assustadas procuravam informações enquanto os tremores diminuíam de intensidade. 
Com a luz e o serviço de telecomunicações cortados, a única notícia obtida veio do radio de um carro que foi sintonizado numa estação retransmissora de Mendoza na Argentina.  O abalo sísmico havia sido realmente forte: 8,8 na Escala Richter.
O clima era de medo e apreensão e muitos moradores estavam enrolados em lençóis e cobertores, pois a madrugada estava fria.
Com certeza ela era uma das únicas pessoas bem agasalhada e até com sua bolsa com documentos. Trazia também a máquina fotográfica que foi usada apenas para registrar os danos nos prédios da região, evitando clicar as pessoas pois o clima estava tenso.
Por sorte o edifício onde estavam bem como os vizinhos, praticamente não sofreram danos. Eram construções recentes que seguiram as exigências legais necessárias para suportarem tremores de terra de alta magnitude.
Uma rápida caminhada pelo bairro ainda na madrugada mostrou alguns estragos em estruturas de igreja, casas comerciais, vidros de vitrines, trincas em paredes, etc.
Somente por volta das 9h da manhã os moradores ainda receosos, começaram a retornar aos seus apartamentos.  
Apesar do sono não havia mais condições para relaxar e dormir tranquila depois de toda aquela aventura.
Como o aeroporto ficou fechado nos primeiros dias que se seguiram, a viagem de retorno foi atrasada em uma semana.
Nesses dias pós-terremoto, foram constantes as chamadas réplicas, com tremores de curta duração mas que assustavam muito e faziam o coração disparar.
As consequências dessa madrugada foram trágicas para muita gente e para o país.
Para ela foi realmente uma viagem inesquecível, não só pela beleza dos lugares visitados, como também pela intensa e inédita emoção sentida, emoção essa que espera nunca mais vivenciar.

Santos, 29 de junho de 2012


Prédio que resistiu intacto aos tremores






















Isla Negra - Vista da praia a partir da casa de Neruda.





















Casa de Neruda em Isla Negra

sábado, 16 de junho de 2012

DEMORÔ !


- To vazando!
Honestamente, a primeira vez que ouvi essa expressão, interpretei-a como fala de alguém que estava necessitando urgentemente ir a um banheiro.  Somente ao ver a atitude que se seguiu é que entendi o real significado.
Incrível como os termos mais usuais mudaram nesses últimos anos.
Mudanças muito mais aceleradas em relação às que ocorreram há quatro ou cinco décadas.
É relativamente comum durante uma conversa com alguém das chamadas gerações X e principalmente Y ou Z, usarmos algumas palavras que desconheçam, bem como ouvirmos algumas que não têm significado para a chamada geração Baby Boomer (meados dos anos 40 até início dos anos 60) à qual pertenço.
Na realidade até o intervalo entre as gerações aparentemente mudou, pois em meados do século XX considerava-se a diferença entre uma e outra geração, como algo em torno de dez anos. Atualmente é possível considerar-se um intervalo bem menor. 
Tudo tem ocorrido rápido demais e mesmo assim os jovens se expressam com o famoso demorô!
Em uma conversa informal com adolescente, usei o termo manequim referindo-me à profissão que uma amiga exercera.  Questionada sobre o que fazia um manequim, lembrei-me que hoje as chamamos de modelos. Reformulei minha frase e aí me fiz entender.
Ao rever fotos antigas escorreguei novamente no vocabulário e as chamei de retratos, fato que soou mal inclusive aos meus ouvidos já tão usados!
Na verdade até as fotografias já não são mais assim chamadas. Agora são conhecidas por fotos, apenas fotos!  Isso aconteceu também com o termo cinema que logo após sua invenção era chamado de cinematógrafo, passou a cinema e hoje é simplesmente cine.
Constantemente sou corrigida quando uso a palavra firma referindo-me a uma empresa.
Os gibis que povoaram minha infância hoje são as HQs.
Os reclames na mídia são as propagandas.
São as mudanças que sempre ocorreram, mas isso acontecia de maneira mais lenta, gradativamente.
As gírias que também se alteravam ao longo dos anos, atualmente dominam quase 80% do vocabulário principalmente juvenil.
Recentemente numa fila de supermercado acabei acompanhando um diálogo e senti-me totalmente fora de contexto.  De cada frase trocada entre as jovens, consegui entender uma ou outra palavra, entretanto elas se entendiam perfeitamente.
Assim é muito comum ouvirmos um: mó legal, da hora, causei (no sentido de chamar a atenção), buzum ou buzão (ônibus), caô (mentira), demorô, pisante (tênis), tá ligado? , responsa (confiável), dar um rolé (passear), style (estar bem arrumado) e tantas outras.
A mais nova forma de linguagem, a chamada internetês, possibilita uma comunicação extremamente rápida no meio virtual.  A cada dia novas formas são a ela incorporadas. É comum encontrarmos nesse tipo de linguagem, expressões como blz (beleza), fds (final de semana), OMG (oh My God), cmg (comigo), VB (very beautiful), msm (mesmo), vdd (verdade), etc. Elas facilitam a troca de informações entre os internautas.  Percebe-se inclusive que em alguns casos ela já está extrapolando a tela dos computadores, saindo do ambiente virtual e manifestando-se na linguagem verbal do dia a dia.
 Tá ligado no que vai acontecer com a Língua Portuguesa quando a geração alfa (filhos da geração Y ou Z) estiver causando por aqui?
Demorô hein!

Santos, 16 de junho de 2012 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A REUNIÃO SECRETA



Sua sala de trabalho era vizinha à outra sala onde ficavam várias pessoas; as portas bem próximas eram sempre mantidas abertas.
Sozinha e concentrada na elaboração de um relatório, ela teve a atenção interrompida por uma colega que lhe comunicava o fechamento da porta da sala vizinha. 
A justificativa para tal fato foi que tratariam de assuntos importantíssimos numa espécie de reunião secreta e que nada poderia chegar a ouvidos indiscretos de terceiros. 
Como ela era a única pessoa que se encontrava nas proximidades, considerou tal explicação deselegante e até ofensiva.
Entretanto, ao olhar para a porta recentemente fechada, viu que a chave fora esquecida para o lado de fora.  No mesmo instante uma ideia maléfica lhe veio à mente.
Levantou-se, caminhou em direção à porta, virou cuidadosamente a peça na fechadura e retirou-a sem fazer nenhum ruído.  Com a chave no bolso, resolveu parar seu trabalho e dirigir-se para a cozinha que ficava numa ala bem distante.
Para evitar algum problema sério, comunicou o fato a uma funcionária que trabalhava na portaria,  pedindo que lhe avisasse assim que a clausura fosse descoberta pelo grupo. 
Em poucos instantes todos os demais funcionários já sabiam do fato e ansiosos aguardavam o desfecho do caso.  A expectativa era grande uma vez que envolvia a sala que recebera o apelido de olimpo dos deuses.
Alguns minutos depois, seu cafezinho foi interrompido; a tal reunião secreta havia terminado e seus participantes se descobriram presos.
Enquanto a maior parte dos enclausurados encarou o fato com bom humor, alguns poucos, muito irritados, dirigiram-se para as janelas e puseram-se a gritar por ajuda.
Uma razoável plateia se formou e a cena hilária provocou muitos risos.
Gritos pedindo socorro ao mesmo tempo em que se observavam apenas mãos gesticulando entre os pequenos vãos das janelas basculantes da sala, algumas balançando lenços ou blusas para chamarem mais a atenção. 
A visão assemelhava-se a cenas de filmes com náufragos perdidos e acenando para algum navio distante.
Sem apressar o passo, calmamente, ela se aproximou e mostrando que a chave estava em seu poder, justificou sua atitude como um cuidado maior que tivera, contribuindo assim para que tudo fosse realmente o mais secreto possível. 
Esclareceu que com sua atitude precavida, ela evitou que a reunião fosse interrompida por alguém que chegasse. Ao mesmo tempo evitou o risco de serem perturbados por alguém do próprio grupo que decidisse sair da sala antes do final da reunião.  Afinal segredo é segredo!
Claro que a justificativa não foi bem assimilada por uns poucos, mas as risadas que a cena provocou foram suficientes para garantirem o bom humor para o resto da semana, não só o dela como também de todas as outras pessoas que assistiram de camarote.

Santos, 08 de junho de 2012  

quinta-feira, 31 de maio de 2012

PALAVRAS NO VAPOR


     Ao longo do dia as tensões se acumularam sem que ela conseguisse um momento sequer para respirar fundo.
     Era preciso dar a dimensão exata a cada preocupação.
     Deslocando-se de um local a outro, olhou no relógio e sentiu-se atropelada pelo tempo.
 Receou que aquele dia estivesse irremediavelmente perdido.
     De fato foram horas conturbadas, mas conseguira já bem no final da tarde, administrar razoavelmente todas as questões.
     Finalmente em casa, recebida pela alegre cachorrinha branca, conseguiu esquecer um pouco as atribulações que a acompanharam por todo o dia.
     Já no chuveiro, a água morna escorrendo em seu corpo foi como uma bênção para acalmar a dor de cabeça e relaxar os músculos.  A sensação foi tão boa que quando se deu conta estava cantarolando. Sentia-se bem mais leve.
     Ao observar que as paredes do banheiro estavam embaçadas, um comportamento infantil lhe veio à mente e se pôs a escrever versos no vapor.  Soltou a imaginação na ponta do dedo desenhando as palavras que lhe vinham à mente.
     A noite de sono reparador ajudou a clarear as ideias e na manhã seguinte já estava pronta para enfrentar a maratona novamente.
     Dessa vez a rotina do dia de certa forma foi tranquila.
     No começo da noite como sempre, a recepção que recebeu assim que entrou em casa a fez esquecer o trabalho.  Rolou no tapete da sala enquanto brincava com a cachorrinha.
     Na hora do banho eis que teve uma surpresa!
     Assim que a água quente do chuveiro começou a escorrer, o vapor novamente surgiu nas paredes à sua volta, dando vida às palavras lá anotadas na noite anterior.
     Leu emocionada os poemas escritos em momentos de lirismo e inspiração.
     A seguir, passou a mão sobre cada verso, sobre cada letra, juntando as gotículas de água que escorreram levando seu poema parede abaixo.  
     Apagou assim as palavras escritas, mas as reteve na alma.
     Escrever palavras no vapor é como deixar uma mensagem secreta.
  As letras somem momentaneamente para reaparecerem de surpresa no próximo "embaçamento", revelando a espontaneidade de um momento.
     Quem de nós nunca escreveu confidências no vapor?


Santos, 30 de maio de 2012  

Texto a partir da frase:
"Nos banheiros de hotéis escrevi palavras no vapor, palavras essas que nunca mais irei lembrar, deixei-as de presente para Budapeste"  
in BUDAPESTE (24/11/2011) by Débora Vasconcelos.  Blog: www.extremosdemim.blogspot.com.br


quinta-feira, 24 de maio de 2012

UM MONSTRO NO BANHEIRO



Com certeza todos nós carregamos vida afora, um pouco da criança que fomos. 
Alguns talvez sufoquem esse lado infantil, subjugados que são pela roda viva da seriedade e responsabilidade tão presentes na vida adulta.
Em contrapartida, há quem permita que essa criança reapareça vez ou outra quando uma oportunidade se faz presente, provocando momentos descontraídos que aliviam o clima em ambientes exageradamente circunspectos e pesados.  É a alegria abrindo espaço nas mentes e nas faces das pessoas.
Com ela não foi diferente. A responsabilidade sempre norteou sua vida, mas o bom humor nunca deixou de acompanhá-la em seus diferentes ambientes de trabalho.
Foi justamente por causa desse lado criança, ou diria até por culpa dele, que numa saída no horário de almoço em pleno período pré-carnavalesco, ela observou expostas numa loja, várias máscaras emborrachadas exibindo caras de monstros.  No momento em que as viu uma ideia já povoou sua mente e sem pensar duas vezes, escolheu uma das mais assustadoras.
Retornou ao trabalho feliz da vida com sua mais nova aquisição e já fazendo planos sobre o que faria com ela.  Antes porém de dar atenção aos papéis sobre a mesa, entrou no banheiro para olhar-se no espelho com a máscara sobre o rosto.  
Ria sozinha daquela imagem horrível quando ouviu passos rápidos no corredor.
Pelo horário e pela maneira de andar, não teve a menor dúvida que seria uma colega de trabalho da qual era também muito amiga.
Como o barulho aproximava-se justamente do banheiro, manteve a máscara na cabeça e rapidamente posicionou-se atrás da porta que estava entreaberta.
Assim que os passos denunciaram a entrada no local, saiu de seu esconderijo pronunciando um gozador BUUUUU e colocou-se à frente de sua amiga, ou melhor, à frente de quem ela pensava ser a sua amiga. 
          Gritaria ampla, geral e irrestrita!
Deu "zebra" !!!
Quem entrara no banheiro era justamente uma pessoa com a qual não tinha nenhuma liberdade, até porque essa colega de trabalho possuía um temperamento difícil e não era nada chegada a brincadeiras.
Rapidamente retirou a máscara já pedindo desculpas enquanto a recém-chegada ainda gritava. 
Na sequência, o pseudomonstro foi obrigado a ouvir quietinho um minidiscurso com palavras de censura sobre o ato, pois apesar de ter feito propositalmente um BUUU bem singelo para um monstro que se preze, não deixou de provocar um belo susto na colega.
Enquanto rolava o “sermão do banheiro”, ela se viu obrigada a vestir novamente a máscara para poder disfarçar a imensa vontade de rir.
Havia concluído que de certa forma aquele susto servira como uma pequena revanche,  já que essa pessoa avessa às brincadeiras acumulara muita antipatia junto aos demais colegas por causa de seu temperamento forte e sempre cáustico.
A despeito do sermão, a máscara foi guardada e voltou a ser usada em várias outras ocasiões sempre descontraindo o ambiente e provocando gargalhadas.

Santos, 23 de maio de 2012  

sábado, 19 de maio de 2012

ESSE INOCENTE MUNDO INFANTIL

Desenho de Luíza Quinália Cerri

A inocência e autenticidade que permeiam o mundo infantil muitas vezes nos colocam em situações delicadas e até constrangedoras, mas também provocam risos quando confrontadas com nossa realidade.
Seus questionamentos carregados de ingenuidade e pureza revelam que aqueles pequenos seres ainda não foram contaminados pela malicia, pela falsidade e jogo de interesses, cada vez mais comuns no mundo adulto.
Já foi contada aqui no blog (A lógica infantil), a história real do garotinho que ao ser acusado de causador de um incêndio, ficou indignado e defendeu-se esclarecendo com toda sua lógica, que iniciara um fogo sim, mas bem pequenino e não grandão como o que viam.
Não há como esquecer a redação feita por um menino descrevendo detalhes do rosto materno.  Nos seus 8 anos de idade, falou sobre os cabelos, os olhos e a boca de sua mãe, elogiando tudo com sinceridade. 
Entretanto ao chegar ao nariz, ciente que ele era maior que tantos outros narizes que conhecia, preocupou-se em não magoar a mãe mas não omitiu seu parecer e escreveu:
“Minha mãe tem nariz grande. Não é muito grande, mas é grande sim!”
Um fato acontecido na família também provocou risos. 
Uma sobrinha, na época com seus 7 ou 8 anos de idade, fazendo palavras cruzadas deparou-se com a solicitação:  animal que vive no brejo. 
Eram 4 espaços e já havia um  A no segundo quadradinho. 
Sem pestanejar ela preencheu as lacunas com a palavra VACA.
Questionada e corrigida pelos adultos que inclusive ironizaram seu erro, justificou sua opção com total categoria:
- Vocês não vivem dizendo que a vaca foi para o brejo? Então é lá que ela mora.
Mais recentemente outro caso em que a inocência infantil foi fortemente confrontada com a realidade, ocorreu quando uma criança por volta dos 4 anos, assistindo ao vídeo de seu nascimento deu início ao seguinte diálogo:
 - Mãe, onde você estava?
            - Eu estava no hospital. Fui ganhar nenê.
 - Mãe, eu que sou seu nenê!
            - Eu sei filha, isso foi quando você nasceu. Eles cortaram para você poder sair. 
            - Eles tiveram que cortar para eu sair???  
         - Mãããããe, por que você me comeu???????

É mesmo uma delícia curtir a inocência, a pureza e a sinceridade infantil antes que o mundo adulto as deforme.

Santos, 19 de maio de 2012  

sábado, 12 de maio de 2012

HOJE O TEXTO SAIU



Desde criança os dias que antecediam a comemoração do Dia das Mães me deixavam muito emotiva.
Na escola sempre era solicitada nesse período, principalmente no curso ginasial (atual Ensino Fundamental), uma redação sobre as Mães.
Apesar de gostar de escrever encontrava dificuldade nesse trabalho pois me parecia que nunca conseguia escrever plenamente meus sentimentos.  Isso provocava uma sensação estranha de culpa, de eterno débito em relação a ela.
Certa vez ainda na 1ª série ginasial houve um fato que nunca esqueci.
Atendendo solicitação da professora de Língua Portuguesa, fiz uma descrição física de minha mãe e procurei ser mais fiel possível para mostrar o quanto ela era bonita e com efeito, era mesmo!   Caprichei na letra e fiz até uns desenhos como moldura aos meus escritos, afinal minha mãe leria e assinaria posteriormente esse trabalho.
Uma colega de classe chamada Nanci (até hoje não esqueço seu rosto) que não havia feito sua tarefa, pediu meu texto emprestado antes da entrega para a professora, a fim de ter uma ideia e poder fazer o seu próprio. 
Eu havia usado a palavra tez ao comentar o rosto muito claro de minha mãe, enfeitado por belos olhos verdes.  A colega perguntou-me o que significava o termo, tez. Expliquei-lhe rapidamente para não ser observada pela professora e ainda levar uma bronca.
Bem próximo ao final da aula recebi minha redação de volta mas com uma enorme rasura justamente na palavra tez que estava riscada várias vezes e sobre ela anotada com uma letra muito tremida, a palavra pele. 
Nanci havia entendido que não existia esse termo e resolveu corrigir meu texto.
Não havia tempo para refazer o trabalho e entreguei-o assim mesmo com imensa, mal feita e desnecessária rasura.  Fiquei indignada pois considerei que era até uma ofensa a minha mãe, entregar naquele estado justamente um trabalho que falava dela.
Ano após ano só foi aumentando essa sensação de incompetência em passar para o papel exatamente o que sentia sobre ela.  
Busquei os motivos e deparei-me com várias hipóteses como por exemplo timidez, vergonha de expor sentimentos e excesso de respeito já que talvez pela educação que ela recebera ou influência de meu pai, não era muito próxima dos filhos no sentido de gestos de carinho como abraços e beijos.  
Esse comportamento também tolhia nossas demonstrações de afeto que ficavam guardadas na alma esperando sempre uma oportunidade para se manifestarem.
Hoje já há vários anos sem poder desfrutar de sua presença física, sem poder dar-lhe um abraço sequer, o sentimento que me envolve nesse período continua o mesmo mas muito ampliado agora pela dor da saudade.
Esteja onde estiver ou Vó Daisy como carinhosamente a chamava, saiba que continuo a lhe amar muito.
Hoje o texto saiu!
Tenha um Feliz Dia das Mães!

Santos, 12 de maio de 2012  -  VÉSPERA DO DIA DAS MÃES

Eis minha mãe em três momentos:


         

segunda-feira, 7 de maio de 2012

BOLHINHAS DE SABÃO



Sua paciência até que era razoável mas havia momentos nos quais ela esgotava-se com muita facilidade.  E aí, como hoje se diz, o bicho pegava!
Isso era tão perceptível que os filhos associavam seu estado de humor à roupa que vestia. 
Um vestido que funcionava como sinal de alerta para sua tolerância quase zero era muito bonito e lhe caia muito bem. Trazia estampas com traços geométricos onde predominavam riscos na cor de vinho misturados a outros pretos e tons cinza claro.  Ele denunciava que o dia não terminaria bem para alguém, bastando apenas saber para quem.
A despeito das regras bem claras sobre respeito e obediência dentre tantas outras, era constante o esquecimento dessas em especial principalmente pela caçula da família que teimava em querer dar sempre a última palavra, tivesse ou não razão.
Após um almoço domingueiro onde o clima, sem motivo aparente, assemelhava-se a uma pesada segunda-feira, mãe e filhos estavam na cozinha envolvidos nos serviços domésticos.
Enquanto o filho mais velho, já um rapaz, acomodava as cadeiras em torno da mesa, a mãe lavava as louças, uma filha as secava e a caçula as colocava nos devidos lugares no armário.
Nesse esquema de trabalho quem lavava as peças na pia, obrigatoriamente ficava de costas para quem estivesse guardando as louças.
Durante a execução da tarefa do grupo, eis que “de repente, não mais que de repente” como disse Vinícius*, a caçula resolveu discordar de uma ordem dada pela mãe respondendo-lhe de forma um tanto provocativa. Na sequência houve nova advertência materna que foi totalmente e tolamente, ignorada pela garota.
Pressentindo o aquecimento dos ânimos, o rapaz e a filha que enxugava as louças trocaram olhares significativos anunciando claramente que um litígio estava prestes a acontecer naquela cozinha!
            Recuaram um pouco para abrir espaço e se colocaram propositalmente em posições onde assistiriam de camarote a contenda sem riscos de serem atingidos.
Agindo como uma perfeita câmera lenta, a mãe deixou as mãos livres, balançou-as sobre a cuba da pia para escorrer o excesso de água e teve o cuidado de manter todo o sabão que nelas havia.
A essas alturas os dois filhos mais velhos já não conseguiam segurar o sorriso e curtiam a expectativa que a cena provocava já que enquanto a mãe se preparava para a ação, a caçula ainda de costas, continuava a boquejar sem parar.
O que se ouviu a seguir foi um alto e sonoro... PLOOOOFT !!!
Cada palma da mão totalmente coberta de sabão acertou em cheio e ao mesmo tempo cada orelha da garota respondona e com tamanha intensidade que milhares de bolhinhas de sabão esparramaram-se pelo espaço aéreo da cozinha. Foi bolhinha pra todos os lados.
O susto foi tão grande que sem sequer se virar para ver o que a atacara, a caçula deu um enorme pulo e praticamente voou da cozinha para o quintal passando sem quase tocar nos degraus da escada que separava os dois locais. O pinote dado foi digno de uma atleta profissional. Creio até que deve ter quebrado o recorde olímpico de salto em extensão.

Continuou sua corrida pelo corredor lateral da casa até se refugiar em seu quarto, deixando no trajeto um rastro de bolhinhas de sabão. 
Em sua rota de fuga provavelmente não escutou as gargalhadas dos irmãos porque depois de tamanho “pé do ouvido” por um bom tempo só conseguiu ouvir zumbidos e apitos, mesmo depois de tirar toda espuma que entrara pelas orelhas.
Naquela tarde domingueira por motivos óbvios, o último som ouvido na cozinha foi justamente ....o espumante ......PLOOOOOFT.

Santos, 7 de maio de 2012  


* Soneto da Separação - Vinícius de Moraes

sábado, 28 de abril de 2012

DONA NELLY


Uma notícia vinda de longe causou tristeza.
Embora não nos víssemos há muitos anos senti bastante a partida desse mundo de uma ex-colega de trabalho, muito prestativa, educada e que fora inclusive minha cúmplice em algumas brincadeiras.
Pessoa que trazia um histórico de vida pessoal bem triste mas que não deixava que isso lhe tirasse o sorriso do rosto.  
É assim que me lembro de Dona Nelly, sempre sorrindo.
Como trabalhava na portaria da repartição tinha que ter o que chamamos de jogo de cintura para atender bem a todos, inclusive àqueles que chegavam mais exaltados e nervosos em busca de soluções para seus problemas.
Certa feita entrou em minha sala rindo muito a tal ponto que mal conseguia relatar o fato.  Acabei contagiada com sua risada mesmo sem ter a menor noção do motivo de tanto riso.
Com muito custo contou que uma mãe de aluno estava na portaria e queria fazer uma denúncia. Muito nervosa essa mãe falava alto, gesticulava e mostrando a filha de 7 anos a seu lado, afirmava que o gosto e preferência da menina haviam sido desrespeitados pela professora.  
Segundo a mãe, o motivo de toda a confusão era um par de brincos de bolas feitos com lã branca que a menina usara para ir à aula naquele dia.
A professora havia pedido para a aluna tirá-los ou então sentar-se numa carteira mais atrás, alegando que todas as demais crianças da classe ficavam rindo e se distraindo ao verem o tal balanço dos brincos a cada movimento da cabeça de sua dona que se sentava na primeira carteira.  Justificara o pedido esclarecendo que tais acessórios eram grandes demais para uma menina tão pequena e por isso mesmo chamavam muito a atenção perturbando o andamento da aula.
Mostrando a criança com os brincos, a mãe indignada dizia que eram bonitos e adorados pela filha. Acusava a professora de ter má vontade para com a menina.
Sem parar de rir Dona Nelly pediu-me que olhasse a cena da extremidade de um corredor que ficava a uma boa distância de onde estavam mãe e filha.   
Não deu outra – voltamos para o interior da sala rindo muito.
Naquela razoável distância e por conta da iluminação, vimos somente os dois vultos não sendo possível ver as feições dos rostos, entretanto, aqueles dois brincos saltaram às nossas vistas. Eles sim, eram perfeitamente visíveis. Com certeza eram bem maiores que bolas de tênis e balançavam escandalosamente ao lado da cabeça da criança.
Realmente um grande exagero principalmente se comparado ao tamanho da menina. Na hora lembrei-me de uma frase que meu pai dizia: “Gosto não se discute, se lamenta”.
Não lembro mais o final dessa história já que o caso foi repassado para o responsável pelo plantão naquele dia, mas com certeza Dona Nelly sofreu para ouvir as reclamações iniciais da mãe sem deixar escapar uma risadinha sequer a cada balanço dos “mimosos brinquinhos”.
Creio que agora há mais sorrisos no céu.
Fique em paz Dona Nelly.

Santos, 25 de abril de 2012  

terça-feira, 24 de abril de 2012

PEDACINHOS DE FELICIDADE



Diante de si a porta aberta esperando uma atitude.
Sentada na cama permanece assim um tempo, apenas observando as roupas penduradas, os objetos arrumados, alguns livros ali esquecidos.
No momento em que afasta algumas peças depara-se com a caixinha amarelada, cuidadosamente colocada em um canto não muito visível.  Não mexia nela há tempos e uma sensação de aconchego a invade ao vê-la assim de repente, sem que estivesse a sua procura como em outras tantas vezes.
Com cuidado a recolhe em seu colo, mas antes de abrir aperta-a contra o peito como se quisesse aproximá-la mais do coração.
O mundo lá fora para, seu mundo para e todos os sentidos se concentram no conteúdo daquela caixinha amarelada, que ela sabe tão bem de cor e salteado.
Poucas coisas ali se encontram, mas cada uma tem sua história para contar.
São histórias carregadas de lembranças que uma vez tocadas, trazem de imediato o passado ao presente com uma força tal que a temporalidade deixa de existir.
Nada de valor material ali se encontra.  Um marcador de livros, pedaços de uma fita de cetim amarela, uma medalhinha de honra ao mérito, um vidrinho vazio, alguns bilhetes e cartas de ex-alunos, papéis de embalagens de chocolates cuidadosamente dobrados, uma caneta.
Pensamentos livres, soltos e leves revolvem o sótão da memória numa ansiedade tal como se estivessem na expectativa de presenciar ali, naquele momento, o desenrolar de cada história contada pelos pequenos objetos.
Pelas ruas e esquinas de sua vida cruzara com todos os tipos de emoções. Algumas lhe marcaram a alma, outras não deixaram nem cicatrizes.
Aprendera que a felicidade e a paz de espírito são bem mais fáceis de serem encontradas na simplicidade dos gestos de ternura, na cumplicidade do olhar, no abraço amigo. E agora nesse instante, os objetos tão simples e guardados há tantos anos lhe proporcionam no presente, a mesma felicidade e a mesma paz sentidas no passado distante quando foram protagonistas de momentos importantes em sua vida.
A felicidade decididamente é atemporal.
Pega separadamente cada objeto um a um, revive com carinho cada emoção, agradece a oportunidade de ter vivido aqueles momentos e sente-se plena.
Após um tempo, sentindo a alma aquecida e ainda com um sorriso nos lábios, recolhe novamente cada peça ao interior da caixa amarelada.
Guarda com cuidado seus pedacinhos de felicidade!

           Santos, 24 de abril de 2012. 

domingo, 15 de abril de 2012

"QUEM PARTE LEVA SAUDADES, QUEM FICA SAUDADES TEM"

Partidas, chegadas, despedidas e reencontros.
Estes são momentos nos quais a emoção descarrega toda sua intensidade. As lágrimas fazem desenhos nas faces emoldurando sorrisos ou desencadeando prantos. 
Toda carga emocional geralmente bem controlada, simplesmente transborda e extravasa em situações que anunciam rupturas ou reencontros.
Esse sentimento de bem querer entre as pessoas é algo que vai além, algo que extrapola o grau de parentesco.  São laços que se formam e se estreitam com o passar do tempo graças à sintonia de pensamentos, de desejos, de expectativas, de maneiras de enxergar a vida. 
           Independente da presença física e do tempo de afastamento, esses laços se mantém firmes e apertados mesmo que as almas manifestem a "vontade de estar perto, se longe ou de estar mais perto, se perto".*
Partidas e Chegadas é um programa de TV que foca exatamente o comportamento das pessoas diante dessas situações. 
Assistindo algumas vezes nota-se que qualquer que seja a situação social, o sexo, a raça e a crença, os sentimentos que aproximam as pessoas são muito intensos e as levam do pranto ao riso e do riso ao pranto em segundos.
A ansiedade vivida por aqueles que aguardam um reencontro é extremamente contagiante. Eles mal conseguem responder às perguntas da entrevistadora. No instante em que a pessoa aguardada aparece, há festa na tela e também no coração do telespectador que silente ficou na torcida aguardando os abraços que de tão apertados mais parecem laços.
Na situação inversa quando é a despedida que se faz presente, a tristeza estampada claramente nas faces mostradas pelo programa se estende além do vídeo e atinge aquele desconhecido que acaba compactuando com a angústia alheia. A ruptura lhe dói como se fizesse parte daquela situação.
Nestes tempos modernos diante de uma sociedade tão materialista, egoísta e que não se preocupa mais com o próximo, constatar que entre as pessoas ainda há espaços para sentimentos puros desprovidos de quaisquer segundas ou terceiras intenções, nos passa uma sensação de esperança, de alívio e de crença de que a essência da alma humana ainda não foi corrompida.

Santos, 15 de abril de 2012  

*Monólogo de Orfeu – Vinícius de Moraes

domingo, 1 de abril de 2012

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE



Uma mensagem recebida contendo um arquivo com materiais escolares que já caíram em desuso, lhe trouxe lembranças de um fato que literalmente quase a fez cuspir fogo.
Naquele dia estava sem carro e olhando o relógio considerou que havia tempo suficiente para ir a pé até uma escola que não era tão distante. Organizou o material de trabalho que usaria na reunião com os professores e sem maiores atropelos pôs-se a caminho. 
Nos primeiros quarteirões percorridos começou a achar que a distância não era afinal tão pequena e que havia sido má ideia ir a pé.  Estava quente demais e quase não havia sombras nas calçadas que lhe protegessem ao menos um pouco dos raios solares que queimavam a pele.
Na metade do percurso, suando demais e já sentindo o peso do material que carregava, conformou-se em continuar caminhando já que naquela “altura do campeonato”, não compensaria chamar um táxi.
Com passos cada vez mais lentos por causa do cansaço e do calor, chegou ao local da reunião quase se arrastando. Finalmente teria um pouco de sombra sobre sua cabeça!
Afoita e com a boca e garganta totalmente secas, entrou na sala onde os professores já a aguardavam fazendo um grande burburinho.
Antes mesmo dos cumprimentos formais, perguntou a uma funcionária onde havia água para beber. Solícita a jovem apontou para uma mesa no canto da sala onde havia alguns equipamentos pedagógicos, uma bandeja com vários copos de vidros e um galão branco ao lado.
Enquanto ela se dirigia até a tal mesa, uma professora veio ao seu encontro no intuito de lhe mostrar um trabalho que estava desenvolvendo.  Tentou ser educada e dar atenção à pessoa que lhe falava mas na verdade naquele momento, só imaginava ter em suas mãos um gigantesco e transbordante copo com água.
Ainda ouvindo as explicações da professora abriu rapidamente o galão e virou-o enchendo um copo até a boca. Fez isso com tanta pressa que quase derramou o líquido sobre a mesa.
Ato contínuo entornou o copo em sua boca dando vários e grandes goles, bebendo com avidez aquele líquido que ansiava por tomar. 
Foi quando sentiu que o mundo parou de repente!
Sentiu uma imensa queimação que começava na boca, descia pela garganta e revirava o estômago. Chegou a achar que seus olhos iriam saltar para fora das órbitas enquanto tossia sem parar. Lágrimas escorriam em seu rosto.
Sem conseguir falar, viu a expressão de pavor na face da professora à sua frente que não entendendo o que havia acontecido, perguntava insistentemente se estava passando mal.
A essas alturas várias pessoas já estavam até lhe abanando.
Passados alguns segundos, sua respiração voltou ao normal e ela aos poucos se recompôs. Pegou novamente o galão que estava ao lado da bandeja de copos, abriu-o e cheirou seu conteúdo.  
Era álcool puro, puríssimo! 
O galão branco que estava junto aos copos na bandeja, na verdade era galão de álcool que havia sido deixado ali de maneira irresponsável por alguém que o havia usado no equipamento chamado mimeógrafo* que estava na outra ponta da mesa. O galão com água estava na verdade dentro da geladeira.
As primeiras palavras que lhe vieram à mente ainda com os olhos lacrimejantes são impublicáveis mas as que acabou falando foram:
- Proibido acender fósforo ou isqueiro perto de mim.
Somente nesse momento é que as demais pessoas se deram conta do que havia acontecido e claro, não apareceu o insensato que havia deixado o galão ao lado dos copos. Sugeriram-lhe que bebesse água em seguida, mas ela se recusou ao lembrar que o álcool iria aquecer a água e aí sim acabaria cuspindo fogo.
Foi assim que ela até então abstêmia convicta, acabou caprichando em seu début tomando logo de vez, grandes e bons goles de puro álcool !

Santos, 31 de março de 2.012  



Instrumento utilizado para fazer muitas cópias de papel escrito ou com desenhos. Usado principalmente para fins escolares até o início da década de 1990.