Acostumei a acordar com o canto do sabià laranjeira em plena madrugada. Logo volto a dormir não sem antes desejar que ele tenha sucesso nesta empreitada e encontre uma parceira.
No decorrer do dia o canto também acontece, mas o barulho das ruas e das obras nas proximidades acabam abafando o seu canto que tem mais dificuldade de chegar até mim.
Há pouco, por volta das dez horas da manhã, escutei o típico som já tão conhecido e me aproximei da janela.
Em dois galhos próximos entre si, avistei três sabiás. Não sei seus sexos pois não há dimorfismo sexual nesta ave. Podem ser três machos ou apenas dois, já que noto que um terceiro posicionado um pouco mais longe, aparentemente não emite som.
Li que as fêmeas também vocalizam, mas seus cantos têm intensidades e frequências menores que as do macho. Daí eu imaginar serem dois machos e uma fêmea. Posso estar errada.
Independente dos sexos destas aves que vejo agora, o que me causa uma certa angústia é estar há dias acompanhando a derrubada de algumas árvores no terreno vizinho. Não sei se estas últimas que ainda restam serão poupadas, mas creio que o espaço todo será usado para a construção de um novo edifício.
Claro que no jardim da praia aqui próximo há muitas outras árvores sobre as quais as aves poderão reconstruir seus ninhos, mas e se eles já estiverem com ovos?
O homem com a serra elétrica terá o cuidado de verificar isso? Com certeza não. Tudo cairá com um forte estrondo esmagando não somente as folhas recém brotadas após este inverno, mas também as novas vidas que estão se formando nos ovos depositados nos ninhos, ou até já nascidas e esperando os pais trazerem o alimento do dia.
É o progresso, todos dizem. Sim, é o progresso e é necessário, concordo. É o progresso chegando e atropelando o que estiver impedindo seu avanço, independente do tipo de obstáculo. Infelizmente sempre a parte econônica dita as regras.
O antropocentrismo é o que predomina na prática e já foi muito útil para o desenvolvimento da sociedade como um todo, mas sabemos atualmente suas consequências como crises sanitárias severas, escassez de recursos naturais, mudanças climáticas, etc.
O que o futuro nos reserva é uma incógnita, mas saber que já há correntes filosóficas, éticas e ecológicas que discordam da visão de mundo que o antropocentrismo defende, nos dá uma esperança de um futuro menos devastador e prejudicial ao seu próprio causador, o homem.
Santos, 29 de setembro de 2026
Obs. Escrevo estas linhas ainda vendo e ouvindo o canto de um sabiá laranjeira pousado em um galho perto de minha janela.
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