quinta-feira, 24 de maio de 2012

UM MONSTRO NO BANHEIRO



Com certeza todos nós carregamos vida afora, um pouco da criança que fomos. 
Alguns talvez sufoquem esse lado infantil, subjugados que são pela roda viva da seriedade e responsabilidade tão presentes na vida adulta.
Em contrapartida, há quem permita que essa criança reapareça vez ou outra quando uma oportunidade se faz presente, provocando momentos descontraídos que aliviam o clima em ambientes exageradamente circunspectos e pesados.  É a alegria abrindo espaço nas mentes e nas faces das pessoas.
Com ela não foi diferente. A responsabilidade sempre norteou sua vida, mas o bom humor nunca deixou de acompanhá-la em seus diferentes ambientes de trabalho.
Foi justamente por causa desse lado criança, ou diria até por culpa dele, que numa saída no horário de almoço em pleno período pré-carnavalesco, ela observou expostas numa loja, várias máscaras emborrachadas exibindo caras de monstros.  No momento em que as viu uma ideia já povoou sua mente e sem pensar duas vezes, escolheu uma das mais assustadoras.
Retornou ao trabalho feliz da vida com sua mais nova aquisição e já fazendo planos sobre o que faria com ela.  Antes porém de dar atenção aos papéis sobre a mesa, entrou no banheiro para olhar-se no espelho com a máscara sobre o rosto.  
Ria sozinha daquela imagem horrível quando ouviu passos rápidos no corredor.
Pelo horário e pela maneira de andar, não teve a menor dúvida que seria uma colega de trabalho da qual era também muito amiga.
Como o barulho aproximava-se justamente do banheiro, manteve a máscara na cabeça e rapidamente posicionou-se atrás da porta que estava entreaberta.
Assim que os passos denunciaram a entrada no local, saiu de seu esconderijo pronunciando um gozador BUUUUU e colocou-se à frente de sua amiga, ou melhor, à frente de quem ela pensava ser a sua amiga. 
          Gritaria ampla, geral e irrestrita!
Deu "zebra" !!!
Quem entrara no banheiro era justamente uma pessoa com a qual não tinha nenhuma liberdade, até porque essa colega de trabalho possuía um temperamento difícil e não era nada chegada a brincadeiras.
Rapidamente retirou a máscara já pedindo desculpas enquanto a recém-chegada ainda gritava. 
Na sequência, o pseudomonstro foi obrigado a ouvir quietinho um minidiscurso com palavras de censura sobre o ato, pois apesar de ter feito propositalmente um BUUU bem singelo para um monstro que se preze, não deixou de provocar um belo susto na colega.
Enquanto rolava o “sermão do banheiro”, ela se viu obrigada a vestir novamente a máscara para poder disfarçar a imensa vontade de rir.
Havia concluído que de certa forma aquele susto servira como uma pequena revanche,  já que essa pessoa avessa às brincadeiras acumulara muita antipatia junto aos demais colegas por causa de seu temperamento forte e sempre cáustico.
A despeito do sermão, a máscara foi guardada e voltou a ser usada em várias outras ocasiões sempre descontraindo o ambiente e provocando gargalhadas.

Santos, 23 de maio de 2012  

sábado, 19 de maio de 2012

ESSE INOCENTE MUNDO INFANTIL

Desenho de Luíza Quinália Cerri

A inocência e autenticidade que permeiam o mundo infantil muitas vezes nos colocam em situações delicadas e até constrangedoras, mas também provocam risos quando confrontadas com nossa realidade.
Seus questionamentos carregados de ingenuidade e pureza revelam que aqueles pequenos seres ainda não foram contaminados pela malicia, pela falsidade e jogo de interesses, cada vez mais comuns no mundo adulto.
Já foi contada aqui no blog (A lógica infantil), a história real do garotinho que ao ser acusado de causador de um incêndio, ficou indignado e defendeu-se esclarecendo com toda sua lógica, que iniciara um fogo sim, mas bem pequenino e não grandão como o que viam.
Não há como esquecer a redação feita por um menino descrevendo detalhes do rosto materno.  Nos seus 8 anos de idade, falou sobre os cabelos, os olhos e a boca de sua mãe, elogiando tudo com sinceridade. 
Entretanto ao chegar ao nariz, ciente que ele era maior que tantos outros narizes que conhecia, preocupou-se em não magoar a mãe mas não omitiu seu parecer e escreveu:
“Minha mãe tem nariz grande. Não é muito grande, mas é grande sim!”
Um fato acontecido na família também provocou risos. 
Uma sobrinha, na época com seus 7 ou 8 anos de idade, fazendo palavras cruzadas deparou-se com a solicitação:  animal que vive no brejo. 
Eram 4 espaços e já havia um  A no segundo quadradinho. 
Sem pestanejar ela preencheu as lacunas com a palavra VACA.
Questionada e corrigida pelos adultos que inclusive ironizaram seu erro, justificou sua opção com total categoria:
- Vocês não vivem dizendo que a vaca foi para o brejo? Então é lá que ela mora.
Mais recentemente outro caso em que a inocência infantil foi fortemente confrontada com a realidade, ocorreu quando uma criança por volta dos 4 anos, assistindo ao vídeo de seu nascimento deu início ao seguinte diálogo:
 - Mãe, onde você estava?
            - Eu estava no hospital. Fui ganhar nenê.
 - Mãe, eu que sou seu nenê!
            - Eu sei filha, isso foi quando você nasceu. Eles cortaram para você poder sair. 
            - Eles tiveram que cortar para eu sair???  
         - Mãããããe, por que você me comeu???????

É mesmo uma delícia curtir a inocência, a pureza e a sinceridade infantil antes que o mundo adulto as deforme.

Santos, 19 de maio de 2012  

sábado, 12 de maio de 2012

HOJE O TEXTO SAIU



Desde criança os dias que antecediam a comemoração do Dia das Mães me deixavam muito emotiva.
Na escola sempre era solicitada nesse período, principalmente no curso ginasial (atual Ensino Fundamental), uma redação sobre as Mães.
Apesar de gostar de escrever encontrava dificuldade nesse trabalho pois me parecia que nunca conseguia escrever plenamente meus sentimentos.  Isso provocava uma sensação estranha de culpa, de eterno débito em relação a ela.
Certa vez ainda na 1ª série ginasial houve um fato que nunca esqueci.
Atendendo solicitação da professora de Língua Portuguesa, fiz uma descrição física de minha mãe e procurei ser mais fiel possível para mostrar o quanto ela era bonita e com efeito, era mesmo!   Caprichei na letra e fiz até uns desenhos como moldura aos meus escritos, afinal minha mãe leria e assinaria posteriormente esse trabalho.
Uma colega de classe chamada Nanci (até hoje não esqueço seu rosto) que não havia feito sua tarefa, pediu meu texto emprestado antes da entrega para a professora, a fim de ter uma ideia e poder fazer o seu próprio. 
Eu havia usado a palavra tez ao comentar o rosto muito claro de minha mãe, enfeitado por belos olhos verdes.  A colega perguntou-me o que significava o termo, tez. Expliquei-lhe rapidamente para não ser observada pela professora e ainda levar uma bronca.
Bem próximo ao final da aula recebi minha redação de volta mas com uma enorme rasura justamente na palavra tez que estava riscada várias vezes e sobre ela anotada com uma letra muito tremida, a palavra pele. 
Nanci havia entendido que não existia esse termo e resolveu corrigir meu texto.
Não havia tempo para refazer o trabalho e entreguei-o assim mesmo com imensa, mal feita e desnecessária rasura.  Fiquei indignada pois considerei que era até uma ofensa a minha mãe, entregar naquele estado justamente um trabalho que falava dela.
Ano após ano só foi aumentando essa sensação de incompetência em passar para o papel exatamente o que sentia sobre ela.  
Busquei os motivos e deparei-me com várias hipóteses como por exemplo timidez, vergonha de expor sentimentos e excesso de respeito já que talvez pela educação que ela recebera ou influência de meu pai, não era muito próxima dos filhos no sentido de gestos de carinho como abraços e beijos.  
Esse comportamento também tolhia nossas demonstrações de afeto que ficavam guardadas na alma esperando sempre uma oportunidade para se manifestarem.
Hoje já há vários anos sem poder desfrutar de sua presença física, sem poder dar-lhe um abraço sequer, o sentimento que me envolve nesse período continua o mesmo mas muito ampliado agora pela dor da saudade.
Esteja onde estiver Mã ou Vó Daisy como carinhosamente a chamava, saiba que continuo a lhe amar muito.
Hoje o texto saiu!
Tenha um Feliz Dia das Mães!

Santos, 12 de maio de 2012  -  VÉSPERA DO DIA DAS MÃES

Eis minha mãe em três momentos:


         

segunda-feira, 7 de maio de 2012

BOLHINHAS DE SABÃO



Sua paciência até que era razoável mas havia momentos nos quais ela esgotava-se com muita facilidade.  E aí, como hoje se diz, o bicho pegava!
Isso era tão perceptível que os filhos associavam seu estado de humor à roupa que vestia. 
Um vestido que funcionava como sinal de alerta para sua tolerância quase zero era muito bonito e lhe caia muito bem. Trazia estampas com traços geométricos onde predominavam riscos na cor de vinho misturados a outros pretos e tons cinza claro.  Ele denunciava que o dia não terminaria bem para alguém, bastando apenas saber para quem.
A despeito das regras bem claras sobre respeito e obediência dentre tantas outras, era constante o esquecimento dessas em especial principalmente pela caçula da família que teimava em querer dar sempre a última palavra, tivesse ou não razão.
Após um almoço domingueiro onde o clima, sem motivo aparente, assemelhava-se a uma pesada segunda-feira, mãe e filhos estavam na cozinha envolvidos nos serviços domésticos.
Enquanto o filho mais velho, já um rapaz, acomodava as cadeiras em torno da mesa, a mãe lavava as louças, uma filha as secava e a caçula as colocava nos devidos lugares no armário.
Nesse esquema de trabalho quem lavava as peças na pia, obrigatoriamente ficava de costas para quem estivesse guardando as louças.
Durante a execução da tarefa do grupo, eis que “de repente, não mais que de repente” como disse Vinícius*, a caçula resolveu discordar de uma ordem dada pela mãe respondendo-lhe de forma um tanto provocativa. Na sequência houve nova advertência materna que foi totalmente e tolamente, ignorada pela garota.
Pressentindo o aquecimento dos ânimos, o rapaz e a filha que enxugava as louças trocaram olhares significativos anunciando claramente que um litígio estava prestes a acontecer naquela cozinha!
            Recuaram um pouco para abrir espaço e se colocaram propositalmente em posições onde assistiriam de camarote a contenda sem riscos de serem atingidos.
Agindo como uma perfeita câmera lenta, a mãe deixou as mãos livres, balançou-as sobre a cuba da pia para escorrer o excesso de água e teve o cuidado de manter todo o sabão que nelas havia.
A essas alturas os dois filhos mais velhos já não conseguiam segurar o sorriso e curtiam a expectativa que a cena provocava já que enquanto a mãe se preparava para a ação, a caçula ainda de costas, continuava a boquejar sem parar.
O que se ouviu a seguir foi um alto e sonoro... PLOOOOFT !!!
Cada palma da mão totalmente coberta de sabão acertou em cheio e ao mesmo tempo cada orelha da garota respondona e com tamanha intensidade que milhares de bolhinhas de sabão esparramaram-se pelo espaço aéreo da cozinha. Foi bolhinha pra todos os lados.
O susto foi tão grande que sem sequer se virar para ver o que a atacara, a caçula deu um enorme pulo e praticamente voou da cozinha para o quintal passando sem quase tocar nos degraus da escada que separava os dois locais. O pinote dado foi digno de uma atleta profissional. Creio até que deve ter quebrado o recorde olímpico de salto em extensão.

Continuou sua corrida pelo corredor lateral da casa até se refugiar em seu quarto, deixando no trajeto um rastro de bolhinhas de sabão. 
Em sua rota de fuga provavelmente não escutou as gargalhadas dos irmãos porque depois de tamanho “pé do ouvido” por um bom tempo só conseguiu ouvir zumbidos e apitos, mesmo depois de tirar toda espuma que entrara pelas orelhas.
Naquela tarde domingueira por motivos óbvios, o último som ouvido na cozinha foi justamente ....o espumante ......PLOOOOOFT.

Santos, 7 de maio de 2012  


* Soneto da Separação - Vinícius de Moraes

sábado, 28 de abril de 2012

DONA NELLY


Uma notícia vinda de longe causou tristeza.
Embora não nos víssemos há muitos anos senti bastante a partida desse mundo de uma ex-colega de trabalho, muito prestativa, educada e que fora inclusive minha cúmplice em algumas brincadeiras.
Pessoa que trazia um histórico de vida pessoal bem triste mas que não deixava que isso lhe tirasse o sorriso do rosto.  
É assim que me lembro de Dona Nelly, sempre sorrindo.
Como trabalhava na portaria da repartição tinha que ter o que chamamos de jogo de cintura para atender bem a todos, inclusive àqueles que chegavam mais exaltados e nervosos em busca de soluções para seus problemas.
Certa feita entrou em minha sala rindo muito a tal ponto que mal conseguia relatar o fato.  Acabei contagiada com sua risada mesmo sem ter a menor noção do motivo de tanto riso.
Com muito custo contou que uma mãe de aluno estava na portaria e queria fazer uma denúncia. Muito nervosa essa mãe falava alto, gesticulava e mostrando a filha de 7 anos a seu lado, afirmava que o gosto e preferência da menina haviam sido desrespeitados pela professora.  
Segundo a mãe, o motivo de toda a confusão era um par de brincos de bolas feitos com lã branca que a menina usara para ir à aula naquele dia.
A professora havia pedido para a aluna tirá-los ou então sentar-se numa carteira mais atrás, alegando que todas as demais crianças da classe ficavam rindo e se distraindo ao verem o tal balanço dos brincos a cada movimento da cabeça de sua dona que se sentava na primeira carteira.  Justificara o pedido esclarecendo que tais acessórios eram grandes demais para uma menina tão pequena e por isso mesmo chamavam muito a atenção perturbando o andamento da aula.
Mostrando a criança com os brincos, a mãe indignada dizia que eram bonitos e adorados pela filha. Acusava a professora de ter má vontade para com a menina.
Sem parar de rir Dona Nelly pediu-me que olhasse a cena da extremidade de um corredor que ficava a uma boa distância de onde estavam mãe e filha.   
Não deu outra – voltamos para o interior da sala rindo muito.
Naquela razoável distância e por conta da iluminação, vimos somente os dois vultos não sendo possível ver as feições dos rostos, entretanto, aqueles dois brincos saltaram às nossas vistas. Eles sim, eram perfeitamente visíveis. Com certeza eram bem maiores que bolas de tênis e balançavam escandalosamente ao lado da cabeça da criança.
Realmente um grande exagero principalmente se comparado ao tamanho da menina. Na hora lembrei-me de uma frase que meu pai dizia: “Gosto não se discute, se lamenta”.
Não lembro mais o final dessa história já que o caso foi repassado para o responsável pelo plantão naquele dia, mas com certeza Dona Nelly sofreu para ouvir as reclamações iniciais da mãe sem deixar escapar uma risadinha sequer a cada balanço dos “mimosos brinquinhos”.
Creio que agora há mais sorrisos no céu.
Fique em paz Dona Nelly.

Santos, 25 de abril de 2012  

terça-feira, 24 de abril de 2012

PEDACINHOS DE FELICIDADE



Diante de si a porta aberta esperando uma atitude.
Sentada na cama permanece assim um tempo, apenas observando as roupas penduradas, os objetos arrumados, alguns livros ali esquecidos.
No momento em que afasta algumas peças depara-se com a caixinha amarelada, cuidadosamente colocada em um canto não muito visível.  Não mexia nela há tempos e uma sensação de aconchego a invade ao vê-la assim de repente, sem que estivesse a sua procura como em outras tantas vezes.
Com cuidado a recolhe em seu colo, mas antes de abrir aperta-a contra o peito como se quisesse aproximá-la mais do coração.
O mundo lá fora para, seu mundo para e todos os sentidos se concentram no conteúdo daquela caixinha amarelada, que ela sabe tão bem de cor e salteado.
Poucas coisas ali se encontram, mas cada uma tem sua história para contar.
São histórias carregadas de lembranças que uma vez tocadas, trazem de imediato o passado ao presente com uma força tal que a temporalidade deixa de existir.
Nada de valor material ali se encontra.  Um marcador de livros, pedaços de uma fita de cetim amarela, uma medalhinha de honra ao mérito, um vidrinho vazio, alguns bilhetes e cartas de ex-alunos, papéis de embalagens de chocolates cuidadosamente dobrados, uma caneta.
Pensamentos livres, soltos e leves revolvem o sótão da memória numa ansiedade tal como se estivessem na expectativa de presenciar ali, naquele momento, o desenrolar de cada história contada pelos pequenos objetos.
Pelas ruas e esquinas de sua vida cruzara com todos os tipos de emoções. Algumas lhe marcaram a alma, outras não deixaram nem cicatrizes.
Aprendera que a felicidade e a paz de espírito são bem mais fáceis de serem encontradas na simplicidade dos gestos de ternura, na cumplicidade do olhar, no abraço amigo. E agora nesse instante, os objetos tão simples e guardados há tantos anos lhe proporcionam no presente, a mesma felicidade e a mesma paz sentidas no passado distante quando foram protagonistas de momentos importantes em sua vida.
A felicidade decididamente é atemporal.
Pega separadamente cada objeto um a um, revive com carinho cada emoção, agradece a oportunidade de ter vivido aqueles momentos e sente-se plena.
Após um tempo, sentindo a alma aquecida e ainda com um sorriso nos lábios, recolhe novamente cada peça ao interior da caixa amarelada.
Guarda com cuidado seus pedacinhos de felicidade!

           Santos, 24 de abril de 2012. 

domingo, 15 de abril de 2012

"QUEM PARTE LEVA SAUDADES, QUEM FICA SAUDADES TEM"

Partidas, chegadas, despedidas e reencontros.
Estes são momentos nos quais a emoção descarrega toda sua intensidade. As lágrimas fazem desenhos nas faces emoldurando sorrisos ou desencadeando prantos. 
Toda carga emocional geralmente bem controlada, simplesmente transborda e extravasa em situações que anunciam rupturas ou reencontros.
Esse sentimento de bem querer entre as pessoas é algo que vai além, algo que extrapola o grau de parentesco.  São laços que se formam e se estreitam com o passar do tempo graças à sintonia de pensamentos, de desejos, de expectativas, de maneiras de enxergar a vida. 
           Independente da presença física e do tempo de afastamento, esses laços se mantém firmes e apertados mesmo que as almas manifestem a "vontade de estar perto, se longe ou de estar mais perto, se perto".*
Partidas e Chegadas é um programa de TV que foca exatamente o comportamento das pessoas diante dessas situações. 
Assistindo algumas vezes nota-se que qualquer que seja a situação social, o sexo, a raça e a crença, os sentimentos que aproximam as pessoas são muito intensos e as levam do pranto ao riso e do riso ao pranto em segundos.
A ansiedade vivida por aqueles que aguardam um reencontro é extremamente contagiante. Eles mal conseguem responder às perguntas da entrevistadora. No instante em que a pessoa aguardada aparece, há festa na tela e também no coração do telespectador que silente ficou na torcida aguardando os abraços que de tão apertados mais parecem laços.
Na situação inversa quando é a despedida que se faz presente, a tristeza estampada claramente nas faces mostradas pelo programa se estende além do vídeo e atinge aquele desconhecido que acaba compactuando com a angústia alheia. A ruptura lhe dói como se fizesse parte daquela situação.
Nestes tempos modernos diante de uma sociedade tão materialista, egoísta e que não se preocupa mais com o próximo, constatar que entre as pessoas ainda há espaços para sentimentos puros desprovidos de quaisquer segundas ou terceiras intenções, nos passa uma sensação de esperança, de alívio e de crença de que a essência da alma humana ainda não foi corrompida.

Santos, 15 de abril de 2012  

*Monólogo de Orfeu – Vinícius de Moraes

domingo, 1 de abril de 2012

ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE



Uma mensagem recebida contendo um arquivo com materiais escolares que já caíram em desuso, lhe trouxe lembranças de um fato que literalmente quase a fez cuspir fogo.
Naquele dia estava sem carro e olhando o relógio considerou que havia tempo suficiente para ir a pé até uma escola que não era tão distante. Organizou o material de trabalho que usaria na reunião com os professores e sem maiores atropelos pôs-se a caminho. 
Nos primeiros quarteirões percorridos começou a achar que a distância não era afinal tão pequena e que havia sido má ideia ir a pé.  Estava quente demais e quase não havia sombras nas calçadas que lhe protegessem ao menos um pouco dos raios solares que queimavam a pele.
Na metade do percurso, suando demais e já sentindo o peso do material que carregava, conformou-se em continuar caminhando já que naquela “altura do campeonato”, não compensaria chamar um táxi.
Com passos cada vez mais lentos por causa do cansaço e do calor, chegou ao local da reunião quase se arrastando. Finalmente teria um pouco de sombra sobre sua cabeça!
Afoita e com a boca e garganta totalmente secas, entrou na sala onde os professores já a aguardavam fazendo um grande burburinho.
Antes mesmo dos cumprimentos formais, perguntou a uma funcionária onde havia água para beber. Solícita a jovem apontou para uma mesa no canto da sala onde havia alguns equipamentos pedagógicos, uma bandeja com vários copos de vidros e um galão branco ao lado.
Enquanto ela se dirigia até a tal mesa, uma professora veio ao seu encontro no intuito de lhe mostrar um trabalho que estava desenvolvendo.  Tentou ser educada e dar atenção à pessoa que lhe falava mas na verdade naquele momento, só imaginava ter em suas mãos um gigantesco e transbordante copo com água.
Ainda ouvindo as explicações da professora abriu rapidamente o galão e virou-o enchendo um copo até a boca. Fez isso com tanta pressa que quase derramou o líquido sobre a mesa.
Ato contínuo entornou o copo em sua boca dando vários e grandes goles, bebendo com avidez aquele líquido que ansiava por tomar. 
Foi quando sentiu que o mundo parou de repente!
Sentiu uma imensa queimação que começava na boca, descia pela garganta e revirava o estômago. Chegou a achar que seus olhos iriam saltar para fora das órbitas enquanto tossia sem parar. Lágrimas escorriam em seu rosto.
Sem conseguir falar, viu a expressão de pavor na face da professora à sua frente que não entendendo o que havia acontecido, perguntava insistentemente se estava passando mal.
A essas alturas várias pessoas já estavam até lhe abanando.
Passados alguns segundos, sua respiração voltou ao normal e ela aos poucos se recompôs. Pegou novamente o galão que estava ao lado da bandeja de copos, abriu-o e cheirou seu conteúdo.  
Era álcool puro, puríssimo! 
O galão branco que estava junto aos copos na bandeja, na verdade era galão de álcool que havia sido deixado ali de maneira irresponsável por alguém que o havia usado no equipamento chamado mimeógrafo* que estava na outra ponta da mesa. O galão com água estava na verdade dentro da geladeira.
As primeiras palavras que lhe vieram à mente ainda com os olhos lacrimejantes são impublicáveis mas as que acabou falando foram:
- Proibido acender fósforo ou isqueiro perto de mim.
Somente nesse momento é que as demais pessoas se deram conta do que havia acontecido e claro, não apareceu o insensato que havia deixado o galão ao lado dos copos. Sugeriram-lhe que bebesse água em seguida, mas ela se recusou ao lembrar que o álcool iria aquecer a água e aí sim acabaria cuspindo fogo.
Foi assim que ela até então abstêmia convicta, acabou caprichando em seu début tomando logo de vez, grandes e bons goles de puro álcool !

Santos, 31 de março de 2.012  



* Instrumento utilizado para fazer muitas cópias de papel escrito ou com desenhos. Usado principalmente para fins escolares até o início da década de 1990.

quarta-feira, 28 de março de 2012

É PRECISO REAPRENDER


Relendo alguns versos escritos de maneira despretensiosa, mas com certeza ditados pela alma poética de seu autor, sem perceber fui levada a uma breve análise a respeito de como atitudes tão simples e até banais, trazem em si próprias um poder inquestionável.
Não há como negar o bem que faz um sorriso que nos é dirigido de repente, no meio de uma multidão, ou um gesto de carinho e até mesmo um olhar que deixe transparecer um brilho especial.
Entretanto o que acontece na maioria das vezes é que o ser humano simplesmente não consegue mais absorver detalhes tão simples. Seu olhar acostumou-se a buscar quase que exclusivamente valores materiais, distanciando-o de pequenos gestos de atenção.
Além da grande diversidade de tipos físicos entre as pessoas, há também imensas diferenças entre seus temperamentos, competências, habilidades, inteligência, enfim, divergem consideravelmente física e emocionalmente diante de fatos e situações da vida.
Na busca de solução para um problema, alguns são norteados exclusivamente pela racionalidade da questão; outros se deixam levar pelos sentimentos; há quem busque orientações antes da decisão final como há também aqueles que se consideram aptos a definirem de imediato a solução.
Analisando a questão de uma maneira bem simplista, constatamos que o humor influencia sensivelmente a forma de cada um encarar as diferentes situações da vida, sejam elas boas ou ruins.  Creio que todos nós conhecemos exemplos de situações nas quais o bom humor facilitou a solução de um caso e em contrapartida, o mau humor cegou e até complicou alguma decisão.
A ira, a cólera, o amargor que algumas pessoas cultivam e disseminam, apenas resvalam em seus semelhantes causando danos temporários. Na verdade ocorre o efeito bumerangue, pois retornam e se instalam no próprio ponto de partida.
A convivência com o pessimista, com aquele que não vê beleza em nada, é extremamente desgastante motivo pelo qual todos se afastam.  O olhar carregado de sombras é incapaz de absorver a beleza existente nas coisas mais simples da natureza como o brotar de uma flor ou o arco-íris que o Sol pinta no céu ao final de cada dia.
Quem enxerga o mundo com um sorriso no olhar adota posturas positivas diante da vida.  Tropeços e quedas existem, mas as necessidades, os interesses, a motivação em si, levam às ações de superação que resultam na valorização da autoestima e como consequência ao bem-estar. 
Como disse o poeta, a beleza da vida se encontra no sorriso recebido, no beijo guardado na alma e no olhar carregado de brilho especial. 
É preciso reaprender isso,... é preciso!

Santos, 28 de março de 2012  


É Preciso

É preciso ter sempre
Um sorriso guardado no bolso
E um beijo guardado na alma...

É preciso ter sempre
E pronto para uso,
Um olhar com brilho especial.

É preciso ter sempre uma esperança,
Mesmo quando tudo parece impossível...

É preciso crer no amanhã
Muito mais do que no ontem!
 Ricardo Rossi


domingo, 11 de março de 2012

ENTENDERAM?



“Eu só sou responsável pelo que falo, não pelo o que você entende."
Li há pouco numa rede social, essa frase atribuída a William Shakespeare.
 Apesar de concordar com ela faço algumas restrições. De imediato ela reportou-me ao tempo de magistério.
 Lembrei-me de um tipo de questionamento feito frequentemente por professores logo após alguma explanação em sala de aula. Creio até que muitas vezes a formulação desta pergunta acaba virando um vício. Explicação concluída e lá vem a clássica pergunta: Vocês entenderam?
Essa interrogação dita e repetida à exaustão na vida de quem trabalha no magistério, embora geralmente receba como resposta um sonoro sim, pode mostrar posteriormente que a interpretação feita pelo aluno estava longe de ser a correta.
 O tema estudado durante a aula é comentado, explanado, apresentado na forma de imagens, vídeos, áudios, enfim, explorado através dos muitos recursos que a tecnologia moderna oferece. Entretanto uma simples palavra pode causar uma distorção muito grande na compreensão daquele que a ouve.
Isso é fato comum nos meios de comunicação, mas o professor em especial acumula ao longo dos anos, exemplos e mais exemplos que comprovam isso. 
Impossível esquecer a situação na qual uma aluna no início de sua vida escolar, resolveu rapidamente uma questão de maneira totalmente inesperada.
Haviam acabado de aprender sinônimos e antônimos e no exercício fora-lhe pedido que escrevesse o contrário de vários adjetivos.  A garota não teve a menor dúvida e seguindo exatamente o que lhe fora pedido, escreveu com sua letra bem infantil: otinob, orucse, osil, etrof, na frente de bonito, escuro, liso e forte, respectivamente.
A professora não teve outra opção a não ser considerar como certa a questão. Concluiu que sua pergunta realmente havia dado margem a esse tipo de resposta.
Em outra situação durante uma aula sobre mudanças de estados físicos da água para uma classe ainda no início do Ensino Fundamental, após várias explicações e demonstrações dos processos, o professor foi pego de surpresa quando uma das crianças erguendo a mão, o interrompeu aflita querendo saber se o gelo sentia dores.  Como não entendesse o porquê daquela pergunta, pediu que ela esclarecesse melhor sua dúvida.
- O senhor disse que o gelo sofre fusão.  Isso dói nele? A gente sofre quando tem dor.
Enquanto o professor dirigia seus pensamentos única e exclusivamente para um processo físico da natureza, os pensamentos do aluno divagavam com o uso do verbo sofrer.
Houve caso até que resultou numa animosidade entre aluno adolescente e seu professor, pois este inadvertidamente fez uma pergunta muito subjetiva numa prova mensal, recebendo como resposta uma frase que ele considerou desrespeitosa e provocativa.
 Até que se chegasse num consenso já que a resposta não deixava de estar completamente correta, este fato rendeu reuniões com pais do aluno, professor, direção, coordenação, etc.
Estes poucos exemplos mostram a importância do processo de avaliação e a necessidade imperativa de se saber não somente o que avaliar, mas COMO avaliar!
Nem sempre o que está absolutamente claro para quem fala, será assim assimilado por quem ouve, desconsiderando obviamente as propositais deturpações.
Portanto a comunicação deve ser clara, objetiva e direcionada visando minimizar diferentes compreensões.
Certo estava Sr. Abelardo Barbosa que há tantos anos já apregoava: Quem não se comunica, se trumbica!

Santos, 11 de março de 2012  

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ERA UMA VEZ UM BATACLÃ



Graduação concluída e ela resolvera continuar seus estudos na área de Genética Animal que muito lhe agradava. Os momentos dedicados às pesquisas eram especiais e curtia muito “por a mão na massa” como dizia.
Enquanto os estudos teóricos eram feitos na Universidade em São Paulo, a parte prática era desenvolvida num pequeno laboratório localizando no então chamado Horto Florestal de sua cidade.
Passava horas numa sala fechada e com temperatura controlada, mexendo, remexendo e observando seu material de pesquisa - as pequenas drosófilas mais conhecidas como moscas das bananas. 
Vidros, algodão, equipamentos de esterilização, lupas e material para meio de cultura completavam o cenário daquela sala escurecida com papéis pretos nas janelas evitando-se assim a visita do Sol e sua interferência nos estudos ali desenvolvidos.
Com cronômetro em punho lá ficava ela analisando e anotando o tempo e estratégias de corte que o macho fazia à fêmea como também quantos minutos duravam os acasalamentos dos bichinhos. A cada semana novas linhagens eram obtidas e novos dados enriqueciam a pesquisa.
Em pouco tempo sua sala passou a ser chamada de Bataclã devido às semelhanças de atividades que ocorriam nela e na famosa casa noturna descrita por Jorge Amado em seu romance Gabriela, Cravo e Canela.  Pensando bem talvez faltasse uma certa luz vermelha para a semelhança ser maior.
As pequenas drosófilas passaram a fazer parte de seus dias, o mesmo ocorrendo com sua amiga desde os tempos de colégio que também optara por continuar seus estudos em Genética.
Diferente dela porém, sua companheira desenvolvia um trabalho de campo. Semanalmente se dirigia para o mato entre plantações de eucaliptos e pinheiros para coletar e depois analisar as diferentes espécies dessas mosquinhas encontradas na região, atraídas que eram para esses locais por iscas lá deixadas no dia anterior.
Certa feita a amiga necessitando fazer a tal coleta e receando entrar sozinha no mato, solicitou à companheira que fosse junto no que foi prontamente atendida. Lá foram ambas, vidros e puçá em mãos se enfiarem entre arbustos e árvores.
Preocupou-se em levar junto um grande facão para alguma eventualidade mas ao contrário da amiga, descuidou-se com algumas pequenas medidas de segurança como, por exemplo, calçar botas de cano alto. É bom lembrar que naquelas priscas eras, a moda ditava calças compridas com pernas bem largas.
Em meio à coleta enquanto a amiga entusiasmava-se com a quantidade de mosquinhas, ela sentiu a princípio o que seriam leves cócegas em sua perna direita logo abaixo do joelho.  Não deu muita atenção, mas a sensação de cócegas começou a subir até chegar à coxa.
De repente um arrepio gelado percorreu sua espinha de cima abaixo. 
Com certeza um animal havia entrado por dentro de suas calças e agora passeava tranquilamente sobre sua coxa direita. 
Apavorada deu um grito sem saber se deveria apertar ou não por cima da roupa mesmo, aquele animal que andava em seu corpo.
Se fosse um escorpião ou aranha o risco de levar uma picada seria ainda maior.
A amiga veio em seu auxílio pedindo que tirasse as calças rapidamente.
Como assim???   Abaixar as calças ali no mato??? 
Já era conhecida como a dona do Bataclã e agora isso, virar uma stripper a céu aberto??  
Lembrou que nas proximidades outros professores também costumavam fazer suas coletas. Enquanto olhava para ver se havia mais alguém por perto, sua amiga tomada pelo pânico arriou suas calças em segundos.
Foi com cara de abestada diante daquela cena insólita e inesperada que ela viu um saltitante gafanhoto sair todo lampeiro de dentro de sua roupa, sumindo mato adentro.
Respirou aliviada e por instantes até se esqueceu de sua situação no mínimo vexatória. Agradecendo a presteza da amiga vestiu novamente as calças e tratou de voltar rapidinho ao aconchego de sua sala.
Com certeza era bem mais seguro administrar seu Bataclã!

Santos, 19 de fevereiro de 2012  




Para Vera, amiga de tantos anos e companheira de muitas façanhas.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

APEGOS E DESAPEGOS

        Recentemente lendo um blog encontrei um poema que falava sobre um coração partido em mil pedaços.
      Parei de ler por alguns instantes.
      Quantas vezes não ouvimos esse lamento de alguém ou mais ainda, quem de nós já não sentiu isso ao menos uma vez na vida?
      Diversos motivos como mágoas, perdas, despedidas, decepções, provocam aquela sensação de aperto no peito desencadeando uma dor que chega a ser física, que rompe por dentro dando a exata sensação de coração partido em mil pedaços.
      A sequência da leitura do texto trouxe uma surpresa.
      A autora não lamenta o fato, ao contrário, posiciona-se de tal forma que essa quebra dolorida, passa a ser reconfortante e gratificante. Não se preocupa com reparos e consertos. Esclarece que assim partido em tantos pedaços, seu coração poderá se espalhar pelo mundo inteiro.
      Parei novamente a leitura.
      A imaginação abriu asas, levantou voo e partiu para o infinito levando um coração para distribuir em cada cantinho do mundo. Uma sensação gostosa e reconfortante me invadiu ao pensar que um pedaço de mim, mesmo pequenino, pudesse estar presente na vida de muita gente, trocando emoções, alegrias, tristezas, doando e recebendo amor. Um coração que assim partido não liberaria fel ou lágrimas fechando-se num peito apertado.  Diferente disso se espalharia pelo mundo sem apegos, sem sentimentos de posse.
     Utopia?
      Olhos novamente voltados ao poema que confessava tanto desapego e logo encontrei uma frase que de imediato resumiu toda mistura de sentimentos - "...amar em milhões de pedaços um inteiro...".
      Finalizando a leitura observei que os últimos quatro versos foram escritos por outra pessoa que provavelmente levada pela emoção das palavras lidas, deu vazão a seu lirismo e sensibilidade.
      Utopia?
      Sim, pura utopia que continuará soberana enquanto o horizonte limítrofe do EU não for rompido pela importância e necessidade do NÓS!


Santos, 12 de fevereiro de 2012  




CORAÇÃO PARTIDO
Eu tinha um coração partido
Para falar a verdade ainda o tenho
E não faço questão alguma de consertá-lo
Prefiro quebrá-lo novamente em mil pedaços
Assim posso deixá-lo pelo mundo inteiro
E amar o que em cada pedaço cabe
E amar em milhões de pedaços um inteiro
Amando sem medo, amando de verdade
Amando o amor que é a liberdade.


Débora Vasconcelos e Ricardo Rossi
Blog: Extremos de Mim 
http://extremosdemim.blogspot.com