Quem nunca? Com certeza serão poucos.
Quem nunca passou apuros com sapatos?
Estes acessórios muitas vezes acabam tornando-se protagonistas de uma história, quer pelo destaque que acrescentam ao vestuário ou então por se tornarem motivos de dores ou até de constrangimentos.
Andar com calçado que lhe machuca os pés a cada passo dado não é absolutamente uma situação agradável. Na ausência de um recurso extra como por exemplo um salvador band-aid na bolsa chega-se a pensar em terminar o percurso descalço mesmo.
No caso em questão o desconforto foi totalmente voltado para o constrangimento, na verdade um grande constrangimento.
Haveria uma reunião familiar importante em uma cidade um pouco distante.
Com antecedência ele escolheu com cuidado as roupas que usaria. Como seria uma festa elegante procurou vestimentas de acordo com o evento e para compor o figurino resolveu usar os calçados sociais que há mais de anos estavam cuidadosamente guardados.
Todo elegante dirigiu-se à rodoviária visto que iria de ônibus para sua maior tranquilidade. Mal havia chegado ao local quando começou a ouvir um barulho estranho a cada passo dado, ao mesmo tempo em que sentia que seu pé direito estava bem mais à vontade que o esquerdo!
Sentou-se e olhou para baixo.
Para choque e espanto seu a parte da frente do sapato do pé direito estava arreganhada, totalmente solta da sola e com uma boca aberta enorme sorrindo para todo mundo ao mesmo tempo em que deixava a meia à vista. Um detalhe dava ainda mais destaque ao fato: o sapato era preto e a meia era clara.
O tempo que ficara guardado fez com que a cola melasse e a parte superior se soltasse da sola do calçado.
Para seu desespero constatou que não havia como arrumar aquilo de última hora.
Nesse instante foi avisado sobre a necessidade de embarcar. O ônibus já iria partir.
Deu alguns passos e o que se ouvia era um forte chéck chéck audível em toda à sua volta. Sentou-se num átimo desacorçoado e já decidido e voltar para casa.
Foi estimulado por quem lhe acompanhava e ao mesmo tempo sofria tentando segurar a risada pois era uma experiência nova e divertida caminhar ao lado de um sapato falante.
Apesar do mau humor evidente ele acabou concordando em embarcar e procurar a solução assim que chegassem ao destino.
Para não chamar mais ainda a atenção para a situação, e é bom que se diga que era algo meio impossível, o jeito encontrado foi ir em direção ao ônibus dando um passo normal com a perna esquerda e arrastar o pé direito no piso com o maior cuidado para não erguê-lo e acabar de soltar a sola de vez já que isso estava prestes a acontecer.
Assim foi feito e de certa forma, com algum sucesso.
Ao chegarem ao destino e ainda na rodoviária já comprou a cola específica para o caso. Aplicou sem economia nos locais devidos e aí veio o tempo de espera para secagem.
Ambos ficaram sentados na sapataria dentro da rodoviária por quase uma hora esperando que a cola finalmente secasse. Quase o tempo que a viagem havia levado.
No final da história deu tudo certo, mas até agora não se sabe quem sofreu mais: ele muito aborrecido e mal humorado com o grande constrangimento visto por muita gente, ou ela que teve que segurar e imensa vontade de rir a cada momento que ouvia a voz fanhosa do sapato falando chéck chéck caminhando ao seu lado e querendo prosear!
Santos, 16 de fevereiro de 2026. Segunda-feira de carnaval.

Eu passei por situação semelhante e não tinha cola por perto. hehe
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