quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

"CHEGUEI BRASIL!"

 


    



        E não é que a história quase se repetiu?

    Um fato ocorrido há anos com meu pai  foi reproduzido parcialmente hoje em um supermercado.

    Sr. Italo não fazia compras com frequência, mas a família não se esquece especialmente dos casos do açúcar e do óleo.

    Para aproveitar uma promoção ele comprou de uma única vez, 100 quilos de açúcar. 

    Como não havia lugar suficiente para acomodar tudo, o jeito foi começar a distribuir a mercadoria entre os parentes, vizinhos e amigos. 

    Na época dos fatos o produto vinha em sacos de papel, o que desencadeou outro problema. 

    Com o passar do tempo o açúcar foi petrificando dentro dos pacotes exigindo grandes marteladas nos mesmos para que as pedras de açúcar fossem quebradas. Eram verdadeiras sessões de espancamentos que muitas vezes resultavam no rompimento do papel esparramando açúcar para todos os lados. 

    Por pouco não teve início a terceira guerra mundial já que minha mãe ficara indignada e enfurecida com aquela "singela" compra.

    Tempos depois foi o óleo que entrou em promoção.

    Lá foi o sr. Italo encher um carrinho com muitas latas de óleo. Ao descer a rampa de saída do supermercado não conseguiu segurar tal carrinho, que pesado demais, pegou muita velocidade indo parar somente ao bater na guia da calçada do outro lado da rua.  Foi um grande susto.

    Hoje revivi esta cena.

    Após as compras dirigi-me para a saída onde há uma esteira rolante com razoável declive. 

    Na extremidade dianteira do carrinho coloquei 10 caixas de 1 litro de leite cada e algumas garrafas de refrigerantes. No espaço restante havia poucas mercadorias.

    Ao iniciar a descida percebi de imediato que as rodas do carrinho não travaram. Com a mão direita eu segurava na borracha da esteira e com a esquerda tentava segurar as compras. 

    Fui vencida pelo peso e após dar uns três passos forçados me senti literalmente sendo puxada para baixo. Pensei em soltar a mão direita para ajudar, mas na hora conclui que seria pior, pois aí desceríamos eu e o carrinho.

    Nesse momento vi um braço passar raspando ao lado esquerdo de meu rosto e na sequência vi uma mão me ajudando a segurar o carrinho.

    Olhei instintivamente para trás e vi um senhor segurando as compras dele e num esforço segurava as minhas também.      Assim ele ficou até o final da esteira.

    Agradeci aliviada e mesmo assustada os pensamentos foram longe naqueles breves segundos, me fazendo rir de um quase desastre. 

    Bem próximo do final da esteira havia uma loja toda envidraçada. 

    Imaginei a cena e lembrei também de um vídeo que circula há tempos na internet onde um menino responde à pergunta sobre o que falou Cabral ao chegar ao Brasil.

    Em pensamentos me vi arrebentando os vidros, entrando com carrinho e tudo e indo parar na frente do funcionário da loja.

    Diante do espanto do rapaz eu diria a exemplo do menino do vídeo:

- Cheguei Brasil !!!


Santos, 25 de fevereiro de 2026


Nota: agradeço novamente ao senhor desconhecido que me socorreu na esteira rolante do supermercado. 



 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

ORDEM DE DESPEJO




             
       




    Acordar todas as manhãs ouvindo a conversa deles é uma verdadeira bênção.
    É bem verdade que alguns são madrugadores demais e já começam a papear ainda na madrugada. 
    Já cheguei a levantar às 3 horas, abrir a janela do quarto e ficar procurando os responsáveis por tamanha disposição já àquela hora do dia.
  Sei dos motivos de tais inquietações em horas tão impróprias.
    É o jeito que encontraram para serem ouvidos.
    Compreendo e acato sem maiores problemas. 
    Quando somem durante o dia fico imaginando que estão se protegendo do sol escaldante que tem feito por aqui neste verão. 
    Essa vizinhança está ameaçada.
    Embora ainda não saibam todos terão problemas em breve.     Há uma ordem de despejo em andamento. 
  Estou olhando para suas casas e sinto uma aflição ao imaginá-las derrubadas.
    Por um bom período tive contato maior com essa população que acabou se distanciando de minha janela quando fechei meu negócio. Agora ao imaginar que não estarão mais tão perto, sinto uma perda inexplicável.
    Estou me referindo aos pássaros que habitam estas árvores próximas às minhas janelas.
    Apesar de não poder mais ter contato direto já que meu restaurante exclusivo para estes alados vizinhos cantantes encerrou atividades por motivos de força maior, eu ainda posso observá-los à distância, fazendo suas revoadas logo ao amanhecer e ao final das tardes.
    O prédio onde existem as árvores que abrigam esta minha vizinhança encerrará suas atividades no final do ano. 
   Tudo leva a concluir que o terreno foi vendido e muito provavelmente se erguerá um espigão no local.
    Para isso acontecer acredito que todas ou quase todas estas árvores serão cortadas. É a ordem de despejo em andamento.
    Espero não assistir este momento pois com certeza os ninhos cairão ao chão oferecendo um espetáculo muito triste.
    Entendo que as mudanças na vida acarretam benefícios para alguns e infelizmente prejuízos a outros, mas quando estes outros são inofensivas aves que só nos alegram, a dor é maior.
    Como felizmente estamos próximos a um belo jardim esta vizinhança não precisará de muito tempo para encontrar uma nova moradia. Isso é um consolo.
  Só espero e torço para que a demolição deste sonoro condomínio não ocorra justamente no verão ou primavera, períodos onde a maior parte de nossos pássaros estão em processo de reprodução.
   Ver ninhos sendo derrubados e ainda contendo ovos, aí sim, será duro demais!

Santos, 19 de fevereiro de 2026





















segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

QUEM NUNCA?



        Quem nunca? Com certeza serão poucos. 

        Quem nunca passou apuros com sapatos? 

    Estes acessórios muitas vezes acabam tornando-se protagonistas de uma história, quer pelo destaque que acrescentam ao vestuário ou então por se tornarem motivos de dores ou até de constrangimentos.

    Andar com calçado que lhe machuca os pés a cada passo dado não é absolutamente uma situação agradável. Na ausência de um recurso extra como por exemplo um salvador band-aid na bolsa chega-se a pensar em terminar o percurso descalço mesmo.

      No caso em questão o desconforto foi totalmente voltado para o constrangimento, na verdade um grande constrangimento.

        Haveria uma reunião familiar importante em uma cidade um pouco distante. 

        Com antecedência ele escolheu com cuidado as roupas que usaria. Como seria uma festa elegante procurou vestimentas de acordo com o evento e para compor o figurino resolveu usar os calçados sociais que há mais de anos estavam cuidadosamente guardados.

        Todo elegante dirigiu-se à rodoviária visto que iria de ônibus para sua maior tranquilidade. Mal havia chegado ao local quando começou a ouvir um barulho estranho a cada passo dado, ao mesmo tempo em que sentia que seu pé direito estava bem mais à vontade que o esquerdo!

        Sentou-se e olhou para baixo.

      Para choque e espanto seu a parte da frente do sapato do pé direito estava arreganhada, totalmente solta da sola e com uma boca aberta enorme sorrindo para todo mundo ao mesmo tempo em que deixava a meia à vista. Um detalhe dava ainda mais destaque ao fato: o sapato  era preto e a meia era clara.

      O tempo que ficara guardado fez com que a cola melasse e a parte superior se soltasse da sola do calçado.

    Para seu desespero constatou que não havia como arrumar aquilo de última hora.

    Nesse instante foi avisado sobre a necessidade de embarcar. O ônibus já iria partir.

    Deu alguns passos e o que se ouvia era um forte chéck  chéck audível em toda à  sua volta. Sentou-se num átimo desacorçoado e já decidido e voltar para casa.

    Foi estimulado por quem lhe acompanhava e ao mesmo tempo sofria tentando segurar a risada pois era uma experiência nova e divertida caminhar ao lado de um sapato falante. 

   Apesar do mau humor evidente ele acabou concordando em embarcar e procurar a solução assim que chegassem ao destino.

    Para não chamar mais ainda a atenção para a situação, e é bom que se diga que era algo meio impossível, o jeito encontrado foi ir em direção ao ônibus dando um passo normal com a perna esquerda e arrastar o pé direito no piso com o maior cuidado para não erguê-lo e acabar de soltar a sola de vez já que isso estava prestes a acontecer. 

    Assim foi feito e de certa forma, com algum sucesso.

    Ao chegarem ao destino e ainda na rodoviária já comprou a cola específica para o caso. Aplicou sem economia nos locais devidos e aí veio o tempo de espera para secagem.

    Ambos ficaram sentados na sapataria dentro da rodoviária por quase uma hora esperando que a cola finalmente secasse. Quase o tempo que a viagem havia levado.

    No final da história deu tudo certo, mas até agora não se sabe quem sofreu mais: ele muito aborrecido e mal humorado com o grande constrangimento visto por muita gente, ou ela que teve que segurar e imensa vontade de rir a cada momento que ouvia a voz fanhosa do sapato falando chéck chéck  caminhando ao seu lado e querendo prosear!


Santos, 16 de fevereiro de 2026.   Segunda-feira de carnaval. 



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

CAMINHADA

 



        Nada como caminhar na praia sentindo o vaivém das águas do mar molhando os pés e parte das pernas. 

            Nestes dias de pleno verão a água vem morna e deliciosa. 

        Junte-se a essa sensação o cheiro do mar e seu barulho tão característico  que nas madrugadas se faz ouvir com maior intensidade.

        Levantando o olhar em direção ao horizonte os azuis se confundem: mal dá para distinguir onde termina o mar e onde começa o céu. 

        Os morros ao longe dão a tonalidade verde acastanhada na paisagem.

        Erguendo mais ainda o olhar vê-se nuvens branquinhas, esparsas e que nos fazem imaginar formas e desenhos.

        É uma verdadeira terapia a céu aberto.

    Aliada a todas essas sensações muito agradáveis venho colecionando outras emoções que são verdadeiros gatilhos para minha imaginação e criatividade.

    Refiro-me aos fragmentos de conversas que vou captando ao longo da caminhada.

    Impossível ouvir as histórias todas, mas algumas frases soltas chamam a atenção.

        Em algumas ocasiões os casos relatados estavam tão interessantes que senti vontade de me juntar ao grupo para saber como foi o The End.

        Recentemente uma jovem alegre descrevia a uma amiga o que vivera numa festa onde conhecera um novo companheiro. Falava quase sem respirar de tanta euforia. Senti a alegria dela e fiquei feliz.

      Um senhor preocupado contava problemas financeiros ao rapaz que caminhava ao seu lado. Fiquei a pensar: serão pai e filho? O rapaz é o causador do problema? E aí criei uma nova história em meus pensamentos já que não pude acompanhar o desenrolar do caso. Mentalmente dei um final feliz para a situação.

    Claro que discussões também fazem parte do trajeto. E acredite são os fragmentos de conversas mais divertidos. Isso porque se o clima já estiver alterado os palavrões entram com frequência nas frases. Geralmente quem está levando a repreensão tenta se defender e aí o clima pesa mais ainda. Fico olhando os personagens se distanciarem e só observo seus gestos rápidos e irritados. Sorrio diante da situação já que nada posso fazer como mera espectadora.

     Neste último domingo a emoção de pessoas cadeirantes entrando no mar talvez pela primeira vez me contagiou. Tive que parar um pouco os passos apressados para observar cenas que me emocionaram.

    Perto do canal 3 em Santos (e sei que há também em outras cidades praianas) estava instalado o Programa Praia Acessível.  Instrutores com as chamadas cadeiras anfíbias conduziam pessoas com deficiências até a água do mar. 

    Estas cadeiras são equipamentos desenvolvidos especialmente para dar suporte e segurança a quem tem mobilidade reduzida. Trata-se de um Programa de parceria entre Governos do Estado e da Prefeitura e já ocorre há alguns anos.

    Impossível descrever a alegria e euforia que presenciei em cada rosto das pessoas a caminho do mar e já devidamente colocadas nas tais cadeiras. Os familiares acompanhavam ao lado e não sei quem mais se emocionava: os instrutores, os familiares, a pessoa sendo transportada ou eu, que de longe acompanhei as cenas.

    Realmente a caminhada deste domingo foi rica. Rica em fragmentos de conversas e histórias que minha mente criou e principalmente pela emoção vivida nas proximidades do canal 3.

    Obrigada a todos envolvidos no Programa Praia Acessível.


Santos, 02 de fevereiro de 2026.