quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

IMAGINANDO HISTÓRIAS




        Em São Paulo dentro de um ônibus superlotado no final dos anos 70 voltando das aulas no curso de pós-graduação, ela tinha por hábito observar com detalhes a infinidade de prédios que desfilavam diante de seus olhos. 

       As janelas já iluminadas no começo de noite denunciavam existências de vidas atrás de cada uma delas. Milhões de seres retornando aos seus lares após um dia de trabalho, de estudo, de lazer.  Outras tantas janelas ainda escuras iam aos poucos sendo iluminadas alertando que mais uma vida ali acabara de chegar.

        Impossível não divagar deixando os pensamentos livres e ficar imaginando as histórias vividas por essas pessoas. Um verdadeiro formigueiro humano desfilava dentro daqueles espigões de cimento e concreto.

        Voltando sua atenção para os companheiros de viagem que  lhe rodeavam naquele momento era difícil não sentir a preocupação e cansaço nas expressões de todos.

       Delineava então a jornada pessoal de cada um baseando-se nas imagens que lhe chegavam: um senhor que carregava livros talvez fosse um professor, uma jovem muito falante talvez fosse uma recepcionista, outra senhora que segurava duas sacolas com roupas poderia ser uma vendedora informal, etc.

       Entretida com estes pensamentos ela concluía sem quase perceber o longo tempo de percurso até chegar ao seu destino final.

     Mesmo decorridos tantos anos continua vivo este hábito de imaginar a história de vida de pessoas desconhecidas. 

    Atualmente o foco mudou. Os pensamentos são leves, agradáveis, alegres, refletindo situações festivas que sua imaginação cultiva diante de cenas que observa à distância.

     No lugar das janelas que aos poucos eram iluminadas em tantos edifícios e de rostos cansados e entristecidos, hoje o que lhe despertam a imaginação são os navios de cruzeiros que partem do porto e somem no horizonte azul.

       Mesmo de longe ela sente a vibração das pessoas, cada qual com sua carga de emoção à flor da pele.

        Imensos navios deslizam vagarosamente em direção ao alto mar como se fossem simples barquinhos de papel. Neles viajam não somente pessoas, mas  principalmente sonhos de uma vida inteira. Esta bagagem tem valor imensurável. 

    Expectativas, emoções, curiosidades, descobertas e desejos realizados circulam pelos camarotes das embarcações.

        Para ela a única coisa que destoa do cenário alegre é o som que o navio emite enquanto se afasta do porto. A buzina que se ouve parece um lamento muito triste, um adeus para nunca mais voltar.

    Partem levando sonhos e retornam tempos depois carregados de lembranças afetivas que ficarão guardadas na mente e na alma.

        São estas memórias que alimentarão novos sonhos e a busca por novas emoções.

        Mentalmente a cada navio que parte ela deseja com fé, uma boa viagem!!!


Santos, 20 de janeiro de 2026.