segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

CAMINHADA

 



        Nada como caminhar na praia sentindo o vaivém das águas do mar molhando os pés e parte das pernas. 

            Nestes dias de pleno verão a água vem morna e deliciosa. 

        Junte-se a essa sensação o cheiro do mar e seu barulho tão característico  que nas madrugadas se faz ouvir com maior intensidade.

        Levantando o olhar em direção ao horizonte os azuis se confundem: mal dá para distinguir onde termina o mar e onde começa o céu. 

        Os morros ao longe dão a tonalidade verde acastanhada na paisagem.

        Erguendo mais ainda o olhar vê-se nuvens branquinhas, esparsas e que nos fazem imaginar formas e desenhos.

        É uma verdadeira terapia a céu aberto.

    Aliada a todas essas sensações muito agradáveis venho colecionando outras emoções que são verdadeiros gatilhos para minha imaginação e criatividade.

    Refiro-me aos fragmentos de conversas que vou captando ao longo da caminhada.

    Impossível ouvir as histórias todas, mas algumas frases soltas chamam a atenção.

        Em algumas ocasiões os casos relatados estavam tão interessantes que senti vontade de me juntar ao grupo para saber como foi o The End.

        Recentemente uma jovem alegre descrevia a uma amiga o que vivera numa festa onde conhecera um novo companheiro. Falava quase sem respirar de tanta euforia. Senti a alegria dela e fiquei feliz.

      Um senhor preocupado contava problemas financeiros ao rapaz que caminhava ao seu lado. Fiquei a pensar: serão pai e filho? O rapaz é o causador do problema? E aí criei uma nova história em meus pensamentos já que não pude acompanhar o desenrolar do caso. Mentalmente dei um final feliz para a situação.

    Claro que discussões também fazem parte do trajeto. E acredite são os fragmentos de conversas mais divertidos. Isso porque se o clima já estiver alterado os palavrões entram com frequência nas frases. Geralmente quem está levando a repreensão tenta se defender e aí o clima pesa mais ainda. Fico olhando os personagens se distanciarem e só observo seus gestos rápidos e irritados. Sorrio diante da situação já que nada posso fazer como mera espectadora.

     Neste último domingo a emoção de pessoas cadeirantes entrando no mar talvez pela primeira vez me contagiou. Tive que parar um pouco os passos apressados para observar cenas que me emocionaram.

    Perto do canal 3 em Santos (e sei que há também em outras cidades praianas) estava instalado o Programa Praia Acessível.  Instrutores com as chamadas cadeiras anfíbias conduziam pessoas com deficiências até a água do mar. 

    Estas cadeiras são equipamentos desenvolvidos especialmente para dar suporte e segurança a quem tem mobilidade reduzida. Trata-se de um Programa de parceria entre Governos do Estado e da Prefeitura e já ocorre há alguns anos.

    Impossível descrever a alegria e euforia que presenciei em cada rosto das pessoas a caminho do mar e já devidamente colocadas nas tais cadeiras. Os familiares acompanhavam ao lado e não sei quem mais se emocionava: os instrutores, os familiares, a pessoa sendo transportada ou eu, que de longe acompanhei as cenas.

    Realmente a caminhada deste domingo foi rica. Rica em fragmentos de conversas e histórias que minha mente criou e principalmente pela emoção vivida nas proximidades do canal 3.

    Obrigada a todos envolvidos no Programa Praia Acessível.


Santos, 02 de fevereiro de 2026.


quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

IMAGINANDO HISTÓRIAS




        Em São Paulo dentro de um ônibus superlotado no final dos anos 70 voltando das aulas no curso de pós-graduação, ela tinha por hábito observar com detalhes a infinidade de prédios que desfilavam diante de seus olhos. 

       As janelas já iluminadas no começo de noite denunciavam existências de vidas atrás de cada uma delas. Milhões de seres retornando aos seus lares após um dia de trabalho, de estudo, de lazer.  Outras tantas janelas ainda escuras iam aos poucos sendo iluminadas alertando que mais uma vida ali acabara de chegar.

        Impossível não divagar deixando os pensamentos livres e ficar imaginando as histórias vividas por essas pessoas. Um verdadeiro formigueiro humano desfilava dentro daqueles espigões de cimento e concreto.

        Voltando sua atenção para os companheiros de viagem que  lhe rodeavam naquele momento era difícil não sentir a preocupação e cansaço nas expressões de todos.

       Delineava então a jornada pessoal de cada um baseando-se nas imagens que lhe chegavam: um senhor que carregava livros talvez fosse um professor, uma jovem muito falante talvez fosse uma recepcionista, outra senhora que segurava duas sacolas com roupas poderia ser uma vendedora informal, etc.

       Entretida com estes pensamentos ela concluía sem quase perceber o longo tempo de percurso até chegar ao seu destino final.

     Mesmo decorridos tantos anos continua vivo este hábito de imaginar a história de vida de pessoas desconhecidas. 

    Atualmente o foco mudou. Os pensamentos são leves, agradáveis, alegres, refletindo situações festivas que sua imaginação cultiva diante de cenas que observa à distância.

     No lugar das janelas que aos poucos eram iluminadas em tantos edifícios e de rostos cansados e entristecidos, hoje o que lhe despertam a imaginação são os navios de cruzeiros que partem do porto e somem no horizonte azul.

       Mesmo de longe ela sente a vibração das pessoas, cada qual com sua carga de emoção à flor da pele.

        Imensos navios deslizam vagarosamente em direção ao alto mar como se fossem simples barquinhos de papel. Neles viajam não somente pessoas, mas  principalmente sonhos de uma vida inteira. Esta bagagem tem valor imensurável. 

    Expectativas, emoções, curiosidades, descobertas e desejos realizados circulam pelos camarotes das embarcações.

        Para ela a única coisa que destoa do cenário alegre é o som que o navio emite enquanto se afasta do porto. A buzina que se ouve parece um lamento muito triste, um adeus para nunca mais voltar.

    Partem levando sonhos e retornam tempos depois carregados de lembranças afetivas que ficarão guardadas na mente e na alma.

        São estas memórias que alimentarão novos sonhos e a busca por novas emoções.

        Mentalmente a cada navio que parte ela deseja com fé, uma boa viagem!!!


Santos, 20 de janeiro de 2026.